le ne fay rien
sans
Gayeté
(Montaigne, Des livres)
Ex Libris
José Mindlin
Ati
És
p Dra fio ksa
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fu lb oracs pa 139/40
Ze "qui =
Rs asd
Al
PRO B L EM A
ARCHITECTURA
Cir,
DEMONSTRADO
POR
MATHIAS AYRES RAMOS
DA SYLVA DE EÇA,
Provedor , que foi da Caza da Moeda defla Corte: e author
das Reflexoens fobre a Vaidade dos Homens,
QUE DEDICA, E OFFERECE
A o, SENHOR Ê
GONCALO JOZÉÊ
DA SILVEYRA PRETO,
aeee da Caza de Sua Mageftade , do feu Confelho , do e fua Real
Fuzenda, Chanceller, e Deputado da Sereuiflima Caza de Bragan.
qgà, do Confelho, e Eítadio da Rainha Mãi N, Senhora, Procu.
xador da Fazenda da Repartiçaô do Ultramar, Senhor Donatario
da Villa de S. Miguel de Acha, Alcaide Mór de Monçaõ , Com.
mendador das Commendas de Santa Maria dos Anjos da meíme
Villa , e da do Cazal do Bogalho , ambas na Ordem de Chrif«
to Xc. Sc.
MANOEL IGNACIO RAMOS
DA SYLVA DE EÇA.
LISBOA
Na Offc. de ANTONIO RODRIGUES GALHARDO,
Impreflor da Real Meza Cenforia,
MDCCLXKXVIL
Com licença da mefma Real Mexa,
SENHOR
GONÇALO JOZE
DA SILVEYRA PRETO.
O... » que me atrevo a
dedicar aWV S. be do mefmo auétor
que compoz o da Vaidade dos Ho-
mens. O unico objecto, que me obrie
de “ga
ga aimprimillo, be a gratidao de fi-
lho , que quer levantar das fombras
da fepultura onome de quem lhe deo
ofer, e afortuna, fazendo durar a
Jua memoria nefe eferito publico,
confagrado à utilidade da patria.
Temendo, que abrangeffe ao li-
vro a difgraça , em que acabou o feu
auétor , quiz bufcar-lhe bum azylo fe-
guro, bum nome refpeitado, que pof=
to na faxada da obra'preveniffe o
pêblico a favor della.
co amizade, com que V. S.bon-
rou o pui;e os beneficios com que fe
digna proteger o filho , uitidos à jujta
reputaçao, que tem adquirido o fem
refpeitavel nome ; fizeraô , que eu por
obrigaçao, e por interefje bufcafe o
amparo de V S. para fer bem a-
ceita aobra de bum Cidadad; a quem
os aggravos da fua patria naô pu-
deraô arrancar do coraçaõ os fagra-
dos direitos , que ella nos impoem , de
dbe fer-mos uteis ; quanto as nofas
for-
forças o confentem“ Os altimos tema
pos da difgraça » que encurtaraôd os
“dias do auétor defie livro, talvez
confirmado , quecelle era bum Cida-
dao benemerito: V.:S. be.a melhor
prova, de que as difgraças às vem
mes feguem mais a quem be menos
digno dellas.
A razad ,.e o merecimento »
que nem fempre faô o efcarneo da
fortuna, chamaraô a V S..aos em-
pregos, e aos applauzos da.Gorte;
e as jujtas providencias dos nofjos
Soberanos ; unidas aos votos: do pu-
blico naô quizerad deixar enterrado
hum talento, que pojfo no commer-
cio da vida" cival daria tanta ubilix
dade: à noffa naçaô.
Se be da nutureza, que a fim
Ibança.de fortunas faz mais folidas
as vamizades ;xV So, que fempre
mereceo fer feliz, mas que nem fem-
pre o tem fido, queira. dignar-fe de.
proteger nefte livro a memoria pof
thuma
sbuma de bum homem, a quem vio,
correr amefma fortuna, que pertur-
bou o focego de V. S. He obra de
hum homem de'letras , deve achar.
acolhimento nos olhos de outro. V..
S., que tem confagrado os feus. pre-
ciozos annos ao efêudo fublime de
manejar as leis, que [Jaó a alma
do Eftado , nad fe deve defprezar
de proteger buma arte , que ainda
que muito inferior pela fua materia ,
concorre notavelmente para a poli-
cia das Cortes, e dá aos Reinos as
mefimas ventagens , que o ornato dá.
ao corpo. e ak
Eu unindo efe benefício aos
mais, com que PV. S. fe tem digna
do honrar-me , olharei para todas
as profperidades, que baô de encher
a eftimavel vida de V. S., como
para outras tantas provas de juffiz
ga dos nofos Soberanos , que ar
rancaô das trevas , e do efquecimen-
to homens provados , em cujas maôs
de-
depozitad os premios , e os caftigos
dos feus povos Estes votos faz Liss
boa toda ; porém com mais obrigar
çaô, e com mais zelo os faz
De V S.
O Criado mais humilde, c obrigado
Manoel Ignacio Ramos. da
Sylva de Eça,
PROBLEMA
DE
ARCHITECTURA
CIVIL
PARTE I
EFE E O E VESTE AS Ge
| e—em ema meira sem aaa emana
ELPITULO E
O problema de Architectura Civil, que
devemos refolver , e demonftrar ,
be o feguinte.
Porque razaô os edifícios antigos tinhaô , e
tem mais duraçaô do que os modernos ?
eeftes porque razad refitem menos ao
movimento da terra quando treme ?
Sta queítaô parece facil de
refolver ; porque cômummen-
te fe diz que a diuturnida-
de do tempo faz caldear as pare-
des ( como os Artifices fe expli-
A cad )
2 Problema
caô ) fazendo-as mais conglutina-
das para poderem fuftentar o pe-
zo do edificio , e para refiftirem
ao impulío extraordinario que faz
tremer a terra.
Efta foluçaô, fundada fó na
divturnidade do tempo , parece me-
nos bem eftabelecida : porque , ain-
da que-o tempo contribue muito
para folidar os muros de que os
edificios fe compoem , com tudo,
io he afim quando preexiftem
as circumflâncias , por meio das
quaes fica tendo lugar a acçaô do
tempo : porém, fem a concurren-
cia daquellas circumíftancias , ne-
nhum tempo baíta para fazer for-
te hum muro defpois de fabrica-
do contra a regra dos principios.
Os artifices antigos: conhece-
raô muito bem efta verdade; e os
modernos tambem a conhecem :
porém
De Arcbiseltura Civil. 3
porém eftes pouco attentos á du-
raçaô dos edificios , e com eco-
nomia menos juíta, tem mais pot
objecto a conclufaô da obra, do que
a duraçaô della; e fendo efcrupu-
lofos na ordem da perfpettiva, e
em outras partes menos importan-
tes, faô faceis na eleiçaô dos max
teriaes com que fabricaô. O ponto
principal eftá nos materiaes,; de cu-
ja bondade , e fimplicidade depen-
de a fortaleza ainda mais, que de
outro artifício algum. De forte
que a permanencia naô vem do
ferro , nem do bronze que fe ajun-
ta; eftes metaes devem fer confi-
derados como adjutorios auxilia-
res, e adventicios. A duraçaô pro-
vém da propria fubftancia do edi-
ficio, naô do remedio que fe buf-
ca para o fazer forte : devemos
prefuppôr a pureza da fubítan-
Au cia,
4 Problema
cia, ilto he dos materiaes; entad
contribue o tempo , o ferro , eo
bronze.
Porém fe o muro he feito com
materiaes incongruentes, que per-
manencia póde ter para fuftentar o
feu mefmo pezo, e para refiftir ao
movimento ? Aquelle vicio origi-
nal fempre lhe ferve de obítaculo
invencivel; e nefte calo nenhum
tempo , ou artifício póde extrahir
do muro o vicio interior, introdu=
zido deíde os primeiros rudimen-
tos da fua conftrucçaõ : os annos
naô o fortalecem , antes o debili-
taô; porque a natureza do mal he
progrefliva ; raras vezes fe diminue,
e quafi fempre fe augmenta.
Nos edificios antigos obfer-
vamos huma exaétiflima uniad en-
tre as pedras, e mais materiaes, de
que os feus muros fe compunhaõ;
e to-
De Architectura Civil. 5
e todos taô confolidados entre fi,
como fe foflem caminhando para
de muitas pedras formarem huma
fó: e com effeito vemos que nel-
les he mais facil quebrar a pedra,
que defunilla ; e que mais de pref-
fa fe confegue o deftruir o muro
pelo coraçaô das meímas pedras ,
que pela juntura dos feus angulos:
e quando o movimento da terra;
ou de outro accidente tal, induz a
fatalidade da ruina , o muro naô
cahe desfeito em pequenas partes;
mas precipita-fe dividido em lanços;
nem fe desfaz como moído em pó,
mas abate-fe em troços, confer-
vando de algum modo a fua figu-
ra. Daqui vem que os edificios an-
tigos bem moftraô que foraô fei-
tos para muitos feculos.
Naô fe fegue porém que
os antigos tivellem melhores ope-
A mi rartos;
6 Problema
rarios; porém fabiaô efcolher me-
lhor. Os artifices modernos dif-
penfaô facilmente na bondade, e
regularidade dos Ífeus materiaes ;
por vifto que os tenhaô promptos,
e menos difpendiofos : contentaô-
fe de fabricar para o Íeu tempo,
fem fe embaraçarem do futuro ; ba-
fta-lhes que a obra dure em quan-
to elles durarem , deixando para
os que haô de vir a trifte occupa-
çaô de reconftruirem.
Por iflo vemos tantas vezes
que os edificios novos, apenas aca-
bados da maô do meítre , logo
daô finaes de fentimento : por hu-
ma parte perdem as paredes o Ífeu
equilibrio vertical ; por outra fa-
zem aberturas ; e por outra cof-
pem os ingredientes que lhes faô
contrarios. E fe fobrevém á terra
algum movimento irregular , fazem-
fe
De Arebiteltura Civil. q
fe perceptíveis os defeitos , e vaô
moftrando indícios infalliveis de
ruína.
Pelo que fica expofto pode-
mos inferir que a razaôd , porque
os edifícios antigos eraô duraveis,
he por haverem fido feitos com
bons materiaes: ea razaô, porque
os modernos naô tem a mefma du-
raçaô, he porque faô cômummen-
te fabricados com materiaes impro-
prios. Efta he a refoluçaô do pro-
blema : e para a demonítrarmos he
precifo examinar quaes faô os'ma-
teriaes, de que os muros fe com-
poem; quaes faô as qualidades que
tem os com que hoje fe fabrica, e
as que devem ter , para que a
obra fique permanente, e para que
refifta mais ao movimento da terra
quando treme.
Av CA-
8 Problema
He eme mete eee ret es pe mm
CAPITULO I.
i t
À bondade dos materiaes de-
pende inteiramente a firmeza
das paredes ( fuppondo fempre fe-
rem feitas com arte, e como a
arte pede) : o tempo as faz confo-
lidar , quando os materiaes fe naô
oppoem á Ífua acçaô. Hum com-
poífto de barro , ou de qualquer
terra commua , em nenhum tempo
póde admittir firmeza. Ainda que
a hum compoiíto tal fe lhe ajunte
a melhor pedra, nunca de huma tal
compoliçaô fe ha de formar hum
corpo Íolido; porque o barro con-
ferva fempre propenfaô para deí-
unir-fe , ou desfazer-fe na agua.
“Toda a duraçaô de hum com-
pofto
De Architetura Civil. <q
poíto confie em naô render-fe
ao combate aétual dos elementos,
A agua, e o ar faô os dous inimi-
gos poderozos , que trabalhaô per-
petuamente, e efficafmente a for-
mar, e a defunir; a unir, e a fes
parar; a fazer, e a desfazer. Ef-
tes Íaô os dous agentes naturaes s
contra os quaes fe deve oppor
ou huma força proporcionada , ou
huma materia, em que naô poílaô
ter ingreflo.
O diamante he o corpo mais
folido , e duravel; porque nenhum
dos elementos fe póde introduzir ,
nem fazer mudança em alguma
das fuas partes; nem os licores
corrofivos, nem a agua, terra, ou
ar podem caufar-lhe a mais leve
alteraçaô : o fogo o mais que faz
he embaciarlhe a fuperficie, fi-
cando a fua uniaô intacta, e fem
ceder
10 Problema
ceder por modo algum a aquelle
devorante univerfal.
Depois do diamante fegue-fe
o ouro, ea prata. Contra eítes
dous metaes naô tem acçaô os ele-
mentos: o fogo aétivo os funde;
mas, depois de fundidos , ficaô co-
mo eraô, e inalteraveis na fua fubf-
tancia : e fe fundidos eftivellem
até o fim do mundo, fempre ef-
tariam, e feriaô os mefmos tanto
em pezo certo, e caraéteriítico ,
como nas Íuas qualidades proprias,
e eflenciaes. Iíto porém fe enten-
de fó a refpeito do ouro, e prata
propriamente ditos; porque, fe a
fi tiverem outros corpos miftura-
dos, eftes haô de diflipar-fe inteira-
mente,
O ouro póde fer volatilizado,
e tambem a prata, fe no acto da
fundiçaô fe lhe deita algum fal
vola-
De Architeétura Civil. II
volatilcom miftura de algum com-
pofto, que tenha propenfaô para
levar configo, ou exaltar aquelles
metaes adjuntos; porém eítes, de-
pois de volatilizados , infallivelmen-
te confervad as Íuas propriedades
naturaes; e depois de reduzidos a
metal, tornaô a fer o mefmo me-
tal, fem mudança, fem falta, e
fem differença alguma.
Os outros metaes todos fe al-
teraô, e fe perdem com a acçaô
continua de qualquer dos elemen-
tos; e de tal forte, que já mais po-
dem tornar a fer inteiramente o
que de antes foraô, O ar caufa no
ferro a ferrugem importuna; ao
chumbo reduz em pó; ao cobre
em azinhabre; e ao eftanho em
materia pulverulenta , e irreduéti-
vel: o azougue refifte mais; po-
rém batido tambem em agua, ou
ainda
12 Problema
ainda por fi fó, a mefma continua
concuflad o muda em hum pó ne-
gro de difficil reducçaô , mas nun-
ca de todo reduzivel.
As pedras , cômummente cha-
madas preciofas, feguem a natu-
reza do vidro, mas com a diffe-
rença de naô poderem fer fundi-
das; e de naô poderem unir-fe de-
pois de divididas como fuccede nos
metaes por meio da fundiçaô. O
vidro he o primeiro compoíto ar-
tificial, contra quem os elementos
nao tem força. E com effeito a vi-
trificaçad he o ultimo termo, ou
o ultimo apparato , a que a nature-
za, e a arte chegaôd. Nem cada
hum dos elementos, nem todos
juntos podem caufar no vidro a
menor mudança ; porque os corpos,
depois de vitrificados, ficaôd de tal
forte unidos em hum corpo fó,
que
De Árchitetiura Civil. 13
-que efte, ainda que compofto feja
de dous ou mais ingredientes , naô
admitte feparaçaô alguma, e com
uniaô muito mais indifloluvel, do
que feriaô as aguas de fontes dif-
ferentes, confundidas; ou miftura-
das entre fi em hum fó vazo.
Depois da vitrificaçad , ou fe-
ja artificial, ou feja natural ("co-
mo a que fe nota em todos os crif-
taes) feguem-fe outras mais com-
pofiçoens, que fegundo a qualida-
de das fuas partes , ou fegundo a
qualidade que receberaô do artifi-
cio, ficaô mais ou menos aptas pa-
ra refiftirem à acçaô “dos elemen-
tos. As paredes conftituem huma
das mais uteis compofiçoens ; ellas
fe dirigem em primeiro lugar para
fuftentarem o Íeu proprio pezo; e
tambem para fuftentarem o pezo
dos edificios. Eftes Íad os feus dous
) obje-
14 Problema
objeêtos ordinarios ; os quaes fe ve-
rificaô pouco , quando as paredes
fe fazem fem arte na ordem da
conftrucçaô, ou fe faô feitas fem
conhecimento dos principios, iíto
he dos materiaes.
Pedra, cal, arêa, e agua,
Jaô os quatro ingredientes de que
as paredes commummente fe com-
poem : porém nem toda a cal,
nem toda a pedra, nem toda a
arêa , nem toda a agua faô pro-
prios para aquelle miniíterio ; to-
dos faô proprios para fazer pare-
des , mas naô paredes folidas , e
duraveis. Todos fabem que ha mui-
ta differença entre as pedras, aí-
fim como a ha tambem entre as
caes, entre as atêas, e entre as
aguas. À arêa, a pedra, e a agua
achaô-fe feitas naturalmente ; fó he
neceflario conhecellas, para as ef-
colher.
De Architectura Civil. ag
colher. A cal he producçaô da ar-
te, porém tambem necefita parti-
cular conhecimento para fazer del-
la huma eleiçaô jufta. SERA
Para a eleiçaô das pedras ,
bata faber que ellas naô exiftem
como hoje eftaô deíde o principio
do mundo, como alguns quizeraôd
entender, e alguns afim o enten-
dem ainda hoje; porque verdadei-
ramente a natureza as fórma len-
tamente, ecom arte, que Íó a ella
confiou o Divino Architeéto do Uni-
verfo. Os Chimicos difcorrem eru-
diamente Íobre a materia da pe-
trificaçad ; porém nenhum. houve
até o prefente, que com fublime en-
genho , ou com fegredo raro po-
defle confeguir fazer huma imint-
ma porçaô de pedra de qualquer
efpecie, ou genero que foífe.
As pedras tem ( como todas
as
16 Problema
as mais coufas ) hum principio de
nafcer, ou ( para melhor dizer )
de formar-fe ; a bafe da fua for-
maçaô he provavelmente huma »
ou mais terras unidas entre fi por
meio de algum licor proprio , e pro-
porcionado para aquella formaçaô;
e de que para efta concorre hum
liquido, tambem he muito verofi-
mil; porque fe fe fizer huma abo-
bada fechada de pedra em foço
( como os operarios dizem ) dei-
xando-lhe fómente huma pequena
abertura lateral, e adminiftrando-
lhe hum fogo fucceflivo e forte,
ha de ver-fe começarem as pedras
a fuar, ou a deftillar per defcenfum
hum liquido, alchalino. Efte tal vez
que naô fofle daquella qualidade
na fua primeira origem , quando
começou a fazer-fe a petrificaçad ;
e entaô poderia fer hum licor aci-
do,
De Architettura Civil. 17
do ; alchalizado depois pela acçad
do fogo ; aflim como Íuccede ao
nitro, e ao fal commum , os quaes,
fendo acidos , certamente alchali-
zaô-fe, fe eftando cobertos e fun-
didos em valo proprio, paílao al-
gum tempo pela violencia do ca-
lor.
O mefmo fe vê nas cinzas dos
Vegetaes, os quaes no feu eftado
natural, naô moftraô , nem daô
indício algum de conterem fal al-
chalino fixo, e o que defcobrem
faô faes acidos volateis; porém de-
pois de queimados , e reduzidos a
cinzas , eftas fó daô hum fal al-
chalino fixo, e de nenhum modo
fal acido volatil. E aflim fe mani-
fefta que na formaçaô das pedras ,
entra com effeito hum corpo liqui-
do, porque ou feja acido volatil,
ou alchalino fixo , cada hum def-
B tes
18 Problema
tes he hum liquido verdadeiro ;
corporizado com as terras, de que
as mefmas pedras fe compoem.
Sempre porém he muito in-
certo o modo, com que as terras
fe petrificad; e da melma forte o
tempo, que gaftaô primeiro, que fe
petrifiquem. A natureza efconde
efte fegredo ( como outros mui-
tos ) e apenas deixa ver alguma
luz pouco perceptivel-, para que;
podendo difcorrer fobre a materia
da petrificaçaô , fiquemos fempre
duvidofos ; moltra-nos os inftru-
mentos de que ella fe ferve, mas
naô o modo de fe fervir delles;
moltra-nos o caminho aberto, por-
que em mil partes vemos a terra
Já petrificada , porém aquelle mef-
mo caminho, he o que quafi fem-
pre nos conduz a hum laberinto
vago, e errante,
E com
De Architeétura Civil. 19
'* Ecom effeito nem fempre pó-
de fer feliz a noffa applicaçaô ; po-
rém que importa que difcorrendo
erremos muitas vezes , fe acerta-
mos alguma vez ? Nem em tudo
he avara a natureza. Muitas cou-
fas uteis tem achado o eftudo ; por
Mo diffe bem o que primeiro diffe:
Dii laboribus omnia vendunt. Da-
qui vem que experimentando Íuc-
cede achar effeitos raros, e eítes
naô fendo conhecidos à priori; o
meímo inventor fica confufo , e
interdito com a fingularidade do
que acha; devendo ordinariamente
mais ao acafo, do que á premedi-
taçaô. À invençad da polvora, da
vitrificaçao artificial, da feparaçaô
dos metaes confundidos entre fi, do
quadrado dos tempos, e de outros
muitos defcobertos admiraveis, faô
artes que a natureza vendeo pelo
B ii pre-
26 Problema
preço de huma indagaçaô conftan-
te. E aflim nem fempre fe póde di-
zer dos artiftas applicados , e inf-
truidos o que o Poeta difle do in-
feliz agricultor :
| Sed illos
Expeélata feges vanis elufit ariflis.
Havendo pois na petrificaçad hum
tempo de começar , para edificar
naô faô proprias as pedras que fó
começaô a fer , mas fim aquellas
que eftaô feitas; porque tanto na
petrificaçad , como na vegetaçaõ
das plantas , e ainda na formaçaõ
dos animaes , obferva a natureza
a mefma regra , e ordem progreí-
fiva. À primeira materia , ou pri-
meiro elemento de todas aquellas
producçoens , fempre he molle, in-
digeíta , infórme , e rude; he co-
mo hum cahos feminal, preparado
para
Da Archizeétura Crvil. 21
para o fim, aque a natureza dirige
a fua obra : e depois de ter dife
póftos os rudimentos iniciaes, ou
primordiaes, recebe a mefma obra
do tempo , e do calor a fua ver-
dadeira, e ultima perfeiçaô.
Por iflo as pedras molles naô
faô as que convém ao architeéto ;
porque ainda naô faô pedras, haô
de fer; he huma petrificaçaô dif-
poífta, mas naô acabada ainda ;
nem baífta que aquellas pedras te-
nhaô adquirido algum tal, ou qual
grao de dureza , mas devem ter
aquella toda a que as pedras duras
coftumaô chegar ordinariamente ;
porque em naô fendo aflim , mal
podem, fem quebrar , fuftentar qual-
quer pezo fobrepofto. Além de que,
naô fó para Íuftentarem o pezo de-
vem fer as pedras duras, mas tam-
bem para que, fendo folidas , e com-
Bi pactas,
22 Problema
paítas, naô poflaô fer penetradas
pela agua , e pelo ar. Se a agua
chega a penetrar os interíticios da
pedra , facilmente a desfaz, co-
mo por huma efpecie de diflolu-
çaô; e fe naô tem dureza refiften-
te, o acido doar a vai lentamen-
te confumindo , e fazendo divifi-
veis as Íuas partes , e ficando em
termos de ceder ao primeiro im-
pulfo da gravidade , ou do movi-
mento.
Ifto fe obferva tambem no
corpo humano , donde hum acido
degenerado, corrozivo, e cauítico
de tal forte corroe os oflos, que fi-
caôd eftes frangiveis perdendo a fua
contextura natural. Efte he o efta-
do deploravel , e immedicavel da-
quellas partes offendidas , quando
o humor , ou acido viciofo fe ex-
tende por ellas geralmente. Entaô
chega
De Arcbitetura Civil, 23
chega a hora fatal que fe efpera-
va mais tarde; a economia animal
perde entaô as funçoens vitaes;
porque nenhum compoíto póde
tubfiftir , em lhe faltando os foli-
dos principaes fobre que fe eftabe-
lece, e firma a fua organizaçao
material.
Ito fe vê tambem nas pare-
des que fe defmanchaõ, e nas que
fe achaô de algum modo demoli-
das, nas quaes as pedras que eraô
proprias para edificar, (ainda de-
pois de paífados feculos ) exiftem
com a mefma dureza com que po-
diaô eftar no tempo em que fe fa-
bricou o edificio; outras desfazem-
fe ao primeiro toque, outras já fe
achaô desfeitas , deixando conca-
vo, ouvazio, O lugar em que efti-
veraô. Nas Íuas fuperficies planas , e
exteriores nbferva-fe melhor aquel-
Biy la
24 Problema
la falta; porque na parte de donde
cahe o emboço , ou reboço , que
fervia de defenfa ás pedras , tendo
neftas o ar hum accéilo immediato,
e livre, em menos annos as pene-
tra, e as reduz em pó groffeiro ,
deixando disfórmes , e corcomidas
as paredes, |
Naô fuccede aflim nas partes
em que aflentaô as pedras chama-
das de enxelharia , porque efta he
feita commummente de pedra dura ;
ealém difto, o lavramento da pe-
dra, tambem a faz mais defenfa-
vel contra o acido do ar; porque
efte faz mais preza em huma fu-
perficie tofca , efcamofa , e irre-
gular , do que naguella cuja fu-
perficie tem regularidade , ou efta
feja plana, convexa, ou concava :
por 1ffo na pedra polída nenhuma
acçaô tem aquelle acido , e paíla
pelo
De Aribiteltura Civil. as
pelo polimento fem fazer impref-
faô nelle. Ifto procede tambem a
refpeito dos metaes. O ferro po-
lído dura mais tempo intaéto, do
que aquelle que o naô he, o ouro,
ea prata para fe diflolverem prom-
ptamente nos efpiritos corrozivos ,
que os disfolvem , neceflitad ferem
granulados , ou limados , entad fen-
do combatidos por huma immenfi-
dade de lugares, cedem facilmen-
te ao corrozivo agente, e por hum
principio femelhante , os faes piza-
dos , ou em pó derretem-fe na agoa
de improvizo , e fe eftaô em maça
folida, refiftem mais.
Temos dito que para edificar
naô fervem de nenhuma forte as
pedras molles , mas fim aquellas que
tem dureza competente para ferem
impenetraveis á agoa , e principal.
mente ao acido do ar. Porém que
acdo
26 Problema
acido he efte, ou com que fe pro-
va a exiftencia delle, para nelle
fundarmos huma parte da ruina de
certas pedras que faô certamente
reprovadas em toda a arte de edi-
ficar ? Talvez que aquelle acido
naô feja mais do que hum ente de
razaô, e que, exiftindo fó no dif-
curfo dos Chimicos ( como outros
muitos) naô tenha exiftencia algu-
ma na realidade.
Aflim parece fer , porque o
acido do ar he invifivel , e impal-
pavel, e por confequencia , in
appreheníivel; e regularmente aquil-
lo que fe naô vê, que fe naô acha,
que fe naô toca, he immaterial, e
o que he immaterial ; naô póde pro-
duzir effeito phyfico , de que os
fentidos fe percebem , e como as
pedras, de que tratamos, mudaõ de
figura ; e perdem inteiramente a
fua
De Architeitura Civil. ár
fua confiftencia, devemos afirmar
que huma tal mudança provém de
hum agente corporeo, e material,
e naô de hum agente metaphyíico.
Com tudo no capitulo feguinte
moftraremos que o acido doar. he
hum agente phyfico , ainda que de
facto Ífeja invifivel ; porque bem
póde fer invifivel, e inapprehenfi=
vel, eainda aflim fer material,
phyfico, e corporeo,
Eae eee
mam rate
E
memememeçem
CAPITULO NI.
Ar he hum elemento fluido,
diafano, compreflivel, elaíti-
co, grave. Todas eftas proprieda-
des fe tem achado, e demonítrado
muitas vezes , e por muitos mo-
dos naquelle elemento ; nem he ne-
cefla-
58 Problema
ceflario moftrallo com mais expe-
rimentos do que com aquelles mef-
mos que fe fabem vulgarmente, e
de que já ninguem duvida hoje. He
porém menos fabido, que no cor-
po, ou atmosfera do ar, fe efcon-
de , conferva , e exifte realmente
huma immenfidade de córpos , ou
entes invifiveis que fó fe manifef-
taô , e fazem: perceptíveis pelos
feus effeitos, e em certas, e deter-
minadas circumítancias.
“No meímo atmosfera do glo-
bo terraqueo fe fórmaõ , tem acçaõ,
e reaacçaô os differentes meteóros ;
a materia deítes he certamente ma-
terial,e fenfivel; porém em quan-
to circúla, e gira dividida em ato-
mos, ou partes minutillimas , he
invifivel, naô fe acha, nem fe to-
ca, e nefte eftado he inapprehenfi-
vel. E com effeito no ar circula
huma
De Architelura Civil. 29
huma immenfidade de corpuículos
terreos , Íulfureos , e oleofos ; .e
Íobre tudo gira a agoa na figura
de huma humidade invifivel; e if.
to em toda aeftaçaô, ou fria, ou
calorofa, ou humida, ou fecca.
Nem fe póde duvidar que no
tempo mais fereno, claro, e cali-
do, fempre o ar contém huma por-
çaô immenfa de agoa ; efta em
quanto eftá vagando difperfa na
atmofphera he invifivel, e inappre-
henfivel , e fó por meio de algum
artifício fe conhece a Ífua exilten-
cia actual, e verdadeira. O artifi-
cio confifte todo na expofiçaôd de
qualquer fal alchalino fixo : efte
attrahe avidiflimamente a agoa que
o ar ambiente , e proximo contém;
e com tanta força, que he preci-
fo cuidado grande, e algum enge-
nho para confervar qualquer fal al-
chali-
30 Problema
chalino fixo inteiramente izento de
humidade , a qual em breves ter-
mos fe faz liquida , e corrente.
O Tartaro ( que he o farro
do vinho vulgarmente conhecido )
depois de eftar alguns minutos em
fufaô perfeita , e em fogo que
o pofla fundir perfeitamente, ape-
nas tirado da maior ardencia do ca-
lor, logo entra na continua attrac-
çaô da agoa , ou humidade aerea,
e aflim, e fem ceflar vai caminhan-
do para hum deliquio , a que os
artiftas chamaô commummente :
Oleum tartari per deliquiums
O oleo do vitriolo, e tambem
o efpirto Íulfureo , chamado /pj-
ritos fulpburis per campanam , tem
a mefma infeparavel propriedade ,
de attrahirem , e incorporarem a fi
a agoa, e com a notavel , eme-
nos bem entendida ainda fingulari-
dade ,
De ArcbiteEhura Cívil. 3x
dade , que tanto o oleo de vitrio-
lo; como o efpirito fulfureo , aque-
cem confideravelmente quando en-
traô na acçaô de attrahirem a hu-
midade; de que refulta fempre o
phenómeno admiravel, e tambem
muito pouco intelligivel , de que
dous licores limpidiflimos , e frios
quando eftaô feparadamente, em
fe ajuntando ambos , entraô em
calor taô afpero , e fenfivel, que
a maô, que Íuítenta o valo, naõ
o póde tolerar; e quanto mais pu-
ro, e concentrado he cada hum da-
quelles dous licores , tanto mais for-
te, e intoleravel he o calor ao pri-
meiro contacto da agoa fria.
Naô fó por aquelle experi-
mento fe indica , e fe conhece a
immenfidade de agoa elementar
que fe encerra no ar mais puro ,
mais fereno , e calido , mas tam-
bem
32 Problema
bem por outros muitos, por meio
«dos quaes fe defcobre infallivelmen-
te que na vaga regiaô da atmoÍphera
fe dá, e exite invifivelmente o cor-
po phyfico da agua ondulando em
partes minutiflimas, e impercepti-
veis, que fó fe fazem vifiveis , e
apprehenfiveis, quando por algum
artifício , ou ainda naturalmente
condenfadas., e juntas as mefmas
partes tomaô corpo apparente , e
manifefto , em que os noflos fen-
tidos o podem diftinguir , e pers
ceber.
Defte principio póde dedu-
zit-fe huma efpecie de paradoxo ;
e vem a fer, que em viagens dila-
tadas fobre o mar, e ainda por ter-
ra, e por lugares aridilimos , e
faltos totalmente de agoa , eta nun-
ca póde faltar em havendo lenha;
porque fem outro provimento , nem
appa-
De AribiteéiuraCiuil. 33
apparato mais que o de hum lam-
bique., e de certa porçaô de qual-
quer fal alchalino fixo , ou de hum
efpirito vitriolico , ou fulphureo ,
em qualquer parte do mundo, eem
todo o tempo, fe póde ter agua pu-
riflima, limpiflima , e clariflima ,
por meio da deftillaçad bem orde-
nada , porque neíta fó fe adquire
a agua que o fal alchalino fixo, ou
o efpirito vitriolico attrahio , fican-
do eftes feparados no fundo do vas
fo deftillador , e ficando fervindo
fempre de iman perpetuo , incor-
ruptivel , e proprio para o mef-
mo ufo.
Bem he verdade que efte ex-
pediente naô póde ter lugar, nem
he de faéto praticavel, quando fe
neceflita de agoa para muitos ; por-
que a operaçaô de deftillar, que exi-
ge indifpenfavelmente carvad , ou
lenha,
34 Problema
lenha ; feria impraticavel neffe ca-
fo ; e commumente o meímo he
naô poder fer, que poder fer com
muita difficuldade. Porém como tu-
do póde ter lugar , e fer util em
certas, e determinadas circunitan-
cias; fe fuccedeíle o fer hum Prin-
cipe , para quem fofle a agoa ne-
ceffaria , facilmente poderia exe-
cutar-fe aquelle expediente ; por-
que o que he impoflivel para os
mais homens , muitas vezes nado
he para os homens Principes.
Aqui podemos difcorrer tran-
fitoriamente fobre a queítaô tantas
vezes debatida , de fazer a agoa do
mar potavel. Eíta queítad tem fi-
do com efeito o trabalhofo obje-
Cto da maior indagaçaô ; porém
fempre com a infelicidade de fer
infruétuofa ; e por mais que os
maiores engenhos, e que os artif-
tas
De Arcbitettura Civil. 35
tas mais experientes fe tenhaô ap-
plicado ; nunca o Íuccello corref-
pondeo ás efperanças. Nem o pre-
mio promettido por hum Parlamen-
to heroico , illuítre , e formidavel
(fallo do Parlamento de Inglater-
ra) nem a gloria de huma inven-
çaô taô util, e defejada ; nem a
vaidade de achar o que tantos tem
bufcado inutilmente , nada tem bafs
tado para confeguir-fe aquelle fim,
a difculdade eftá toda em feu vi-
gor.
Os que entenderaô haver def
atado o nó allucinarad-fe a fi mef»
mos, e a agoa do mar fempre fe
tem moftrado invencivel , e indo-
mavel. Por iflo os Philofofos antigos
indicaraô o Oceano na figura de
hum leaô feroz, e rugiente; ecom
effeito a fortaleza das agoas do mar
naô confifte fó na intumefcencia ,
C ii e vaf-
36 Problema
e vaítidad das fuas agoas , mas tam=
bem no vinculo indiffoluvel das fuas
partes , ou de alguns dos feus prin-
cipios. Só o fal dá o mar liberal-
mente, e fem fadiga, ficando infu-
peravel o nexo da fua parte ethe-
rea, bituminofa , e inflammavel;
nefta refide pertinazmente a impo-
tabilidade das fuas agoas. O ele-
mento aqueo de tal forte fe acha
unido eftreitamente , e individua-
mente .ao elemento fulphuréo , e
bituminofo , que deftes dous Íujei-
tos fe póde dizer : Eritis duo im
carne una. Rota
E para mais admiraçaô, deve-
mos refletir que, exceptuando as
-pedras preciofas , raros faô os cor-
pos em que a Chimica inftruida nad
pofla analyzar os feus principios ;
dividindo-os , e feparando-os , igme
duce » e tornando-os a ajuntar de-
pois.
De Architeclura Civil. 37
pois. Em prova difto, fupponha-
mos huma maça compofta de to-
dos os metaes , a que a fundiçao
reduzio a hum fó corpo , e eíte uni-
do exaétamente como o poderiad
fer entre fi as aguas de diferentes
rios , de differentes fontes , e de dif-
ferentes regioens. Aquella maça fa-
bricada de fete metaes diverfos ad-
mitte-feparaçaô , e defuniaõ de to-
dos; tornando cada hum delles a
recobrar a fua propria condiçaô ,
o feu proprio pezo ; e a fua propria
indole.
) Os mineraes, que já da terra,
donde concrefcerad , vem aflocia-
dos, ou mifturados entre À, e ain
da com outros corpos naô mineraes
tambem admittem divifaô , ou fe-
paraçaô , e cedem facilmente ao
artifta que os fabe feparar. A agoa
do mar; porém renite, ou refifte
O ui a toda
38 Problema
a toda a arte, a todo o engenho ,
ea toda a inveítigaçao ; a Íua par-
te bituminofa , fegue obltinada-
mente a parte volatil, e puramen-
te aquoza ; huma, e outra fe acom-
panhaô em todo o tempo, em to-
do o lugar, e em todo o eitado.
O fogo , que volatiliza a parte aquo-
fa, tambem volatiliza a bitumino-
fa, e por mais que feja adminif-
trado brandamente , e com calor
fummamente diminuto, nem afim
fe póde feparar da agoa aquelle bi-
tume natural. Nefte confifte a im-
potabilidade , e naô no fal; porque
efte he feparavel fem trabalho. E
aflim fe vê que, ainda que pareça
facil a intençaô de fazer a agoa do
mar potavel , he com tudo empe-
nho de execuçaô difficultofa , e he
talvez o que naô ha de confeguir-fe
nunca.
Afen-
De AÁrcbiteélura Civil. 39
Affentando pois, que o ar
contém realmente em fi, e invifi-
velmente huma immenfa , e inex-
haurivel porçaô de agoa , devemos
moftrar que tambem , e do mef-
mo modo encerra outros muitos, e
diveríos corpos. O fumo dos vege-
taes queimados , entraô continua-
mente na efpaçofa regiaô do ar, e
nelle fe vai dividindo, ou efpalhan-
do fubtilmente até que fica invifi-
vel, e inappreheníivel; e neíta fitua-
çaô naô o podemos ver, nem to-
car, nem diftinguir; e fe advertir-
mos, ou fizermos reflexad fobre as
partes, de que o fumo fe compoem,
acharemos certamente que o fumo
leva comíigo naô fó os principios
phlegmaticos, unétuofos , e vola-
teis , mas tambem os principios
terreos , e fixos.
líto fe comprova com o que
Civ cha-
40 Problema
chamamos commumente ferrugem
de chuminé ; efta fempre contém
(ainda que feparados ) todos os
principios que continha o vegetal
queimado ; ifto he, humor aqueo ;;
fal volatil, oleo effencial , terra;
efta fe acha na ferrugem volatili-
zada com os mais principios, a que
eftava unida; condenfando-fe nos
lados , e alto das mefmas chumi-
nés. Se depois que extrahirmos a
ferrugem a pozermos ao fogo ar-
dente em vafo proprio, diflipada
com o fogo a unétuolidade da fer-
rugem, lixiviando-fe o refiduo, acha-
remos hum fal alchalino, fixo ; e
extrahido efte, o que fica he ter-
ra pura , a que alguns chamaraõ
terra virginal.
Quando hum vegetal fe quei-
ma em lugar defembaraçado , e
fem o preceito da chuminé , nem
de
De Architeélura Civil. qr
de outro qualquer , todos os feus
principios fe diffipaô no ar intei-
ramente (exceptuando as mais pe-
zadas, de que a cinza fe compoem )
ficando invifiveis nelle naô fó o fal
volatil, e oleo eflencial, mas tam-
bem a maior parte da terra fixa;
entaô a tenuidade fumma das mef-
mas partes terreas as faz inappre-
heníiveis, e fem o corpo neceíla-
rio para fazerem fenfaçaô nos nof-
fos olhos ; e defta forte a terra, re-
duzida a átomos leviflimos , acha-
fe como fufpendida , e vagando em
toda a capacidade da atmoíphera.
Os corpos mineraes, e metallt-
cos faô certamente os mais compa-
étos, e pezados que conhecemos ;
e ainda fendo aflim , recebem (por
varios modos) huma tal divilaô , e
attenuaçad, que, depois de volati-
lizados , ficaô pezando menos do
que
42 Problema
que a columna de agoa que os fuf-
tenta. Iíto fuccede , geralmente
naô fó por operaçaô da natureza,
mas tambem por obra da arte. Da-
qui vem que o ouro diflolvido na
agoa , a que os artiftas chamaô ré-
gia (por fer o diflolvente proprio
daquelle régio metal), e a prata
diflolvida em agoa forte ; os ou-
tros metaes, e mineraes, diflolvi-
dos tambem nos feus diflolventes
particulares , ficad adquirindo hu-
ma divifad taô grande, que podem
eftar fufpendidos , e invifiveis nos
menítruos em que fe diflolveraõ , e
fó fe fazem perceptiveis, e mani-
feftos por meio da percipitaçaô ;
porque nefta o corpo, que faz a pre-
cipitaçaô , occupando o lugar do
corpo diflolvido , efte entaô fe
precipita ao fundo do valo, e tor-
na a tomar fórma vifivel. O mef-
mo
De drcbitetlura Civil. 43
mo fe confegue em fe enfraquecen-
do, ou deftruindo por algum mo-
do a força, e vigor do menítruo ;
porque perde aflim a actividade, que
tinha para Ífuftentar em fi o pezo do
corpo diflolvido ; e o deixa cahir ao
fundo.
Além de outros exemplos , que
fervem de provar o que fica expof-
to , temos hum na difloluçaô da
prata em agoa forte. Efte corrozi-
vo depois de diflolver aquelle me-
tal fica diáphano , e confervando
a fua mefma tranfparencia. À pra-
tasque he hum dos corpos mais com-
paítos , e pezados ( exceptuando
fómente o ouro, eo azougue ) af-
fim que fe diflolve naquelle diffol-
vente, fica fufpendido nelle, e in-
viífivel, e para manifeftar-fe, e to-
mar corpo perceptivel, he precifo
diflolver-fe outro qualquer corpo
com
44 Problema
com que a agoa forte tenha mais
analogia : para efte intento ferve
o cobre , o qual diflolvendo-fe tam-
bem na mefma , agoa que já tinha
em fi diílolvida a prata, efta tor-
nando a tomar o feu pezo caracte-
ríftico, promptamente fe precipita
ao fundo.
Todas as agoas vitríolicas con-
tém naturalmente hum ferro diílol-
vido, o qual fe moftra em fe eva-
porando as agoas que o contém; e
do mefmo ferro provém as virtudes
medicinaes, que a aquellas agoas fe
attribuem. Quando fe evaporaõ ,
alguma porçaô de ferro tambem
com ellas fe evapora ; e entaô en-
tra o ferro a exiltir, e a ter a lua
fubfiftencia na atmofphera, Aflim
mudaô de patria , e de lugar os
corpos mais pezados , rolando na
esféra mobiliflima do Ar aquelles
mef-
De Arcbitetiura Civil. às
melmos , que em eftaçaô immobil,
e permanente , rnafceraô nas entra-
nhas concavas da terra.' Naquella
mefma habitaçaô , e por modo fe-
melhante, fe acha também o ouro,
a prata, e todos os metaes. Pare-
ce que tudo fe encontra em cada
hum dos elementos , e que: cada
hum deítes he patria commua.
-: Os metaes concrefcem na ter-
ra5-mas ainda fe naô fabe-com cer-
teza , fe he a Terra que os produz;
ou fe mais verdadeiramente os pro-
duz aiÃgoa, o Ar, ou oFogo;
defte fabemos que procedem varios
corpos, que a terra ( ao noílo ver)
coftuma produzir. Quanto he para
admirar 'que qualquer vegetal quei-
mado fica em breve efpaço redu-
zido a cinzas, e que neítas fempre
«achamos terra pura, vidro, pedra,
ferro, chriftaes opacos , fal a
ino
46 Problema
lino fixo. Que materias diferentes
provindas de huma .fó , e identica
materia! Que pouco tempo foi pre-
cizo para fazer mudanças taô di-
verfas! Daqui parece que fe fegue
que tudo, quanto o fogo produz;
he de repente; os outros elemen-
tos naô tem acçoens taô vigoro(as,
e aprefladas.
Quem diflera que ina cinza
Cfimplicifima ao noflo parecer) fe
acha fal alchalino fixo , chriftaes
opacos , ferro , pedra., vidro, e
terra pura ? porém achaô-fe com
effeito; porque a agoa defcobre o
fal alchalino fixo; o iman moftra
certamente o ferro; e por meio do
fogo fe conhece infalivelmente o
chriftal opaco , o vidro, a pedra ,
eaterra pura; ofogo, que produ-
zio todos eftes mixtos, he o rigo-
rolo ; e perpetuo examinador da
natu-
De drchivectura Civil. 47
natureza de cada hum delles; por«
que tudo, o que fe funde , e adquire
tranfparencia , he vidro, tudo o
que fe naô funde, e recebe efpiri-
tos igneos em feus poros, he pedra,
tudo o que tambem fe naô funde ;
nem recebe efpiritos alguns , he
terra; e tudo o que nad fe funde ,
e conferva tranfparencia , he chrif-
tal. Algumas excepçoens padecem
eftas regras; porém as regras fem-
pre ficaô fendo taes, naô obftantes
as Ífuas execepçoens.
As agoas vitriolicas ( como
Já diflemos ) contém ferro, e elte
fendo o principio da côr efcura ,
negra , ou, parda acha-fe involvido
naquellas agoas fem lhes commu-
nicar a menor côr. À evaporaçad
manifefta huma parte do ferro ,
porque efte fica no fundo do valo
evaporante; a outra parte do mef-
mo
48 Problema
mo ferro fobe com o fumo, ou va-
por da agoa que fe exhala ; .e nef-
ta fórma temos efte metal grofTei-
ro, e tambem pezado vagando fuf-
pendido na atmoíphera; e ifto por-
que ficou .dividido'de tal forte por
meio da difloluçaô , que cada hu-
ma das fuas minutiílimas porçoens
ficou pezando menos que a colum-
na da atmofphera que as fuítenta.
Acontece o mefmo a todos os
metaes, e ainda. ao ouro, com fer
o corpo mais pezado que conhece-
mos; porque fe ao ouro na fundi-
çaô lhe juntarmos o fal chamado
armoniaco , efte incitado pelo fo-
go, unindo-fe eltreitamente ás par-
ticulas do metal; Íuccellivamente
o vai arrebatando , Ífublimando-fe
hum, e outro até defapparecerem
na vaga regiaô do ar. Os Chimicos
antigos, que efcreviaô fempre para-
bolica-
De Architettura Civil. 49
bolicamente, chamaraô a aquelle
fal Aquila Ganimedis , alludindo á
propriedade que tem de levar com-
figo naô fó todos os metaes, mas
tambem muitos outros mixtos ; a que
fe junta.
O. meímo intento fe verifica
com efle experimento meu. Se fe
fundir o ouro com oito ou mais
partes de antimonio em hum ca-
dinho Hefliaco coberto com outro
cadinho igual, tapadas as junturas
exactamente com qualquer compo-
fiçaô glutinofa e forte, confervan-
do fempre o ouro, e antimonio
fundidos no Athanor, ( ou forna-
lha a que os Artiftas chamaô piger
henrricus , porque adminiftra hum
calor continuado , e fempre: igual
no meímo grao de actividade ) e
ifto por tempo de hum mez, ou
mais; canfórme o pedir a exigen-
cia
so Problema
cia da operaçaô, e fegundo a maior,
ou menor quantidade de ouro fun-
dido , deftapando-fe depois o tal
cadinho, nelle fe naô ha de achar
nem ouro, nem antimonio algum,
nem ainda veftigios de haverem ef-
tado alli; ficando além diíTo illefos
os cadinhos , tanto na regularidade
da figura , como na ordem dos feus
póros. Com tudo pelos mefimos pó-
ros fe evaporarad inteiramente o
ouro , e o antimonio depois de vo-
Jatilizados pela continua acçaô do
fogo,
Que fe volatilizem os faes pe-
netrando , rompendo , e fahindo
dos vafos em que fe fundem , naô he
para fe admirar ; porque os faes
tem commumente a propriedade
conhecida de lacerar , e de rom-
per qualquer corpo folido ; aílim
como naô he tambem para admi-
rar
De Architettura Civil, sr
rar que a agua pafle , ou fe filtre
pelos póros do vafo terreo em que
fe acha; porque tanto aagoa , co-
mo os faes ( exceptuando os alcha-
linos fixos ) naô faô entidades que
refiftaô , por ferem volateis por
fi mefmos, e ajudados pelo ardor
do fogo entraô facilmente em to-
tal defuniaô, e exaltaçaô das fuas
partes.
O ouro porém he hum corpo
compaétiflimo , e fixillimo , e por
io naô paíla nem ainda pelos pó-
ros da cupella , por onde aliás (ex-
ceptuando a prata) todos os me-
taes, e mineraes paílaô prompta-
mente , e da melma forte que a
agoa penetra, e fe imbebe nos pó-
ros de huma efponja. O Virrum Sam
turni ( e à fua imitaçaô todos os me
taes, e mineraes vitrificados ) pe-
netra quando eftá fundido, e paíla
li os
É Problema
os vafos, de qualquer compofiçad
que feja6 ; nem fe tem achado meio
para lhe tirar, ou impedir aquella
força: porém nefte calo o Vitrum
Saturni , e outros femelhantes, dei-
xaô lefos , e como rôtos os cadinhos,
ou outros quaeíquer vafos , naquel-
le lugar determinado em que os pe-
netraô , e por onde fahem. E aflim
naô he facil de defcobrir qual feja
a razaô phyfica por onde o ouro
junto ao antimonio foge, e feex-
hala totalmente do cadinho , fican-
do efte illefo , e fem a menor ro-
tura, ou abertura. O phenómeno,
porém he certo; porque o ouro fe
exhala , e no ar defapparece.
O mefmo intento fe compro-
va com a luna cornea, a qual tam-
bem fundida fe evapóra em gran-
de parte. O eftanho, e o cobre, fe
eftando fundidos ; fe lhes junta o ni-
to,
De Architetlura Civil. 53
tro, tambem fe diflipaô igualmen-
te » deixando hum pequeno reíiduo,
a que chamaô os artiftas , Capat
mortuum. O azougue, que he o cor-
po mais pezado depois do ouro, e
prata, por meio de hum calor bran-
do, e fucceflivo, tambem fe difli-
pa, e evapóra totalmente fem dei-
xar veítigio , ou fignal algum da
fua exhalaçaô. Em todos os referi-
dos corpos , o que o calor (mais,
ou menos forte ) faz he rareficar
as fuas partes, e reduzillas a parti-
culas, como indivifiveis, e por con-
fequencia tenuiílimas , e levifli-
mas ; neíte eftado de divifaôd , ou
de defconjuncçaô , bufcaô aquel-
las meímas partes o ar, ficando nek-
le fufpendidas ; e ifto pelo princi-
pio univerfal, de que pezaô menos
do que as colunas do ar, em que
fe fuftentad.
E +
54 “Problema
Daqui póde inferir-fe , e tirar-
fe a explicaçaô de alguns phenó-
menos hiftoricos, quando fe con-
ta que nefta regiãô chovera ferro ,
naquella cobre , em outra pedras,
&c. Fides fit penes auétorem; po-
rém a pollibilidade de faétos feme-
lhantes; póde deduzir-fe facilmen-
te pela certeza que ha de outros
phenómenos, ou naturalidades, que
fendo verdadeiros, ainda faô mais
difficeis de explicar. E com efeito
póde talvez chover azougue, quan-
do fe evapóra efte metal ao fogo,
ou quando os calores fubterraneos o
x =” . .
evapórad nas minas proprias, em
que aquelle metal fe cria ; entaô
fubindo os vapores mercuriaes , e
achando em certa altura humidade
fufficiente que os ajunte, e conden-
fe, a chuva ha de arraftar precifa-
mente , e trazer comfigo o azou-
gue
De ArchitelluraCivil. ss
gue já unido com algumas das fuas
partes , e tendo já pezo maior , e
mais proporcionado para nao poder
fubfiftr no ar.
Efte azougue porém 'naô he
producçaôd do ar, nem he propria-
mente chuva de azougue ( como fe
diz ) mas he o mefmo que exha-
lando-fe da terra, ou já por calor
artificial, ou por fogo fubterraneo,
adquirindo,pela conjuncçaô das fuas
partes divididas, maior volume, e
por confequencia maior pezo , ca-
he como precipitado fobre a terra,
de donde fe havia exhalado antes.
Ifto he poflivel que fucceda a ou+
tros corpos diferentes ; e deve fuc-
ceder aílim naquellas mefmas , e
fuppoftas circunftancias ; ficando
por efte modo muito facil de ex-
plicar aquelles taes phenómenos , de
que a Hiftoria faz mençaô ; fican-
D iv do
56 Problema
do com effeito naô Íó explicaveis »
mas provaveis.
Sempre he certo , que todos
os corpos, que admittem hum certo
grao de divifaô, e attenuaçaô, e
que além difto podem fer impellt-
dos por algum meio a elevar-fe
ou fubir ao ar , ficando nelle fuí-
pendidos, e em continua agitaçaô;
por outras caufas , e por outros
movimentos tornad a entrar, e'a
bufcar a fuperficie, do globo terra-
gueo , de donde fahiraô; Íucceden-
do aílim em muitos, e diverfos cor-
pos, huma perpetua -circulaçaõ ,
ou circumvoluçaô de hum elemen-
to para outro.
Naô he porém facil de perce-
ber, nem de explicar o modo fa-
bido , e certo, porque em muitas
regioens fuccede em alguns tem-
pos, choverem fapos. Deita natu-
ralida-
De Anbireliura Civil. 37
ralidade ninguem duvida, ao me-
nos aquelles: que tiveraô occafiad
de vers: e viraô com effeito muitas
vezes aquella repentina producçaô,
e nafcimento : com tudo o calo
naô he menos verdadeiro, e fuc+
cede regularmente aílim. ,
Em eftaçaô ferena, e eftiva,
quando a fuperficie da terra fe acha
quente , e a meíma fuperficie em pó
fubtil, fe fobrevém fubitamente hu-
ma trovoada, e a efta fe fegue lo-
go chuva , no meímo inftante, que
as primeiras pingas de agoa cahem
fobre a terra, vê-fe entaô huma im-
menfidade de fapinhos, faltando de
huma parte para outra, e buícan-
do os lugares abrigados , como faõ
os encôitos das paredes nas partes
em que asha; e ifto para evitarem
a moleftia das agoas: que haô de vir
a correr por alli meímo. Examina-
dos
s8 Problema
dos eftes animalejos , abhad-fe fer
verdadeiros fapos naô Íó na figura
exterior, mas em todas as fuas pro-
priedades , gerados , e naícidos ao
primeiro contaéto da agoa na ter-
ra pulverulenta. Naô Ífendo efte fa-
Eto ambiguo , ou duvidofo , com tu+
do he de explicaçaô ardua , e ter-fe-
hia por fabulofo, e impoífivel (co-
mo outros muitos de que fazem
mençaô os naturaliftas ) fe naô fo-
za vifto , e obfervado infinitas ve-
zes nas partes em que coftuma acon-
tecer.)
E na verdade faz-fe violento
o crer que hum animal pofla pro-
duzir-fe fem a concurrencia de hum
principio feminal antecedente. Hum
contaéto momentaneo parece que
naô póde formar muículos perfei-
tos, arterias, vêas , fangue , iní-
tinto. Neíte cafo a poflibilidade
veri-
De Architeciura Civil. 9
verifica-fe 4 pofteriori ; é nunca
poderia: conhecer-fe por outro mo-
do , nem por raciocinio algum. Pa-
ra aquella producçaô devemos en-
tender que concorre o ar, a agoa,
e a terra , modificados , ou difpoftos
eítes elementos para femelhante
creaçaô ; a fórma porém, com que
aquelles elementos fe difpoem, e
modificaô , feria trabalho perdido o
inveftigar.
Nefte cafo nad podemos di-
zer propriamente que chovem fa-
pos, nem que eftes fe fuftentem no
ar, de donde cahem; porque na-
quellas mefmas agoas, recebidas em
vafos, naô fe encontraô fapos,
mas precifamente quando cahem fo-
bre o pó da terra quente. À rari-
dade eftá em receberem aquelles
a fua fórma perfeita, e difiinétiva
no mefmo inftante , ouadto de naf-
cer;
do Problema
cer, e de nafcerem fem dependen-
cia alguma de outro animal da mef-
ma eípecie.
Se quizermos dizer que huma
producçaô tal he parto da corrup-
çaô, contra illo teriamos o modo
com queraquella meíma producçaô:
fe faz; além de naô fer ainda muito
certo o axioma de que a corrupçaô
de hum he geraçad de outro. No
facto mencionado obfervou-fe fem-.
pre; que o nafcimento dos fapos
fó provém quando a terra eftá fum-
mamente fecca , e reduzida a pó
na fuúperficie por caufa da mefma
fequidad; e nefte eftado naô pó-
de haver corrupçaô na terra; por-
que nenhum corpo fe corrompe:
fem a prefença de humidade , e
donde a naô ha naô póde ter lugar
a corrupçaôd ; antes para efta fe:
impedir he feguro meio o impe-:
dir
De Architeétura Crvil. 61
dir todo o commercio de humida-
de com o corpo que fe quer prefer-
var de corrupçao.
E ainda fem fer por aquelle
fundamento, he tambem certo que
nenhuma corrupçaô fe faz em hum
inftante ; a natureza naô corrompe;
nem produz fem tempo , ou mais ou
menos progreflivo , fegundo a qua-
lidade da producçaô ou corrupçad»
Hum inftante verdadeiramente nad
he tempo , ainda que o tempo fe
compoem de inftantes; cada hum
deftes podemos confiderar como
hum ponto mathematico, em que
naô ha partes algumas, ainda que
de pontos fe fórma qualquer parte.
E aíflim do nafcimento momentaneo
daquelles animaes immundos , o que
podemos dizer he fer hum phenó-
meno do numero daquelles que fe
nãô podem explicar phyficamente ;
; dos
62 Problema
dos quaes ha muitos que, para fe
explicarem , he neceílario entrar
em fuppofiçoens gratuitas , ainda
menos explicaveis, e nunca de-
monitraveis.
Outros phenómenos admira-
veis ha, que fe entendem fer pro=
ducçoens dos meteóros , e que tem
no ar o Ífeu nafcimento proprio ;
hum deiles he a pedra chamada de
corifco , a qual o vulgo crê fer hu-
ma pedra verdadeira que cahe da
nuvem ao mefmo tempo que o raio
a rompe ; porém efta credulidade
fó fe funda em hum abufo popular;
porque nunca fe obfervou que fe-
melhantes pedras vieflem do ar, ou
defceffem delle com o raio : elfte
naô he mais do que hum globo de
fogo de huma intençaô , ou aétivi-
dade immenfa ; por iflo penetra ra-
pidiflimamente os corpos mais cora-
paétos,
De Arcbirettura Civil. 63
paftos, deixando apenas hum fig-
nal breve no lugar em que os pene-
tra , e naquelle por onde (ahe; e
quando acha mais forte refiftencia ,
quebra ; até que ondulando diver-
famente, perde a força do movi-
mento , porque fe extingue a ma-
teria em que confiftia a fua inflam-
maçaô.
Bem he verdade que na terra
fe encontraô muitas vezes humas
pedras chamadas de corifco ; eftas
fomentaraô o abufo commum de
que tinhaô cahido com o raio; mas
eita idéa naô fubíifte já, ( ainda
que alguns a querem fuftentar ain-
da ) porque a Phyfica inftruida
defpreza tudo aquillo que naô tem
na experiencia hum fundamento cer-
to ; admitte as raridades que po-
dem fer examinadas, naô aquellas
que, naô podendo examinar-fe , o
e
64 Problema
fe eftabelecem em huma tradiçaô
«mal entendida , recebida ligeira-
mente, e fem exame. E com effei-
to a pedra que vemos, e a que
chamaôd de corifco, he mui folida,
e pezada para proceder de huma
repentina formaçaô. dos meteóros :
ella he producçaõ da terra , naô do
ar; porque nefte fó podem ter fir-
meza aquelles corpos , cujas partes
admittem huma fumma divifaô fem
perder em cada huma dellas a Ífua
figura natural, e que juntando-fe
depois humas com as outras, retém
aquella mefma figura em maior vo-
lume: as pedras naô faô alim; por-
que, fe forem reduzidas a partes mi-
nutifimas , eftas, ainda que venhad
a ajuntar-fe, nunca tornada tomar a
figura antecedente , Íolida, e com-
paéta. E aflim quem difler , que
vio cahir huma pedra de corifco ,
ou
De Architeélura Civil. 65
ou o medo o fez allucinar , ou quer
que os outros fe allucinem.
—emeames remeter re me rem
CAPITULO IV.
E tudo , o que fica expoíto af-
fima ; fe conclue que na at-
mofphera, ou regiaô doar fe acha
hum grande numero , e grande
quantidade de corpos invifiveis , e
inapprehenfiveis, entre os quaes de-
ve contar-fe o acido que corróe as
pedras que lhe naô refiftem por fal-
ta de dureza Íufficiente. E fuppofto
que tenhamos já moftrado com al-
guns experimentos , que no ar fe
achaô com effeito muitos corpos fo-
lidos que fó fe manifeítaô em cer-
tas circumítancias , e por certos mo-
dos; com tudo ainda naô moftrá-
E mos,
66 Problema
mos que entre aquelles corpos in-
vifiveis fe ache tambem hum acido
invifivel. Naô faltaô provas, de que
poífa inferir-fe com probabilidade
bem fundada, que no ar naô exif-
te acido algum material que caufe
defuniad na contextura das pedras
molles , que como fica dito, faô
Juftamente reprovadas para toda a
forte de edificios.
À primeira , e principal prova
confifte na certeza que temos,de que
expondo-fe algum, ou muito tem-
po ao ar qualquer vafo aberto , e
cheio de agoa , efta examinada de-
pois tanto pelo fabor , ou gofto,
como por outro qualquer meio ,
nenhum indicio de acido fe ha de
achar na agoa , aflim expolta ao ar;
fendo ( ao que parece ) indubita-
vel, que fe o ar contiveíle acido al.
gum material , efte paflando con-
tinua-
De Architeblura Cívil. 67
tinuamente , e immediatamente fo--
bre a Íuperficie da mefma agoa,
nella fe diflolveria, e a agoa ficaria
logo recebendo o fabor do fal, e
efte fe acharia em fubftancia folida,
e vifivel em fe evaporando a agoa.
Efte argumento he de foluçaõ diffi-
cil, e feria decifivo contra o acido
doar, fe naô tiveílemos outros de
igual, ou maior força para eftabe-
lecer a inexiftencia delle.
A fegunda prova, e da melma
natureza que a primeira, he tirada
de todos os faes alchalinos fixos,
ou volateis; os quaes fendo expof-
tos ao ar, ou feja em fórma folida;
ou em fórma liquida , fe no ar pre-
exiftifle qualquer acido que foffe ,
efte fe incorporaria , e introduzi-
ria naquelles faes , e de alchalinos
os faria neutros: o que porém naô
fuccede aflim ; porque a expoliçaô
E ii ao
68 Problema
aoar, naô muda a qualidade dos
alchalicos, ficando eftes confervan-
do os feus proprios caraétéres , e
todas as Íuas qualidades efpecificas.
Em terceiro lugar, a diflolu-
çaô diáphana de qualquer fal alcha-
lino fixo, ou ainda volatil, ver-fe-
hia turvar-fe , e perder a tranfpa-
rencia , fe houveíle qualquer act-
do no ar; o que porém nunca fuc-
cede aflim; porque aquella diflolu-
çaô , expoíta muito tempo ao ar em
vafo aberto, e defcoberto fempre ,
nem poriflo fe turva, e guarda a
mefma claridade fempre ; e iíto fer-
ve de indício claro de que o ar
naô contém particulas acidas em fi:
Eftas faô as objecçoens mais fortes
que induzem a inexiftencia total da-
quelle pretendido , acido de que fe
fuppoem abundante o ar, e de que
entendemos proceder a corrofaô das
pedras. Naô
De Architeetura Civil. 69
Naô obítantes porém aquel-
las objecçoens fundamentaes , nem
por iflo fica vacillante a exiftencia
do acido propoíto ; porque efte bem
póde eftar no ar, fem que fe diflolva
nas agoas que encontrar, e fem que
mude os alchalicos em faes neutros.
Etta propofiçaô póde demonftrar-fe
por varios modos. E com effeito fe
em huma camera fechada fe evapo-
rarem os efpiritos falinos do fal com-
mum, do nitro, do vitriolo , e outros,
eítes acidos haô de eftar ( depois
de exhalados) no ar ambiente da
meíma camera, fem que por io fe
incorporem, ou embebad nas agoas,
que eltiverem dentro em vafos deí-
cobertos ; e da mefma forte os al-
chalinos pela juncçaô dos meímos
acidos fe naô haô de mudar para
faes neutros.
Bem he certo que a exhalaçaô
E in (pre-
zo Problema
(preza em lugar determinado ) e
provinda de licores corrofivos, ha
de offender os orgaôs da refpiraçad
nos animaes que eftiverem incerra-
dos no mefmo , e identico lugar,
como ás vezes fe faz para deftruir
alguns infeétos; mas iflo vem, por-
que os infeétos, e todos os animaes
continuamente infpiraô , e refpirad,
e nefta acçad attrahem os corrofivos
que o ar contém , e na attracçaô de
vapores infeétos fe fuffocad. Poref-
ta mefma caufa he infalutifera to-
da a vizinhança de agoas eftagna-
das, e paludo(as,
Além dito o ar involve em
fi huma materia fubcilillima, mobi-
hílima, e unétuofa que fe incorpo-
ra com todos os acidos , e com to-
dos os vapores que no ar fe encon-
traô; e por iflo ficaô os acidos ( em
quanto giraô no ar) indiffoluveis
na
De Architeélura Civil. 1
na agoa ; porque todo o corpo dif.
foluvel perde efta aptidaó todas
as vezes que fe une a qualquer un-
étuofidade ; e aflim ficaô os acidos
indifloluveis na agoa, e fem aéti-
vidade a refpeito dos corpos alcha-
linos. E de fato todas as materias
oleofas retundem efficazmente a fo=
lubilidade dos faes, e infringem a
erofaô actual de todos os corro-
fivos
Daqui vem o conhecimento
pratico fobre os remedios opportu-
nos contra a acçaô dos corrofivos
no ventrículo de todos os animaes ,
cuja acçaô fe naô póde impedir me-
lhor que com a prompta applicçaô
de mixtos oleofos , os quaes que-
brando de algum modo as pontas
dos efpiculos falinos,naô fó os fazem
como rombos, e debilitados , mas
tambem coadjuvaô muito para os
E iv lan-
72 Problema
lançar fóra, eftimulando o meímo
ventriculo para o vomito. O ufo
dos leites , que depois fe applicad fe-
lizmente, tendem para o meímo fim
de adoçarem , e enfraquecerem o
vigor dos corrofivos, pelo funda-
mento de conterem os leites grande
parte de huma materia oleofa , e
anodina, cuja unétuofidade mode-
ra, e impede a força de todos os
faes, e compoltos corrofivos.
Além difto confta por muitos,
e infalliveis experimentos , que no
ar exifte realmente hum acido pri-
mogenito, que he o principio ori-
ginal de todos os faes que conhe-
cemos : as matrizes , ou diverlos
corpos, a que aquelle fal fe une, fe
concentra, e aflocia, faô o donde
vem, e donde procedem as diffe-
renças de cada hum delles, fegun-
do a qualidade dos memos corpos
a que
De Architelura Civil. 3
aque fe juntaô ; porque com al-
guns corpos fe une aquelle fal mais
intimamente , com outros menos;
recebendo varias propriedades ef-
pecificas , naô fó de fi , mas dos
corpos, ou Íujeitos , a que natural-
mente fe in corpora.
Alguns quizeraô dar ao fal do
mar a primogenitura, ou o princi-
pio dos faes todos ; outros quizerad
dar aquella preferencia ao acido vi»
triolico, ou fulphureo, porque ef-
te fal, ou acido liquiforme fe acha
no ar abundantemente, donde jun-
tando-fe com efpiritóe ,: ou materias
oleofas fórma hum verdadeiro en-
xofre, como fe obferva ao cahir do
raio; porque na parte em que cahe,
ou por onde pafla, fica hum chei-
ro infupportavel de enxofre acezo ;
fendo que nenhum enxofre póde
dar-fe naturalmente , nem compôr-
fe
“4 Problema
fe por arte alguma , fem fer por
meio , e por intervençaô daquel-
le acido que lhe he proprio. Efte
mefmo acido fe acha tambem , e
bem conhecidamente nas entranhas
da terra, e em todas as partes della;
porque apenas ha mineral algum ,
em que o enxofre fe naô manifefte
claramente. O fal commum naô he
izento daquelle acido , como fe ad-
verte na decrepitaçaô, em que o aci-
do fulphureo fenfivelmente fe per-
cebe. E aflim aquelle acido fe en-
contra fempre na terra , no mar, no
ar; por iflo muitos lhe daô a pri-
mazia, e o fazem principio infor-
mante de todos os outros acidos.
- Tambem fe acha no ar o acido
nitrofo , o qual fe obferva nas aguas
tonitruofas , as quaes, fe fe evapo-
rao, ou deftillad lentamente, dei-
xaô no fundo kum refiduo terref-
tres
De ArchiteéluraCivil. &s
tre, e falino daqualidade daquelle
acido. Todos os vegetaes, fem ex-
ceptuar algum, contém hum acido,
o qual fóô lhes póde provir do ar,
eflencificado à natureza de cada ve-
getal; como fe colhe do fumo que
exhala cada hum delles na occa-
fiaô em que o fogo os faz arder,
cujo fumo, por caufa do mefmo aci-
do, offende os olhos dos que fe ex-
poem a elle.
A induraçaô , e incorrupçad
das carnes, expoítas livremente den-
tro das chuminés, procede tambem
do mefmo acido ; porque efte con-
ferva, e livra da corrupçaô muito
mais eflicazmente do que o acido
do [al commum. Aquelle acido, que
todos os vegetaes contém, naó pro-
vém da terra onde o vegetal fe cria;
porque a fuperficie da terra naô tem
fal algum que fe manifeíte, ou fe
confer-
76 Problema
conferve nella indifloluvel nas agoas
que paífaô pela mefma Íuperfície
continuamente. Iíto fe juftifica , por-
que fe em qualquer terra bem lava-
da, e por confequencia izenta de
todo, e qualquer fal, fe em tal terra,
digo, fe femear alguma planta , ef-
ta , examinada depois , ha de dar; e
moltrar infallivelmente o fal que
lhe for proprio. As flores, que arti-
ficiofamente nafcem na agoa (ain-
da que efta foffe primeiro deftilla-
da > tambem, e fem intervençad
de terra alguma, haô de dar aquel-
le fal, ou aquelle acido que lhes
for ellencial ; o qual naô podem as
flores, no cafo propoito , tirar de ou-
tra alguma parte , nem de outro lu-
gar, fe nad do ar.
O acido nitrofo nad he con-
creçaô da terra , porque no inte-
rior profundo della nunca fe achou
, aquel-
De Architeiura Civil. 7
aquelle fal ; como alguns entende:
raô ,ve ainda entendem hoje com
menos bem fundada experiencia. He
certamente producçaô do ar, for-
mada na Íuperficie de huma terra
particular , e apta para receber, é
concentrar em fi aquelle acido ad
miravel, e verdadeiramente efpan-
tofo pelos Íeus rariílimos , e tre-
mendiflimos effeitos,
Daqui vem que a maior parte
do falitre , ou nitro que nas fabri-
cas da polvora fe confome , todo
he artificial, cujo artifício naô con-
fifte em mais do que em efpalhar
fobre a fuperficie da terra outra
terra calcária ,- ageregando-fe fu-
perfluidades de animaes ,. e vege-
taes fummamente putrefaétos ;' cu-
ja mifturaiexpofta ao ar ( e. prin-
cipalmente.ao vento Norte , de que
relultou -dizer-fe fallando-fe do ni-
tro é
78 Problema
tro: Pentus in urero portavit) com
o tempo fe incorpora a ella o aci-
do do ar ,-de que provém hum ver-
dadeiro nitro, concorrendo para a
mefma producçaô outras circunf-
tancias que acceleraô , e promó-
vem a geraçaô , e appariçad da-
quelle fal. Por caufa dos ingredi-
entes que concorrem para a for-
maçaô do nitro, .e pelo ingreflo
que tem nos mineraes, chamaraô-
lhe os artiftas fal animal, vegetal;
e mineral, +
O mefmo fuccede ás terras
aluminofas, e vitriolicas , das quaes
depois de extrahidos aquelles aci-
dos, que tem naturalmente ; tornan-
do-fe a expor ao ar livre, o cons
curfa -do melmo ar faz tornar a
concrecer nas mefmas terras ou-
tros novos acidos da mefma natu»
reza , e de igual qualidade dos pri-
meiros;
De Árchiteltura Civil. vó
meiros ; ficando as terras fervindo
aílim de matriz perpetua para efta-
rem fempre attrahindo do ar ou-
tras femelhantes producçoens.
Os Cirurgioens methodicos
tambem conhecem a exiftencia do
acido do ar; por iflo na cura das
feridas attendem com cuidado a
defendellas do contaéto immediató
do ar ambiente que circúla; e ifto
taô porque o at como fimples ele.
mento poíla' fer nocivo, mas ports
que o acido ; que contém , retarda à
cura, e aggrava mais as partes of-
fendidas; e quanto mais fenfivels
e dé mais exquifito fentimento he
a parte, em que a ferida eftá, tan-
to mais fenfivel he tambem nella
a impreílao do ar; porque efte
juntando-fe aos humóres já defor-
denados, ow degenerados por qual-
quer cafo natural óu accidental,
entaô
80 Problema
entaô, o acido do mefmo ar, aug-
mentando o mal, perturba a in-
tençaô de quem o quer remedear.
Por iflo na cura das feridas, o ob-
jeéto primeiro , e principal, con-
fifte em as cobrir exactamente ;: de-
pois de applicado o remedio pro-
prio. E com effeito muitas feridas
faraô por fi mefmas fem. mendigar
os foccorros da arte , mas Íó- por
virtude, e forfa medicinal da na-
tureza ; porém difficultofamente fa-
raô eftando delcobertas., e expoí-
tas ao rigor , impulfaô , ou aci-
do do ar. e. E dido cf
Com o que fica ponderado fe
convence que no ar ha hum aci-
do exiftente , perpetuo , phyíico ,
appreheníivel, e em certas circunf.
tancias tambem vifivel; e que efté
mefmo acido he como hum Pro-
theu; a quem a natureza -faz to-
mar
De Architeitura Civil. 81
mar infinitas fórmas , infinitas fi-
guras, e infinitos modos. Efte he
talvez o verdadeiro Mercurio, que
os Philofóphos antigos indicaraô , fi-
gurado na apparencia de huma in-
domita ferpente , e outras vezes na
de hum dos feus deofes fabulofos ,
armado do famofo caducêo , e azas
talares. A efte acido do ar chamaô
nitrofo os Philofophos modernos ,
e a elle atribuem, como privativa-
mente, a fabrica, ou acçaô de ve-
getar ; porém nefta propriedade ,
graciofamente concedida ao acido
nitrofo., talvez que tambem haja
fabula; fó com a diferença de fer
menos antiga, e por confequencia
menos refpeitavel,
82 Problema
CAPITULO V
a pois certo que ha hum
acido no ar , efte acido paí-
fa por conftante fer nitrofo; e tan-
to, que fundados alguns naquelle
principio incerto, entraraô a idear,
ou inventar compofiçoens diverfas
com o título de fegredos , nas quaes
o nitro he ingrediente principal, e
por meio delle pertendem promo-
ver fingularmente todas as forfas
feminaes em cada hum dos tres
reinos da natureza; no reino mi-
neral entrou o nitro a fazer as mais
fauítuofas efperanças , como ma-
teria que devia fer da celeberrima
pedra Philofophal; e efta entrou
tambem a fer o objeéto das mais
obfti-
De drcbiteblura Civil. 83
obitinadas indagaçoens , ainda que
fempre infruétuofamente, e talvez
nunca com o fruto defejado da cha-
mada pedra por excellencia ; ori-
gem porém de muitos inventos uti-
hífimos, curiofiflimos, e admiraveis;
porque, buícando-fe huma coufa
que fe naô achou, acharad-fe ou-
tras que fe naô bufcavad.
No reino Animal, devia o
nitro fazer reculcitada a raça dos
Gigantes , e prolongar confidera-
velmente a vida : porém fuccedeu
o contrario, porque o invento da
Polvora; parece que fó veio para
fazer mais diminuta , e breve a du-
raçaô dos homens. No reino Vege-
tal devia o nitro forçar a terra a
dar muitos mil por hum, augmen-
tando-lhe o vigor para produzir
abundantemente ; porém tambem
naô fuccedeu aflim ; porque qe
u a
84 Problema
la mãy univerfal ficou com a mef-
ma fecundidade que teve fempre,
nem fe fez mais liberal por fer aju-
dada pelo nitro, antes efte he ca-
paz de a fazer efteril, e infe-
cunda,
As minhas proprias experien-
cias, enaô as dos outros, em que
confio poucas vezes pela multidad
de apparatos menos finceros , de
que os livros eftad:cheios , e em que
os Authores com menos fincerida-
de elcreveraô na Phyfica Chimica ,
eifto, ou foffe por falta da inftruc-
çaõô neceflaria a refpeito dos prin-
«<ipios daquella preciofillima, e uti-
hífima Íciencia, ou fofle por que-
rerem occultar a verdadeira mani-
pulaçaô de muitas operaçoens que
defcreveraô ; as minhas experien-
cias, digo ,o que me moftrarad ana-
-Jyzando o nitro (que he o mefmo
que
De ArchitelluraCivil. 8s
que o falitre vulgarmente conhéci-
do) foi, que efte fal he producçaõ
do ar, mas naô do ar unicamente;
e que contém dotes admiraveis , ne-
gados inteiramente a todos os ou-
tros faes , tanto naturaes , como
compoftos: porém naô pude defco-
brir nelle os effeitos portentofos (ex-
ceptuando a fua elafticidade ) de
que fazem mençaô Joaô Rodolfo
Glauber , Paracelío , Becher, e
outros,
- Achei aquelle fal inutil , e con-
trario para promover, incitar, oume-
lhorar a vegetaçao das plantas; por»
que as fementes vegetantes naô ad-
quirem vigor algum na infufad do
nitro, antes de algum modo o per-
dem, quando a infufaô he prolonga-
da, e faturada com maior porçaô
de fal. A infufaô das melmas fe-
mentes em outros quaelquer faes,
F in ou
86 Problemã
ou fejaô fixos, ou volateis, ou fes
Jaô alchalinos, ou acidos, naô tem
mais efficacia que a do nitro fim-
ples.
Naô obfta o fer doutrina in-
veterada, e. feguida commumena
te pelos melhores: naturaliftas , e
ainda por muitos Phyficos moder-
nos, e bem inftruídos , em que afr
fentaô «todos que: o acido nitrofo
he o verdadeiro. agente univerfal,
e unico promotor da vegetaçaô; naô
ebfta, digo, efta doutrina. porque
nas materias Phyficas naô fe cons
fidera a authoridade dos antigos , oú
modernos; .e Íó fe attende para a
authoridade da experiencia ; efta he
a que decide o ponto , e naô os que
trataraô delle: tudo, o que nad conf
ta por huma experiencia conftante,
e reiterada , he o meímo que nad
fer, ou naô conftar por modo algum.
E com
De Architeétura Civil. 87
E com efeito a experiencia
moftra que nenhum acido he, pro-
prio para excitar a vegetaçaô ; ifto
fe entende ,.naô depois de eftar cor-
porizado , e determinado nefte, ou
naquelle: genero de fal, mas fim
tomado , ou entendido, no eftado.
como primitivo , em que o acido
do ar pende indeterminado ; e em
que. fendo como huma materia , ou
enteuniver(al.; eftá difpoíta , e apta
para informar todas as materias par>
ticulares,: que. tambem tem aptidad
para receberem-, e tomarem-efta
ouaquella fórma, :
! IRo fe comprova com o exem-
plo de qualquer fal alchalino fixo 3
efte: por fi mefmo ,'e fegundo a fua
idole natural, attrahe a humidade
todas as vezes que fe expoem ao ar;
fermenta.com os.acidos, e com elles
fe reduz a hum fal, a que chamaô
Fiv neu-
88 Problema
neutro; abforbe os meímos acidos,
e os deftroe ; diffolve-fe em todos
os licores , exceptuando os oleofos ;
delle refultaô as compofiçoens fa-
ponarias ; diflolve promptamente
todas as materias fulphureas, e un-
Etuofas ; e depois de as diflolver , as
larga, e faz precipitar ao fundo do
valo , todas as vezes que fe intro-
duz algum acido na difloluçaô.
Porém depois que hum fal al-
chalino fixo fe acha vitrificado com.
qualquer arêa, ou terra, jáfica per-
dendo todas aquellas qualidades que
lhe faô eflencialmente proprias ; e
com effeito já entad naô faz effer-
vefcencia com os acidos , nem póde
mudar-fe com elles em fal neutro;
Já naô póde diffolver os mixtos oleo-
fos para formar hum coagulo, ou
fabaô; já naô póde diflolver-fe na
agoa , nem attrahir a humidade aé-
rea;
De Architeltura Civil. 89
rea; Já naô póde fazer corrofaô al-
guma ; e de hum corpo cauítico veio
a reduzir-fe a hum corpo infulfo,
impenetravel a todos os efpiritos,
e licores corrofivos. E afim veio o
fal alchalino fixo .a perder todas as
fuas propriedades , e ifto facilmen-
te e para fempre ; e-fem já mais
poder tornar a fer, o que tinha fi-
do, nem poder recobrar nunca os
feus primeiros dotes; e por iflo fe
lhe póde applicar o que o Poeta
ie :
o facilis defcenfus Averni;
Noctes , arque dies patet atri janta
Ditis :
Sed revocare gradum , fuperasque
evadere ad auras »
Hoc opus , bic labor ef.
E aflim , o dizer-fe que o acido ni-
trofo contribue. para. todas. as ve-
geta-
98 Problema
getaçõens , he hum entender divis
natorio ; porque por nenhum «exi
perimento fe faz certo ; ou verifi-
fas que feja aquelle acido, e naô
outro : antes parece que aquella tal
prerogativa devia dar-fe ao acido
fulphureo. vitriolico.; porque defte
he fummamente abundante o ar;
como. fe obferva commumente nos
diverfos meteóros que fe fórmaõ,
e:acóntecem na atmoíphera , don-
de aquelle meímo acido fe mani-
fefta por varios , e diverfos modos,
E fe com efeito o acido nitrofo co-
opéra para aquella maravilhofa ac-
çaô da naturaza, póde fer; fe mais
provavelmente entendermos, ou to-
marmos o acido nitrofo na fua pri-
meira indeterminaçaô , ifto he-no
eftado potencial, mas naô depois
de corporizado , ou realizado em
actual, e verdadeiro nitro ; porque
“4
Ja
De Architetlura Civil. gr
jáneite grao ,,e depois de efpeci-
ficado , fica certamente inhabil pa-
ra vegetar, nem fazer vegetar. O
referido Poeta o achou aflim na fua
materia, e excellente inftrucçao da
agricultura :
Semina vidi equidem multos media
care ferentes
Et nitro prius, & Era put
dere amurca:
Grandior ut fetus filiquis follasi-
bus eljes.
Es quamois igni exiguo properãs
ta maderent ,
Vids leéta diu , de multo fiectara
labore »
Degenerare ramen , ne vis bumas
" na quotannis pe
Maxima queque manu legeret : fi
omnia fatis
Inpeius ruere , ac retro fublapfa
referri. To-
92 Problema
Todos os Authores, que efcreverad
com methodo fobre a Agricultura ,
e que quizeraô difcorrer com mais
provaveis fundamentos , aflentarad
em que os faes da terra faôd os que
a fertilizaô ; por iflo dizem que a
terra depois de repetidas , e conti-
nuadas producçoens , vem final-
mente a canfar, ficando confide-
ravelmente diminuta no vigor, por
lhe faltarem aquelles faes que foi
fucceflivamente empregando nas
producçoens antecedentes , fican-
do para os mais annos como hu-
ma terra ufada ,.e pouco vigorofa.
- Porém aquelles fuppoitos faes
nunca os pude defcobrir ; e por
mais que examinafle varias terras ,
e por varios modos, naô achei nel-
Tas o fal de que fe diz depende a
fua fecundidade : oque fe encon-
tra fempre he huma materia inflam-
a mavel,
De Archite&tura Cyvil. 93
mavel, e unfluofa, e ella analy-
zada exaétamente , nad moltra fal
de qualidade alguma , nem fixo,
nem volatil, nem nitrofo, nem ful-
phureo : dei que fe fegue que o fal,
que na terra fe fuppoem » he Mi
ente, que a imaginaçaô creou; e
ainda que todos os Efcritores fazem
mençaô delle, he porque huns fo-
raõ elerevendo º mefmo que outros
tinhaô efcrito já , admittindo to-
dos fem exame hum Íyftema que a
experiencia contradiz.
E de faéto naô ba fal > que
naô feja oppofto à vegetaçaô, co-
mo póde facilmente convencer-fe
quem o quizer experimentar ; e if-
to pelo fundamento de que todo o
fal faz fufpender as acçoens ulte-
riores, a que os corpos tendem na-
turalmente ; 3 das quaes (fem fallar
na vegetaçaô ) huma he a fermen-
taçaô e
94 Problema
taçaô, ea outra a corrupçad; def-
ta todos Ífabem que o fal a impe-
de, e nelle eftá o melhor meio de
a impedir: a fermentaçaô tambem
fica fufpendida pela introducçaô de
qualquer fal, e em porçaô conve-
niente, no corpo do liquido fermen-
tavel. De forte, que naô fó os faes
falitos (que faô os acidos) impe-
dema vegetaçad, acorrupçaôd, ea
fermentaçaô, mas tambem os Íaes
dulciformes , como he oaflucar, e
outros femelhantes.
Naô fó os faes em fubltancia
fervem para impedir efficazmente
aquellas tres operaçoens ; ou acções
principaes da natureza, mas tam-
bem o vapor delles faz o meímo
effeito; porque o vapor, ou efpiri-
to, que exhalaô o fal commum, o
nitro, o enxofre, e todos os mix-
tos que contém falacido ; impedem
a cor-
De Architeltura Civil. gs
a corrupçao , a fermentaçaôd , eain-
da a melma vegetaçaô; efta total-
mente fe fufpende , como fe ob-
ferva nos montes, e lugares mine-
raes, donde os vapores fulphureos,
que dos mefmos mineraes fe exha-
laô, fazem a terra efteril para fem-
pre, porque os effluvios vaporo(os,
falinos , e corrofivos , reduzem a
mefma terra a huma qualidade cauí-
tica, e infecunda.
O vapor do enxofre inflam-
mado , fendo agitado em valo
proprio com qualquer liquido fer-
mentavel tambem (fuffoca inteira-
mente a acçaô de fermentar. Def-
te principio tem nafcido compofi-
çoens diverfas ; e huma dellas he
a que chamaô vinho Íurdo , o qual
naô he outra coufa mais do que o
mofto batido , ou mifturado com
o vapor do enxofre acezo; € E
Eca e
96 Problema
he o que enerva a aptidaô que to-
do o moíto tem para fermentar , fi-
cando por efte modo fem poder
mudar-fe , confervando a doçura,
que tem naturalmente a qual por
outro nenhum artifício conhecido
fe póde confervar melhor, nem re-
ter a mefma doçura taô conftante-
mente.
“- Eaffim de nenhum acido po-
demos afirmar com probabilidade
raciônavel , que feja proprio para
incitar, e promover a acçaô de ve-
getar; porque antes por muitos ar-
gumentos, e experimentos fe con-
vence que todos os acidos impedem,
e fuffocaô aquella mefma acçaõ,
deftruindo os efpiritos feminaes de
que toda a vegetaçaõ procede: e if-
to , ou feja por caula da corrozad
dos acidos, ou por outro qualquer
principio que lhes feja natural o fa-
éto
De Architeilura Civil. oz
éto de impedir, e enervar inteira-
mente a vegetaçaô , he certo, co-
mo a experiencia moftra facilmente.
Só temos huma objecçaõ con-
fideravel , que favorece o Ífyítema
aa temos reprovado , de que o aci-
o nitrofo he agente progenitor
de toda a vegetaçaô ; e vem a fer
que o nitro Íó porfi, e em fi mef-
mo, parece que vegeta , fem de-
pendencia de outro algum corpo ,
ou femente vegetal. E com efeito,
fe puzermos a difloluçaõ do nitro;
feita em agoa fimples em qualquer
vafo de vidro, de barro, ou de me-
tal, deixando eftar a difloluçaõ fem
a mover-por eípaço de alguns dias,
( contendo a agoa todo o nitro que
derreter ) veremos fem fallencia ,
começar o nitro a fobir pelos lados
do vafo que o contém, fazendo ra-
mificaçoens diverlas , e.à iii
de
98 Problema
de hum arvoredo criftallino , em que
fe diftingue admiravelmente a figu-
ra das raizes, troncos, folhas , for-
mando tudo a imagem agradavel
de hum boíque variado por mil mo-
dos, e em que o acido nitrofo, co-
mo unico architeéto , fez em pe-
queno efpaço, e em ana tempo
aquella meíma reprefentaçaô que
a natureza faz em grande , e depois
de muito tempo.
O fal commum, tratado pelo
mefmo modo , faz tambem as mef-
mas apparencias ; mas naô com
tanta fubtileza , nem com tanta fe-
melhança , nem com tanta graça;
affeclando fempre a fórma cubica
que lhe he propria, e que affeéta
fempre. Outros faes compoítos imi=
taô tambem aquellas reprefenta-
çoens falinas , tomando cada hu-
ma dellas a indole ou figura natu-
ral
De dribiseciura Civil. 99
ral dos mefmos faes. Porém o ni-
tro fimples excede a tudo , tanto
na variedade dos paizes que re-
prefenta viftofamente , como na
promptidaô , e propriedade com
que os imita.
E fendo afim , como havemos
de negar aos acidos , e principal-
mente ao acido nitrofo , a potencia,
ou alma. vegetativa , naô fó para
vegetar , mas tambem para exci-
tar vigorofamente a vegetaçad em
todos os fujeitos vegetaveis ? Com
que razaô havemos de difputar a
aquelle acido huma acçaô maravi-
lhofa, e fingular de que tantos EL-
critores eruditos o fizeraô (empre
author, cuja opiniaõ , feguida uni.
formemente ha tanto tempo, pa-
rece que tem preícrito; fe he que
nas materias phyficas tem lugar a
prefcripçaô ; e ainda que o naó te-
il! nha,
100 Problema
nha, he fem duvida que tanto he
erro o idear hum fyftema mal fun-
dado , como em arguir fem jufto
fundamento aquelle que eftá ple-
namente recebido.
Com tudo nem por iflo de-
vemos affentar que o nitro he ve-
getavel, nem que tem particular
propriedade para promover qual-
quer vegetaçao. Os faétos aflima
deduzidos, e ainda outros que fe
poderiaô expender a favor do mef-
mo intento, naô induzem mais do
que a apparencia de hum fyítema
verdadeiro , mas naô verdadeiro
com effeito. Alim Ífaô outros fyf-
temas, que introduzidos ha muito
tempo, e eftabelecidos tambem em
plaufiveis fundamentos , e corro-
borados com experimentos fingula-
res, nem poriflo faô mais certos;
porque de muitos phenómenos ad-
mira-
De Architeetura Civil. 101
miraveis refultaô confequencias in-
certas e falliveis ; porém depois que
fe examinaô maduramente , entad
a verdade fe deícobre, e a illufaô
defapparece.
O nitro he hum dos mixtos
que tem exagitado todos os enge-
nhos, pelos Íeus rariflimos effeitos,
fervindo de bafe , e argumento pa-
ra nelle fe fundarem muitos dog-
maticos difeurfos ; deítes alguns fe
fuftentaôd ainda , e com razaô plau-
fivel ; outros a experiencia def-
mentio, e moíftrou o contrario do
que. parecia : entre os-que fubfif-
tem, hum he o'que dá ao nitro a
virtude vegetante ; porém talvez.
que mal fundadamente ::e fuppof-
to que eíta materia feja de algum
modo alheia do prefente aflumpto,
com tudo, como feja util a fua dif
cuíflao, bom ferá que naó deixe-
G ii mos
10% Problema
mos indecifo o ponto, ainda que
naô foíle mais que para defabu-
zar os que inutilmente crem que
o nitro he bom para promover a
vegetaçaô das plantas, e que aílim
períuadidos trabalhao infruétuola-
mente na preparaçaô daquelle fal,
para com elle excitarem a força
das fementes vegetaes.
CAPITULO VL
Sfima diflemos que o nitro
vegeta por fi mefmo, como
fe verifica na diffoluçaô defte fal em
qualquer agoa : porém a verdade
he, que a chamada vegetaçaô do
nitro , naô he mais do que huma
fimples configuraçaô , ou fublima-
çaô do meímo fal, procurada pela
exha-
De Architelura Civil. 103
exhalaçaô , ou evaporaçaõ da agoa
que o contém : daqui vem a appa-
rencia de vegetar que o nitro faz;
apparencia viftofa com effeito, fe-
melhante á arte do pintor , que
imita tudo , fem dar realidade a
nada ; fórma a figura, naô a cou-
fa; debuxa hum corpo fem lhe dar
fubftancia alguma ; tudo fica para
a vifta, e nada para o fer.
O nitro pela. exhalaçaô da
agoa entra a criftallizar-fe fuccelli-
vamente; e nefta acçaô ;-em que fe
aparta da agoa , donde eftava , vai
ficando pelos lados do valo que o
contém , tomando ao melmo tem-
po a fórma de hum fal configura-
do por diverfos modos. À irregu-
laridade das fuas:partes, encadea-
das humas' pelas outras , faz o ap-
parato de hum bofque criftallino 5
ou de muitas arvores juntas entre
G iv fi.
104 Problema
6. Efta femelhança he fó fuperfi-
cial, provinda das particulas do
nitro unidas diverfamente; naô de
efpirito vegetal que as configure '
nem que as informe precifamente.
A mefma confufad , com que o nit-
tro tende a criftallizar-fe ,. le a que
vai difpondo as fuas partes para
formarem huma efpecie «de labe-
rinto ou! vegetaçad::
O que moíftra:fobre tudo que
aquella concrefcencia naô provém
de efprrito vegetante ,vhe que O
nitro, depois de vegetar por aquel-
le modo, naô adquire maior pe-
zo , e conferva o meímo que ti-
nha fem augmento algum; fendo
que a verdadeira vegetaçaô fempre
induz pezo maior , e maior volu-
me no fujeito que vegeta ; porque
o vegetar he hum principio de cref-
cer , até chegar ao tamanho pros
prio
De Arcbiteblura Civil. ros
prio do corpo vegetante; e tudo o
que .naô crefce ; naô adquire: mais
volume nem mais pezo , e por con-
fequencia: nad vegeta ; porque a
vegetaçaô Ífuppoem- precifamente
hum tal ou. qual augmento de ma-
teria, e de fubltancia, e donde o
naô ha, tambem naôd ha verdadeis
ra, e formal vegetaçaô. À corrup-
çaô diminue hum corpo, a vege-
taçaô: o augmenta .;. faô duas' ac-
goens'contrarias; huma tende a fa-
zer, e outra a desfazer.
- — "Temos a arvore, aque os ar-
tuftas chamaô de Diana, a qual naô
he outra:coufa maisc do: que huma
fimples difloluçaô do. azougue na
agoa forte ; nefta fe fórma huma
ramificaçaô perfeita , que reprefen-
ta huma arvore com frutos, e com
tanta fingularidade , que caufa ad-
miraçaô a quem nunca. a vio, nem
conhe-
106 Problema
conhece o artifício. Parece com
effeito huma vegetaçaô metallica ;
porque tudo , quanto a vifta póde
deftinguir , naô he mais do que
hum metal perfeitamente vegeta-
do.. Porém nada diflo he; porque
o mais leve movimento desbarata
a arvore ,re o metal fe precipita
ao fundo do valo que o contém ;
e além difto, o pezo do mercurio
he fempre o mefmo, cuja circunf-
tancia indica claramente , que na-
quella operaçaôd naô ha mais do.
que huma vegetaçaô illuforia, e
apparente.
Por outro modo, e naô fabi-
do ainda, fe póde fazer vegetar a
prata em breve tempo; para o que
tome-fe huma porçaô arbritraria de
prata pura , e granulada , e pondo-
fe em retorta de vidro forte, por fi
ma fe lhe deite o azougue em por-
“çaõ
De drcbiteélura Civil. 10%
çaô dobrada a reípeito do pezo que
a prata tinha ; ponha-fe a retorta
em fogo de reverbero, e na boca
della fe lhe applique hum vafo de
vidro, ou barro, com agoa fimples
até ametade da fua cavidade inte-
rior. Adminiftre-fe hum fogo len-
to no principio , e depois fe aug-
mente em fórma , que todo o azou-
gue paíle por deftillaçaô ao reci-
piente. A operaçaô fe faz dentro
em duas , outres horas. Ficará a
prata na retorta 'fingindo hum ad»
miravel boíque compoifto de. arvo=
res diverfas , tanto no tamanho ,
como na figura; em humas partes
argentinas, e brilhantes , em ou-
tras de hum branco .efcuro; e em
outras como de hum pallido: dou-
rado.
* Affim parece que a natureza
fe diverte a illudir os noflos olhos,
eá
108 Problema
e a nofla arte, moftrando-nos o que
naô he , em figuradas, e fingidas
reprefentaçoens, à maneira de hum
fonho dilatado ; em que entendemos
ver mil imagens diferentes , mil ca-
fos, e fucceílos raros, fendo. tudo
unicamente effeito de huma fanta-
fia turbada , e delirante, ou de hu-
ma idéa vaporofa, e defordenada.
Aflim fe enganaô os fentidos no ef-
paço que dura hum fono turbulen-=
to; e fe enganad, da mefma forte
que os noflos olhos acordados fe
allucinaô com objeétos' parecidos,
mas nem por io verdadeiros ; tan-
to-he: certo, que apenas podemos
diftinguir a verdade da illufao , a
imagem natural, daquella que naô
he mais do que apparente.
Ifto vemos naquella vegeta-
çaô da prata, em que efte me-
tal; incapaz de vegetar, como os
* outros
De Architeélura Civil. 109
outros todos, e tambem como to-
dos os mineraes , toma com effei-
to huma fórma vegetante , finge
hum prado, hum jardim, hum bof.
que; e com taô viftofa fingularida-
de, que oartifice fe admira a pri-
meira vez que a vê, como Íucce-
deo ao expertifimo Grofle alumno
da Academia Real das Sciencias de
Pariz meu Meftre nos experimen-
tos Chimicos , e a quem devo os
primeiros elementos daquella admi-
ravel arte, cuja memoria me ferá
refpeitavel fempre naô fó pelas vir-
tudes moraes , de que era ornado ,
mas tambem pela candidez, e def-
interefle com que quiz tomar o tra-
balho de inftruirme : foi Alemaô
de nafcimento, e o moflrou fer na
finceridade do feu animo, imitan-
do as qualidades generofas, que (ad
proprias, e naturaes naquella eru-
diuffi-
TIO Problema
ditifima naçaô. Recordo-me do il-
luftre nome daquelle Academico fa-
mofo , cujas obras fazem o feu elo-
gio mais permanente ; e neíta lem-
brança fundo o faudofo modo de
moftrarme agradecido á amizade fiel
que fempre lhe devi.
Tinha fido o meu intento o
purificar o azougue de algumas fe-
zes fulphureas, que o acompanhaõ
muitas vezes; ea prata me pareceo
hum corpo idoneo para aquelle fim;
entendendo que as partes Íulphu-
reas, e unctuofas do azougue ha-
viaô de unir-fe à prata, e que O
azougue na deftillaçao pallaria pu-
ro. Porém a experiencia defmen-
tio o difeurfo ; porque o azougue
naô ficou adquirindo mais pureza
que aque tinha, ea prata, que fi-
cou no fundo da retorta, tomou a
figura vegetal, como temos dito ;
mas
De drchiteélura Civil. 11
mas nem por illo a prata vegetou,
como parecia; porque pezada de-
pois continha o mefmo pezo fem
augmento algum : e fegundo o prin-
cipio que temos eftabelecido , nad
ha verdadeira vegetaçao , donde
naô ha augmento de pezo, e devos
lume.
Ha outro experimento raro;
que indica com mais probabilida-
de , que em hum corpo incapaz
de vegetar, póde encontrar-fe hum
efpirito formador, e femelhante a
aquelle, de que refulta a vegetaçaôd.
Deftille-fe o azougue doze vezes
fobre o eftanho puro de Cornualha;
na ultima deftillaçao ficará o efta-
nho fundido no fundo da retorta ;
efta fe quebre , e fe lime o eftanho.
Etfte eftanho limado deitando-fe fo-
bre o azougue deftillado, no mef-
mo inftante as particulas do metal
fe
IIZ Problema
fe juntad , e formaô muitos corpos
Íolidos, e regularmente cubicos. À
figura folida, regular , e formada
em hum inftante, naô tem exem-
plo em outro experimento algum ,
e parece que denota hum efpirito
agente, e vegetante. Os Phyficos
poderad indagar attentamente a
caufa daquella .configuraçaô metal-
lica : eu defeubro a operaçaôd; ou=
tros poderãd dar a razaô della,
porque eu a naô fei ; por cafuali-
dade a encontrei, bufcando outra
coufa mui diverfa; agora facile efê
inventis addere.
Com tudo o phenómeno pro-
poíto naô deve perfuadirnos que
o eftanho vegete por aquelle mo-
do ; porque examinado depois da
referida operaçaô naô tem aug-
mento algum no pezo, e fica com
as meímas qualidades , e proprie-
dades
De Architeétura Civil. 113
dades efpecificas de hum tal metal;
a mudança fó confifte na figura,
e naô no pezo , e no volume: e
em quanto naô virmos que hum
corpo crefce , naô podemos dizer
que vegetou ; porque a mudança
de figura naô he vegetaçaô ; as
partes devem crefcer em volume ,
e pezo, fem o que naô fe póde
afirmar que vegetaraô. Temos vif-
to que os metaes naô tem facul-
dade vegetativa. Continuemos a
moftrar a mefma conclufad a ref-
peito dos faes que conhecemos.
CAPITULO VI.
T Odos os Authores , que efcre-
veraô da Agricultura , a ffentad
commumente em que os Íaes da ter-
ra
114 Problema
ra faô os que a fertilizad ; por io
dizem que a terra, depois de repe-
tidas producçoens, canfa, por lhe
faltarem aquelles faes que foi em-
pregando nas producçoens antece-
dentes , ficando para os mais annos,
fendo huma terra ufada, e pouco
vigorofa. Porém aquelles faes nun-
ca os pude achar, nem ver; e por
mais que examinafle com cuidado
varias terras, naô encontrei nellas
os faes de que fe diz depende a fua
fecundidade : talvez que outros fi-
zeflem melhor exame ; porém na
Phyíica cada hum eftá pelas fuas
proprias experiencias, e difcorre fe
gundo o que acha nellas.
O que de fa£to fe encontra
na terra quafi fempre he huma ma-
teria inflammavel, e unétuofa; de
que refulta que muitas terras ex-
poftas ao fogo ardem como o car-
vaõ ;
De Archisektura Civil. 115
vaô; e o melmo carvad de pedra
naô he mais do que huma terra, em
que abunda o principio fulphureo,
e inflammavel que a faz arder, co-
ma denota bem fenfivelmente o chei-
ro ingrato , e pouco faudavel do
carvaô de pedra. Outras terras ar-
dem com menos fortaleza, porque
nellas naô abunda tanto aquelle
principio inflammavel , que he de
donde procede a inflammabilidade
do enxofre, e de outros mixtos fe-
melhantes.
Além difto, todo o fal, de qual-
quer genero que feja,he fummamen-
te oppofto a toda, e qualquer ve-
getaçaô, como facilmente fe póde
experimentar; e ifto porque faz fuf-
pender as acçoens.ulteriores, a que
es corpos tendem naturalmente , ca-
mo (ad (além da vegetaçaõ ) a fer-
mentaçaà, e acorrupçao; porque
Hi todos
116 Problema
todos eftes tres movimentos natu-
raes ficad como prezos , e fem ac-
çaô, todas as vezes que algum fal
compofto , ou natural fe junta a el-
les: com o que fe verifica que ne-
nhum acido he proprio para fecun-
dar a terra.
Porém fe o acido do ar, de-
pois de efpecificado , e corporizado
em nitro, he inutil, e contrario a
toda a vegetaçaô; com tudo tem vit-
tudes fingulares , e efpantofas em
outras occafioens, e em outras ac-
çoens da natureza. Na Medicina
naô fe dá hum melhor refrigeran-
te, nem mais benigno, nem mais
feguro; e das compofiçoens Phar-
maceuticas, que tem por bafe o ni-
tro, faô efficazes ( fendo applica-
das congruentemente ) o Antiphlo-
giftico , ou criftal mineral , cha-
mado tambem Sz/ Prunelle. O fal
Poly-
De Architectura Civil. 117
polycreíto he excellente febrifugo ,
principalmente nas febres intermit-
tentes. O nitro nitrado naô he de
menos efficacia nas febres arden-
tes.
Todas eftas compofiçoens,que
nos feus principios foraô achadas,
e reveladas em fegredo , depois de
fe haverem vulgarizado foraô ef.
quecendo de algum modo , ficando
menos indicadas na pratica; talvez
por naô terem Ífucceilo igual em to-
dos os calos , e em todas as occa-
fioens; fendo que, fe os mefmos pra-
ticos ufaflem de juntar o nitro ás
preparaçoens de kina, entaô veriad
feliciflimos fuccellos ; e fe ilto he
hum fegredo , eu o revelo aqui,
fem que me embarace a razaô in-
jufta , em que fe fundaô os artiftas
quando , para occultarem algumas
coufas uteis que defcobriraô , alle-
H ii gaô
,18 Problema
ga” como axioma aquelle que diz :
«drcanum revelaram vilefcit.
No artefacto da polvora fe vê
hum dos mais poderozos, e fubli-
mes effeitos do nitro; o qual imi-
tando a luz repentina dos relampa-
gos , o ruidofo eftrepito dos tro-
voens, o eftrago inevitavel dos raios,
moftra fer o agente principal da-
quelles corufcantes meteóros, e ló
com a notavel diferença de fer a
polvora , e juntamente o nitro hu-
ma obra das mãos dos homens, e
poder fer adminiftrado , e dirigido
tambem pela maô dos mefmos ho-
mens, em lugar que aqueles phe-
nómenos tremendos , os elementos
faô os que os compoem, e lhes daô
o movimento.
Compoem-fe a polvora de nt-
tro, de carvaô, e enxofre ; eftes
dous ingredientes podem fer fubfti-
tuidos
De Architectura Civil. 19
tuidos por outros , igualmente in»
flammaveis, e de qualidade igual :
fó o nitro naô póde fer fubftituido
por outro nenhum fal; porque ne-
nhum ha, que tenha a fua nature-
za, nem que poíla entrar em feu
lugar naquella compofiçaõ ; de for-
te, que ainda que naô houvefle en-
xofre, nem carvaô, fempre pode-
ria haver polvora , mas de nenhum
modo a pode haver fem nitro.
Os Philofophos antigos ; ainda
fem conhecerem a qualidade defte
fal, chamaraõ-lhe Jupiter fulmi-
nante, porque viraô que, eftanda
junto a tados os corpos inflamma-
veis, ou foflem animaes, vegetaes;
ou minerães , em fentindo o ardor
do fogo fazia a mefma deflagra-
aô que o raio faz. Até que hum
Religiofo Chimico (fegundo a tra-
diçaô commua ) querendo extrahir
H iv do
120 Problema
do nitro hum efpirito mais forte, e
mais activo, mettendo em retorta os
tres ingredientes , eftes apenas fen-
tiraô o calor do fogo , quando em
acçaô repentina rompendo o car-
cere da retorta , fe exhalaraô in=
flammados , deixando o Chimico
fem o efpirito forte que buícava ,
e talvez por milagre com o que
tinha.
Defte phenômeno veio a naf-
cer depois a polvora , naô bufca-
da entaô, mas achada por acafo ;
e por mais que os Phyficos fe te-
nhaô empenhado na explicaçaô dos
feus tremendiflimos effeitos, dedu-
zindo eftes da elafticidade , expan-
fibilidade, e incoercibilidade do ar
que o nitro tem como comprimi-
do em fi; efta explicação he: pou-
co intelligivel , porque em todos
os mais corpos fe dá hum ar elaf,
tico
De Architeetura Civil. 121
tico , expanfivel , e incoercivel, fer
que em nenhum delles fe obferve o
movimento , e acçaô local que o
nitro tem todas as vezes, que eftan-
do involvido em materias inflam-
maveis chega a fentir o calor do fo-
go. E aflim de outro principio de-
vem de refultar as fuas proprieda-
des eflenciaes; e Ífuppoíto que até
agora fe: naô tenha defcoberto; o
tempo o defcobrirá talvez, & da-
bit dies, quod bora negat.
Em quanto diícorremos fobre
o nitro , juíto ferá dizer que naô
ha para que execrar, nem abomi-
nar o invento fingular da polvora
com o pretexto de fer hum artifício
ideado para ruina, e extincçaô dos
homens ; porque refpondendo a ef-
ta preoccupaçaô vulgar , póde af-
firmar-fe com verdade que a pol-
vora naô foi mais inventada para ex-
tincçad
IZ2 Problema
tincçaô dos homens , que para a
confervaçaôd delles ; aflim como ou-
tros muitos artifícios, de que o ufo
commum nos faz conhecer o bem;
e o abufo nos faz tambem conhecer
o mal,
- Aquelle, que primeiro defco-
brio o modo para dar ao ferro iner-
to a figura de hum inftrumento agu-
do ; foi tambem o primeiro que en-
finou a tirar a vida com aquelle du-
rilimo metal: efte na fubltancia he
innocente , e ainda na figura pro-
pria para o mal: a culpa fó póde
eftar na maô que dirige o golpe,
naô no inftrumenro que executa.
À terra, que produz a rofa faluti-
fera, tambem produz o opio ver
nenofo; mas quem ha de culpar a
terra pela qualidade que tem de
fer mãi univerfal? Tudo, o que ha
no mundo , he proprio para a vi-
da,
De Arcintectura Civil. 14 3
da, eparaa morte: ascoufas, que
tem huma propenfaô nociva , efta
lhes vem mais da applicaçaô de
quem fe ferve, que da fua-natus
ral malignidade. A vibora mortal
he antidoto de fi meíma:: tanto
he certo que o bem, eo mal tem
a mefma origem , o mefmo naf-
cimento , e fe criaô no mefmo
berço.
O ferro tanto conduz para of-
fender , como para defender ; he
como hum remedio, que repercúte
os feus proprios accidentes ; e tu»
do , o que he remedio , he permittis
do quafi fempre , em lugar que o
impulfo do aggreflor raras vezes
tem difeulpa. Que triíte feria a con-
diçaô dos homens fem o ufo daquel-
le guerreiro , e tambem pacifico me-
tal! O mefmo deftino tem'a pol
vora ; ella fe ide, tambem de-
fende.
124 Problema
fende. Louvemos a providencia na-
quelle sartificio facil, por meio do
qual quiz igualar as forças def-
iguaes. Hum homem ainda meni-
no, ou já triftemente annolo , ou
já valetudinario , e debil , que defe-
za póde ter contra o que for robuf-
to, mancebo, eforte? Outro de
eftatura inferior , e de membros de-
licados, como póde refiftr à força
de hum gigante ?- Nefte cafo quem
vence he a natureza , naô o esfor-
go; e o render-fe fica fendo parti-
do neceflario : os opprimidos ac-
cufariaô juftamente o desfavor do
feu mefmo fer; e injuftamente os
oppreílores entenderiaô dever á re-
foluçad do animo o que fó deve-
riaô ao pezo do volume ; fendo
que o valor ainda vencido tem
mais eftimaçaô , do que o venci-
mento fem valor A polvora veio
fazer
De Archivektura Civil. 125
fazer iguaes , a força a eftatura,
a idade.
Nos combates grandes ferve
a polvora para as mefmas circunf-
tancias, para que ferve nos comba-
tes particulares ; porque fuccede
ás vezes o defenderem-fe poucos
contra os aflaltos de muitos: fe fe
lerem as hiftorias antigas , ha de
achar-fe que os confliétos entaôd du-
ravad mais, e eraô mais fanguino-
lentos , e nunca fe acabavad fem
deftroço univerfal. Depois que a
polvora entrou tambem a militar ,
os combates naô faô .taô obítina-
dos ; como fe aquelle artifício hor-
rendo fizefle: o furor dos homens
mais civilizado : ao menos póde
confiderar-fe a polvora como hum
inimigo , cuja acçaô he de mais
longe; aquele, que eftá perto, he
formidavel até pelos fignaes de o
em-
TZá Problema
femblante irado. E com efeito a
artelharia bem difpofta , e elcon-
dida, em fe deixando ver decide o
dia :. os batalhoens contrarios, con
tra quem ella fe dirige, faô os pri-
meros que baixando as armas , e
eftandartes acclamaô a vitoria. Que
felicidade de vencer ,' e tambem
que felicidade de ficar vencido ! a
empenho fe conclue antes que as
lanças cheguem: a medir-fe, e an-
tes que as eípadas cheguem a to»
car-fe.
Bem fei que nem fempre fe
compra a vitória taô barata ; po-
rém bafta que fe compre alguma
vez por aquellepreço ; por efte mef-
ma a procura alcanfar o Capitaô
experimentado.;; e efle he todo o
fen-objetto ; porque fá a barbarida-
de Grega media pelo fangue a qua-
dade das emprezas ; hoje mede-fe
pelas
De Arcbitebtwra Civil. 127
pelas confequencias que fe feguem,
naô pelos eitragos antecedentes;
e tem-fe por defaire da vitoria o ha-
ver cuftado muito.
“Tambem fei que aquelle arti-
ficio impetuofo he prompto, e ar-
rebatado , e que ainda dura me-
nos, que hum abrir , e fechar de
olhos ; porém na guerra que im-
porta que a morte feja breve, ou
efpaçofa ? taô leves fad as fuas amar-
guras, para que fe haja de querer
tomar-lhe algum fabor? Ao menos
o mórrer de preíla he morrer fem
dor», ou com muito menor. dor ;
porque aflim como nada fe faz fem
tempo , tambem fem tempo nada
fe fente; e que fe póde .fentir no
imperceptivel efpaço de hum imf-
tante? O raio quando fere dá tem-
po para penar? O accidente mor-
tal, que de improvifo chega , deixa
os
128 Problema
os fentidos com viveza para fentir ?
ue infeliz fituaçaô he a de hum
Soldado valerofo , quando , ferido
mortalmente, ainda reípira; e que
fervindo de theatro, ou chad, pa-
ra os que vaô paílando , outros ca-
daveres fobrepoítos, apenas o dei-
xaô palpitar ! Só para adquirir a vi-
da eterna póde conduzir hum tal
tormento ; porque todo o genero
de tormento, fe fe applica bem, con-
duz para ditofo fim; ainda que quan-
do fe padece, fó por infpiraçaô , e
favor celefte póde haver lembran-
ça de outra vida que fe efpera ;
porque naturalmente quem fe acha
agonizando , já eftá morto para tu-
do , e até para faber que morre ;
entaô o ter dor de haver pecca-
do , fó fuccede a aquelles , de quem
difle elegantemente, ainda que fa-
bulofamente o difereto Mantuano:
Quos
De Architeélura Civil, 119
OQuos equus amavit
- Suppiter, aut ardens evexit ad
«tbera virtus.
Temos difcorrido fobre os effeitos
do nitro na compofiçaõ da polvora:
refta-nos dizer tambem as virtudes
daquelle mefmo fal a refpeito dos
metaes, ou ao menos huma das mais
confideraveis. O nitro deftillado por
meio dos intermedios competentes,
dá o famofo efpirito corrofivo cha-
mado efpirito de nitro; e quando
o vitriolo, ou a pedra hume ferve
de intermedio , o efpirito , que pro-
vém na deftillaçaô , he aquelle a
que chamamos agoa forte , cuja
ferventia naô fó fe eftende ao uío
das artes mechanicas vulgares, mas
tambem tem lugar quotidiano na
pratica da Medicina.
Na agoa forte fe funda intei-
I ramen-
130 Problema
ramente a Docimaíftica, ou arte de
enfaiar o ouro. Enfaiar quer di-
zer (nos termos daquella arte ) co-
nhecer os quilates que o ouro tem,
e conhecer tambem os dinheiros que
tem a prata; e ifto a fim de fe fa-
ber o valor de cada hum deítes
metaes, cujo valor he derivado dos
quilates do ouro , e dos dinheiros
da prata. Da operaçaô do enfaio de-
pende aquelle tal conhecimento de
forte , que fem o nitro, de que fe ex-
trahe a agoa forte , difhcil feria, por
naô dizer impoflivel, o faber verda-
deiramente, e com exaétidad o va-
lor daquelles dous excellentifimos
metaes: o exame, que delles fe faz,
a que chamaô pelo toque, he con-
Jeétural, incerto, e duvidofo , por-
que pende mais da perfpicacia , e
agudeza da vifta, que de outra al-
guma regra certa; e tudo o que
depen-
De ArchitetiuraCivil. 131
depende de hum arbitrio regulado
pelos olhos, he fallivel muitas vezes,
porque igualdade naô a póde haver
entre olhos diverfos : Ífendo que
quando a queítaô he determinar
qual feja o valor de algum metal,
o mais leve engano [empre induz
prejuizo grande; e por iflo às ve-
zes naô fe julga bem quanto valo
ouro, e quanto a prata val, fe o ar-
tita. fó fe guia pelo toque.
Devemos pois ao nitro o fer a
rimeira , e indifpenfavel bafe em
que fe eftabelece , e funda a arte
de enfaiar ; a propriedade, que tem
o feu efpirito de diflolver perfeita-
mente a prata, e deixar o ouro in-
tafto, he fómente o de que reful-
ta huma taô eftimavel , e util in-
vençaô. Porém naô faô muitos os
artífices que praticad aquella arte
com conhecimento de principios ;
Li exer-
132 “Problema
exercitaô como por tradiçaô , fe-
guindo a fórma que viraô exerci-
tar a outros. Vem que a agoa for-
te diflolve a prata, e o ouro naô ;
mas naô inquirem o porque aflim
fuccede. Sabem v. g. que efta agoa
forte he debil, e que outra tem a
actividade neceflarta; mas faô me-
nos curiofos na indagaçaô do fun-
damento,porque acontece aflim. Sa-
bem o methodo de extrahir da agoa
forte a prata diflolvida nella , mas
naô examinaô fempre fe a aprovei-
taraô toda. Eftas, e outras muitas
circunftancias faô com tudo eflen-
ciaes , e ainda mais precifas do que
podem parecer.
Porém fallando finceramente,
nad fe póde culpar , nem arguir por
modo algum a menos perícia do ar-
tifice neíta arte, naô fó porque ha
poucos meítres que tenhaô cabal in=
telli-
De Árchitetlura Civil. 133
telligencia della , mas tambem por-
que os meímos metres raramente
enfinaô tudo quanto fabem , como
fuccede vulgarmente em todas as
mais artes que tem os metaes por
objecto principal; refervando para
fi, e em fegredo o modo de obrar
mais facil, e mais certo : a efte mo-
do de obrar chamaô os Latinos:
Manipulatio, e os Francezes com
energia mais fignificativa chamaô
a aquelle meífmo modo: Letour de
main.
Os meftres, que enfinaô por
obrigaçaô, julgaô ( naô fei fe bem)
que cumprem a obrigaçaô, enfinan-
do fó aquillo , de que foraô enfina-
dos, e naô o que alcanfaraõ por fi
mefmos: Quod accepi , id ipfúm do.
Se enfinaô mais do que aquillo de
que forad inftruidos , entendem que
nefla parte ufaô de huma mera li-
Liu bera-
134 Problema
beralidade. E além difto, nem to-
do o Jurifcunfulto póde faber para
enfinar ex Cathedra ; nem todo o
Medico fabe diftinguir a enfermida-
de que he dificil de curar ; nem to-
do o Militar fabe difpôr bem a fór-
ma de hum ataque ; e da mefma for-
te nem todos os artiftas podem co-
nhecer a arte por principios, e pro-
fundamente ; a materialidade baíta.
Todos, e cada hum nas fuas profif-
foens parece que cumprem com
aprenderem ; o faber menos com-
mumente naô he culpa; devem ef.
tudar para faber; porém fe eftudan-
do o naô confeguem , ficaô incul-
paveis, porque entad o vício he (ó
da natureza, naô do Íujeito. O de-
lito provém do animo , ainda mais
que do faéto do deligto meímo: e tal-
vez que o erro fó venha da mali-
cia, e nunca da ignorancia ; por-
que
De Archireélura Civil. 135
ue o mal confifte em fer conheci-
E e feito.
De tudo, quanto temos pon-
derado , a conclufaô para o noílo
intento , he, que no ar ha hum
acido verdadeiro ; ou feja de qua-
lidade nitroza , vitriolica , ou de
outra qualquer , fempre he certo
que efle memo acido corróe , dif-
folve, penetra , e altéra todas as
pedras que naô tem dureza capaz
de lhe refiftir. Os edificios, que ef-
taô nas vizinhanças do mar , ou
de outras agoas correntes, ou pa-
ludofas , faô os mais expoítos; por
io fe ha de ver, que as pedras
menos duras , de que os feus muros
fe compoem , facilmente contra-
hem concavidades, perdendo pri-
meiramenre a uniao exterior das
Íuas partes, ficando eftas divifiveis,
e como pulverulentas, e aflim vaô
Liv conti-
136 Problema
continuando até que pela fuccef-
faô do tempo vem a ficar desfei-
tas todas as daquella qualidade. A
vizinhança das agoas , enchem a
atmofphera vizinha da humidade
dellas, e entaô o acido do ar tem
hum vehiculo continuo , e proprio
que o conduz, e o faz como fub-
fiftente nos corpos em que tem
acçaô.
Naô fó nas pedras fe verifica
aquella propofiçaô ; em outros cor-
pos fuccede o mefmo , e tem a
mefma Íujeiçaô; e no ferro a ve-
mos praticada muitas vezes , e mais
promptamente que em outro cor-
po algum; por iflo para o defen-
der do acido do ar, coftuma pin-
tar-fe , ou olear-fe o ferro; por-
que geralmente toda a materia un-
étuofa repelle eficazmente o aci-
do, por fer impenetravel a corro-
faôd
De ArchiteluraCivil. 137
faô mordaz daquelle agente, eim-
penetravel tambem a toda a forte
de humidade. Daqui vem que o
ferro defcoberto , e fem defenfa,
mais fe inficiona no tempo humi-
do, e chuvofo, que no tempo fec-
co; naô porque nefte efteja O ar
fem acido, mas porque entaô lhe
falta , ou tem menos vehiculo de
humidade.
Alguns ferros vemos em gra-
des antigas, e em fituaçaô perpen-
dicular , que tem a parte inferior
roida, e reduzida em ponta agu-
da, confervando inteira , e illefa
a parte fuperior, e com a meíma
figura que teve fempre. A cauía
defta diferença naô he taô facil
de encontrar como parece, ainda
que o faéto he certo, e perma-
nente, como póde obfervar-fe fa-
cilmente nas grades das Tercenas,
deita
138 Problema
defta Corte ; na figura oblonga ,
e perpendicular, achaô-fe algumas
propriedades que outra qualquer
configuraçao, e fituaçad naô tem.
Fe bem fabido que o ferro
fem artificio algum mais, que o
de certo tempo, adquire todas as
virtudes magneticas, mas ha de fer
naquella mefma configuraçao , e
fituaçaô ; de forte que pofto em
mafla efpherica, quadrada , trian-
gular, ou outra qualquer, já naô
adquire nenhum dos dotes fingulares
que o Iman tem. Quantas quef-
toens, e indagaçoens phyficas po-
deriaô excitar-fe , fundadas naquel-
le phenómeno vulgar , e fimples !
He vulgar no que refpeita a magne-
tizar-fe o ferro; mas naô o he na
circunftancia , de que o ferro oblon-
go , e perpendicular , fica a Íua par-
te inferior mais expoíta à acçaô do
ats
De Architeélura Civil. 139
ar, do que a parte Íuperior. Dei-
xo ao Leitor eftudiofo o cuidado
litterario de indagar a caufa.
Os edifícios, que eftaô mais
chegados às agoas falgadas , faô os
que padecem mais , quando faô for-
mados de pedra menos dura; por-
que o ar mais falino daquellas agoas
faz huma atmofphera quafi corrofi-
va, emais propria para penetraras
pedras em que a falta de dureza fa-
cilita a penetraçaô ; por iflo em cer-
tos caíos, e em certas enfermida-
des he mui conveniente que o in-
fermo naô perfifta em lugar mari-
timo , e efteja apartado delle o mais
que puder fer , porque a exhala-
çaô falgada he naquelles cafos co-
mo hum veneno que continuamen-
te fe reípira, e que faz aggravar
o mal confideravelmente. Peg
vem que alguns quizeraô inferir que
a nau-
140 Problema
a naufea que importuna aos que
começaô a navegar , procedia do
fal do mar vellicando as fibras efto-
machaes : porém cuido que injuf
tamente fe attribue ao fal do mar
hum tal effeito ; porque o mais cer-
to he que o devemos attribuir uni-
camente ao movimento ondulante
das agoas que fe movem ; o qual
perturbando de algum modo as par-
tes nervolas da cabeça , efta he a
que faz comprimir o eftomago, de
cuja compreflaô refulta o vomito ;
porém deixemos efte: ponto ao Me-
dico erudito, para que naô fe diga
que em tudo mettemos a fouce em
feara alheia.
De Architeltura Civil. 14x
CAPITULO VIL.
À fabrica dos edificios entraô
muros , e madeiras ; deítas
naô tratamos , porque a prefente
difcuflaô fó tem as paredes por af-
fumpto : ellas fuftentaô o pezo do
edificio; e da fortaleza dellas de-
pende a duraçaô ; todas as mais par-
tes faô de menos confequencia , e
podem fer menos efcrupulizadas
fem prejuizo irreparavel.-Os mu-
ros devem fer formados com mate-
riaes finceros , e naô fophifticados:
qualquer ingrediente improprio faz
que o muro fique contrahindo hu-
ma qualidade caduca , e fempre im-
peditiva da fua perfeiçao. O mate-
rial inficionado he como hum mal
inte-
T42 Problema
interior, e perpetuo que contami-
nando a fubltancia toda, naô póde
admittir remedio. Logo veremos o
em que confifte aquelle mal.
A pedra, com que fe fabrica
nefta Corte (exceptuando alguma
de qualidade branda , e conhecida-
mente má ) he excellente, nem fe
póde dar melhor, nem que condu-
za tanto para a duraçaô; e fea if-
to accrefcentarmos a abundancia
della , diremos com razaô que a
Providencia quiz favorecernos , an-
ticipando a exiftencia , e bondade
da pedra para repararmos as ruinas
nas occafioens de terremotos. As
pedreiras, que contém a ribeira de
Alcantara, podem baftar , naô fó pa-
ra reedificar-fe huma Cidade popu-
lofa,mas para fe edificarem outras de
novo. Da melima pedra fe faz a me-
lhor cal, cuja força excede a todas;
e com
De Architeétura Civil. 143
e com efeito, fe fe examinalle a qua-
lidade da cal com que fe fabrica
em Londres , em Pariz, e em ou-
tras muitas partes , achar-fe-hia que
nenhuma dellas póde comparar-fe
com a noffa tanto em aétividade,
como na brancura.
Naô he menos perfeita a arêa,
nem em menos abundancia ; por-
que temos montes inexhauriveis
e terrenos dilatados , dunde póde
extrahir-fe facilmente aquelle ma-
rial indifpenfavel. A aréa, que a
“Trafaria tem, he moralmente in=
extinguivel. Naô importa que haja
de exigir mais cal; porque defta de-
pende a liga , ou uniaô dos mate-
riaes. Seja embora com mais algum
difpendio ; a fortaleza da obra pa-
ga tudo largamente. Huma defpe-
za maior naô aflombra a quem quer
edificar com fegurança, Que dif-
golto
144 Problema
gofto naô tem o proprietario quan-
do logo depois de acabada a obra
a vê mal fegura , e defeituola ? No
principio todos querem edificar com
economia ; porém depois o arre-
pendimento he certo; e entaô he
que confideramos que, por fogir a
alguma maior deípeza , vimos a def-
pender mais.
A boa economia nad confifte
em defpender pouco; mas em naô
tornar a defpender na mefma coufa.
Seja Íordida a economia na fabri-
caçaô de huma barraca, ou de ou-
tra qualquer obra humilde ; mas
naô deve fer aílim nos edifícios fum-
ptuofos ; eftes fazem a decoraçaô
das Cortes, e Cidades; e toda a
decoraçaô ha de algum modo pro-
metter a meíma duraçaô da coufa
condecorada. O ornato tranfitorio
ou he feminil,ou de theatro. Os tema
plos,
De Architeélura Civil. 145
plos, as habitaçoens Reaes, osmo-
numentos , e edificios publicos , fen-
do feios para em quanto durar o
mundo , devem fer fabricados neíla
intençao.
He certo que nefta Corte,
e para os edificios della, temos ex-
cellentes materiaes ; e fendo aflim,
porque razaô os edificios modernos
naô tem a duraçaô que os antigos
tinhaô? Será por ferem fabricados
mal? Tambem naô he por efla
cauza ; porque de faíto temos of-
ficiaes peritos, architeétos admira-
veis que fazem executar tudo com
notavel perfeiçao , e fegundo .as
regras mais exactas. A obra, verda-
deiramente Real, de Mafra., foi
huma efcola, ou academia univera
fal, de donde fahiraô os metres
mais feleétos. Defde aquelle tem»
po até o prefente naô tem perdi-
K do
146 Problema
do nada aquella arte, antes vai
fempre florecendo com augmento
conhecido , animada pelo Auguf-
tifimo Monarca , que a protege.
Sendo bem conftante que as ar-
tes, e as ciencias protegidas ad-
quirem mais vigor, e fe adiantad
confideravelmente, a mefma protec-
çaô parece que as inípira. Qual
he pois o principio infaufto, por-
que em tantos edificios naô cor+
refponde a duraçaô a tantas felices
circunítancias ?
Já diflemos que o fegredo to-
do eftá na eleiçaô dos materiaes,
e em fe advertir de que importan-
cia feja a pureza, e fimplicidade
delles. Das pedras já diflemos tam-
bem que devem fer aquellas que
tenhaô a dureza neceflaria para re-
fiftir à corrofad elementar. A pe-
dra, que chamaô verdadeira lioz,
tem
De Architelura Civil. 147
tem aquella qualidade ; outras há,
commumente, e injuftamente re-
provadas, como faô todos os fei-
xos das praias, e humas que pa-
recem vidro, e daô fogo fendo to-
cadas com o aço. Eltas pedras, que
alguns artífices condenaôd dizendo
que naô caldeaô por ferem frias,
naô merecem femelhante reprova-
çaô; porque a frialdade he qualt-
dade puramente imaginaria nas pe-
dras; e o naô caldearem prompta-
mente naô he por ferem frias, mas
porque afigura liza uniforme, e
de alguma forte regular em todas
as fuas fuperficies, faz que a cal
naô tem donde pegue facilmente,
nem donde faça preza, como faz
nas outras. pedras de figura efca-
broza e impolida. Porém aquellas
mefmas pedras , depois de haver
paíflado o tempo conveniente, e
K ii depois
148 Problema
depois de fecca aagoa , com que a
cal foi amaflada, ficam taô exa-
Etamente caldeadas, que naô he
facil feparar dellas a aréa, e a cal
com que fe fabricou o muro.
Nem póde deixar de fer ; por-
que aquellas mefmas pedras, fendo
lizas, e roliças, ficad como mol-
dadas entre a cal, e a arêa queas
circunvolve por todas as partes igu-
almente , em lugar que as outras
cujas figuras faô irregulares, em
cada huma dellas fe daô varios, e
differentes interíticios, donde tem
vaons; e eftes, naô eftando cheos,
ficaô as pedras menos prezas, e
ligadas: e aflim parece que naô he
Jufto o reprovar pedras femelhan-
tes; quando aliás fad as mais pro-
prias para fazer fortes, e duraveis
as paredes. Só tem contra fi o fe-
rem commumente mais ds
o
De Arcbiteétura Civil. 149
do que as outras; e por illo leva-
rem mais porçaô de material; po-
rem por iflo mefmo fazem a obra
mais fortificada. Títo fe obferva nos
maílames ordinarios , que fe fazem
nos tanques para fuftentarem , e
vedarem agoa , nos quaes os bons
artifices naô querem pedras gran-
des, mas buífcaô, e efcolhem as
pequenas.
Temos vifto a qualidade que
as pedras devem ter: paílemos ago-
ra á cal, e depois paílaremos tam-
bem á arêa, que faô os tres ingre-
dientes indifpenfáveis na conftruc-
çaô dos muros. À pedra boa ou má
facilmente fe conhece ; porque nel-
la naô fe exige outra circunflancia
mais do que a dureza. A cal de-
pende de maior exame. Compo-
emfe a cal de pedras, que faô pro-
prias para ferem calcinadas; por-
K ui «que
Iso Problema
que nem de toda a pedra fe póde
fazer cal. As que faô fummamen-
te brandas faô inuteis; as que faô
brandas, mas com talou qual du-
reza, fazem cal inferior , e parda;
e as que faô excelfivamente rias
naô admittem calcinaçaô alguma.
O diamante , e as outras pedras
preciofas naô «fe pódem calcinar ;
por mais que o fogo Íeja violento;
e dinturno. As partes, de que a na-
tureza as fabricou, faô taô umi-
das, e compaétas entre fi, que os
poros. com que ficarad , fó daô paí-
fagem à materia fubtil, e etherea,
mas naô aos corpuículos do fogo ;
fendo que a calcinaçaô provém de
huma certa delunad de partes ,
caufada pela introducçad violenta,
e fuccefliva das particulas igneas ,
que entraô a occupar os poros,
ou interíticios do corpo que fe cal-
cina, À pe-
De Architetimra Civil. 131
A pedra faxatil tambem naô
fe calcina, mas hum fogo conti-
nuo, e forte a vitrifica; pot fer
repra certa que todo o corpo;
que fe vitrrfica nao fe calcina ; e o
que fe calcina naô fe vitrifica. Ou-
tras. pedras ha que fahem já da
terra vitrificadas; eftas' faô total-
mente inuteis, e o maior fogo nad
as póde reduzir a cal; porque a
vitrificaçad he o ultimo periodo a
que a natureza chega, e tambem a
arte; vííto que depois de hum cor-
po eftar vitrificado, ou feja artifi-
cialmente,: ou feja naturalmente;
nefle termo ' permanece fempre,
fem admittir: mudança ou altera-
çaô alguma.
Ko porém fe entende na ver-
dadeira vitrificaçaô, mas naô na im-
propria ; porque o chumbo; e o
eftanho , depois de vitrificados , fe
K iv fe
Içã Problema
fe lhes junta qualquer materia un-
étuofa, e inflammavel;da qual aquel-
les metaes tornem a recobrar a par-
te pghlogiftita que na fundiçaô per-
derad, tornaô a apparecer, ea
fer o metal que tinhaô fido. Tito
aílim procede nos metaes inferio-
res, e em algum dos mineraes,
como o antimonio, mas naô no
ouro, nem na prata, porque a per-
feiçaô deltes metaes os defende
fempre contra toda a acçaô do fo-
go, e nelle fó fe purificaô ; de for-
te, que o fogo , que deitroe tudo »
exceptuando o vidro, e as pedras
preciofas, que formaô huma efpe-
cie de vitrificaçaô natural, deixa
illefa a propria fubftancia daquel-
les dous metaes; por iflo he axio-
ma chimico: Quod facilins fit aurum
confiruere » quam defêruere.
Os metaes inferiores ie
e
De Architeclura Civil. 153
fe podem calcinar, e fe calcinad
com effeito facilmente, ainda que
em imperfeita calcinaçad. O azar-
caô naô he outra coufa mais do
que o chumbo calcinado , e expof-
to ao fogo até que tome a cor ver-
melha. O eftanho, e ocobre tam-
bem recebem a mefma alteraçaô ;
porém a cal deftes metaes, ou ou-
tros mineraes 5 de qualquer genero
que fejaô, fó conduz para a con-
feiçao das tintas, ou outros artes
factos Ífemelhantes; e muitas vezes
tambem para varios ufos medici
naes, chirurgicos, ou mecanicos ;
porém. de nenhuma forte para o
noílo intento.
“Os artífices da cal conhecem
muito bem quaes faô as pedras
proprias para aquelle minifterio , e
tambem as que o naô faô; por iflo
efcolhem humas , e rejeitaô a 5
e fe
154 Problema
e fe por acafo as que faô improprias
fe introduzem com as outras na
operaçaô do cozimento , depois ao
fahir do forno ainda eftaô na mef-
ma fórma com que entrarad ; ape-
nas ficaô mais quebradiças do que
eraô; mas nunca reduzidas a cal,
por mais que o fogo feja activo, e
longo. À eftas pedras, fahidas aflim
do forno,chamaõ os operarios cruas,
para as diftinguir das que fahem co-
zidas, ou calcinadas.
À fragilidade,que as pedras fa+
xatiles adquirem por aquelle modo,
deu lugar ao engano dos que que-
tem fingidamente oftentar maiores
forças, que as que commumente os
homens tem; para o que pondo ao
fogo alguns dos mais duros feixos,
e depois de excandecidos, ou fei-
tos como em braza , os deitaô logo
em agoa fria. Eftes feixos ficad con-
fervan-
De Architelura Civil. gs
fervando a fua propria, e natural
figura; e quando fe afferece a oc-
eafiaô de moftrar a pertendida for-
ça, os taes fingidos alentados intro-
duzem aquelles meímos feixos , pre-
parados antes por aquelle modo ;
e pondo qualquer delles fobre hu-
ma banca forte fuftentando-o com
a maô efquerda , para que o feixo
naô chegue immediatamente à ban-
ca ; dando-lhe com o outro punho
cerrado huma pancada, o feixo fe
defpedaça logo ; naô pela força da
pancada que recebe , mas porque
o fogo, e a agoa fria o tinha. já dif-
pofto. para dividir-fe ao menor im-
pulfo. Quantas artes. naô bufcad os
homens para moftrarem com enga-
no , e eftrategema , fuperioridade
de força , fuperioridade de enge-
nho , fuperioridade de poder! Mas
que importa que façaô illufaô aos
outros,
156 Problema
outros , fe a naô podem fazer a fi?
Seria habilidade rara fe a fi mefmos
podeflem enganar ; entaô eftando
livres da importunidade da confcien-
cia propria, que os accufa , a per-
fuafad interior lhes ferviria como
de hum fonho viftofo , e agrada-
vel; fó entaô teriaô goíto de fe
imaginarem fortes , fendo fracos ;
de fe crerem engenhofos, fendo ru-
des ; e de ferem poderofos , fem
poder.
A pedra lioz he a de que
commumente fe faz cal, nos fubur-
bios deíta Corte; e a cal que del-
la provém , he de excellente quali-
dade, como já diflemos : porém os
mefmos homens , que a fabricaô, a
perdem; naô por ignorancia na ma-
nufaétura, mas por evitarem a def-
peza, de que a mefma pedra necef-
fita depois de calcinada, Bem fa-
bem
De Architeélura Civil. 1 57
bem os artifices que perdem aboa
qualidade daquella cal , mas nem
por iÍlo deixaô de a perder ; e iíto
porque allim meímo a vendem, e
aílim mefmo achaô quem a compre;
vejamos o em que confifte a perdi-
çaõ.
CE E EEE o A re,
e a as eme eee um eee er,
CAPITULO JX.
Bas de calcinada a pedra
deve fer pulverizada; porque
fo depois de reduzida a pó , he que
fica em termos de fer amaflada, ou
mifturada com arêa. Efta pulveri-
zaçaô fe faz por hum de dous mo-
dos: O primeiro he expondo as pe-
dras já cozidas ao ar ; aflim que
fe tiraô do forno em que fe cozem;
nefte eftado as particulas igneas
con-
158 Problema
concentradas, e como introduzidas
por força nos interíticios, ou póros
Invifieis das pedras,vaô-fe lentamen-
te difpondo , e como pondo-fe em
liberdade ; para o que concorre a
a humidade do ar que vai fuccefli-
vamente occupando o lugar que as
particulas de fogo vaôd deixando ;
começando fempre eíta acçad pe-
las fuperficies das mefmas pedras ;
as quaes por efte modo fe pulve-
rizaô inteiramente. A mobilidade do
ar, e a humidade que contém, faô
os agentes infalliveis deíta obra; e
para mais a accelerar , fe vai com
hum inftrumento , a que chamaô
rodo, movendo as pedras de huma
parte para a outra, e apartando a
que eftá já pulverizada , para que
efta naô impeça o contaíto imme-
diato do ar nas fuperficies das pe-
dras que ainda naô eftaô pulveriza-
das.
De Architeilura Civil, 159
das. Segue-fe daqui que aquellas
pedras , em que o ar naóô tiver con-
taéto immediato , refifte ao inten-
to da pulverizaçao; de forte, que
mettida huma pedra de cal em vafo
proprio, que a defenda do ar, ou
da humidade, tapado exactame o
vafo , conferva-fe a pedra inteira
fem divifaô alguma nas fuas partes,
e fem perder nada da fua força.
Daquelle primeiro methodo
naô fe fervem os operarios nunca;
naô porque faibaô a razaô funda-
mental porque naô devem ufar del-
le; mas porque tem outro metho-
do melhor , mais facil, e mais prom-
pto. Tiradas as pedras da fornalha,
e eftendidas , entraô a deitar-lhe
agoa por cima paulatinamente, me-
xendo fempre as pedras que fe vaô
alternativamente desfazendo , ere-
duzindo em pó. Efte fegundo meio
he
160 Problema
he com effeito o mais conveniente,
naô fó pela facilidade , e prompti-
daô com que fe executa, mastam-
bem porque as pedras , pulverizadas
unicamente ao ar , perdem quafi
toda a Íua força , ficando a cal co-
mo huma terra branca, inerte, e
fem vigor: em lugar que as pedras,
desfeitas com agoa pelo modo re-
ferido , daô huma cal forte, e vi-
gorofa , e com requifitos neceflarios
para com ella fe fabricar fegura-
mente.
A razaô Phyfica daquella dif-
ferença, deve fer tirada do nafei-
mento, e formaçaô da mefma cal:
efta o que a faz fer cal, e o que lhe
dá todas as propriedades que a cal
tem, faô as particulas, ou corpuf-
culos de fogo entranhadas exaétif-
fimameute pelos póros, e interfti-
cios das pedras quando fe cozem,
como
De ArchiteéturaCrvil. 161
como já diffemos ; de forte, que; fe-
paradas as partes igneas totalmen-
te; o pó da pedra, que chamamos
cal, naô he com effeito mais do que
huma terra defanimada , e fem efi
pirito igneo , e já inhabil para o
ufo que deve produzir. Aflentado
efte princípio , devemos tambem af
fentar em outro, e vem a fer que
as pedras quanto mais de prefla , ou
repentinamente fe pulverizaô , tan-
to mais confervaõ as partículas ig-
neas, de que depende o vigor da cal;
e pelo contrario quanto mais lenta-
mente fe pulverizaô, tanto mais fe
diflipaô as fuas partes igneas, que
faô as que a fazem vigorofa , e cau-
tica.
Defta hypothefis fe fegue que as
pedras pulverizadas efpaçofamente
ao ar;neftefe diflipaõ,e tem lugar, ou
tempo pára fe difliparem as parti
L culas
162 Problema
culas de fogo involvidas nas mefr
mas pedras; e as que faô pulveri-
zadas com agoa, efta por huma
acçaô repentina , e prompta com-
prehende , e liga em fi aquellas
mefmas particulas, que de outra
forte fe haviaô de diflipar, e como
evaporar, Nem pareça que as pare
ticulas de fogo faô fuppoftas, e fó-
mente imaginadas, como muitas
vezes fuccede , quando fe quer ex-
plicar phyficamente algum phenó-
meno, cuja caufa naô he patente,
Nem fe duvide da exiftencia daquel-
les corpuículos igneos, fó porque
fe naô demonitraô vifivelmente; por
quanto de muitas coufas fe nad
póde negar a exiftencia, ainda que
fe naô vejad; e bafta que fejad vif-
tas pelos feus effeitos. E no que
refpeita á cal, que maior demonf-
traçaô, nem mais vifivel fe póde
dar
De Architeétura Civil. 163
dar dos corpuículos igneos que con-
tém, do que o effeito material,
e fenfivel, de fazer ferver aagoa,
fem intervir outro algum calor,
que o da mefma cal? E de que o
calor manifeíta a prefença do fogo ,
ou feja activo, ou potencial, he
certo.
Por muitos, e varios experi-
mentos fe verifica a exiftencia das
partículas igneas embaraçadas , e
detidas naquelles corpos que tem
difpofiçaô para as receberem, e
reterem algum tempo , e ainda fem
o mais leve indicio de calor; como
fe obferva no mimium , chamado
vulgarmente azarcaô. Efte he uni-
camente chumbo. derretido, e ex»
pofto ao fogo até que fique reduzi-
do em pó vermelho , ficando de-
pois com maior pezo do que tinha
o chumbo empregado na opera»
Li çaõ;
164 Problema
çaô; cujo pezo accreícido torna a
diminuir, quando o mefmo azar-
caô, depois de reduzido a metal,
torna a fer chumbo. Ifto mefmo fe
obferva em outros corpos depois
de haverem paílado pela acçaô do
fogo; e o mefmo fe ha de achar
tambem em qualquer pedra, fe fe
pezar antes, e depois de calcinada.
À compofiçaô chamada Mer-
curius precipitatus. per fe, naô he
mais do que hum azougue reduzi-
do a hum pó rubicundiflimo: do
fogo lento, e continuado fem in-
terrupçaó , procede aquella cor, e
tambem o maior pezo com que fi-
ca; porém tanto o pezo, como a
cor defapparecem em o Mercurio
precipitado tornando a fer azougue
por meio da reducçaôd. O oleo de
vitriolo conferva fempre, e fem in-
dicio exterior ; as particulas de fogo
que
De drchiteetura Civil. 165
que tem concentradas em fi; e fó
por alguns effeitos fe conhece a ex-
iftencia dellas no corpo daquelle
liquido corrofivo , e cauítico. Quem
diflera que hum fogo aétivo podia
unirfe eftreitamente, e confervarfe
permanente em hum liquido fali-
no? E que, naô tendo o vitriolo por
fi caufticidade alguma, logo a ad-
quire, quando o fogo reduz huma
parte delle em efpirito concentra-
do ! O mefmo fuccede a outros
faes nativos, e ainda com mais
promptidaô , e facilidade.
E de que as pedras calcinadas,
fendo pulverizadas com agoa, con-
fervad muita parte do feu vigor (o
que naô fuccede aflim ás pedras ,
que faô pulverizadas pelo ar fó-
mente, e fem concurrencia de agoa)
tambem he certo. E com efeito as
pedras calcinadas podem fer confi-
Li deradas
166 Problema
deradas em tres tempos; e emca-
da hum deftes tem differente forfa :
No primeiro , que he logo quando
fahem do forno depois de acabada
a operaçaô do cozimento, entaô
tem as pedras a maior força que pó-
dem ter, e a que pódem chegar
ordinariamente. O fegundo , que he
quando as mefmas pedras fe achaó
pulverizadas ao ár, a efle tempo
Já tem perdido a maior aétividade.
O terceiro, que he quando forad
pulverizadas logo com agua , entao
tem o vigor precizo, e todo aquel-
le, que a boa cal coftuma, e de-
ve ter.
Defte conhecimento refulta a
utilidade no ufo pratico da cal;
porque efta, quando he precizo
traníportar-fe para partes remotas,
donde a naô ha, nem commodida-
de para a fazer, he neceflario naô
a tranf-
De Architelura Civil. 167
a tranfportar em faccos , como fuc-
cede ás vezes ; mas devem metterfe
as pedras quando fahem do forno
em caixoens, ou em barriz muito
bem vedados , na fórma que fe pra-
tica com outros generos, que he
precizo defender da agoa, e da hu-
midade. E ifto porque as pedras de
cal, que fe tranfportaô em faccos ,
quando chegaõ ao lugar , para don-
de fe encaminhaô, achad-fe redu-
zidas totalmente a pó; e neíte ef-
tado, fendo o ár, que paíla livremen-
te pelos faccos , o que faz a pulveri-
zaçaô das pedras ,a cal, que dellas
provém, fica inhabil, e debilitada
das fuas forças para poder fervir
congruentemente ; cujo inconveni-
ente he para evitar , fegundo a
importancia , e confequencia da
obra para que a cal deve fervir; A
Phyíica naô fó fe occupa em obje-
ly étos
168 Problema
étos pompofos, e fingulares; em
inveftigar o que fe pafla nas entra-
nhas da terra, ou porque modo fe
formaô os meteóros na efphera im-
menfuravel que defcrevem; mas
tambem fe emprega nobremente em
aflumptos humildes, e em indagar
tudo quanto he util para a econo-
mia civil; e talvez que feja mais
proprio, e racionavel o apprender
a conftrucçaô de huma parede fim-
ples, do que enfinar a fórma por-
que giraô os orbes celeítes na vaf-
ta regiaô do Firmamento.
Nefta conformidade devemos
aflentar que a cal, para fer per-
feita, e para fazerfe com ella edi-
ficios permanentes, deve fer def-
feita com agoa, e naô ao ar. Os
antigos conheceraô bem a regra,
que de qualquer leve circunftancia
defprezada , naô fó fica fruítrado o
effei-
De Architetlura Civil. 169
effeito que fe procura , mas tam-
bem refulta o contrario efeito,
Quem vêa cal desfeita, e já redu-
zida em pó , embaraça-fe pouco do
modo porque foi desfeita; porque
a cal naquelle eftado toda he hu-
ma na figura exterior, mas he mut-
to diverfa na compofiçad que deve
produzir ; e efta diverfidade , ainda
na Ífubftancia interior , verifica-
fe por muitos experimentos cer-
tos. Vejamos alguns exemplos, que
comprovaô aquella propofiçao.
A cal desfeita ao ar he im-
propria para o artefacto do fabãô ;
he precifo tomalla ainda em pedra ,
para a ter com toda a fua força. So-
bre aquella pedra calcinada fe dei-
taô os faes alchalinos fixos, para
que eftes fe liguem com os corpuf-
culos igneos da meíma pedra; de-
pois ; lixiviando-fe eftes dous in-
gre-
170 Problema
gredientes , a agoa , que refulta
delles , fica com a qualidade neceí-
faria para a feitoria do fabãô ; de
forte , que fem intervir a circunftan-
cia de ler a cal tomada com toda a
fua força, naô adquire a agoa, à
que chamaô meftra , a precifa aéti-
vidade para diflolver perfeitamente
a materia cebacea , ou oleofa de que
o meímo fabãô fe faz. Daqui vem
que alguns operarios algumas ve-
zes naô confeguem a perfeiçad da
obra que adminiftrad, porque def.
prezaõ algumas leves circunítancias,
que lhes parecem defpreziveis fem o
ferem. Por iflo em outros artefa-
£tos acontece muitas vezes achar-fe
delufo o artífice, naô confeguin-
do o intento que tinha confeguido
infinitas vezes; e ilto por falta de
obfervancia de hum pequeno requi-
fito , que aliàs naô he pequeno,
por-
De Architeétura Civil. tzr
porque delle depende o bom exito
da obra.
A pedra, a que chamaô infer-
nal Alchalica , tambem naô póde
fabricar-fe com a pedra de cal pul-
verizada ao ar; porque nefte eíta-
do (como temos dito ) tem perdi-
do a fua maior força , de que aquel-
le cauítico neceflita. E da mefma
forte para fazer-fe o efpirito vola-
til de fal armoniaco , he precifo que
a pedra de cal feja pulverizada com
agoa , e de frefco, e nad com mui-
ta antecedencia. O mefmo fe re-
quer para o celebrado Phofphor de
Homberg. Para caiar deve fer cal-
dada a pedra repentinamente , e
em grande quantidade de agoa; por-
que toda a cal, depois de pulveriza-
da » Já fica ineficaz , e impropria pa-
ra aquelle ufo.
E de faéto he certo que qual-:
quer
172 Problema
quer circunftancia leve, e que pa-
rece de muito pouca confequencia,
he com tudo eflencial em alguns ca-
fos; e de ferem omittidas procede o
erro de huma operaçaõ aliás bem
dirigida. Exemplifiquemos ifto. A
fermentaçaô do moíto exige que
o vafo, que o contém, tenha na par-
te Íuperior huma abertura efpheri-
ca, chamada vulgarmente batoque;
eíte fe he demaziado , por elle fe
diflipaô os efpiritos melhores , e mais
fortes; de que refulta ficar o vinho
fraco, e de pouca duraçaô ; e ou-
tras vezes provém hum liquido fem
fabor ,a que os Latinos chamaô va-
pa. Se o batoque he mais pequeno
que o que deve fer, fegundo a ca-
pacidade do vafo, e da quantida-
de do moíto que fermenta, entaô,
naô tendo o ar ingreflo , e egreflo
Jivre , e facil; a fermentaçaô fica im-
perfei-
De Architetura Cívil. 173
perfeita, e o vinho, que procede
della ; fempre'eftá com difpofiçad,
e inclinaçaô para mudar-fe , e alte-
rar-fe; porque lhe faltaô os efpiri-
tos vinofos , de que depende a fua
confervaçad. Sero batoque he pes
queno exceflivimente , ou fe fe fe-
cha de todo: por acafo , ou impru-
dencia de quem cuida naquella for-
te de trabalho, refulta exploíaô vio-
lenta com fracçaó do vafo;ou do to-
nel em que o moto eftá, De qual-
quer deftas circunftancias , que aliãs
parecem. de entidade pouca. pro»
xém efeitos (ad diverlos ; e cons
traros,
CA-
CAPITULO X.
a FE pois fammamente necefla-
Hi que as pedras de cal fejaô
pulverizadas com agoa , na fórma
que commumente fe pratica ; mas
naô com agoa falgada , nem falo-
bra, como alguns fazem , e de que
fuccede infallivelmente a perdiçaô
da melhor cal; porque o fal , intro-
duzido nella por aquelle modo , faz
perder inteiramente à boa qualida-
de della, por fer o fal hum mate-
rial improprio , e incapaz de forta-
lecer-fe em tempo algum ; vifto que
tudo , o que attrahe humidade a fi,
impede confideravelmente a uniaõ
intrinfeca das partes , as quaes fó fe
confolídaô , ou conglutinaô, depois
de
De Architetlura Cívil. gs
de expellida a humidade toda ; mas
quando contém algum principio hu-
mido , efte fempre eftá fazendo as
partes divifiveis , e feparaveis.
E fendo aflim, como ha de ti-
rar-fe da cal o fal depois de introdus
zido nella, e por confequencia in-
troduzido tambem na fubítancia da
parede? O fal fempre tende a hu-
medecer (em quanto conferva a na»
tureza de fal); e por mais efcon-»
dido , e abforbido entre outros mix
tos, fempre fe humedece , e efta ten-
dencia natural por nenhum artifício
fe lhe póde remover.
Poderá dizer-fe que as paredes,
que contém fal, fempre o cofpem
para fóra fucceflivamente , como
fe obferva em huma leviflima lanus
gem albiforme, de que as paredes
fe reveftem commumente nas fuas
partes exteriores, e Íuperficiaes ; e
que
176 Problema
que aflim pelo decurfo do tempo
ficaô as paredes perdendo o fal que
contraétaraô por meio da agoa fal-
gada ; com que as pedras de cal fe
pulverizaraô. Efta objecçaô he me-
nos concludente ; porque aquella
materia falina , ealbicante , que ás
vezes fe manifefta nas fuperficies
das paredes, naô he o fal que ellas
tem em fi, mas outro mui diverfo
que o ar cria. Iífto fe comprova
pelo fundamento verdadeiro de que
o fal do mar, introduzido por aquel-
le modo no groílo das paredes, he
hum fal quafi fixo , e decrepitante ;
em lugar que o fal, que vemos na
parte exterior de qualquer muro ,
he de qualidade nitrofa, que pen-
de para alchalina.
E com effeito ha muita diffea
rença entre hum fal decrepitante
e hum fal nitrofo ; efte deflagra
quan-
De Architeciura Civil. 77
quando o deitaô fobre o fogo, e
intuméce quando propende para al-
chalino; aquelle, fe o deitaô fobre
o fogo ardente , eftala fucceíliva-
mente , e faz eftrepito , e a ilto
chamaô os artiftas decrepitar. Só o
fal do mar , ou que tenha a fua
mefma qualidade, decrepita ; ne-
nhum dos outros faes nativos, ou
compoftos , tem aquella proprieda-
de; e da mefma forte fó o fal ni-
trofo deflagra. Aílim fe diftinguem
os faes pelos feus caracteres effen-
ciaes, e diftinétivos: e da melma
forte os mixtos , ou naturaes, ou
artrficiaes , tambem faô reconheci-
dos pela indole , e genio proprio
de cada hum. E aflim quando o ar-
tifta vê decrepitar hum fal, julga
com certeza que he fal do mar, ou
procede delle ; e quando vê de-
flagrar outro , tambem julga com
igual
178 Problema
igual certeza que he nitrofo. Que
admiravel arte, que com mais juí-
to titulo tem por inflituto o co-
nhecer os effeitos pelas fuas caufas,
e as caufas pelos feus efeitos , e
em que Íó a experiencia tem voto
decifivo , e em que as regras, e
preceitos naô vem de humana, ou
pofitiva inftituiçaô , mas de huma
ordem permanente, e indefeétivel!
nella naô tem os fyftemas authori-
dade alguma , e os fyllogifmos nad
concluem quando a prova naô con-
fifte em faéto vifivel, e conftante.
Efta he a Chimica inftruida , ou
Phyfica por excellencia.
Além da decrepitaçaô fe co-
nhece o fal domar (a que chamad
fal commum ) por meio da analyfe ;
efta fe deriva da circunftancia , e
propriedade , que daquelle fal fe
exrrahe hum efpirito Íalino, que,
fendo
De Architebtura Civil. 179
fendo concentrado , he o verdadei-
ro diffolvente do ouro ; e efte me-
tal, que regularmente refifte , e per-
fifte indifloluvel em todos os ou-
tros acidos , cede facilmente ao do
fal commum ; e para que os mais
acidos o poflaô diflolver he precifo
Juntarlhes certa porçaô daquelle fal,
ou de fal armoniaco, que he hum
falcompofto, e tem por bafe o fal
commum.
O fal porém que as paredes
coípem , he de diverfa natureza, e
inteiramente contraria á do fal do
mar. Aquelle fal ( como fica dito )
henitrozo, porque deitado fobre a
braza, ou carvaô accelo , deflagra
e arde como huma eÍpecie de pol-
vora, e delle fe faz a meíma pol-
vora depois de purificado , e crif-
tallizado em nitro; o que aliás fe
naô póde fazer de nenhuma forte
M ú com
180 Problema
com o fal commum, porque efte
naô tem a elafticidade que no outro
fe confidera : defte fal fe compoem
a agoa forte, e de nenhuma forte
do fal commum; antes, efte fe por
acafo , ou por impureza do nitro
fe encontra nelle, ainda que feja em
minima porçaô, fica a agoa forte
que provém com diverfa qualida-
de, e fempre impeditiva da acçaô
que deve produzir o mefmo efpiri-
to do nitro.
Por iflo nas fabricas, em que fe
compoem a polvora, primeiro fe
purifica exaétamente o nitro, cuja
purificaçaô confifte em apartarfe
delle qualquer pequena porçaô que
poíla ter (e que ordinariamente
coftuma ter ) do fal do mar; por-
que o nitro , em que fe acha alguma
parte daquelle fal, deflagra fem
promptidad , e fracamente á ma-
neira
De ArchitetluraCivil. 181
neira de huma lenha verde, ou hu-
mida ; que fe quer queimar; e fe
a parte do fal commum he grande,
impede totalmente a deflagraçaõ
do nitro, a que chamaô os artiftas
Detonaçaõ: fuccede tambem infalli-
velmente que a prata diflolvida em
agoa forte, fe fe lhe deita qual-
quer porçaô do fal commum, a
prata fe precipita ao fundo do va-
fo que contém a difloluçaô; com
o que fe verifica a repugnancia, ou
differença efpecifica que ha entre
hum, eoutro fal.
Além de que impropriamente
fe diz que as paredes cofpem para
fora o fal que tem, porque efte
certamente naô fahe do groflo ou
fubftancia interior dos muros , mas
cria-fe nas fuas Íuperficies exterio-
res, a modo de huma vegetaçaõ
falina , e filamentoza, e á maneira
M ini de
182 Problema
de outro qualquer nitro, que todo
fe cria na Íuperficie da terra, quan-
do acha na qualidade della algu-
ma matriz propria para conçentrar-
fe, ou embeber-fe o efpiritonitro-
zo, que eftá como nadando em to-
do o ambito do ár; por cuja razad
falando do nitro alguns differaô :
Portavit eum ventus in utero.
E com effeito as paredes nad
cofpem, nem lançaô de fi o fal
commum: efte eftá taô ligado, e
entranhado com os mais materiaes
de que os muros fe compoem , que
por nenhum modo fe póde defem-
baraçar delles. Ifto fe prova com
o efpirito, que fe extrahe daquelle
fal; para o que depois de decrepi-
tado fe miftura com certa porçad
de qualquer terra argiloza, e me-
tendo-fe em vafo proprio para a def-
tillaçaô, e adminiftrado gtadual-
mente
De Aribiteélura Civil. 183
mente hum fogo aftivo, naô fe fe-
para do fal commum, fenaô huma
limitada quantidade do feu efpirito
falino , ficando a maior parte delle
fem mudança na retorta , donde
rezifte immobil ao fogo mais vio-
Jento.
E fendo aflim ( como he na
verdade ) como póde feparar-fe o
fal commum fó por fi do groflo da
parede, e fahir della , fe ainda hum
fogo forte o naô póde reduzir a
flo? O fogo he o melhor fepara-
dor de todos quantos há; e o cor-
po» que fe naô fepara das partes, a
que eitá conjunto, por meio daquel+
le agente, naô póde fepararfe fá
por fi. Daqui vem que qualquer
parede, em cuja cal entrafle agoa
falgada , o fal ha de permanecer
nella fempre, ou até que a parede
fe desfaça , € as agoas a lavem in-
iv teira-
184 Problema
teiramente extrahindo-lhe o fal que
em fi continha ; porque a agoa
he o diflolvente natural, e univer-
fal dos faes, quando eítes naô ef-
taô alflociados a algum principio
oleolo , que impeíla a acçaô da-
quelle diflolvente: de que fe fe-
gue que em toda a parede, expolta a
hum fogo ardente , fempre o fal
fica confervado, e adherente a el-
la; porque fó a agoa he capaz de
o defentranhar , derretendo-o , €
levando-o comfigo fempre.
Com outros mais experimen-
tos fe póde verificar evidentemente
que o fal, que as paredes cofpem ,
naô he o fal commum da agoa fal.
gada, com que as pedras de cal fe
pulverizaraô , mas he outro adven-
tício novamente creado nas fuas fi-
perficies, e produzido pelo ar am-
biente da atmofphera ; e he como
huma
De Archireétura Civil. 185
huma florificaçad, ou bolor que fe
fórma em modo vegetante na fu-
perficie de todos os corpos humi-
dos. Daqui tambem refulta que as
aredes, que contém fal , fempre
taó mais humidas do que aquellas
que o naô tem ; e.ifto conforme
o tempo, e qualidade da eftaçaõ.
Aquella mefma humidade attrahe
avidamente o fal aereo que fe con-
denfa, e toma corpo; porque re-
gularmente o fal, e a humidade
faô correlativos de algum modo ;
e aílim como o fal attrahe a humi-
dade, tambem a humidade attrahe
o fal,
O afucar v. g. em quanto ef
tá fecco naô póde crear bolor ;
mas fe eftá fummamente humido ou
por fi, ou por algum mixto adjun-
t0, logo na parte fuperior começa
à formar-fe aquella têa an
d>
136 Problema
fa, a que coftumamos chamar bo-
lor; efta naô he mais do que hum
principio de vegetaçaô , produzida
pelo concurfo da humidade propria,
e da humidade do ar exiftente em
todo o tempo na vafta capacidade
da atmofphera. Por iílo para evitar
aquelle bolor defagradavel ( que na
verdade he hum principio de cor-
rupçaô) o remedio he guardar a
coufa, que fe pertende prefervar ;
em lugar fecco, e menos expoíto
à humidade , como todos fabem.
DS e oe remos |
CAPITULO XI.
Aô muitos os danos , que re-
fultaô do fal entranhado nas pa-
redes por meio da cal feita com
agoa falgada ; ou ainda falobra,
como
De Archisectura Civil. 107
como em muitas partes fe pratica
ordinariamente. O primeiro dano
conhiíte em ficarem as paredes com
huma propenfaô perpetua para hu-
medecerem, naô fó nas fuas fuper-
ficies, mas tambem no interior del-
las. Efta humidade impede que as
paredes poflaô nunca caldear , nem,
adquirir aquelle grao de fequidad,
que he precifo para ficarem Íolidas,
e para fazer de muitas partes ag-
gregadas hum fó corpo bem uni-
do.
Devemos aflentar que a cal;
aarêa, e a agoa faô os pregos (cos
mo os artífices fe explicado ) que
fervem de juntar as pedras, de que
hum muro fe compoem ; fe aquel-
les chamados pregos forem molles,
ou tiverem difpofiçaô para amolle-
cerem, e para fe naô feccarem to-
talmente, que firmeza póde ter o
muro?
188 Problema
muro? Os meímos materiaes tam-
bem fe podem comparar à cola ; el-
ta fetiver difpofiçaô para naô fec-
car de todo, como havemos de efi
perar della algum effeito perma-
nente? A obra grudada naô fica
com vigor ; fe naô depois que a
cola fécca; a coufa pregada tam-
bem naô dura , fe o prego foi defei-
tuofo.
Temos hum exemplo na fabri-
caçaô da telha ; e do tijolo. Eltes
compoem-fe de hum barro argilofo ,
amaçado bem com agoa. Aquelle
barro aílim preparado, depois que
os operarios lhe daô a figura de te«
lha , de tijolo , ou de outra qualquer
coufa, entraô a feccalla lentamente
ao Sol, até que a cozem na forna-
lha, propria para iflo, a fim de ex-
pulfar della toda a agoa, e humi-
dade ; que tnhaõ entrado no com»
poíto.
De Architeétura Civil. 189
polto. O cozimento he indifpenfa-
vel, e nelle confifte a bondade, ou
a perdiçaô da obra. He neceflario
que a humidade feja expulfa intei-
ramente ; porque , naô o fendo , em
chovendo na telha, ou no tijolo,
tornaô a desfazer-fe em barro , e
lhes fuccede o mefmo que fuccede
ao homem por decreto inevitavel :
Pulvis es, & in pulverem reverte-
ris.
De forte, que o barro nad fe
conglutina , nem adquire eftado fo-
lido, fe naô depois que o fogo faz
exhalar delle a humidade toda que
fervio a difpollo para tomar efta, ou
aquella fórma ; antes diflo eftá im-
perfeita a obra, e fó como debu-
xada , porque o barro, ainda re-
tém huma propenfaô perpetua pa-
ra desfazer-fe ; a perfeiçaô depen-
de da exaéta fequidad. E por io,
fe
190 Problema
fe o barro for falgado , ou fe for
falgada a agoa com que de prin-
cipio fe amaçou , por mais que o
fogo o feque, em fe apartando del-
le, torna o barro a humedecer de
novo em todas as Íuas partes, e ef-
tas entraô de novo a defunir-fe , e
a perder infenfivelmente a uniad que
tinhad, e vem a fer como fe tor-
nafle a derreter-fe a cola , oua que-
brar-fe o prego.
Porém poder-fe-ha dizer que
atelha, ou tijolo naô fe desfazem
na agoa : ifto aflim he; mas por-
que ferá? he porque huma, e ou-
tra coufa depois de cozidas perfei-
tamente adquiriraô huma uniaõ tal
em todas as fuas partes difgrega-
das, que já a agoa as naô póde di-
vidir, nem apartar. Pelo cozimen-
to adquírio o barro differente natu-
reza que a que tinha. Antes de co-
zido
De Architethira Civil. 191
zido exaftamente póde o barro tor-
nar a fer o que de antes era; mas
depois naô póde retroceder. Às ac-
çoens da natureza caminhaô fuc-
ceflivamente para hum fer diverfo.
A folha de huma planta já naô pó-
de tornar a fer humor; o fruto já
naô póde tornar ao eftado de ver-
dura.
O vidro v. g. compoem-fe de
hum fal alchalino fixo, e dearêa
pura. Eítes dous ingredientes fen-
do mifturados , e expoítos algum
tempo ao rigor do fogo, vitrificad-
fe, e fazem a materia do vidro que
vemos commumente. Quem dirá,
a naô fer conftante, e bem vulgar
o artefato , que hum fal alchalino
fixo podefle entrar na compofiçaã
do vidro? Aquelle fal, e arêa faô
corpos naturalmente opacos ; O Vie
dro he clariflimo , e diáphano , e
póde
192 Problema
póde refleQir os objeêtos por meio
da interpofiçaô de qualquer corpo
lucido; aarêa, e o fal naô tem fe-
melhante propriedade. Que diffe-
rença naô vai de hum vidro crif-
talno a huma arêa ingrata ! À agoa
Forte diílolve a aréa, mas O vidro
refifte fempre a toda a actividade
dos licores corrofivos. O falalcha-
lino fixo contém huma pungentiffi-
ma acrimonia; o vidro naó tem fa-
bor algum; he infipido totalmente,
Para onde foi a acrimonia daquelle
fal depois de vitrificado ?
Se alguem differ que o fogo foi
o que tirou a aquelle mefmo fal a
fua acrimonia cauítica, engana-fe;
porque todos os faes alchalinos fi-
xos , fem exceptuar nenhum , quan-=
to mais tempo eftaô ao fogo, e em
fufaô , tanto mais fe fazem acrimo-
niofos ; e de tal forte, que ainda os
faes
De Architelura Civil. 193
faes unicamente acidos, excitados
continuamente pelo fogo , mudaô-
fe para alchalinos, mas nunca de al-
chalinos para acidos. Da perfeira
uniaô daquelle fal com arêa re(ul-
ta o vidro, e defte os ingredientes
receberaô , fó pela acçaô do fogo,
propriedades contrarias ás que ti-
nhaô antecedentemente , e natural-
mente,
A farinha, depois de cozida em
paô , recebe novas propriedades ;
e perde as que antes tinha ; era
hum corpo fermentavel, depois fi-
ca incapaz para nunca mais entrar
em femelhante alteraçaô ; a difpo-
fiçaô, que tinha para fermentar, fe
lhe acabou, e difipou aflim que
fermentou huma fó vez. O mofto
antes de ferver naô dá na deftilla-
çaô nem huma pinga de liquido
inflammavel, a que chamamos ef-
pirito
191 Problema
pirito de vinho; porém depois dê
fermentado, o mefmo mofto exhi-
be copiofamente aquelles efpiritos
admiraveis. Que eftupendas diffe-
renças naô notamos no molto fim=
ples, e no efpirito que procede
delle depois de fermentado ! antes
diflo he hum liquido doce, e inca-
paz de inebriar; depois de fermen-
tar perde confideravelmente aquella
doçura natural , e tem aétividade
para fobir á cabeça promptamente
por caufa dos efpiritos que adqui-
rio na fermentaçao ; porém elles
mefmos efpiritos que, em quanto ef-
taô no vinho, fazem titubear, ow
inebriar , depois que fe feparaô
delle, já naô tem a mefma força
para perturbar o cerebro, nem mo-
ver defordenadamente os efpiritos
animaes.
Aflim he o tijolo, atelha, e
outros
De Architeétura Civil. 19s
outros váfos de femelhante compo-
fiçaô. Antes do feu perfeito cozi-
mento conferva o barro a pro-
penfaô que tem para desfazer-fe
na agoa; mas, depois de huma vez
cozido , perde aquella primeira qua-
lidade ; póde entaô quebrar-fe, mas
desfazer-fe naô; conferva a fragi-
lidade, naô a deliquefcencia. E
he para notar que quando a te-
lha, ou o tijolo fahem do forno
mal cozidos , já naô tem remedio
aquelle mal; porque, ainda que tor-
nem para o forno, já mais podem
receber o perfeito cozimento que
faltava; a remiflãõ, ou intercaden-
cia do fogo , faz arruinar a obra;
nem fe póde melhorar, ainda que
depois feja adminiftrado hum fogo
aétivo, e continuado; elte devia
fer fuccelivo, e naô interpolado ;
por huma mefma acçaô, e naô por
u mui-
196 Problema
muitas intercadentes. E nelte efta-
do ficou o barro , de que a telha, ou
o tijolo fe compoem , confervando
a aptidaô nativa para desfazer-fe
na agoa.
O mefmo fuccede na calcina-
gaô da pedra; fe nefta, depois de
excandecida , o calor remitte, e O
forno algum tanto esfria, já da-
quella pedra fe naô póde fazer cal,
ainda que o calor, que depois vier;
feja ainda mais violento , e forte.
He neceflario que o fogo feja igual
continuadamente , e naô fufpenda
a fua actividade; porque fe chega
a embrandecer confideravelmente ,
Já a pedra fica inutil, e perdida
para aquelle minifterio. Os artifi-
ces conhecem efta regra , porém
naô fabem a razaô theorica por-
que aflim fuccede ; e para a dar-
mos aqui, feria neceflario apar-
tar-
De Architeétura Crxil. 197
tarmo-nos muito do [ujeito.
Só diremos para utilidade com-
mua, que toda a pedra que pelo
modo referido , fica inutil para a
fabricaçaô da cal tambem fica in-
util totalmente para a fabricaçaô dos
edificios, e geralmente para toda ,
e qualquer obra; porque a pedra,
de qualquer genero que feja, de-
pois de excandecida ao fogo , fica
<ontrahindo huma tal fragilidade ,
que logo quebra, e cede ao me-
-nor impullo, e abaixa com qual-
quer pezo fobrepofto ,» e fe desfaz
em pequenas partes todas as ve-
zes que a agoa, ou a humidade
chega a penetralla. Daqui vem que
toda a pedra, que paílou por al-
gum incendio, em que chegou a ex-
candecer, fica inhabil, e incapaz
de fervir para outros nfos femelhan-
tes; Íó póde fervir como arêa pu-
Ni rã,
198 Problema
ra, fe for pizada, e reduzida em
pó groffeiro.
Parece que fica manifeíto que
o fal commum introduzido na pare-
de por meio da agoa falgada , com
que as pedras “de cal fe pulverizaõ,
he o que impede que a parede fe-
que inteiramente, e he o que a tem
em hum eftado continuo de mudan-
ça, ifto he de mais; ou menos hu-
midade; e à maneira de hum ba-
rômetro fegue as mutaçoens atmo-
fphericas do anno; e fe altéra à pro-
porçaõ das eftaçoens. Ito vem, co-
mo já diflemos, da qualidade inven-
civel que o fal tem para attrahir o
humido do ar ; e de faéto o attrahe
com mais forçado que o iman o
ferro. Digo com mais força, por-
que o iman para attrahir o ferro,
he neceflario que efteja , ou ache
ferro dentro da efphera da fua aéti-
vidade;
De Architeétura Civil. 199
de; em lugar que o fal nunca ef-
tá fóra da efphera da actividade
do ar.
E com effeito o fal ainda que
dividido em partes minutiflimas , e
involvido em outros corpos , pelos
póros defles mefmos corpos attrahe
o at, e juntamente a humidade
que o ar contém; e como oar he
hum fluido , cuja humidade he infe-
paravel , e inexhaurivel , por iflo
o meímo he attrahir o ar, que at-
trahir a humidade delle; e he certo
que naô ha ar fem humidade, nem
humidade fem agoa. Afim o en-
tendeo o excellente Adepto Sendi-
vogio quando dife : Ef in acre
eccultus vite cibus , quem de nodte
rorem, de die vero aquam appella-
mus rarefaétam.
- Bem me lembra que poderá
dizer-fe que a humidade pretendi-
N iv da
aco Problema
da naô exilte, porque naô fe vê,
mec cadit in fenfus ; vilto que em
huma parede defmanchada, ainda
que efta foíTe fabricada com cal pul-
verizada com agoa do mar , nem
por illo fe obferva humidade algu-
ma na caliça de huma tal parede.
Efta objecçaô parece mais confide-
ravel do que na verdade he; por-
que aqui naô fe diz , nem fe fuí-
tenta que hum muro femelhante ef-
teja por dentro com agoa manifef-
ta, nem que a caliça delle muro
moftre vifivelmente a humidade que
em fi tem; o que fe diz, he, que
o fal do mar incorporado na pare-
de, e poíto nella por meio da cal
feita com agoa falgada , ou falo-
bra fimplefmente , efla tal parede
fempre eftá mais, ou menos humi-
da , fegundo o temperamento , e ef-
taçaô do tempo,
Para
De Architeclura Civil. 201
Para prova do referido , tome-
fe a caliça daquella tal parede de-
molida em quantidade arbitraria, e
poíta em retorta chalibeada , efta fe
accommode em forno de reverbero;
e applicado o recipiente, lutadas as
Junturas , adminiftre-fe hum fogo
proporcionado fegundo a arte;e con-
tinuada a deftillaçaô , entaô fe ve-
rá a porçaô de humidade , ou agoa
vifivel, e manifefta , que eftava
como efcondida no corpo da caliça.
Depois defta operaçaô , tire-fe a
meíma caliça da retorta, e depois
de eftar alguns dias expofta ao ar,
tepita-fe com ella a mefma opera-
çaô , e (empre feha de achar agoa
no recipiente, por mais que a deftil-
laçaô fe repita mil vezes com a mef-
ima caliça ; porque o fal, que ella
contém , fempre attrahe a humida-
de, por ter no ar huma fonte per-
petua
202 Problema
petua donde fempre a acha. O Poe-
ta o diífe a outro intento femelhan-
te, uno avulfo, non deficit alter.
Naô fuccede a operaçaô por
aquelle modo, fe fe quer praticar
com caliça, cuja cal naô foi pulve-
rizada com agoa falgada ; porque
effa tal caliça nad moftra na ope-
raçaô humidade , ou agoa alguma:
e ainda a caliça , que tem verdadei-
ramente fal, fe efte fe lhe tira por
meio da infufad , já naô attrahe hu-
midade alguma; e nefte eftado , ain-
da que depois de fecca efteja largo
tempo expofta ao ar, nem por illo
ha de dar na deftillaçaô a agoa que
dava antecedentemente quando ti-
nha fal , porque com efte perdeo
a parte aétiva, e attraétiva , por on-
de tinha difpofiçaô para attrahir.
Além defte methodo vulgar , ha ou-
tros que daô a conhecer que hum
corpo
De Árchitetura Civil. 203
corpo quando parece izento de hu-
midade,nem por iflo deixa dea con-
ter abundantemente , naô por cau-
fa da attracçad ; mas por outros
principios igualmente naturaes.
À ponta do veado he hum cor-
po folido, e tad compaéto, que ad-
mitte polimento , e luítro; e ainda
fendo afim, de trinta e duas on-
ças de ponta de veado fe tiraô tre»
ze onças de licor a que chamao Aqua
cornu cervi. O papel tambem he hum
corpo, que, ao parecer, he defti=
tuido de humidade , e com tudo de
vinte e quatro onças de papel fe ti-
ra ordinariamente duas onças e meia
de oleo, e treze onças e meia de
efpirito phlegmatico , além da quan-
tidade de humor aqueo que na ope-
raçaô fe exhala. O marfim tambem
he corpo duro, e baftantemente foli-
do ; e que parece naô conter hu-
mida-
204 Problema
midade alguma , mas com tudo del-
le fe extrahe o oleo, e o efpirito a
que chamaô Elephantino. Todos os
oflos dos animaes, por mais feccos
que pareçaô , tambem largaõ de fi os
mefmos principios oleofos , e efpi-
ritos empireumaticos.
Do reino mineral fe tira humi-
dade copiofa de alguns mixtos , don-
de naô ha apparencia de a achar.
A caparofa , depois de fecca exadta-
mente, e reduzida em pó fubtil def-
tillada a hum fogo violento de re-
verbero, lança de fi o efpirito con-
centrado a que chamaô Oleum vi-
trioli. O enxofre , que pela fua un-
Etuofidade repelle de fi toda a hu-
midade., e a naô póde receber em
feus póros, com tudo fe fe faz arder
o enxofre debaixo de algum valo
concavo, larga tambem o licor aci-
do a que chamaô Spiritus fulpbu-
Vis
De drchiteetura Civil. 205
ris per campanam. O fublimado
mercurial,que he hum compotfto fec-
co, compaéto , Íolido, e pezado ,
depois de moido , e mifturado com
o regulo de antimonio , moítra, e
tambem larga a humidade criftalli-
na, ecauftica , a que chamaô Bati-
rum Antimonti.
Por eftes, e outros muitos ex-
perimentos fe manifefta , que'ainda
que a humidade neíte, ou naquel-
le corpo fe naô faça diftinguir vi-
fivelmente, nem por iffo deixa de
exiltir nelles, e em porçaô notavel,
preexiftindo com effeito naquelles
corpos, donde parece naô eftar. Po-
rém o que fe efconde á vifta, naô
fe efconde ao fogo : efte agente
voraz, impetuolo , e examinador
fevero , naô deixa nada occulto,
e faz appareçer o que era invifivel
totalmente, :
É E Que
206 Problema
Que outra coufa fad os me-
taes todos, fe naô a humidade con-
Junéta á parte terrea que entra na
compofiçaô natural daquelles cor-
pos? Os dous metaes perfeitos tam-
bem naô faô outra coufa mais do
que a mefina humidade metallica ,
tenacilima, fixiflima, e adherente
com uniaô mais forte ao principio
terreítre, que os defende pertinaz-
mente de toda a acçaô dos ele-
mentos; Íó hum fogo aétivo os faz
correntes na fundiçad ; entad mof-
traô que procedem precifamente de
huma humidade oleofa , porém re-
duzida a hum perfeitiflimo grao de
fixidaôd; o como, fó a natureza o
fabe ; nós fabemos os materiaes da-
quella admiravel obra, porém o
modo de os compor, e preparar,
naô faberemos nunca.
Por aquella maneira fe co-
nhece
De Architectura Civil. Soy
shece quea caliça tem humidade
em fi, ainda que naô feja humida-
de vifivel, e palpavel:.e fem buf»
car argumentos Chimicos , bafta
que fe faiba 4 priori que na calis
ça ha fal, para que diflo fe cons
clua com certeza que tambem ha
humidade nella; e ilto da meíma
forte com que fe conclue que don-
de ha humidade ha agoa , e que
donde ha agoa naô deixa de ha-
ver ar. Ê:
Porém ainda haverá quem di-
ga que naô he facil de: perceber
que, eftando o fal dentro na pare-
de, e incorporado a outros mixtos;
poíla lá mefmo penetrallo o ar, e
imfundir-lhe a humidade que dizes
mos. Efta objecçaô naô he confi-
deravel ; porque fabido he que o
ar penetra validamente os corpos
todos; e affim he fem duvida, por-
que
208 Problema
que como naô ha corpo (em pó-
ros, e eftes Ífejad permeaveis, por
elles pafla , e repafla o ar conti-
nuamente ; e por mais que hum
mixto efteja confundido, e miftu-
rado com outros de diver(a natu-
reza, nada impede o ar para ins
troduzir-fe nelle.
O ar com effeito penetra to-
dos os corpos , e vai como circu-
lando pela immenfidade de póros
de cada hum. A luz, ou a mate-
ria (ubtil faz o melmo; e da di-
recçaô, ou obliquidade dos póros ,
por onde a luz pafla, relulta a va-
riedade , e diferença das cores;
porque a cor naô tem fubftancia
propria, e naô he mais do que hu-
ma modulaçaô , ou ondulaçaô da
luz, tranfmittida pelo ar fubril; e
efte pallando direéta, ou obliqua-
mente, caufa na retina dos noilos
olhos
De Architeétura Civil. 209
olhos huma certa vibraçaô, de que
refulta a fenfaçaô defta , ou da-
quella cor.
Na parte ofloza dos animaes
valetudinarios fe obferva em cer-
tos tempos a impreílaô do ar nas
dores que padecem , e que com-
mumente fervem de indício certo
de que o tempo fe muda, ou eftá
para mudar-fe. Iíto, ou feja por-
que o ar naquellas occafioens fique
mais, ou menos pezado; ou feja
porque, fazendo-fe mais denfo , fi-
que como embaraçada a fua per-
meabilidade, e faça entaô mais ni-
fo, ou força para paflar por aquel-
las partes , obítruidas talvez, e
caloficadas ; fempre he certo que
aquelle effeito vem do ar, e que
efte attinge os oflos, ou mufculos
fenfitivos , de que refulta a dor»
naô obftante eftarem defendidos ; e
co-
a1o Problema
cobertos com todas as mais partes
do animal.
O ar pois, e a humidade con-
juntamente paíla , e penetra aílidua-
mente os corpos todos ( exceptuan-
do aquelles que eftaô vitrificados ,
ou que tem femelhante natureza ;
porque efles taes fó fe deixaô pe-
netrar pela materia da luz, a que
chamaô etherea propriamente ) .e
por confequencia penetra qualquer
muro , por mais groflo , e folido
que feja : fe dentro defle muro achar
particulas de fal, ainda que eftejaô
divididas em partes minutiflimas ,
ha de humedecellas precifamente ;
porque os mais mixtos;a que fe achaô
encorporadas , e como confundi-
das, naô as livra da impreflaô do
ar, nem da humidade que contém.
Naô digo que as humedeça na mef-
ma fórma, e no meímo efpaço de
tempo
De Archite&tura Civil. 11
tempo em que o fal humedeceria,
fe eftivelle (ó , e fe eftivefle livre-
mente expoíto á acçaô do ar, eda
humidade ; porque entaô correria
liquido, Fluerer in deliquium , co-
mo fe explicaô os artiftas; mas re-
cebe a humidade fufficiente para im-
pedir que a cal fe conglutine , e de
algum modo fe petrifique com a
aréa.
Porém antes que paílemos a di-
ante, moftremos por alguns expe-
rimentos que o ar, e a humidade
penetrad as paredes com effeito ;
o que melhor conheceremos por al-
guns exemplos , ou argumentos bem
fabidos. ar he hum fluido, ou
vehiculo univerfal; elle nad fó le-
va a humidade por onde pafla, ea
vai transmittindo aos corpos que tem
aptidaô para a receberem , mas até
conduz os átomos invifiveis,que con-
Oii fidera-
bt) Problema
fideramos fahir da pedra magneti
ca. Sobre huma mefa fe efpalhem
algumas agulhas de ferro, ou aço,
ou tambem a limalha de cada hum
daquelles dous metaes ; e paflando-
fe pela parte inferior da banca hu-
ma pedra magnetica vigoro(a , ver-
fe ha que asagulhas, ou limalha fe-
movem fegundo o movimento in-
ferior da pedra. Nefte experimen-
to quem he que conduzio os áto-
mos magneticos para darem aquel-
le movimento ao ferro , fe naô o ar,
atraveílando para iflo, e vencendo
o obftaculo da madeira interpoíta
entre huma coufa , e outra? Por-
que o ferro naô podia mover-fe,
fem fer pela força exterior, e con-
taéto immediato de hum agente cor-
poreo (mas invifivel) que o fizelTe
mover, € lhe imprimiffe de fa£to a
acçaô de hum movimento local. N E
tural-
De Architettura Civil. 213
turalmente nenhum corpo fe move,
fem primeiro fer movido pelo en-
contro, ou choque de outro corpo
Já pofto em movimento : aliás o re-
pouío, ou inacçaô he naturaliflimo;
e nenhum corpo fe moveria , fe naô
houveflem outros que o movellem.
Os átomos magneticos faô com ef-
feito corpos já poítos em movimen-
to, e deite refulta o movimento do
metal que eftava em defcanço , e ef-
taria fempre em quanto o naô mo-
veílem.
Porém aquelles átomos, que
confideramos moventes , quem he
que os leva até chegarem ao ferro
que fazem mover? Quem he que
os traníporta, e os introduz pelos
póros invifiveis da madeira até que
encontrem o ferro, para o fazerem
mudar de lugar , e de direcçaô? Só
o ar tem movimento perpetro ; €
O sn por
214 Problema
por io tudo aquillo que o ar con-
tém, ou que fe póde fuftentar no
ars gira perpetuamente ; porque o
ar, que fe move, faz mover tudo
quanto fe acha nelle, fe o pezo naô
he defproporcionado , porque en-
taô o pezo tem mais força para fuf-
tentar-fe immobil, do que o ar tem
para o fazer mover. Mas porque fe-
rá perpetuo o movimento do ar,
naô o fendo o das outras coufas?
Parece que a razaô he, porque o
movimento do ar provém daquelle
primeiro impulfo que o Divino Ar-
chiteéto do Univerfo imprímio em
todos os principios na ordem da
creaçaô; o movimento pois,que vem
de huma origem poderoza infinita-
mente , naô póde ceflar , fe naô cef-
fando tambem a ordem da nature-
za; e fó o mefmo Architeéto , que
infundio no ar a acçaô de fe mo-
ver,
De Architeélura Civil. 215
ver, he quem a póde fufpender ;
porque o corpo, que fe move, fem-
pre he á proporçaô da força, que o
faz mover : e quando a força he in-
finita , como ha de parar o movi-
mento ? O fim das coufas foppoem
hum principio limitado; e naô aquel-
le, que naô tem limite,
Daquelle experimento da pe-
dra magnetica , a que chamaô com-
mumente de cevar , abuzaraô mui-
tos fazendo crer aos inexpertos que
o movimento das agulhas procedia
de caufa fobrenatural , naô proce-
dendo fe naô naturalmente. Aflim
veio a meíma Phyfica a fervir pa-
ra introduzir erros populares ; e foi
precifo, para os conhecer , naô Íó
que as fciencias fe adianta flem , mas
que ficaffem de algum modo mais
commuas ; porque para defabuzar
a todos he neceflario que todos fai-
O iv baô
216 Problema
baô o em que confie o abufo. A
tinta chamada fympathica , tam-
bem faz hum effeito femelhante , e
raro, fendo que exige mais arte pa-
ra a compôr. Em tudo tem o ar ac-
sad, e dirige (como temos dito)
os átomos da pedra magnetica (fe
he que os tem como fe diz) e mo-
ve os feus effluvios , ou turbilhoens
(fe he que os ha.) à
O oleo de vitriolo deflegma-
do, e poíto em parte fummamente
refguardada , e fecca, fempre cref-
ce em pezo pela humidade que at-
trahio do ar. O tartaro alchaliza-
do , ou qualquer fal alchalino fi-
xo, tem o meímo creícimento, e
pela mefma caufa. O infbramento
chamado Thermômetro indica o pe-
zo, e variaçoens do ar, por mais
que aquelle mefmo utiliflimo inf-
trumento , elteje bem cerrado , e
delene
De Árchiveétura Cívil. 217
defendido exatamente contra as
imprefloens da atmofphera , ou ar
exterior.
Fica pois conftante que o fal
entranhado nas paredes, por meio
da cal pulverizada com agoa do
mar, attrahe a fi continuamente a
humidade aerea ; cuja humidade
impede que a cal fe petrifique com
a arêa, e que faça com ella hum
corpo folido ;-e por confequencia
as pedras , de que os muros fe com-
poem , naô podem achar na cal
hum ligamento forte que as con-
tenha. Daqui vem, que em fe mo-
vendo a terra, ainda que as pedras
fe naô moaô , moem-fe porém a cal,
e a aréa que ferviaô de as prender,
e ligar eftreitamente , ficando por
io mefmo as pedras como foltas,
e divifiveis, e juntamente em efta-
do de fe fepararem humas das ou-
tras»
218 Problema
tras, arruinado aílim, e cahido o
muro que Íuftentava o edificio.
CAPITULO XII
C Hamei petrificaçad a aquella
uniad exacta que fe fórma en-
trea cal, ea arêa, de que reful-
ta hum concreto duro, continuado
nas fuas partes , impenetravel à
agoa , e que em muitas circunf-
tancias tem huma natureza feme-
lhante á da mefma pedra. E com
effeito, fe fe amaçar huma parte de
cal, pulverizada com agoa doce,
com duas partes de arêa fina, que
naô tenha barro, nem participe de
agoa falgada , ver-fe-ha que a agoa,
com que aquelles dous mixtos fe
amaçaraô , em breve tempo fécca;
e de-
De drcbnetura Civil. 41 g
e depois de poucos dias fica tudo
reduzido a hum corpo Íolido , re-
fiftente á agoa , e apartando-fe
della ; como fe fofle huma pedra
verdadeira. Aflim o notou o dou-
tilimo , e experientifimo artifta
Jorge Ernefto Stahl na fua Phyfica
ca Mechanica pag. 137. $. 5. em
que diz:
Communiter enim notum ef? , quod
calx tanta aque portione, ut pul-
tis confifentiam referar perfufa »
aqua bac fuccefione exfpirante, in
Japideam duritiem concrefcat. Con-
tras fiplurima aqua perfundatur ,
illaque decanterur , aut lento fal-
tem aeris tepore divaporet, calx
slla plane friabilis, é pulverm-
lenta remaneat.
Porém fe a referida compofiçaô fe
praticar com algum daquelles ma-
teriaes,
220 Problema
teriaes , em que entre de algum
modo o fal commum , ou outro
qualquer , ver-fe-ha que em todo
o tempo a agoa a ha de penetrar ,
ou mais ou menos , fegundo a
quantidade , ou qualidade de fal
que tiver em fi; porque o fal, de
qualquer natureza que Íeja, impe-
de efficazmente aquella efpecie de
petrificaçad artificial.
E naô fó a refpeito da cal, e
a arêa impede a humidade de qual-
quer fal ( ou outra humidade al-
guma ) a uniad perfeita entre al-
guns mixtos, mas tambem em ou-
tras compofiçoens , e operaçoens
fuccede o mefmo , como já diffe-
mos da telha , e do tijolo, nos quaes
em quanto lia humidade na maça
do compoíto , e em quanto o fogo
a naô expelle inteiramente, naô pó-
de atelha fuítentar, nem refiftir á
agoa.
De ArchiteturaCivil. ar
agoa. He neceflario que naô haja
humidade:no interior das partes, e
que neftas naô haja coufa que fe-
ja capaz de a attrahir.
Ifto he , porque de todas as
coufas conhecidas nenhuma ha ,
que pofla attrahir a agoa, e a hu-
midade tanto como o fal; efte he
o feu verdadeiro Iman ; nem ha
arte alguma, por onde fe lhe tire
aquella propriedade , fem o' def-
truir primeiro, ejá entaô abiit na-
tura falis. Daqui procedem varios
artifícios economicos. V g. quan-
do o azeite he mais liquido do que
deve fer na fua commua, e mais
propria confiftencia ( o que proce-
de de conter em fi muita humida-
de aquofa , e fuperflua ) para o me-
lhorar , e reduzir a confiftencia me-
lhor; deita fe-lhe fal decrepitado ;
e mifturado tudo , deixa-fe defcan-
çar
23 Problema
car a maça do azeite, e fal; efte
entaô attrahe a humidade fuperflua
do azeite, ficando o mefmo azeite
mais groflo , e mais proprio para os
feus uzos.
O fal porém naquella conjun-
çaô naô attrahe a fi oazeite; por-
que a propenfaõ attraétiva, que o
fal tem, he fó a reípeito da agoa,
ou humidade aquofa , mas naô pa-
ta attrahir humidade oleofa algu-
ma. Daqui tambem procede , que
quando o azeite eftá coinquinado
com particulas falinas , e terreftres
que o fazem impuro , e menos cla-
ro, o remedio he deitar-lhe agoa
quente ; efta diflolve o fal, e o con-
ferva diffoluto fobre o azeite, e por
“aquelle modo fe fepara inteiramen-
te o fal; entaô as partes terreítres,
feparadas tambem do fal, precipi-
taô-fe ao fundo da vafilha , ficando
o azet-
De Archirectura Civil. 223
o azeite livre tanto de hum agore-
gado impuro , como de outro Ítper-
fluo.
He verdade que o azeite fó
por fi he incapaz de diflolver o fal,
mas efte he o que fe diflolve na hu-
midade fuperflua do azeite, e com
elle fe miftura de algum modo, e
como fuperficialmente ; mas quan-
do fobrevém maior quantidade de
agoa exterior, eta juntando-fe com
a que.o azeite tem demais, entaô
fe feparaô ambas facilmente. Tudo
vem da propenfaô invencivel que
o fal tem para attrahir a agoa.; cu-
3a propenfaô fe naô tira ao fal fem o
deftruir inteiramente, como fica di-
ta; ede tal forte, que o fogo, que
deftroe tudo , e que tem força pa-
ra mudar a natureza de muitos cor-
pos , naô a tem para tirar ao fal
aquella mefma propenfaõ , antes lha
aug-
224 Problema
augmenta em grao fuperior ; daqui
procede que hum fal, de qualquer
genero que feja , que fegundo a
fua indole natural attrahia a agoa
fracamente , e de vagar , depois
que pafla pelo fogo , e fe funde
nelle, fica adquirindo mais aétivi-
dade para attrahir a agoa, e mais
promptamente.
No mefmo fal commum te-
mos hum exemplo.. Efte fal attrahe
a humidade, e fe derrete nella, co-
mo todos fabem, mas naô he ra-
pidamente, e com tanta velocida-
de, que naô neceflite de algum con+
fideraravel intervallo. Porém fe de-
crepitarmos o fal commum , ou o
fundirmos ao fogo , entaô veremos
a brevidade com que attrahe a hu-
midade aerea, e com que cahe em
deliquio totalmente. Em qualquer
fal alchalino fixo fe obferva o mef-
mo.
De Architeélura Civil. às
mo. Ponhamos por exemplo o fal
das cinzas; eftas lixiviadas, e por
efte meio extrahido dellas aquelle
fal, fim humedece como todos os
outros ; mas fe o fizermos paflar fe-
gunda vez pela acçaoô do fogo, en-
taô veremos que attrahe a humida-
de muito velozmente, e á maneira
de huma efponja que fe embebe na
agoa. ã
O nitro tambem attrahe a hu-
midade, porém muito lentamente ,
e confervando fempre huma tal,
ou qual confiftencia dura ; mas fe
o fundirmos ao fogo alchalizando-o
por efle modo , veremos que o ni-
tro, mudando o feu primeiro genio,
attrahe a humidade brevemente, e
com ella corre deliquado. Alim fe
moftra que nem o fogo, que aliás def-
troe , e muda as propriedades effen-
ciaes dos mixtos , póde mudar , nem
Pp deftruir
226 Problema
deftruir a aptidad que nos faes fe
encontra para attrahirem a humida-
de, e fe incorporarem nella.
CAPITULO XII.
O: corpos regularmente faôd
mais , ou menos Íolidos , á pro-
porçaô que contém mais, ou me-
nos humidade ; porque efta intro-
mettida nos interíticios porofos , im-
pede a exacta conjuncçaô ; por iflo
vemos, que os corpos mais Íolidos,
que ha faô aquelles de que fe naô
póde extrahir humidade alguma.
Do mefmo principio refulta o ma-
ior, ou menos pezo. De nenhum
dos metaes fe póde tirar humida-
de alguma vifivel , e verdadeira-
mente tal; daqui vem ferem os cor-
pos
De Architetura Civil. 217
pos mais pezados que conhecemos.
O ferro depois de fundido pa-
rece que fica abfolutamente izen-
to de humidade , naô obltante fer
compofto de terreftreidades fulphu-
reas; porém eftas, Íuppolíto tenhad
propenfaô para attrahirem a humi-
dade por caufa do acido vitríolico,
que contém , efte , depois que o fo-
go de fundiçaô o expelle , parece
que fica a parte metallica continua-
da toda, e que adquire a folidez,
e compacçaô que he propria do
metal.
Com tudo naô he aílim como
parece; porque o ferro , por mais
vezes que fe funda, nunca póde fi-
car fem a parte fulphurea vitríolicas
e efta he a que attrahe a humidade
a fi, de que vem a ferrugem de que
o ferro fe revefte fempre na fuper-
ficie que fica expofta ao ar; e por
Pi io
228 Problema
lo fe cobre o ferro , para que a
humidade o naô penetre tanto, ou
tambem fe lhe applicaô materias
oleofas , as quaes tambem fervem
de defeza , para que a humidade
do ar naô chegue a fazer tanta im-
preflao.
Os metaes depois de excan-
decidos ao fogo, ficad mais mallea-
veis; e obedecem melhor á força
do martello, do que eftando frios.
Ifto procede naô fó porque ocalor
difpoem os metaes para a fufaô, e
os faz mais brandos , paflando o
fogo rapidiflimamente pelos feus pó-
ros ; mas tambem porque expelle
exactamente o ar que nelles fe con-
tinha, e expellido o ar, fica expel-
lida a humidade toda, em quanto
o calor dura. E com effeito em quan-
to a humidade fubfite, tem o metal
difpofiçaô para quebrar , e naô pa-
ra
De Architeilura Civil. 229
ra fe eftender ; nem as partes do
metal fe juntaô, em quanto a hu-
midade fe naô retira totalmente ;
porque tem as mefmas partes como
feparadas entre fi, e com obítaculo
para fe unirem. ;
Ha porém algumas humidades
tenaciílimas que refiftem pertinaz-
mente ao fogo ; por iflo os corpos;
que as contém, faô frageis fempre ,
nem podem fer malleaveis por mo-
do , nem artifício algum. O vitrio-
lo he hum daqueles corpos , o qual
fendo agitado na retorta por hum
fogo activo; e longo, nunca che-
ga a ceder , nem a largar toda a hu-
midade, ou licor corrofivo que em
fi tem; e fe a operaçaô períilte 5
fahe'o oleo congelado , e criftalli-
no, mas nunca inteiramente. Do
azougue naô fe póde feparar a hu-
midade que vifivelmente moftra, e
Pai que
230 Problema
que o faz mobil, e corrente ; por
cuja razaô fe dife que o azougue
era huma agoa fecca que naô hu-
medece: qua manus non madefa-
crens.
Se fe differ que todo o corpo
vitrificado he fragil, naô conten-
do alias humidade alguma , ref-
ponder-fe-ha que aflim' como ha
hum ar fubuil, e incoercivel, e ou-
tro coercivel , e elaftico , tambem
ha humidade groffeira, corporiza-
vel, evifivel. Além de que o vidro
naô he fragil por conter algum ge-
nero de humidade , mas ( fegundo
fe entende) porque a materia da
fua compofiçao naô he de huma na-
tureza Íó; ea diverfidade de fub”-
tancias, que entraô na compofiçaô
de hum mixto (ou a compofiçaõ
feja natural , ou artificial) he de
donde provém a fragilidade era
s
De Architeélura Civil. 231
Os dous metaes perfeitos fad
fummamente malleaveis, por ferem
compoítos de huma Íó , e unica
fubftancia ; porque a analyfe nad
tem achado nelles diverfidade algu=
ma de materia, e nelles procede a
regra: Ductilitas ex bommogenei-
tate partium, frangibilivas ex bete-
rogoneitate. Iíto he fe ha no mun=
do verdadeira hommogeneidade,
Sempre he certo , que os corpos
terreos em fi contém humidade
aétual, ou potencial; e neíta hypo-
thefis naô podem coalefcer, nem in-
durar-fe fortemente; porque ainda
nos corpos Íolidos a humidade fó
deve intervir na primordial miftura
da compofiçad ; ie depois, pará que
os feus ingredientes fe confolidem,
ou petrifiquem , he precifo que a
“humidade coníponente fe afaíte in-
teiramente , e ifto á proporçaô da
Iv con-
232 Problema
confiftencia , ou induraçaô que de-
ve fer propria no compoito.
Porém fe algum daquelles in-
gredientes tem propençaô innata
para humeder , já mais póde con-
feguir-fe delles concrefaô alguma
lapidofa ; porque a humidade ac-
tual, e perhiftente , Íó ferve para
amollecer os corpos, naô para os
endurecer; ferve para os fazer di-
vifiveis facilmente, naô para os fa-
zer com dificuldade feparaveis.
O
CAPITULO XIV
O: corpos, por mais Íolidos que
fejaô, e ainda que na fua pri-
meira formatura Ífejaô hommoge-
neos (ao noílo ver ) todos faô di-
vifiveis por alguma humidade pro-
pria,
De Architetura Civil. 233
pria, e tirada de outro algum cor-
po reduzido a hum eftado fluido :
e he para admirar que para cada
corpo haja hum licor, a que cha-
mamos proprio, que o divide , refi-
fiftindo , ou naô cedendo a outro
algum licor. O ouro he o corpo
mais compacto , e hommogeneo de
todos quantos produz a natureza , e
de todos quantos póde fabricar a
arte; compofto de partes fimilares,
cuja aggregaçaõ faz o corpo do me-
tal, naô o compofto; porque com-
pofto verdadeiramente fó he aquil-
lo, em cuja formaçaõ fe diftinguem,
ou podem diftinguir-fe partes con-
junétivas, mas entre fi diverfas, e
de diverfa natureza.
Por iflo os que efcreverad, e
differad que o ouro fe formava de
enxofre, mercurio , e fal, parece
que naô acertaraô , ou naô quize-
raõ
134 Problema
raô que os outros acertaflem: por-
que, confideradas as imperfeiçoens
repugnarites entre fi daquelles tres
princípios , nunca poderemos en-
tender que delles refulte o mais
perfeito dos metaes. O ouro pois
refifte a todos os licores corrofivos,
ou eftes fejad acidos , ou alchali-
nos, como fica apontado aflima ; e
fó cede ao acido do fal commum.
À agoa forte deixa o ouro intaéto,
e nefte naô tem acçaô alguma, por
mais que feja efficazmente forte, e
concentrada : porém fe á agoa for-
te fe junta huma certa porçaô de
fal commum, ou feja em fubftan-
cia, ou em efpirito, fica fendo o
que os artiftas experientes chamaô
aqua regia, que he o proprio , e na-
tural diffolvente daquelle regio me-
tal. Só por aquella fimples addi-
gaô perdeo a agoa forte a proprier
dade
De Architeélura Civil. 235
dade fingular que tinha para diffol-
ver a prata, e adquirio a que nad
tinha para diffolver o ouro.
Os outros metaes diflolvem-fe
igualmente em efpiritos mais, ou
menos corrofivos ; porque alguns
refiftem aos acidos vigorofos e
cedem aos que faô mais brandos ;
aflim como tambem alguns cedem
promptamente aos fortes, e refif-
tem aos que faô menos aétivos. Po-
rém depois de diflolvidos em qual
quer diffolvente liquido , naô po-
dem reduzir-fe a corpo folido me-
tallico , nem tomar fuzaô perfeita,
fe naô depois de eftar inteiramente
expulfa a humidade do liquido que
os continha: a mais leviflima por-
çaô do mefmo liquido diflolvente
impede a corporizaçaô , e reduc-
çaô de tados os metaes; porque,
como temos dito tantas vezes, a
humi-
236 Problema
humidade pghlegmatica , e fuperfi-
cial, ferve de obítaculo invencivel
para que os corpos tomem confif-
tencia exaétamente dura, e perma-
nente ; e á proporçaô da mais, ou
menos humidade , que contém , faô
mais, ou menos Íolidos , e tem
mais, ou menos confiftencia.
De forte, que a humidade fó
deve fervir de liga para unir os ex-
tremos, ifto he, para unir os cor-
pos que devem fazer hum corpo
fó , ou hum fó compoíto. Porém
depois de feita a uniaô propofta ,
ou pelo artifice, ou pela natureza,
deve apartar-fe a humidade toda ,
fem deixar refto, nem veítígio al-
gum de que ainda exifte alguma
parte della no compofto.
He porém bem certo, que fe
de qualquer mixto terreo, vegetal,
mineral, ou animal, lhe apartar-
mos
De Árcbiteelura Civil. 237
mos a humidade totalmente , diflo
meímo ha de refultar, ficar o mix-
to reduzido em: pó : iíto fe oblerva
ainda nos metaes inferiores ; por-
que, poíto o chumbo, ou o efta-
nho em qualquer valo ao fogo , fe
eíte for diuturno , e o que bafte
para fundir aquelles dous metaes ,
entraô a fumarem, ou lançarem de
fi huma humidade volatil de natu-
reza mercurial, que fe diflipa ; e
o que fica depois he hum pó fub-
til, feparado em todas as Íuas par-
tes, e fem a mais pequena uniad
entre ellas. Ifto meímo acontece
na manufaétura da cal; em que fe
vê que primeiro, que a pedra fe
ponha em eftado de poder pulveri-
zar-fe, o fogo aparta della a humi-
dade, ou parte liquifiavel, a qual
fe precipita ao fundo da fornalha,
ou forno em que fe coze a pedra ,
cuja
238 Problema
cuja humidade junta com as partes
terreas , falinas, alchalinas da lenha
Já queimada, faz huma certa ma-
ça a que os operarios chamaô ef.
coira, ou efcoria.
O memo fuccede aos veges
taes: neítes , depois que a parte in-
flammavel fe diflipa em chama, e
depois de exhalada a humidade to-
da, fica o vegetal de tal forte dif
Junéto em todo o feu compofto ,
que o que defte permanece he a
cinza que vemos commumente: a
meíma alteraçaô fuccede , e tem lu-
gar nos animaes. Os oflos, que fa-
zem a parte mais Íolida, e compa-
éta, fe o fogo fepara delles a humi-
dade , ficaô naô fó fummamente
frageis, e fem dureza, mas redu-
Zidos a verdadeira cinza : o meímo
fuccede ás partes folidas dos pei«
xes, ea todo o genero de conchas,
a que
De Archisetlura Civil. 239
a que os Latinos chamaõ offraco-
dermata.
Para darmos foluçaô a todas
aquellas duvidas, que parecem de
algum modo encontrar o que afli-
ma temos amplamente deduzido ,
he neceflario faber , que ha dous
generos de humidade ; huma fim-
plefmente phlegmatica , que deve
defamparar o compofto depois de
haver fervido para o formar ; e deve
feparar-fe exactamente para ter lu-
gar a coalefcencia , e adhefad in-
tima das partes entre fi: outra hu-
midade que he unétuola, e ellen-
cial, e como primogenita em cada
hum dos corpos naturaes; efta fe
fepara com violencia, ou por for»
ça de qualquer agente forte, fica
o corpo disjunto , e perdendo a
uniaô das mefmas partes , de que
provém a cinza. Eftas duas humi-
dades
240 Problema
dades diferem tanto na razaô dos
feus principios, que (empre confer-
vaô propenfaô para fe adverfarem,
e como fugirem huma da. outra ,
pelas fuas diverías naturezas , e fes
gundo as fuas primeiras, e diftina
étivas compofiçoens elementares.
Aquella humidade unétuola
he o meímo, a que os Philofophos
antigos chamaraô humido radical
inato, para a diftinguirem da ou-
tra que entra como materialmente
na organizaçaô dos mixtos; e en«
tra com effeito mais como vehiculo
ferviente, do que como parte ef-
fencial; como inftrumento , e nad
comoartifice. Da mefma humidade
unétuofa , ou humido radical, fe
dife: Ef? in aere ocenltus vita ci-
dus» cujus fpíritas invifibilis com-
gelatus melior ef? quam terra uni-
verfa,
E
De Architeblura Civil. sat
E de facto o alimento da vida
naô confifte fó na humidade phle-
gmatica que vemos; mas na humi-
dade unétuofa , que naô vemos : ef-
ta he inflammavel em certas circunf-
tancias, etherea, lucidiflima; naô
admitte compreflao na machina
pneumatica ; nenhum corpo refifte
“á fua acçaô, e circulaçaô; penetrá
todos os corpos petrificados , vi-
trificados, ou metallizados , e he
comparavel á materia de que fe
fórma o raio; e he talvez o efpi-
rito que na creaçaô do mundo fe-
rebatur fuper aquas , ou incubabar
aquis , fegundo a verfad Grega.
Oar, e a agoa faô os dous
lugares, ou matrizes proprias em
que aquella humidade , ou humido
radical refide mais copiofamente ;
por iflo naô fe póde viver fem
agoa, nem tambem fem ar. Em
Q cada
242 Problema
cada porçaô exigua deítes elemen-
tos eftá huma porçaô indetermi-
navel daquella humidade etherea.
Ifto fe moftra por varios experimen-
tos conhecidos. Supponhamos hum
animal qualquer, pofto em parte
eftreita, e em fórma tal que o ar
exterior naô pofla ter communica-
çaô alguma dentro; o animal in-
clufo ha de viver algum efpaço ;
mas depois que tiver como exhauri-
do por meio da infpiraçaô aquelle
alimento, ou humido vital, que o
lugar contnhis ha de morrer in-
fallivelmente.
O mefmo fuccede, e mais
promptamente na machina pneu-
matica ; porque nefta , além de
naô ter ingreflo o ar exterior, tam-
bem fe lhe extrahe aquelle que ti-
nha dentro; por iílo morre o ani-
mal por tres principios: O primeiro
por-
De Arcbiteltura Civil. 243
porque lhe falta o humido vital, ou
o alimento que o ar continha no
concavo do valo: o fegundo por-
que o meímo humido , que o animal
tinha dentro em fi, tambem fe lhe
extrahe , por meio da efpanfibili-
dade, ou dilataçaô que o ar rece-
be na operaçad da machina; de
que refulta o entrar o animal a fuar
extraordinariamente , e morrer em
convulfaõ : o terceiro, porque fi-
cando o ar do concavo fem o pezo
proporcionado, naô fe póde o co-
raçaô contrahir, nem dilatar, ea
circulaçaô do fangue fe fufpende
á maneira de hum rologio , em que,
tirados os pezos, pára o movimen-
to do artefato. As fuffocaçoens
externas , coftumaô proceder da
mefma caufa.
O mefmo fe obferva em qual-
quer lugar fechado, em que ha fo-
Qui go
244 Problema
go de carvad accefo: o animal que
eftiver dentro, perde os fentidos ,
e cahe como eltuporado, e mor-
refle promptamente fe naô dá en-
trada, por onde o ar de fóra fe
communique. Iíto Íuccede menos
pela qualidade nociva , e acido ful-
phureo do carvaô , como porque
efte acefo atrahe a fi a humida-
de unétuofa que o lugar contém,
e o deixa exhauíto daquelle ali
mento primeiro , e precifo para a
vida.
Por outros muitos experimen-
tos fe conhece que ha duas humi-
dades oppoltas entre fi, e contra-
rias nas fuas qualidades primiti-
vas; huma puramente phlegma-
tica Zgnem extinguens ; outra un-
étuola , igmem promovens. Eltas
duas humidades fe obfervaõ na agoa
do mar: eíte he talvez o abyímo
origi-
De Architelura Civil, 245
original, e univerfal de donde pro-
manaô todas quantas humidades há
no mundo ; porque, por mais que a
agoa do mar nos pareça hum cor-
po fimples, he porém compofto de
muitos corpos unidos, e allociados
entre fi; e fem fallar no fal, que a
mefma agoa tem deíde a Ífua pri-
meira creaçaô (fe he que logo te-
ve fal no inftante da fua creaçaô )
encerra tambem aquellas duas hu-
midades oppoítas, e nunca perfei-
tamente feparaveis.
A materia luminofa , ou phof-
phor natural, que as agoas do mar
moftraô ao ferir dos remos, e ain-
da com o movimento das mefmas
agoas agitadas, tem fido eftuda-
da pouco; tanto he certo, que as
coufas que eítamos vendo , por
mais fingularidades que contenhaô,
naô excitaô a noíla indagaçaô :
Q iii olha-
246 Problema
olhamos com defprezo para tudo
quanto vemos; fempre a nofla cu-
rolidade, e attençaô fó fe dirige
para as couzas defufadas; tudo, o
que he vulgar, parece-nos indigno
da nofla reflexad; para fazermos
pouco calo de alguma couza baf-
ta que nos pareça facil ou de co-
nhecer, ou de alcançar; he necef-
fario que a concideremos em fi-
gura difficultofa ; fó entaô fe ani-
ma o noflo empenho, a noíla cu-
riofidade, o noflo eftudo.
Segue-fe pois ( e he a con-
clufaô do que fica expoíto ) que
para hum corpo fer folido, e per-
manente, neceflita a expulfao to-
tal da humidade phlegmatica que
entrou na fua compofiçao (ou efta
feja natural, ou artificial) e que a
humidade unétuofa póde , e deve
fubfiftir fem caufar imperfeiçaô
na
De Architeciura Crvil. 247
na obra, antes he neceffaria para
a perfeiçaô della ; ifto fe enterde
a refpeito das compofiçoens com-
paétas, e que tem a pedra, outer-
ra por bafe principal. E ah a pa-
rede fabricada com cal pulveriza-
da com agoa falgada , ou ainda
falobra , nunca póde adquirir con-
fiftencia competente para fer dura-
vel; nunca ha de achar-fe nella
aquella efpecie de petrificaçaô que
deve refultar da uniaô perfeita
entre os materiaes de que fe fór-
ma a Íua conftrucçaõ.
Diflemos que a agoa falobra
era impropria tambem para com
ella fe pulverizar a pedra da cal;
e he certo ; porque a agoa falobra
naô dire da agoa do mar , fe naô
na quantidade do fal que tem; ou ef-
te fal venha do mar immediatamen-
te por conduétos fubterraneos : ou
eja
248 Problema
feja extrahido da terra por onde as
agoas paílaô ; a qualidade he com-
mumente a melma, e naô differem
mais do que na maior, ou menor
porçaô. He fem duvida que o in-
terior da terra he abundantifimo
daquelle fal; e tanto, que alguns
difleraô que as agoas do mar eraó
falgadas , naô originariamente def-
de a (ua creaçaô, mas pelo fal da
terra que tinhaô diflolvido, e in-
corporado a fi.
As minas de falno Reino de
Polonia, fazem prova incontefta-
vel da immenfa quantidade de fal
que a terra tem, etaô abundante-
mente naquella parte, que parece
inexhaurivel, e de qualidade tal,
que he denominado com o termo
de falgema, pela figura de pedra
preciofa que fe obferva nelle, e
fó differe do fal do mar na razaô
de
De Architeélura Civil. 249
de fer mais puro, maiscriftallino ,
e mais compaêto ; em tudo o mais
tem os meímos dotes fem differen-
ça alguma; porque com effeito
delle fe extrahe o efpirito acido
que he o diflolvente proprio do ou-
ro, e que precipita a prata diffol-
vida na agoa forte; e além deítas
duas propriedades, por onde o fal
do mar fe diftingue de todos os
outros faes, tem o falgema todas
as mais circunítancias ou requifitos
do fal commum , ainda que as poí-
fue em grao Íuperior.
As agoas falobras, ou fejaô
de fontes, ou de poços, ou de
outros quaeíquer lugares em que fe
achaô, faô da mefma qualidade,
e com ellas fe fazem os memos
experimentos que fe pódem fazer
com o fal do mar; exceptuando
algumas agoas mineraes , age
or
aço Problema
bor eftiptico propende mais para
alumino(o , vitriolico, e metallico,
que para falino. Outras agoas ha
que faó naturalmente faponaceas ,
e alchalinas, e todas juftamente re-
provadas na arte de edificar, e if-
to naô Íó pelos fundamentos ex-
pendidos já, mas tambem pela re-
gra geral, e limitaçaô de que fó
a agoa pura, e fimples he capaz
de unirfe intimamente com a cal,
e formar com ella hum corpo fo-
lido, e duravel.
Fim da primeira Parte.
PROBLEMA
DE
ARCHITECTURA
GIVYIL
PARTE H.
Co a Corps ste
manera eme trema,
CAPITULO LI
Emos difcorrido fobre os
dous materiaes precifos pa-
ra a conítrucçaô dos muros :
da pedra diflemos que devia fer a
que fole rija, bem continuada,
e compacta em todas as fuas par-
tes; fem ter veas de materia bran-
da, e naô petrificada ainda : da
cal tambem diílemos que devia fer
a que foífe fabricada com pedra de
qualidades femelhantes; com tanto
Part. II. A que
p) Problema
que feja calcinavel; porque , como
todos fabem, nem de toda a pe-
dra fe póde fazer cal, vifto que
algumas ha que totalmente fad im-=
proprias para aquelle minifterio ,
e que refitem conftantemente ao
fogo mais violento, de que reful-
ta o naô poderem fer calcinadas
por artifício algum. E fobre tudo
moitrámos que as pedras, depois
de calcinadas, naô devem fer pul-
verizadas ao ar, mas fim pela fim-
ples aíperfaô da agoa, com tanto,
que efta naô Íeja falgada, nem fa-
lobra, nem que contenha a mais
leve porçaô de qualquer genero de
fal; porque efta circunftancia, que
parece de pouca confequencia , he
eflencial todas as vezes que for
queítaô de edificarfe em fórma,
que o edificio fique perduravel;
e que como tal pofla refiftir mais
algum
De Architeélura Civil. 3
algum tanto ao movimento da ter-
ra quando treme. Ifto fe entende
de huma refiftencia momentanea
oppoíta a hum movimento tambem
momentaneo ; porque contra o que
durar hum certo numero de minu-
tos, e que além diflo for rapidif-
fimo, e forte, ou feja na ondula-
çaô, ou feja na pulfaçaô da terra,
muito poucas couzas, e talvez ne-
nhuma póde refiftir naquelle cafo.
Os mefmos montes, e penhafcos
folidilimos , cujos fundamentos
vem do centro, muitas vezes cor-
rem, mudaô-fe, abrem-fe, deí-
penhaô-fe, ou fe fubmergem.
He porém verdade que nos
edificios, os que forem fabricados
com mais regularidade, e arte,
haô de fer os que cedaô em ulti-
mo lugar, fazendo a ultima parte
da ruina, naô a primeira; ceden-
Au do
4 Problema
do ao impulfo grave, e extraordi-
nario, naô ao que for fupportavel,
e mediocre ; e ilto depois de refif-
tir, naô fem refiftencia; feme-
lhante ao combatente, que fe ren-
de à força fuperior, naô à commua ,
depois de fazer a oppofiçaô pofli-
vel, naô antes; quando o eftrago
he inevitavel, e naô em quanto o
póde evitar humanamente; por-
que entaô naô fe póde precaver
huma ruina que parece forçoza, e
neceflaria ; como difle o enthufi-
afmo de Lucano.
Pracipites aderunt cafus: properana
te ruina
Summa cadunt.
ht nunc femirutis pendent quod ma-
nia teélis
Urbibus Italie , lapfisque ingentia
muris
Saxa jacent, mulloque domus cujto-
de tenentur. He
De Árcbiteklilia Crvil. x
“He certo pois, que os edificios re-
“fiftem mais, ou menos, fegundo a
fortaleza regular com que foraô fa-
bricados; porém efle pouco mais,
que podem refiftir, he de confe-
quencia grande. No cafo dos ter-
remotos , quantos perdem a vida
por hum minuto de menos ; quan-
tos morrem porque naô tiverad hum
imíitante de mais * Sendo o tempo
«preciofo , quanto naô ferá aquelle,
«le que depende a morte de muitos;
ou a vida ! Os antigos illuftravad
com eftatuas as acçoens famofas
que tinhaô produzido a conferva-
çaô de algum cidadad Romano ,
andicando a infcripçad Ob ferva-
tum civem ; fendo que aquella mef-
ma famofiflima naçaô no defpre-
go da vida fundou o feu bellico,
ou pacifico heroifmo.
Nós por principio bem diver-
Part. II A ui fo»
6 Problema
fo , devemos evitar toda a morte
accidental , e precipitofa; porque
para nós, ainda depois da morte,
he queítaô da vida, e de viver em
gloria , ou de viver em pena. E
com effeito a verdadeira vida nad
tem fim; porque no mefmo ponto,
em que acaba a temporal, come-
ça a que ha de fer eterna, ea que
ha de durar eternamente , ou em
dor ; ou em felicidade, Que terri-
vel argumento he o que tem por ob-
Je£to hum daquelles dous modos de
viver! Nem fortuna, nem a defgra-
ça decidem a nofla forte; nós mef-
mos havemos de mover a machina
de que depende o noflo bem, ou o
noflo mal: e como fem tempo nada
fe move, que cuidado naô devemos
pôr para termos algum breve ef
paço quando houvermos de acabar
temporalmente? eífe efpaço nos pro-
mette
De Architeélura Civil.
imette o edifício bem fundado ; po-
rém mais, que tudo, a fabia, e
mifericordiofa providencia.
DP
CAPITULO II.
Arêa he o terceiro , e indif-
penfavel ingrediente de que
fe fórma o compofto da parede ;
e por iflo he precifo conhecer aquel-
la materia commumente conheci-
da , mas naô conhecida, ou bem
entendida cômumente. Muitos qui-
zeraô fuftentar o paradoxo de que
a arêa naô era outra coufa mais do
que huma terra como outra qual-
quer , fó diftinéta na figura , mas in-
diftinéta nos effeitos. Porém, como
nas verdadades phyficas fó fe-eftá
por aquillo que phyficamente fe de-
A iv monf-
g Problema
moftra , nunca fe poderá dizer com
prova certa que a arêa feja terra
fó diftinéta na figura ; porque tam-
bem o he em todos os feus effei-
tos; e ifto fe deduz de varios ex-
perimentos ; de que alguns faô os
feguintes.
A arêa fó por fi fe vitrifica ,
fem neceffitar da conjuncçaõ de ou-
tro corpo algum vitrificavel; e de-.
pois de vitrificada, fica fundida per-.
ferramente ; e nefte eftado recebe
a fórma , ou configuraçad que o
artifice lhe quer dar , fegundo o
ufo, para que o vidro he deftina-
do, O mefmo vidro fica impenetra-
vel á agoa, e ainda a todos os li-
cores corrofivos ; naô fermenta com
os acidos , nem com os alchalinos ;
além difto faz hum corpo umdo
entre todas as Íuas partes, e dia-
phano quando a aréa he pura, e
clara ;
De Architechira Civil. 9
clara; e em hum certo grao de ca-
Jor, he malleavel ad inftar metalis.
À terra tem qualidades con-.
trarias a aquellas todas ; porque fem
a conjuncçaô de algum fal alchalino
fixo , naô fe vitrifica, nem fe fun-
de, efica fempre defunida , e dif-
gregada feparadamente em cada
huma das fuas partes, fem admit-
tir cohefaô entre ellas , por mais
Roe o fogo feja forte , e diuturno.
e penetravel á agoa , ea todos os
licores, e fermenta com osacidos,
fazendo as vezes de qualquer al-
chalica materia; e quando da ter-
ra fe fazem alguns vafos para cer-
tos minifterios, fempre vai aflocia-
da com alguma porçaô de arêa , de
que recebe alguma tal, ou qual fir-
meza , fem poder adquirir nunca
tranfparencia , ou diaphaneidade ;
antes impede totalmente a ds
aõ
ro Problema
çaô da luz; e quando he vifta pe
lo microícopio , moftra fer hum
corpo irregular , e fem affettaçaõ
para eta , ou aquella fórma ; em
lugar, que a arêa, fendo obfervada
por aqueile inftrumento , moftra fer
hum corpo criftallino , e que affe-
éta huma fórma, ou figura de an-
gulos certos, e determinados, co-
mo , alémde ouros, notou o infignif-
fimo Boerrhave. :
Que a arêa primeiro fo ffe ter-
ta, e que deíta procedeíle origina-
riamente como todas as coufas fu-
blunares , /is adbuc ef? fub judice;
porque de faéto naô tem fido de-
monftrado que todas quantas coufas
ha no globo, que habitamos, te-
nhaô a terra por origem, ainda que
na terra recebaô a Íua formaçaô,
por alguma natural elaboraçaõ ; fer-
vindo a terra de lugar Feninento
na
De Architelura Civil. II
naô de contento; ou como de vas
fo em que a coufa fe compoem,
naô de materia componente ; de
receptaculo em que a meíma cou-
fa fe fabrica, naô de corpo fabri-
cante,
E com effeito ha muitos cor-
pos em que por modo algum fe pó«
de demolftrar que a terra preexife
tiffe, ou entrafle na fua original,
e primeira formaçaô. De todos os
animaes, e dos vegetaes todos , fa-
cilmente fe extrahe huma terra pura,
e verdadeira , de que fe póde inferir
(com probabilidade , naô com certes
za ) que a terra entrou em qualquer
daquellas compofiçoens ; porém na
maior parte dos mineraes he difficul.
tofa empreza o moltrar que a ter-
ra foffe hum dos feus princípios.
Nem do ouro , nem da prata,
nem do azougue fe póde extrahir
por
12 Problema
por experimento algum, que feja
conhecido , a mais pequena porçaó
de terra ; e ainda que o azougue
por fi fó, pela acçaô da concuflaõ,
ou movimento, fe pofla reduzir a
hum pó minutiflimo , como relata
o meímo doutilimo Boerrhave ,
com tudo aquelle pó naô he ter.
ra certamente, mas o mefmo me-
tal fummamente dividido, e fubti-
lizado , como Ífuccede tambem ao
chumbo , e ao eftanho por meio de
hum fogo lento. Eftes metaes po-
rém tornaô a tomar a fua primei-
ra, e antiga fórma, com todas as
fuas naturaes propriedades , fó pe-
la fimples addiçaô de qualquer ma-
teria inflammavel, febacea, ou oleo-
fa, da qual recebem a parte phlo-
giftica que o fogo tinha diflipado ;
de que fe infere que naô era ter-
ra o pó fubtil a que aquelles me-
: taes
1
De Architeélura Civil. 13
taes eltavad reduzidos , vilto fica-
rem fempre reduétiveis ao primeiro
eftado de metal.
Bem he verdade que ha va-
rias compofiçoens , cujos ingredi-
entes fe naô podem depois moitrar
feparados , e diftinétos huns dos ou-
tros, ainda que à priori feja certo,
e fe faiba que entraraô com efeito
neita, ou naquella compofiçaõ ; co-
mo fe obferva em qualquer terra
depois de bem vitrificada por meio
de algum fal alchalino fixo. Porém
neíte cafo naô he impoflivel o fe-
parar-fe , e haver a terra depois de
vitrificada, defunindo-a do fal al-
chalino que a tinha como diflolu-
ta, e incorporada em fi , de que
refultou a vitrificaçaô , cuja def-
uniaô fe vem a confeguir , ainda
que naô por methodo vulgar.
Mais dificil parece a defuniad
de
I4 Problema
de varios , e differentes licores en-
tre fi, mifturados confufamente em
hum fó valo; porém feparaô-fe exa-
étamente , cuja feparaçaô procede
por razaô do pezo efpecifico de ca-
da hum, e fegundo o grao de vo-
latilidade que he proprio a todos
os licores. Supponhamos hum licor
compoito v. g. de agoa commua, de
efpirito de vinho, de oleo de vitrio-
lo, de efpirito de nitro, e do efpi-
rito do fal do mar. Todos eftes li-
cores mifturados , e em porçoens
arbitrarias, feparaô-fe diftinétamen-
te por meio de huma fó , e fimples
deftillaçaô ; porque póítos na res
torta, e adminiftrado o calor con-
veniente , o primeiro licor que fahe
he o efpirito do vinho; o qual fe
conhece pela nota diftinétiva de fer
hum licor diaphano , e inflamma-
vel; de forte, que em quanto fahir
pela
De Archstectura Civil. Is
pela boca da retorta hum licor cla-
ro , e traníparente, e que chega-
do ao fogo fe accenda em cham-
ma, he efpirito de vinho infallivel-
mente.
Depois fegue-fe logo a agoa
commua , a qual fe conhece tam-
bem, e com igual certeza, em fer
hum liquido fem fabor algum. Em
terceiro lugar fe fegue o efpirito do
nitro , o qual igualmente, e com
a mefma certeza Íe conhece pela
circunftancia , e nota eflencial de
entrar no recipiente em fórma de
exhalaçaô rubioundiflima , cujo va-
por, depois de condenfado em hum
liquido diaphano , tem a proprie-
dade de diflolver a prata, e outros
metaes, deixando o ouro intacto ;
de forte, que em quanto fahir hum
liquido, que tenha aquela proprie-
dade, podemos concluir infallivel-
mente
16 Problema
mente que he efpirito do nitro.
Em quarto lugar vem o ef.
pirito do fal do mar, o qual fe
conhece ao entrar do recipiente em
fumo, ou vapor branco, a que
os artiftas chamaô ordinariamente
aquila alba , cuja denominaçaô
convém a outras mais compofi-
çoens. Conhece-fe aquelle licor
pela nota efpecial de fer o verda-
deiro diflolvente do ouro, e em
que a prata fica indifloluvel. Ulti-
mamente fica na retorta o oleo de
vitriolo, o qual fenfivelmente fe
conhece; porque ao primeiro con-
taéto de qualquer agoa elementar
entra logo em calor tal, que naô
póde a maô fupportar o vafo que
o contém. Aflim fe feparaô aquel-
les licores confufos, e mifturados
entre fi; e com tal regularidade,
e precifão ; que nenhum fica con-
tendo
De Architeétura Civil. 17
tendo porçaô alguma de qualquer
dos outros ; confervando cada hum
as qualidades naturaes que lhe faô
proprias, e fem diminuiçaô , ou
alteraçaô alguma.
O mefmo fe verifica a reípei-
to dos faes tomados em fubftancia ;
porque depois de diflolvidos em
qualquer agoa , fe efta chega a
evaporarfe ao ponto, em que os
faes fe criftallizem, o primeiro de
todos, que de fato fe criftalliza,
he o nitro, affeftando (empre hu-
ma fórma piramidal: logo depois
fe fegue o fal do mar, o qual fem-
pre toma huma figura cubica; e
da mefma forte todos os outros.
faes, ou fejaô naturaes, ou compof-
tos, que em fe criftallizando, af-
feetad figuras fingulares , unifor-
mes, e proprias á indole de cada
hum delles.
e dArEs LI B Os
I8 Problema
Os metaes tambem admittem
femelhantes feparaçoens , ainda
que nelles naô fe obfervad figuras
regulares; e quando as tomaô,
ou fe encontra nelles efla tal con-
figuraçaô, provém dos licores corro-
fivos em que fe achaô diflolutos ,
e principalmente dos faes de que
os mefmos licores fe compoem.
Saô porém aquellas feparaçoens
menos vulgarizadas, porque com-
mumente as efcondem os artiftas,
fazendo dellas fegredos feus parti-
culares, occultando os verdadeiros
méthodos, e as verdadeiras ope-
raçoens, para que vulgarmente fe
naô faibaô, e fó elles as prati-
quem; e alguns com ciume tal,
que nunca querem revelar a ma-
nipulaçaô de que depende o arti-
ficio. Aflim fe acabou o conheci-
mento de muitos artefactos utilifli-
mos;
De Archiseélura Civil. 19
mos, de que faz mençaõ a Hiftoria,
e de cuja exiftencia apenas nos fi-
cou huma noticia hiftorica.
E com effeito huma maça
compoíta de todos os metaes, fe-
mimetaes, e de alguns dos mine-
raes com que muitas vezes fe
achaô mifturados na mina donde a
natureza os fórma, he de fepara-
çaô difficil; e ainda quando fe fe-
paraô, fempre fe perde huma gran-
de parte daquelle metal que fe in-
tenta confervar. O fogo adminifa
trado fem regra, os materiaes ap-
plicados fem tempo, e fem conhe-
cimento das fuas propriedades aéti
vas ou paílivas, e dos cazos em
que fervem, ou naô fervem; o
eftarem tapados ou defcobertos os
vafos em que as operaçoens fe fa-
zem; e outras muitas circunitan-s
cias que devem, ou nad devem
- B inter-
20 Problema
intervir no modo de operar, tudo
contribue muitas vezes para que
venha a perderfe aquillo mefmo
que fe quer aproveitar.
Aquella arte, a que chamaô fe-
paratoria, tem uío pratico, e fum-
mamente neceflario nos proprios
Jugares em que os metaes, e mi-
neraes fe criaô , que he donde con-
vêm o feparallos diftinétamente, em
outra qualquer parte he fómente
curiofidade phyfica ; exceptuando
o cafo dos incendios, em que fuc-
cede confundiremfe os metaes em
maça Íolida; e fem arte naô fe fe-
paraô facilmente; e quem os quer
feparar fem mais inteligencia que
huma noticia fortuita, e fem co-
nhecimento dos principios, preci-
famente perde muito do que buf-
ca; porque os metaes parece que
zombaô de quem os quer tratar, ou
domeíticar fem arte. Naô
De Architeélura Civil. 21
Naô he pois a aréa terra
actualmente, nem efpecie alguma
della: a duvida: fó póde fubfiftir
em fe foi terra antes de fer arêa.
A parte afirmativa feguem mui-
tos; porém a opiniaô commua al-
gumas vezes .fuccéde feria menos
certa ; e nas materias praticas o
numero de: votos naô conclue.
Bem -he' verdade: que o entender
de muitos leva comfigo huma au-
thoridade authentica, com a qual
Os poucos fe devem conformar ;
porém. nas confas naturaes Íó a
natureza:he meftre, e devemos fe-
guir a fua voz, enunciada nos
feus effeitos.
"Tudo, oque concluímos fun-
dados em experimentos certos, in-
variaveis, e conftantes, tem cara-
éter de verdade phyfica ; ao menos
na parte vifivel, e effeftiva, ainda
: Part. TI. Bi que
22 Problema
que o naô tenha na parte cauzal,
e produétiva. De quantos, e innu-
meraveis erros naô he Íufceptivel
o raciocinio humano , quando dif-
corremos fundados fó nas conje-
Eturas ? Ainda naô fabemos (eu
principalmente ) que ecouía ifejaô
efpiritos animaes , de donde dizem
procede-a força mufcular, o movi-
mento voluntario, e involuntario ;
a femfibilidade da dor ; a voluptuo+
fidade do gofta. |
O que fabemos he que def:
efperados de entender o verdadei-
ro fentido daquelles termos, bufca-
mos outros ainda mais efcuros, e
ainda menos intelligiveis. Recor-
remos a hum orgafmo, a hum
archeo, a hum efpirito Íylveítre.
Conhecemos, ou ouvimos eftas vo-
zes ; mas naô conhecemos, nem
vemos a fubftancia do que ellas fi-
gnifi-
De Architetturá Civil. 23
gníficad. Vemos certos effeitos, mas
naô. quem os caufa», nem como
faô caufados. Melhor; feria. ignos
rarmos as palavras, já que naô
podemos faber o que-eilasdizem;
porque ás vezes naignorancia ha
mais faber, do que ha na (ciencia
mefma:
- À Phyfica, cuja verdade he in-
fallivel, he aquella .que coníta da
Sagrada: Hiftoria. Efta nos enfina
que a origem material do:homem
foi a terra ,:e defta "huma porçaô
fubtil,:chamada limo eftando” hu-
mida", "e chamada pó depois de fec-
ca; humilde origem. na materia;
fublime pelo. artifice que a com-
poz; ruftica na fua primeira fór-
ma ou creaçaô; inteligente depois
de creada ; e formada fegunda
vez; vilno feu principio em quan-
to terra inerte; illuítre depois, em
Biv quan-
44 Problema
quanto terra animada e racional,
Que eftupenda diferença entre
huma, e outra terra !
Naô fe podendo extrahir da
arêa terra alguma verdadeira , naô
podemos affirmar com probabilida-
de juíta que a arêa fofle algum
tempo terra, E por mais que naô
poflamos perceber que haja corpo
algum que naô tenha a terra por
bafe principal; com tudo o con-
trario fe moftra por muitos expe-
rimentos. E com efeito , fe excep-
tuarmos o ar puro, os outros ele-
mentos todos tem fuas produc-
çoens proprias, e producçoens cor-
poreas. em que a terra naô podia
fervir de bafe.
O fogo, com fer hum puriílimo
elemento, tambem fe corporiza ,
quando acha algum fugeito pro-
prio), e adequado para nelle fe in-
cluir
De Architeclura Civil. 2
clur, e ficar ageregado a elle,
como hum corpo coadjunto a ou-
tro. O mefmo fogo corporizado fe
manifefta pela razaô do pezo em
alguns corpos calcinados ; nos quaes
naó intervindo outra coufa mais do
que a acçaô do fogo, ficad mais
pezados, e crefcem no pezo confi-
deravelmente ; cujo augmento naô
póde proceder fenaô daquelle agen-
te, reduzido a materia corporal ;
porque naô podemos ter idéa de
algum pezo, fem a ter tambem do
corpo de donde vem; e da mefma
forte a naô podemos ter do corpo
fem pezo correfpondente: faô dous
correlativos, que prefuppoem a ex-
Htencia de ambos, vifto que naô
póde haver corpo fem pezo, nem
pezo fem corpo.
A .agoa tambem fe corporiza,
e toma hum corpo Íolido ; tanto nos
ani-
26 Problema
animaes, como nos mineraes , e ve-
getaes : neftes facilmente fe demo-
ftra a exiftencia da agoa, transfor-
mada em-corpo folido. Vanhelmont
cuido foi o primeiro que obfervou
aquella verdadeira metamorphofe ,
pondo hum pequeno arbufto com
as raizes na agoa , fem intervençaô
de terra alguma , renovando fem-
pre a agoa á proporçaô que dimi-
nuiá ; de que refultou o ir crefcen-
do o arbuíto tanto em figura , co-
mo em muito: maior pezo; de que
veio juftamente a concluir que da
agoa unicamente procedia. tanto
o corpo, como o pezo daquelle ve-
getal,
Contra aquelle experimento
alguns difleraô que o augmento
do pezo, e da figura, naô proce:
dia da agoa, mas dos corpufcu-
los terreftres que a agoa tem em fi
intro-
De Architectura Civil. ed
introduzidos , e transformados no
corpo vegetante por meio da mef-
ma vegetaçaô; fervindo a agoa de
vehiculo adminiftrante, nad de ma-
teria transformavel. Porém efta ob-
Jecçaô fundada nos corpuículos:, ou
atomos terreítres que a agoa com-
mumente tem , e que de falto fe
achaô invifiveis nella, por mais pu»
ra, e fimples que pareça, naô pó-
de fubfiftir, porque por outros ex-
perimentos fe defvanece. E
»: E com effeito , fe em. lugar da
agoa commua nos: fervirmos na-
quella operaçaô de agoa deftillada,
a vegetaçad da arvore fuccede da
meíma forte ; naô obítante haver
deixado a agoa no fundo do vafo
deftillante todas as particulas ter-
reftres que podia ter. E fe fe difler
anda, que por mais que a agoa
feja deftillada, fempre leva comfi-
go
28 Problema
go aquelles meímos atomos vola-
tilizados com o vapor da agoa , naô
fe póde provar huma tal fuppofi-
çaô com experimento algum que
indique a prefença de quaefquer
atomos terreftres na agoa depois
de deltillada na fórma que deve
fer, Nos animaes, fe exceptuarmos
os oflos, todas as mais partes naô re-
conhecem fe naô a agoa por princi-
pio transformante , e transformado;
porque fegundo a analyfe de cada
huma dellas he em pequena porçaô
o que fegundo a melma analyfe dei-
xaô de terra verdadeira ; tudo o
mais, ou he liquido phlegmatico, ou
oleofo. Ainda os melmos oílos, o
que delles fe tira de terra fixa, con-
tém pezo menor,que a parte unétuo-
fa, e inflammavel que fe exhala.
O mefmo fe obferya facilmen-
te nos vegetaes ; eites depois de
quei-
De Architetura Civil. 29
queimados, a cinza, que fica com
nota de verdadeira terra, naõ faz
nem a decima parte do pezo , e do
volume que o vegetal fazia antes
da fua combuftad ; por ilo, fe ad-
vertirmos bem, á agoa he que de-
ve dar-fe a faculdade transforman-
te , e transformavel; porque com
effeito entra na compofiçaô dos cor-
pos como agente principal, de que
refultou chamarem-lhe os Philofo-
phos: Elementum Catholicum , id
ef» univerfale. A
: Efta . denominaçaô foi juíta-
mente impofta á aquelle benefico ,
e gratiflimo elemento ; porque tu-
do quanto ha na mundo, e que fe
moftra ou em fórma liquida, ou
coagulada , tudo parece que tem a
agoa por principio efpiritual, e cor-
poral ; à differença dos mixtos pro-
vem da porçaô anatica, com que
os
30 Problema
os outros elementos concorrem pa»
ra a formaçaô individual delles ; de
forte, que a agoa parece fer como
hum panno appropriado , e apare-
lhado fempre para nelle debuxarem
os outros elementos huma immen-
fidade de fórmas , e figuras.
He certo que depois daquel-
le portentofo Fiat, com que o So-
berano Architeíto delineou, e com-
poz perfeitilimamente a fabrica do
Univerfo, todos os elementos fica-
raô com invencivel propenfaô pa-
ra fe bufcarem mutuamente, e pa-
ra formarem a multidaô de mixtos
que o mundo encerra ; e ifto por
meio da attracçaô , e repulfaô , da
acçaô , e reacçaô. O movimento
proprio, e particular de cada hum
dos mixtos ; O pezo, ou tendencia
para o centro; o grao de efpefli-
daô , ou liquidez ; a elafticidade , a
aétivi-
De Arcbiteétura Civil, 31
Cividade, ( etambem a inercia)
uma certa porporçaô de cada hum
os elementos , Ífad os operarios
e innumeraveis , e admiraveis pro-
lucçoens. À terra denfa, pafliva,
* em repouío ; o fogo mobililimo,
aéhiviflimo ; o ar inconftante, com-
reflivel, e dilatavel; a agoa inter-
1ediaria fempre , e fempre promp-
a para unir os extremos , e paz
a concordar as qualidades contra-
Ias.
E com efeito que maior con-
rariedade, ou que qualidades mais
ontrarias, que as que fe daô entre
agoa , e o azeite ? Elte inflam-
iavel, aquella incombuftivel; eíta
úimiga de toda a inflammaçad ;
quelle naturalmente proprio para
ervir de alimento ao fogo; huma
elo feu pezo efpecifico buíca fem-
re a parte inferior ; o outro pela
mef-
32 Problema
mefma caufa fempre fe fuftenta na
fuperficie ; e por mais que a concuf-
faô continuada os una de algum
modo, em ceffando o movimento,
tornaô a entrar no eftado de repul-
faô reciproca. Porém a addiçaõ de
qualquer fal alchalino fixo concilia
facilmente toda aquella oppofiçaô ,
perdendo a agoa , e o azeite a fór-
ma liquida, e tomando a figura cor-
poral, unctuofa , e fecca.
Pelo que fica expoíto devemos
aferir que a arêa naô he, nem
foi nunca terra , mas huma pro-
ducçaô , ou compofto particular de
outro elemento. E fe houvermos
de indagar ainda , qual dos ele-
mentos feja a que com mais racio-
navel, e melhor titulo fe haja de
attribuir aguella mefma producçaô,
e taó neceflaria indifpenfavelmente
para tantos ulos utilifimos , e de
que
De Archiseélura Civil. 33
que a conftrucçaô dos edificios he
hum dos principaes , talvez que
achemos que a agoa fimples he a
que produz a aréa, e fem concur-
fo, ou dependencia de outro cor-
po algum. Efte argumento nos fer-
virá para idear hum Íyftema novo,
e ainda naô ventilado ( quod fciam )
entre os Phyficos naturaes ; porém,
por fer o fyítema novo, nem por if-
fo ficará menos provavel.
CAPITULO II.
Ada hum dos elementos tem
fuas producçoens particulares,
como já diflemos , ou ao menos do-
mina mais neíte, ou naquelle cor-
Po; ou entra em proporçaô maior
neta, ou naquella compofiçaô, Tal-
Part. II. C vez
34 Problema
vez que os elementos fejaôd com-
vertiveis huns nos outros , como
alguns Philofophos quizerad : Coy-
verte elementa ; quod queris, in-
venies. Porém naô he facil de per-
ceber a poflibilidade de que a terra
fe converta em agoa ; a agoa em
fogo; efteemar, aut contra. An-
tes parece repugnante á natureza
de elemento o deixar de fer hum
para fer outro; porque tudo , o que
he principio primordial, deve fer
conftante, e immutavel na fubftan-
cia, ainda que o naô feja nos acci-
dentes ; nem nos mixtos, que aliás
faô já corpos compoftos, podemos
idear mudança de huns para os
outros.
Porque fe poffivel foffe mudar-
fe eflencialmente a terra em agoa;,
eíta mefma fe poderia outra vez
mudar em terra, e viria a dar-fe
huma
De Architellura Civil. as
huma perpetua circulaçaô, ou mu-
dança de elemento para elemento:
o que fó miraculofamente póde ter
lugar ; porque , ainda que na de-
compofiçaô dos corpos fe dê hu-
ma reallumpçaô prifline natura,
ifto he quando os elementos , de
que hum corpo foi formado , pela
divifaô, ou (eparaçaô de cada hum,
tornaô a entrar, ou a tomar a fim-
plicidade elementar que tinhaô ;
mas naô a mudar-fe de hum ele-
mento para outro. O em que pare-
ce podemos aflentar he , que ver-
dadeiramente naô ha elemento pu-
to, ou ao menos , naquelle grao de
pureza, e fimplicidade phyfica em
que fó intelleétualmente os pode-
mos entender.
Naó fer fe diga que cada hum
dos elementos he elementado ; 1f-
to he; que cada hum delles contém
Cii certa
36 Problema
certa porçaô dos outros. E com ef-
feito em qualquer terra havemos de
achar o fogo na porçaô de mate-
ria inflammavel que todas as terras
tem tambem : acharemos a agoa
na porçaô de humidade difperfa ,
e entranhada na melma terra ; e
na humidade fe encontra o ar in-
fallivelmente, porque nenhum licor
fe dá naturalmente fem a conjunc-
çaô de huma grande parte de ar,
como fe obferva na machina pneu-
matica. Aflim fe demoftra com evi-
dencia , que no elemento da terra
fe encontraô unidos todos os ou-
tros elementos. Só com a differen-
ça, de que na terra, efta he o ele-
mento que predomina; os outros
eftaô incluidos , e como fubordi-
nados á fua acçaõ,
ue outra coufa faô os Íaes;
fe naô o elemento do fogo predo-
minan-
De Arebiteltura Civil. 37
sminante neíte, ou naquelle genero
:deterra? de cuja predominaçaõ re-
“ulta hum corpo acrimoniofo ; e dif-
Áoluvel. Efte mefmo corpo , em que
he maior a porçaô do fogo , e que
or iflo he mais fenfivel o feu ef-
feito, fe o diflolvermos, e o coa-
gularmos muitas vezes ao fogo , in-
fenfivelmente vai perdendo a uniaô
daterra, e fe diflipa, deixando a
terra livre , e por io infipida, e
Indifoluvel.. O fal do mar fe fe
derrete-em agoa., e efta fe evapo-
rar ad fi veitatem falis » repetida r mui-
tas vezes efta mefma operaçaô, e
por ella diflipado o elemento igneo,
perde o fal inteiramente a acrimo-
nia, ficando huma terra-infulfa, e
fem a nota mais levillima de fal,
Efte experimento fez dizer a hum
famofo Philofopho Hollandez: Ne-
fcio ubi Jalcedo falis mei devenit.
Pare. II. Cii Nos
38 Problema
Nos vegetaes domina a agoa:
e ele elemento nutritivo he o que
entra em maior porçaô no corpo de
todo o vegetal, e tambem no cor-
po de todos cs animaes; porque,
depois da combultad , a terra, que
fica, he limitada, e pouco propor-
cionada ao pezo , e ao volume de
qualquer animal, ou vegetal quei-
mado ; a cinza refidua naô parece
correfponder á quantidade do. fu-
Jeito, de que veio a refultar. Po-
rém aflim deve fer precifamente ;
porque depois de exhalada na agoa
“a parte conftitutiva, a porçaõ con-
fervada naô póde fer fe naô exi-
gua.
“Tem pois cada hum dos ele-
mentos fuas producçoens particu-
lares: naô que hum elemento Íó
poíla produzir; porque iílo feria o
meímo que huma verdadeira con-,
verfão
De Architeflura Civil. 39
verldô; e regularmente huma cou-
fa fó naô póde fazer mudança que
naô feja para fi meífma. A mudan-
ça de compoíto fuppoem addiçaõ ,
ou fubtracçaô de alguma das par-
tes componentes; e aílim quando
fe diz que hum elemento (ó produz,
he porque em fi mefmo tem mate-
rias heterogeneas de que pofla re-
fultar efa producçaô. De forte,que
fe confiderarmos hum elemento no.
maior grao de pureza que póde ter,
e que naô contenha em fi abfoluta-
mente materia alguma que naô Íeja
o mefmo elemento , nefte eftado.
he incapaz de produzir, nem de
compor: porém elemento puro na-
quelle grao , fó metaphyficamente
o podemos confiderar ;. porque de
faéto , ou phyficamente nado ha;
ao menos na atmofphera, e globo
que habitamos, é
Civ A agoa
Pio) “Problema
À agoa (empre tem em fi hum
certo gluten, a que devemos jufta-
mente attribuir a maior, e melhor.
parte das fuas producçoens: talvez;
que efte mefmo gluten feja o Oc-
cultus vita cibus , de que fazem al-
guns Philofophos mençaô ; etalvez
que feja o unico e verdadeiro efpi=
rito vegetante, animante, e mine-
neral. Acha-fe (ao meu parecer) na
agoa, porém de hum modo invifis
vel, e inapprehenfivel; e pormais
que anciofamente eu pretendeíe
feparallo, nunca o pude confeguir ;
e por io pollo com razaô dizer :
Puder beu inmutiliter elapfi tem-
poris ; pudet fudii , laborisque
perpelh Per tot annorum curri-
cula quefivi illud rerum omnium
umiverfale fomen; mibi femper
negatum , aliis fortalfe conceljum.
Cogno-
De ArchirebharáCiuil. 4a»
Chgnovi 'equidem quod babitaret
in aqua illud ipfam.,. quod folicite
quefieram ; apprebendere nequivi;
obfBarant fata” noétes imfomnes »
Jaboriofwe dies profuerant mibil;
infelix artifes ; infeliz opus »
mibs delufo nunquam fuccaffir. ex:
perimentum. Sed quid. fortuna in-
cnfem ? infcitico fatius eff invides
re : Jimitata fcientia limitatum
eruétavir arsificem , curverahef-
cam: comfireri ? Humana: imndaga-
tioni -terminos pafuit: Deus Om:
nspotens »:qui preteriri non pofs
Juntpvolentr ultra progrediintel-
teétus obnmbedtar ;" mentistacies
“obregitur caligine , . quafs mebala
terribilis in cacumine montis, quaji
fulgur obfinpefiens voculos; nz
grefius. ix tamplumr; ubi feder im
gloria irradians. fapientia, mobis
non ef? datus; fat ef? quod: in
atrio
42 Problema
atrio exoremus bumiliter. Pro-
phani viderunt mumqnam fanétua-
vii vdocumr, mec, tetigerunt..ua-
qua, corn altaris ; Jalutarunt
a longe.
Por muitos experimentos fe demo(-
tra que a agoa tem em fi aquel!e
certo-"gluten. invifivel, e fabrica-
dor .das. mais admiraveis produc-
cosas: da. natureza ; «porém. de tal
fartennido à melma'agoa, que por
modo algum fe naô póde extrahir
nem feparar della; fó por alguns
dos-feus effeitos.fabemos. que ex-
ifte na verdade. Qualquer vpanno
molhado, depois de Íecco ; fica per-
dendo a flexibilidade que de antes
tinha ;.e fica acquisindo huma ef-
pecié de rijeza, ow afpereza im-
propria, como fe houvefle paflado
por huma cola.
Que
De Archietlura Civil. 43
Que pouco fe tem advertido
naquelia circunftancia ! Que pouco
conhecemos de donde vem aquella
tal rijeza, ou afpereza que fobre-
vem ao panno depois de molhado ,
e fecco! Nefte vulgariflimo phenó-
meno deixou o gluten impreflo o
feu caraéter, fazendo-fe palpavel
de alguma forte, mas nunca appre-
tenfivel; taô efcondido na agoas
Jua primeva ; e propriiílima matriz,
como no panno em que'fe mani»
feita accidentalmente. : Mofira-fe
alli, mas fem permitir o feparar-
de; ou difinguir-fe;: como. hum
efpirito, cuja exiftencia fe conhece ,
mas naô fetoca. Os licores todos
tem 4'melma. propriedade ; como
de todo o corpo liquido: fole, e
talvez he, o verdadeiro iman do
gluten invifivel.
À terra em pó he divifivel , =
eftá
44. Problema
eftá dividida em todas as fuas par.
tes, e-fe*ha de aflim mefmo .con-
fervar fempre ;' porém fe a agoa
de todas aquellas partes minutiffi-
mas:fizer. hum corpo fó , efte to-
ma huma dureza;competente, lo»
go que a agoa fe aparta delle. Se
magoa foi unicamente a que ajun-
tou.,; ou conglabou entre (i tadas
as particulas darterra, porqueinad
tornaô eftas: ao eftado pulverulen+
to quando ..a agoa fe evapora to-
talmente ? À razaô.he; porque, ain-
da quel a; agoa fe,evapore (inteira-
mente, ogluten, que continha, naô
he evaporavel; e fica unido á-terra,
£ lhe faz conferyar a uniad das fuas
partes ; e nefte -eftado divifiveis -fó
por força , ou por impulfo exterior,
porém voluntariamente naô.
Mas porque naô fuccede aquil-
lo mefmoa reípeito dos metaes em
PU s
De ArchitetiuraCivil. 4s
pó, nem a reípeito da pedra , ou
de outros corpos femelhantes quan-
do eftaô pulverizados? Se o gluten
da agoa he fempre o melmo , e
tem a mefma propriedade, porque
razaô naô faz o meímo effeito em
todos os corpos divididos , ou re-
duzidos em pó? E de faéto vemos,
“que fe do ouro em pó fizermos, por
meio da agoa, huma maça Íó, ex-
halada a agoa, fica o ouro defuni-
do , tornando a reaflumir a divifad
das fuas partes. O mefmo fuccede
á pedra, áarêa, ao vidro, ea ou-
tros corpos taes.
A razaô de diferença he, que
para as partes divididas fe unirem
de algum modo por meio da agoa,
ou de outro qualquer menítruo Ii-
quido , he neceflario que as partes
do corpo dividido , fejao diflolu-
veis no menítruo que os deve unir;
porque
46 Problema
porque. de outra forte naô tem o
gluten, de que fallamos , acçaô al-
guma nas porçoens do corpo fum-
mamente attenuado , ou reduzido
em pó; vifto que a coagulaçaõ das
partes , prefuppoem a difloluçaô
dellas em dilolvente proprio. Poí-
to huma vez efte principio , já fe
deixa ver que o pó do ouro, da
pedra, ou do vidro, naô fe redu-
zem em maça firme por meio da
agoa, porque eíta os naô diflolve,
e he incapaz de os diflolver ; por
iflo , exhalada a agoa, fica o pó da-
quelles corpos com a mefma divi-
faô em que feachavad.
Aquella regra fe verifica com
a difloluçaô dos faes em qualquer
agoa. Se o fal commum fe decre-
pitar, ou fe reduzir em pó de ou-
tra qualquer forte, fendo depois
diflolvido na agoa , exhalada eita,
naô
De Archisettura Civil. 47
naô fica o fal em pó, mas reduzi-
do em maça folida , frangivel, e
compatta. Ifto vem pelo funda-
mento expofto , de que para a uniad
das partes divididas, he precifo que
ellas fe diflolvad no liquido em que
tem mais analogia, À agoa he o
verdadeiro diflolvente dos faes to-
dos ; por iflo tem. nelles acçaô o
gluten da mefma agoa : os metaes,
e as pedras fó faô difloluveis nos
menítruos corrofivos, e faô impe-
netraveis à agoa fimples. O vidro
em nenhum menftruo fe diflolve.
Vejamos ainda no capitulo feguin-
te a faculdade que tem aquella in-
cognita materia,
CA-
48 Problema
CAPITULO IV.
A Acçaô de vegetar nad pro-
vém da parte fimplesmente
aquola, ou phlegmatica da agoa ;
mas da parte glutinofa della: a pri-
meira facilmente fe evapora, e ef-
caflamente refifte a qualquer im-
pulío do calor; a fegunda naô he
evaporavel, fe naô com a mefma
agoa , e tem de mais o tomar O
genio da materia a que fe acha uni-
da; de forte, que fe a materia he
volatil, tambem o gluten com ella
fe volatiliza; fe he fixa, permane-
ce immobil contra todo o ardor do
fogo ; mas fempre infeparavel do
lugar em que fe acha, e fempre in-
apprehenfivel. Efta meíma proprie-
dade
De Árcbiteéiura Civil. 49
dade tem o vento , que por mais
que o confideremos como hum cor-
po difpoíto para mover-fe , e fazer
mover outros corpos, nem por io
o podemos reduzir a materia vifi-
vel, e apprehenfivel ; porque de
faéto naô he mais do que hum ar
impellido de huma parte para outra
com mais, ou menos força , fegun-
do a caufa que o poem em movi-
mento.
Os animaes recebem o alimen-
to vital daquella mefma parte glu-
tinofa ; o que he agoa fimpleímen-
te naô ferve mais que de Íujeito;
em que o gluten eftá fempre como
em infufaô. E com effeito a agoa
he fómente fueito portativo , e
naô qualificativo ; nem fe conver-
te in fubftantiam aliti; he a que
conduz, e diftribue a materia do
nutrimento , naô a que o faz; he
Part. II, D a que
so Problema
aque o leva, e infinua por todos
os meatos mais reconditos do cor-
po; e oque he puramente aquofi-
dade ejicitur foras. Por iflo quan-
do a obítrucçaõS , ou conftipaçad
dos poros, ou tambem de alguma
das partes interiores, impede a ex-
clufaô da fuperfluidade aquola , ou
de outra qualquer, tumultas fit in
corpore; e fe a arte auxiliando a
natureza naô remove o impedimen-
to para lançar fóra aquelle hofpede
importuno , e inimigo, a infermida-
de creíce, er lento , aut celeri gradu
mors ipfa fubfequetur. De que fe fe-
gue que do meímo principio, de que
depende a vida, refulta a morte.
“Tudo eftã no cafo das porçoens, e
proporçoens; porque a mefma ma-
teria que nos faz viver, nos faz mor-
rer, e morremos igualmente tanto
por indigencia de materia vital, co-
mo
De Árchiteétura Civil. sr
mo por abundancia. Naô fei como
chegamos a viver hum dia.
Produz pois a agoa admira-
veis frutos nos tres reinos da natu-
reza; em algumas deflas mefmas
producçoens entra fó fem a con-
currencia, (ao menos demonftra-
vel) dos outros elementos, e fem
fer adminiculada por algum delles ;
porque em fi mefma tem, e acha
tudo o que lhe póde fer precifo
para a formaçaô defte , ou daquel-
le corpo; falvo fe em fi tem infe-
paravelmente unida a parte mais
fubtil, e concentrada de todos os
elementos. Ecom effeito o Divino
Creador naô dotou nenhum dos
outros elementos com aquella gra-
ga, e favor efpecial, com que fe-
cundou as agoas. Eftas forad pri-
vilegiadas logo depois da fua crea-
çaô , como fe os outros elementos.
D u ficaf-
sá Problema
ficaffem fubordinados a aquelle ele-
mento fantificado. E verdadeira-
mente a agoa concilia os outros
elementos, e ferve para concordar,
e unir as qualidades repugnantes ,
e contrarias de cada hum; e iífto a
fim que da mutua concurrencia , va-
riavel em infinito nas proporçoens,
venha a relultar a immenfidade de
compoltos, de que o globo terra-
queo fe compoem.
A arêa porém ( que he o ob-
jeto da raléntê difeuflas como
hum dos precifos materiaes na arte
de edificar ) he hum corpo folido ,
fufivel, e criftallino, fendo exami-
nada pelo microfcopio; he verda-
deira producçaô da agoa, para
que naô intervém algum outro cor-
po manifefto ; por 1flo donde ha
agoa , tambem ha commumente
aréa. Nas praias do mar, e nas
mar-
De Architebtura Civil. 43
margens dos rios a arêa he infalli-
vel; e ifto naô fó porque as tor-
rentes a conduzem para aquellas
partes, mas tambem porque neítas
meímas fe fórma a arêa, como fe
fórma em todo o ambito da terra ,
donde as agoas continuamente dei-
xaô huma efpecie de fermento la-
pidifico, que com o calor do Sol,
ou da meíma terra fica converíivel ,
e fe converte em arêa verdadeira.
Nos lugares fubterraneos, em que o
calor he forte, e na fuperficie da
terra, donde o Sol he mais intenfo,
ahi fe fórma a arêa abundantemen-
te; porqué todas as materias femi-
naes, e productrizes neceflitaô do
calor para terem lugar as acçoens
que lhes faô proprias; e regular-
mente fem calor matura torpet; e
nos compoítos artificiaes , guid-
quid fit » igne fit. He certiflimo axi-
Part. Ji. D ai oma:
54 Problema
oma: Iy Sole, é fale nature funt
omnia.
Daqui vem que nos lugares
profundamente Ífubterraneos o que
fe encontra (empre he agoa, mi-
neraes, arêa , e raramente alguma
terra como a que vemos na fuper-
ficie. Os que mineraô naquellas
partes, para extrahirem mineraes,
faes, metaes, ou a agoa os emba-
raça totalmente,ou o calor demazia-
do lhes faz o trabalho infupportavel.
Temos o exemplo nas minas de
Polonia, de que já fizemos men-
çãô aílima, de donde fe extrahe
huma quantidade inexhaurivel de
fal gema. Os operarios trabalhaõ
alli por breves intervallos ; porque o
calor os aflige e defeípera; e o
mefmo halito ou vapor fulphureo ,
que fempre circulaô nos lugares
fubterraneos, muitas vezes os firf-
focaõ, Aquel-
De Árchitetlura Civil. ss
Aquella mefma cola, de que
falamos; ou gluten, que a agoa
tem, e que por meio do calor, e
fucceflaô do tempo he tranfmu-
-tavel em arêa, tambem he a pri-
meira caufa, ou origem primitiva
de toda a vegetaçaô, como temos
dito ; por iflo todos os lugares, em
que as agoas empoçaô, e em que
eftaô como dormentes algum tem-
po, e até que o calor do Sol, e
da eltaçaõ as faça exhalar inteira-
mente , efles taes lugares , ou alveos
interinos de agoas em defcanfo ,
fempre faô muito fecundos ; naô
porque as torrentes invernofas con-
duzaô , e arraftem para elles os na-
teiros das terras por onde paflaô ,
como fe entende vulgarmente, mas
fim porque as agoas em repoufo
deixaô cahir ao fundo hum fedi-
mento glutinofo que fertiliza a ter-
Div rã,
56 Problema
ra, e lhe dá força para vegetar
vigoro[amente,
Que coufa ha, que pareça me-
nos propria para a vegetaçaô do
que a arêa pura, cuja improprie-
dade fe verifica no proverbio que
diz: Árene femina mandas? Porém
efla meíma arêa efteril , e infecun-
da, quando fe naô move, fe tem
tempo para formar-fe na Íua Íuper-
ficie huma pellicula vifcofa , .fica
habil para vegetar, e produzir
abundantemente. Naquella pellicula
fuperficial vai a agoa depondo fuc-
celivamente a parte vegetante, &
produétiva , de que refulta a ferti-
lidade. E com effeito feria a arêa
o lugar mais appropriado para to-
da, e qualquer vegetaçaô , fenad
tivefle a circunftancia oppoíta de
tranícolar-fe por ella promptamen-
te a agoa. Sendo que ha muitas
à terras
De ÁrchiteéturaCivil. 47
terras, que por ferem compaétas de-
maziadamente , e Íujeitas a endu-
recerem com o calor do Sol, fica
nellas a femente entorpecida , e fem
acçaô por caufa da dureza que a
mefma terra acquire, e que impe-
de o fer penetrada das raizes. Nel.
te calo a arêa heutil, e he o uni-
“co remedio que aquellas terras tem
para poderem fertilizar ; porque a
arêa ferve para fazer divifiveis as
partes da terra, e impedir-lhe a
-conglutinaçaô. Aflim o entende o
mellifluo Mantuano , quando diffe :
Quaque pharetrare vicinia Per-
fidis urget ,
Es viridem “Egyptum nigra fie-
- cundat arena,
Es diverfa ruens feptem difcurriz
m ora
U/que coloratis amnis devexus ab
Iudis — Omuis
38 Problema
Omnis in bac certam regio jaces
arte falutem.
À agoa fó he a que fórma a arêa,
como temos dito ; e por hum novo
experimento parece fe demoftra
aquella propofiçao. 'Tome-fe huma
quantidade arbitraria de agoa do
mar, e efta recolhida em parte
donde a agoa feja pura; e para
mais certeza filtre-fe exaftamente.
Nefte eftado fe ponha em vidro tal,
que depois de bem tapado, e pof-
to em calor mediocre , pofla a
agoa circular no vafo livremente.
Depois de paflar alguns dias, e
que aagoa já naô fobe ao colo do
vidro circulatorio , achar-fe-ha no
fundo huma materia albicante, e
quafi criftallina, a qual depois de
fecca he arêa verdadeira com to-
das as qualidades, e propriedades
de
De Architetlura Civil. so
de outra qualquer aréa. Aflim fe
moftra que toda a arêa provém da
agoa, e que fó deíta procede fem
dependencia, nem intervençaô de
corpo algum terreftre. E por mais
que nos pareça que a terra he a
bafe fundamental, de que a natu-
reza fórma a arêa, com tudo naô
fe póde verificar que aflim feja por
modo algum; da mefma forte que
por nenhum artifcio he demof-
travel que na creaçaô fubterranea
dos metaes entre terra o
ou feja mercurial, ou fulphurea ,
como Bechero, e outros quizerad
entender.
CA-
6o Problema
a eee eee eee e rm rem rem
CAPITULO VV.
S Egue-fe agora o vermos para o
noflo intento principal, fe toda
a aréa he propria para edificar, e
para que os muros fiquem taô foli-
damente conítruidos, que nem a
agoa os poíla penetrar, nem o ar
os poíla desfazer ; e por confequen-
cia, para que fiquem adquirindo
huma fortaleza tal, que pola refif-
tir quanto he poflivel ao impulfo ,
ou movimento irregular dos terre-
motos. Efta queítao deve intrepi-
damente refolveríe feguindo a par-
te negativa; ifto he, que nem to-
da aarêa he propria para com ella
fe fabricar feguramente.
E com effeito , aflim como nem
toda
De Sribitettura Civil. 61
toda a pedra he capaz para aquelle
minifterio , tambem nem toda a
arêa tem a qualidade, e bondade
neceflaria; porque aílim como ha
muitas pedras que ainda naô adqui-
riraô a perfeiçaô, e dureza com-
petente, e que além deíta, no feu
Interior tem varias veas de terra
ainda naô petrificada , e introduzi-
da nellas viciofamente ou fuper-
fluamente, e por iÃlo forad fempre
reprovadas com razaô; tambem na
arêa fe encontraô as mefmas imper-
feiçoens, ou indigeftoens; e tal-
vez que feja de mais importante ,
e mais perniciofa confequencia. E
aílim he na realidade; porque na
conftrucçad do muro, a cal, e a
arêa fervem de ligar as pedras hu-
mas com as outras; e de preencher
os efpaços vazios que entre ellas ha
precifamente ; fervem como de cola
arti-
6» Problema
artificial para ajuntar, e unir os
extremos indefinitos das mefmas
pedras; e com a circunftancia de
que aquella cola deve de algum
modo tranfmutarfe, ou tomar a
fubftancia da coufa colada; ifto he,
deve petrificarfe de alguma forte.
O faibro, commumente afim
chamado , he huma arêa imperfei-
ta, cuja bafe he huma terra del-
gada com femelhança de arêa > mas
nunca com a natureza de arêa ver-
dadeira. Efta deve fer indiffoluvel
na agoa, e deve precipitarfe logo
ao fundo della, deixando a meíma
agoa clara, e fem fedimento ter-
reo na fua parte fuperior. Defte
modo fe conhece facilmente a arêa
pura; porque a terra derrete-fe de
alguma forte na agoa , deixandoa
turva por algum efpaço , imprimin-
dolhe a cor que lhe he propria, até
que
De Arcbiteciura Civil. 63
que fazendo aflento fobre à arêa,
moftra diftinétamente o que he ter-
ra na parte Íuperior; .e na parte in-
ferior o que he arêa. Efta como
mais pezada affenta logo; a outra
como mais leve fultenta-fe mais al-
gum efpaço incorporada na agoa ,
até que tambem fe precipita fobre a
arêa, em fórma de polme, ou li-
mo “terreo.
mA arêa nunca muda de figura ,
nem de confiftencia na agoa ; as
fuas particulas naô fe dividem, e
fempre confervaô a fua meíma fór-
ma, e naô occupaõ, mais nem me-
nos efpaço de lugar ; naô endure-
cem fó por fi, ainda depois de
exhalada a humidade toda. Em lu-
gar que a terra admitte huma tal,
ou qual confiftencia dura, por meio
de hum calor proporcionado; mas
nunca dureza lapidífica, como fuc-
cede
64 Problema
cede á arêa depois de unida com a
cal por meio da agoa , e fem in-
tervençaô de calor externo artificial.
Daqui vem que a terra depois de
endurecida fica confervando a ap-
tidad para embeber a agoa , e pa-
ra a reter em fi; a arêa pelo con-
trario, depois de endurecida com a
cal, fica impenetravel á agoa, e
a repelle vigorofamente, como fe
fofle hum corpo fem póros , ou com
póros taes, em que a agoa fe naô pó-
de introduzir com facilidade.
Além difto, a terra depois de
amaçada com aagoa exaétamente,
qualquer calor a faz abrir, e de tal
forte, que já mais fe póde fazer obra
com a terra Íó por fi; porque ou
ella fende logo com o calor do ar,
ou na fornalha, em que fe coze,
faz aberturas fem remedio; por if-
fo aarte de trabalhar o barro con-
fifte
De Architelura Crvil. 65
fifte no temperamento , ou na mif-
tura das terras areofas ; porque a
arêa ferve de as ligar, e impede de
algum modo a divifaô das fuas par-
tes; e ainda neíte eftado he pre-:
cifo fempre que o calor, que as fec-
ca, feja muito moderado no princi-
pio, e que a humidade fuperflua fe
evapore antes que a obra receba na
fornalha o (eu ultimo cozimento.
Nas terras fortes dos campos,
e dos montes, tambem fe obferva
o mefmo inconveniente ; o calor do
Sol intenfo faz elas profundas
aberturas ; de que refulta menos
fertilidade ; porque pelas mefmas
aberturas fe exhala a maior parte
da humidade que deve fervir de
nutrimento ás plantas. Daqui vem
que o bem inftruido agricultor naô
coftuma cavar femelhantes terras
em annos feccos , fó por naô dar
Part. IH. E lu-
66 Problema
lugar a que mais facilmente fe dif
fipe a humidade , ou gluten nu-
tritivo; de que provém ficarem rai-
zes aridas , e delcobertas , e por
confequencia mais expoftas aos ar-
dores da atmofphera. Nefte cafo,
a concreçaô , ou codea compacta
que fe fórma na fuperficie daquel-
las terras , ferve para reter a fref-
eura , ou lentura , que ellas con-
tém no feu interior ; e impede a to-
tal diflipaçaô da humidade glutino-
fa, e vegetante,
Bem he verdade que he preci-
Ío cavar a terra, para que neíta fi»
tuaçaô pofla receber melhor a mef-
ma humidade de que toda a vege-
taçaô depende , e fem a qual toda
a terra he como morta, e infecun-
da. Porém efta regra geral ( como
todas as outras ) padece largas li-
mitaçoens. À eftaçad , e tempera-
tura
De Archizeélura Cívil. 67
tura do anno, a qualidade da ter-
ra, fazem que o agricultor mude
de fyftema a cada paflo. O racio-
cinio Phyfico naô confifte fó em
feguir as regras univeríaes , mas
tambem em fe afaftar dellas quan-
do a occafiaô o exige ; por iflo mui-
tas vezes acerta mais quem fabe
menos. A natureza quafi fempre fe-
gue as fuas regras , naô as que os
homens lhe querem pôr; eftes per-
turbaô-lhe as fuas producçoens
quando entendem que as melhoraô.
O beneficio da cultura ás vezes he
perniciofo ; porque no tempo naô.
ha regulaçaô , nem principios cer-
tos, mas fempre incertos , e falli-
veis.
Quem diflera que o promover
a fertilidade por meio de materias
putrefactas , he prejudicial ás ar-
vores quafi todas, e príncipalmen-
E u te
68 Problema
te às vinhas? eftas que fem contra-
dicçaô fazem hum dos mais ricos
prefentes que a natureza nos faz
abundantemente, defgoltad-fe da-
quelle modo de as incitar para pro-
duzirem mais; e quando por aquel-
le modo produzem com mais for-
ça, o fruto fempre vem degenera-
do em qualidade, e os vinhos in-
fipidos , e fem graça confervaô fem-
pre huma certa propenfad para mu-
darem , e para tomarem hum fa-
bor eftranho , e defagradavel. Quem
diflera que a abundancia de vigor
efteriliza as arvores de fruto, e que
para as fazer fruétificar he precifo
diminuirlhes. o vigor, diffipando as
raizes principaes ? Ex abundantia
vigoris inopia fruétus. Inopem me
copia fecit. Que outra coufa faz a
fabia Medicina em muitos , e di-
veríos cafos, fe naô diminuir o de-
mazia-
De drchiteciura Civil. 69
mafiado alento do homem egrotan-
te, por meio da fangria indicada
quafi fempre; feguindo o axioma,
ou aphorifmo verdadeiro, de que
he melhor diminuir as forças, do
que-deixar morrer o enfermo com
todas ellas? .E aflim naô he parado-
xo o fuftentar, que para confervar
a vida, he necellario tirar alguma
porçaô della. CNAS
— Diffemos aíflima que o faibro
he huma, arêa imperfeita que tem
portbafe hum certo genero de ter-
ra, Ífegundo a qualidade de que o
faibro he ;:e por iflo todo o faibro
he. improprio. para” a. conftrucçaõ
dos muros. Efta propofiçaô fe, ve-
rifica pela propenfad que o faibro
tem para vegetar todas:as vezes
que a agoa tem nelle accéflo livre.
Ifto obfervamos bem vifivelmente
em quafi todos os telhados; os
Part. II. E ui quaes;
ÁS) Problema
quaes, paflado algum tempo de-
pois de fabricados , entrad a vegetar
diverfas hervas, de que commumen-
te os telhados fe cobrem dentro de
alguns annos. Aquella vegetaçaõ
denota a exiftencia actual de huma
verdadeira terra introduzida no fai-
bro, ou na arêa com que a cal foi
amaílada. As mefmas hervas dei-
tando raizes fubtiliflimas , e fortes,
apartaô a mafla de cal, e arêa,
fazendo nella varias aberturas por
onde paflaô livremente deftruindo ,
ou arruinando aflim a mefma maça
que ferve de conter as telhas, e
de as ter em modo que façaô co-
bertura regular.
As paredes fabricadas com
aquelle faibro, ou com qualquer
arêa terroza , tambem vegetaõ nas
Íuperficies que ficaô expoftas ao ar,
e à humidade exterior, brotando
huma
De Archizetura Civil. Z1
huma efpecie de mufgo pardo, ou
verde efcuro que as faz deformes,
e mal configuradas. Nas partes po-
rém , donde coltuma fabricarfe com
arêa pura, qual he a que fe tira
das margens ou alveos dos rios,
depois que as agoas feccad, ou di-
minuem, nunca fe haô de ver nos
telhados dos edificios femelhantes
vegetaçoens: por iflo as cafas de
campo (aô duraveis commumente,
ainda aquellas que faô menos habi-
tadas; e ifto naô fó porque a cal
fempre he desfeita, e amaçada
com agoa doce naquellas partes ,
mas tambem porque as aréas cof-
tumaô fer mais puras.
Bem fei que ha faibros excel-
lentes, e que tem os mefmos do-
tes que a melhor arêa ; porém faõ
rarillimos os que fe encontraô da-
quella qualidade; porque o mais
E iv com-
72 Problema
commum he ferem affociados com
mais ou menos porçaô de terra; e
fegundo as proporçoens defta, e
fegundo a fua indole, e cor, re-
fulta a diferença que ha na cor, e
qualidade particular de cada hum
dos faibros. Aquelle, que tiver mais
terra, he certamente o mais im-
proprio; o que tiver menos , he
menos mao; e o que tiver muita
he reprovado totalmente. Já difle-
mos que o méthodo breve , e facil
para examinar a aréa , confiftia
fimplefmente em a deitar na agoa ;
e que aquella que logo defce ao fun-
do, fem deixar tintura alguma na
agoa; nem fedimento terreo, era
a melhor; e à proporçaô da mais
ou menos cor que a agoa recebe
logo; e juntamente do mais, ou
menos fedimento terreo que reful-
ta, he que deve julgarfe da bon-
dade
De Árcbitelura Civil. 3
dade efpecifica da arêa; eiflo pelo
principio certo, de que a arêa pura
nem deixa fedimento algum, nem
imprime na agoa a menor tintura,
Todos os architeétos conhe-
cem bem efta verdade pratica; po-
rém nem todos podem ufar della ;
porque fabricad à vontade do pro»
prietario, e naô á fua: entendem
perfeitamente o que he melhor ;
porém o feu entender he tomado
-ás vezes por hum efcrupulo pouco
neceflario , e impertinente: o pro-
-prietario fempre quer a arêa que
leve menos cal; e quer aquella cal
que he de menos preço; e que os
materiaes fejad aquelles que eitaô
“perto, e de que o traníporte feja
menos difpendiofo. Eftas condições
raramente fe conciliaô com a bon-
dade, e fortaleza da obra; e como
eita naô falla fenaô depois de arrui-
nada,
z4 Problema
nada, fó entaô conhece o fenhor
della a trifte confequencia de huma
mal difpofta economia.
Nas cidades populofas, e ma-
ritimas, os fornos da cal ordinaria-
mente fe conftruem á borda do
mar; eaagoa, com que alli fe der-
rete a cal, ouhe a meíma do mar,
ou de poços de agoa falobra, que
naquellas vizinhanças fe encontraô
facilmente. A conducçaô dos ma-
teriaes precifos para. aquella fabri-
ca, e principalmente a lenha ne-
ceflaria, faz efcolher aquelles lu-
gares com pteferencia a outros qua-
efquer; porque tudo o que fe póde
tranfportar por rios, ou por mar,
he fem duvida mais facil, mais
breve, e de menos cufto.
Ifto obfervamos todos nos for-
nos aflentados junto ao mat ; à
agoa, com que nelles fe pulveriza a
pedra
De Architeétura Civil. 75
pedra depois de calcinada , ou he
falgada inteiramente, ou he falo-
bra. Que edificio fe póde fabricar
com femelhante cal , ou que per-
manencia póde ter o muro em que
o fal entra por aquelle modo ? Cor
mo fe ha detirar o fal depois de
entranhado intimamente na parede?
E defta que duraçaô ha de efperar=
fe, fe o fal he hum dos feus in-
gredientes ?
Logo aos primeiros dias, de-
pois de levantado o muro, vemos.
ao pé delle cahida a cal, e aarêa
que eftavaô mais fuperficiaes; efta
he a primeira prova do defeito, e
que para manifeftar-fe nad neceffi-
ta muito tempo. À cal falgada, e a
arêa barrenta nunca podem unir-
fe, nem fazerem corpo fubfiftente;
e todas quantas vezes aguelles dous
materiaes fe puzerem nas fuperfi-
cies
76 Problema
cies lateraes do muro, tantas ve-
zes os havemos de ver cahidos, e
eftendidos fobre o chad em todo o
prolongo delle. sado
A mefma defuniad, que fe dá
naquelles materiaes quando eftaô
nas fuperficies das paredes , tam-
bem fe encontra no interior dellas.
E com efeito: fe fe defmanchar. al-
gum pedaço de huma tal parede ,
havemos de achar a cal, e arêa fem
uniaô alguma ; faceis em fe desfa-
zerem entre os dedos , e fem pro»
penfaô para aquella efpecie de pe-
trificaçaô , que devem adquirir na-
turalmente para poderem ligar, e
conter fortemente as pedras en-
tre fi,
Aquella defuniaô de partes fe
obferva bem,ainda que infauftamen-
te, nas occafioens dos terremotos ;
porque o impulfo da terra , que pe
a
De Architetura Civil. 57
la primeiramente os muros , moe a
cal, e aarêa comprehendidos nel-
les; e quando o muro fe precipita,
vê-fe huma nuvem efpefla, e bran-
ca compofta da mefima cal, e arêa,
que reduzidos em pó Íubtil pelo
movimento extraordinario, cobrem,
e offuícad o ambito do ar vizinho:
Tudo denota imperfeiçad na cal,
e imperfeiçaô na arêa; porque ef-
tes dous materiaes, fendo como de-
vem fer., depois de eftarem uni-
dos algum tempo , tomaô huma
dureza quafi lapidifica , e naô ad-
mittem facilmente o ferem reduzi-
dos em pó ; antes ( como aílima
já diflemos ) quando fe quer rom-
per o muro, he mais facil confe-
guillo quebrando as pedras, do que
defapegando dellas a arêa , ea cal
que as liga; e fea parede cahe por
algum movimento eftranho , e vio=
lento ;
78 Problema
lento, nunca a cal, ea aréa fe pul-
verizaô totalmente, mas cahem co-
mo fe foflem tambem porçoens de
pedra , e fem deixarem o ar inficio-
nado de huma poeira importuna , e
muitas vezes foffocante.
Devemos pois formar-nos
huma idéa , ou fyítema certo, de
que nenhum muro póde fer dura-
vel, e em fórma que pofla refiftir
mais algum tempo ao movimento
irregular da terra, fe na fua conf
trucçaô entra fal por algum modo;
ou tambem fe de alguma forte en-
tra terra , ou barro : efítes mixtos
faô contrarios á intençaô de quem
fabrica; porque em entrando qual-
quer delles, a maça que refulta ha
de fer precifamente fragiliffima ,
pouco compacta , e pulverizavel fa-
cilmente; qualquer deítas circunítan=
cias induz fraqueza , e debilidade
no compofto. Te-
De Archirectura Civil. 9
Temos dito que nos fornos;
em que a pedra fe calcina, e que
fubfiftem junto ao mar, coftumad
os operarios pulverizarem a pedra,
depois de calcinada, com agoa do
mefmo mar, ou com agoa de po-
ços falgados, que fempre fe defco-
brem, e fe achaô em fe abrindo
qualquer poço junto ao mar. Por
razaô defte meímo aflumpto , naô
ferá fóra de propofito o do nef-
te lugar alguma digreílaô a refpei-
to de alguns poços, e fobre mate-
ria ainda naô obfervada , e naô tos
cada talvez pelos Efcritores.
CESAR ATE TEES eccpeteaão [EE O
[TR
CAPITULO VL
N Efta Inclyta, e Real Cidade
de Lisboa , e vizinhanças da
rua
80 Problema
rua das Janellas Verdes, achad-fe
alguns poços cavados na rocha que
difcorre pela parte fubterranea da-
quelle deftriéto todo, os quaes to-
maô agoa abundantemente à pro-
porçad que a maré vaza; e perdem
a mefma agoa á proporçad que a
maré enche. Efte phenómeno he
hum facto permanente que póde
fer examinado , e vifto todos os dias
naquelle fitio ; de forte, que da exif-
tencia delle naô fe póde duvidar ;
a duvida fó eftá na caufa de que
procede hum phenómeno taô raro.
Que os poços, que ficaô junto
ao mar, fe regulem pelas marés pa-
ra terem agoa quando a maré en-
che, e para a naô terem, ou te-
rem menos, quando vaza, parece
que he coufa natural, e em que
naô ha razaô alguma que deva cau-
far admiraçaô , porque facilmente
pode-
De Architelura Civil. 81
podemos perceber que as agoas
do mar fobindo occupaô os meatos
da terra, de donde (e communiquem
ao vaô dos poços , maiormente fen-
do immenfa a força daquellas agoas
tanto na acçaô de fobir, como de
baixar. Porém o Íucceder o contra-
rio pofitivamente ; ifto he, que os
poços tomem agoa quando a maré
vaza, e que fiquem fem ella quan-
do a meíma maré enche , he calo
raro, que merece indagaçaô.
He de advertir mais que aquel-
les poços naô tomaô, nem largaõ
a agoa, que recebem , fubitamente,
mas lentamente , e fempre á pro-
porçaô que a maré vai enchendo ,
ou vai vazando : os poços, que faô
profundos confideravelmente, nunca
fe feccaô de todo , e ficaô confervan-
do nos Ífeus fundos huma tal, ou
qual porçaô de agoa ; os que tem
Part. II. F huma
82 Problema
huma cavidade ordinaria , feccad»
fe inteiramente quando a maré che
ga ao preamar. Pela regra com-
mua, e obfervada commumente, to-
dos os poços , que tem communica»
çaô com o mar, tem mais agoas no
preamar , e muito menos no bai»
xamar , e neíte faô menos falo-
bras as fuas agoas , e naquelle
faô mais falgadas. Aquelles pos
ços porém, de que falamos , fe»
guem conftantemente hum movie
mento contrario. “
Accrefce que na occafiad do
terremoto'do primeiro de Novem-
bro de 1754. ouvia-fe, em che-
gando a aquelles poços, hum rugi-
do continuo, e elpantofo , que fa-
zia promptamente retirar aos que
eftavaô junto a elles; e ainda no
tempo , em que aterra naô tremia,
perfiftia o mefmo rugido fubterra-
neo ;
De Architeetura Civil. 83
neo, porque naô tinha intermiflad;
e ilto á maneira do eftrepito que
coftuma fazer hum mar tempeítuo-
fo: o Poeta o defcreveo em outro
calo ; quando diffe :
Tremere omuia vifa repente »
Liminaque, laurusque Dei; totus-
que moveri
Mons circum , ds mugire aditis cora
tina reclufis
Ecce autem primi fab lumina folis ds
ortus
Sub pedibus mugire folum, & juga
capta movers
Sylvarum » vifegue cones ululare
per umbras.
Sape cavas motu terre mugire ca-
vernas,
F u De-
84 Problema
Depois que a terra ceflou de tre«
mer inteiramente, tambem veio a
ceflar o medonho eftrondo daquel-
les poços , tornando a entrar regu-
larmente na acçaô de receberem
agoa á proporçaô que a maré vaza,
e de a perderem quando enche.
Naô fe obfervou porém, ( que eu
faiba) fe o eftrondo referido prece-
deo ao terremoto , ou fe fó lhe fuc-
cedeo depois ; porque, fe obferva-
da foíle, e bem verificada a prece-
dencia , teriamos hum fignal certo,
ou ao menos provavel, para conhe-
cer, ou prognoíticar hum terremo-
to futuro, e imminente. Os homens
feriaô mais felices nefta parte , fe
podeffem de algum modo vaticinar
os feus perigos ; e nefte calo ca-
da hum daquelles poços feria hum
oraculo verdadeiro, e natural,
No Molteiro de Odivellas da
Ordem
De Architeétura Civil. Bs
Ordem de S. Bernardo, fe adver-
tio , que na veípera do fobredito
terremoto feccou a agoa, que vin-
do de fóra encanada corre em hum
magnifico lago que aquellas Reli-
giofas tem na Íua cerca, (obra da
muito religiofa Madre Dona Luiza
Maria de Moura, tres vezes Ab-
badefia naquelle efclarecido, e Real
Motteiro ; as fuas virtudes Ífaô co-
nhecidas nefte Reino, e o feu no-
me he digno de que aqui fe faça
memoria delle ) e depois de haver
eftado dous dias fem correr , come-
çou a vir muito pouca agoa, até
que fe poz na quantidade coftuma-
da. Efte faéto foi notorio, e ob-
fervado por muitas Religiofas , por
fe fervirem , e ufarem daquella agoa
continuamente. Daqui fe infere,
que algumas vezes podemos predi-
ger algum fucceflo impremeditado ,
F iu eraro,
86 Problema
etaro, mas (empre por anteceden-
cias naturaes, e por fignaes conhe-
cidos, e obfervados antes.
Porém com que principio phy-
fico havemos de explicar a natu-
ralidade de que hajaô poços jun-
to ao mar, que tomem agoa nas
vazantes, e a larguem nas enchen-
tes? Por mais que queiramos idear
meatos fubterraneos', proprios para
aquelle fim , nenhum poderemos
facilmente excogitar, do qual re»
fulte hum tal efeito: tudo quan-
to imaginarmos , ainda com vio-
lencia, ou repugnancia do entendi-
mento, naô nos ha de perfuadir,
nem contentar; nem ainda admit-
tindo as fuppoliçoens mais força-
das, e menos bem fundadas. Con-
duétos extraordinarios, tubos ca-
vernofos, agoas da terra encontra-
das com as do mar , impulfaô de
humas ,
De Árchiteclura Civil. 87
humas., e repulfaô de outras, na-
da difto ha de fazer que os poços
tomem agoa nas vazantes, e a vaô
perdendo à proporçaô que as agoas
do mar. fobem. O faéto porém he
certo; e tambem he certo que ha
huma razaô , ou principio phyfico,
porque aílim Ífuccede, e de que
procede naturalmente. .
Aquelle principio ou razaõd
phyíica depende de mais larga, e
mais difcutida explicaçaô ; porque ;
fabida a caufa daquelle phenómeno
dos poços, tambem ficará fabido
(ao meu parecer ) qual he a caufa
dos terremotos ; qual he a caufa
do fluxo , erefluxo do mar ; e qual
he a caufa dos ventos. Cada huma
deftas tres queítoens (que tanto
tem exagitado os maiores enge-
nhos fem terem achado ainda al-
guma demoftraçaô palpavel, com
Iv que
88 Problema
que fazerem provaveis, e intelli-
giveis os feus fyftemas) talvez ne-
ceflitavad da exiftencia de hum fa-
éto permanente, e bem verificado
para darem o verdadeiro conheci-
mento daquelles tres problemas in-
trincados.
E com effeito a caufa dos ter-
remotos, a caufa do fluxo, e re-
fluxo do mar, e a caufa dos ven-
tos, tem fervido de tormento a
todos os Philofophos; porém tudo:
quanto vemos expendido , faô con-
Jecturas confufas, e fuppofiçoens
admittidas, e naô provadas; fen-
do que todo o fyftema he incerto,
é duvidofo em lhe faltando o requi-
fito da clareza ; e efta deduzida em
fórma, ou fundada em prova taô
natural, e facil de perceber, que
o entendimento fe convença della,
eareceba fem força ; mais por ap-
pro-
De Architeélura Cívil. 89
provaçaô, intelligencia , e acquieí-
cencia propria, que por fe fubmet-
ter à authoridade do author que
ideou o fyftema. Algum dia (fe a
vida lá chegar ) moftrarei com
aquella evidencia de que a materia
he fufceptivel, a razaô porque as
agoas do mar fe movem; a razaô
porque ha ventos; e a razaô por-
que a terra treme.
ER Trem |
ce te me
PERO [O CR pre
——— as mem a
CAPITULO VIH.
Ornando ao modo de edificar
(que he o noflo principal af-
fumpto 3 já diflemos que nenhum
muro póde fer folidamente fabrica-
do, fe na fua primeira compofiçaô
entrar terra, barro, ou fal. E com
eífeito eftes tres ingredientes faô
os
9o Problema
os inimigos capitães da perfei-
çaô de qualquer obra, nad fó
quando todos fe achaô conjunta-
mente, masainda feparadamente ,
e cada hum por fi: e quando to-
dos os tres fe encontraô , he inutil
o efperar duraçaô alguma no edi-
ficio. O fal, de qualquer genero que
feja, fempre tende a humedecer ; e
a terra, ou barro, ainda fem fal
que os humedeça, e ainda que fa-
çaô hum corpo duro quando fec+
cad, qualquer movimento os pul-
veriza; e nunca podem reduzir-fe a
aquella efpecie de petrificaçaõ , que
he donde refulta a fortaleza das
paredes.
Tambem diflemos que a pe-
dra depois de calcinada deve fer
desfeita com agoa doce , e naô fa-
lobra; nem do mar (como ordina-
riamente fe coítuma ) cuja opera-
a
çaõ
De Árchiteétura Civil. 91
çaôd deve fer feita por hum aéto
continuo , e como repentino ; por-
que a pedra de cal, desfeita por fi
mefma ao ar, ou por huma afper-
faô de agoa efpaçofamente prati-
cada, fica fendo hum pó inerte,
fem efpirito, nem vigor para po-
der petrificarfe com a arêa, e unir-
fe eftreitamente com a pedra crua
de que o muro fe compoem : nem
he para admirar que aquella opera-
çaô fe deva fazer fucceflivamente ,
e fem mais interpolaçaô de tem-
po, que oque he precifo para: fe
hir pulverizando a pedra calcinada;
porque outras muitas operaçoens
ha que dependem da meíma prom-
ptidaô, e que deita refulta o ef-
feito procurado ; é naô correfpon-
dem à intençaô do artifice, fe fe
lhes applica huma acçaô vagarofa ;
ou hum tempo de defcanfo.
Pelo
92 Problema
Pelo contrario tambem ha ou-
tras operaçoens, que exigem ne-
ceflariamente defcontinuaçaô. A
fermentaçaô v. g. de todos os lico-
res fermentaveis querem defcan-
fo, e immobilidade. Ifto fe vê no
moito , o qual quando as fuas par-
tes entraô na acçaô de fermentar,
he precifo naô as mover, e deixal-
las fó com o movimento inteftino
que naturalmente tem; outro qual-
quer movimento exterior , e Íuc-
ceflivo impede a fermentaçaô , e a
producçad de elpiritos inflamma-
veis,
A corrupçaô dos vegetaes
tambem fe faz em focego, e len-
tamente ; por iflo toda a quantida-
de de hervas, ou arvores verdes,
accumuladas humas fobre as outras,
vaô apodrecendo de vagar; porém,
fe as moverem de huma parte para
outra
De Architekiura Civil. w%
outra continuadamente , céfla a pu-
trefacçaô ; porque o ar, que fe in-
troduz entre ellas, ao mefmo tem-
po que as fecca diflipando a hu-
midade Ífuperflua, tambem diflipa
todas as partes aétuolas , e putrefa-
étiveis.
Daqui vem que o trigo, e
“outras fementes vegetaes neceflitad
de movimento para fe conferva-
rem; o defcanfo, ou:immobilida-
de brevemente os corrompe , e
altéra: A humidade, e o calor
faô os dous principios de corrup-
çaô. O movimento externo, ein-
troducçad do ar Íuffoca aquelles
dous agentes. Ainda as partes dos
animaes mortos, prefervao-fe al-
gum tempo de corrupçaô, quando
fe expoem na fituaçad de hum ar
fecco, e ventilante; o fumo os pre-
ferva da mefma forte ; menos na
a
94 Problema
fal acido volatil que exhalad os ves
getaes queimados, e que infeítad
os olhos dos que fe expoem a elle,
que pela qualidade que o fumo tem
para feccar, e apertar. E aílim
hum ar fem movimento corrompe.,
e hum ar com mobilidade preferva ;
he o mefmo ar, porém a acçaô
delle naô he a mefima. |
- —Aquellas alteraçoens fazemfe
progreíliva , e lentamente, naô
com precipitaçad ; porque (como
fica dito ) a natureza naô fe ferve
de huma ordem fó de obrar; em
cada coufa obferva hum certo mo»
do, e hum certo tempo; em hu-
mas neceflita prefla, em outras va»
gar; em humas quer interpolaçaôs
em outras a mefma interpolaçaô lhe
ferve de impedimento. Os metaes;
e mineraes, para fe formarem, ne-
ceílitaô Íeculos; os vegetaes em
pouco
De drcbitetura Civil. os
poucô tempo recebem a fua ultima
perfeiçao; os animaes nad tem o
caminho taô curto, e querem an-
nos. Os mefmos orbes celeftes nad
abfolvem os feus periodos igual»
mente; huns caminhaô mais de pref-
fa, outros mais lentamente. Satur-
no percorre o giro da fua orbita
em trinta annos; Jupiter em doze ;
Marte em dous; Venusiem oito
mezes; Mercurio em tres, feguin-
do a direcçaô do Occidente para
o Oriente.
Os corpos;! que exigem mais
tempo para fe acabarem de formar
inteiramente, faô os que perma-
necem mais. O ouro, a prata, as
pedras preciofas, eas que faô con-
fideravelmente duras, requerem fe-
culos para ficarem perfeitamente
formadas : por iflo Ífaô poucas
aquellas producçoens ; porque Fe
o
vó “Problema
do quanto a natureza cria lentai
mente he raro; e he mais com-
mum tudo o que produz em menos
tempo ; porém ficaô incorruptiveis,
e capazes de durar , talvez até o
fim do mundo. Os animaes, que re-
querem annos , no eípaço de al-
alguns annos fe corrompem. Às ar-
vores duraô mais, ou menos tem-
po» á proporçaô daquelle que gaf-
taô em crefcer : os cedros do Liba-
no vegetaô de vagar, mas por iflo
duraô muito mais do que o falguei-
ro viçofo , e apreílado. As flores,
que nafcem quafi de repente, tam-
bem quafi de repente acabaô, Em
tudo fe acha huma certa compen-
façaô entre o nafcer, e o acabar;
entre a facilidade de exiftir, e en-
tre a dificuldade de permanecer.
Só o vidro, fendo aliàs obra
do artifício, em poucos dias fe faz,
e póde
De Architeétura Civil. 97
e póde durar tanto como as mef-
mas pedras preciofas ; e como os
dous mais folidos metaes. Quem
diflera que hum artifício taô facil,
e de compofiçao taô prompta po-
dia fer tad permanente , e podia
refiftir a toda.a maior aétividade
doselementos! Nem a agoa , nem
o ar, nem a terra , nem o fogo
mais violento podem caufar altera-
çaô no vidro para o deftruir , ou
para mudar-lhe a contextura : os
licores mais fortes , e corrofivos,
naô tem acçaô em qualquer mate-
ria vitrificada , antes efta ferve de
os guardar, e confervar. .
- - Quem differa que hum fal al-
chalino fixo , difpofto fempre ace.
der ao ar, e à agoa , poderia em
poucas.horas tomar hum corpo conf-
tante , e inalteravel ! À polvora,
e o vidro fados dous compoítos ad-
Part. II. G mira-
98 Problema
miraveis , que fe naô foffeim vifz
tos, e taô vulgarmente conhecidos,
todos lhes negariaô a poflibilidade
da exiftencia. Por iflo o Philofopho
prudente , nunca nega abfoluta-
mente que huma coufa pofla fer,
por mais extraordinaria que pareça;
porque para negar-fe a exiftencia
defta, ou daquella coufa, he ne-
neflario faber até donde chega o
que a natureza póde; e elle limi-
te de poder , fó Deos o fabe co-
mo Author da meíma natureza. Os
homens difcorrem fegundo algumas
regras , ou principios de que tem
noticia ; porém naô podem difcor-
rer fobre outros muitos , de que naô
tem conhecimento , ou o tem er-
rado. aÃ
Depois do artefa£to do vidro;
eoda polvora , feguem-fe outros
menos efpantofos, que fazendo-fe
em
De Archiveetura Civil. 99
em pouco tempo , duraôd, ou po-
dem durar muito , e ainda que de
algum modo caufem menos admi-
raçaô , naô faô porém menos ad-
miraveis, fe confiderarmos attenta-
mente as fuas propriedades. O fuc-
co das uvas, a que chamamos mo(-
to, he hum liquido doce, e fumma-
mente phlegmatico , inerte , e fem
efpirito : depois de fermentado per-
de o fabor que tinha, mudado efte
em outro mui diverfo ; adquirin-
do abundantemente os efpiritos in-
flammaveis ;'os quaes , depois de
feparados por meio da deftillaçaõ ,
conftituem hum licor clarifimo , ar-
dentiflimo , e diáphano ; e efte fen-
do reétificado , ou deftillado fegun-
da, e terceira vez, fica taô Íubtil,
e concentrado, que perdendo o feu
pezo efpecifico , fica já taô leve,
que nada fobre o azeite ; e fobre el-
Gii le
ICO Problema
le fe fuftenta fem miftura, ou con-
fufaô.
Nefte eftado , ou nefte grao
de pureza , e exaltaçaô , chamaôd
os praticos ao efpirito de vinho Al-
chool. Efte he o menítruo univer-
fal em que fe diflolvem as gommas ;
e rezinas, e em que fe diflolvem
tambem os oleos eflenciaes das plan-
tas. Que differença notavel entre o
mofto fimples, e o alchool ! À fer-
mentaçaô foi o unico artifice da
mudança ; a deftillaçaô naô fez mais
do que feparar o licor inflammavel
da maça do vinho que o produzio,
E aflim fe vê que do moífto doce,
glutinofo , e turvo vem a relultar
hum liquido diáphano , qual he o
vinho ; e deíte procede outro li-
quido ainda mais diáphano , eain-
da mais prompto a inflammar-fe ,
que he o efpirito do vinho ; ficando
no
De Architettura Civil, Tor
no valo deftillatorio outro liquido
infulfo, e phlegmatico em que re-
fide o tartaro (a que chamamos
farro ) corpo opaco, e fixo depois
de calcinado. x
Todos aquelles liquidos com
qualidades diferentes, e contra-
nas entre fi, achaô-fe potencialmen-
te no fimpliflimo liquido do mofto;
no qual o ultimo grao de mudança
he aquelle em que fica reduzido a
hum licor quafi corrofivo, que he
o vinagre; e neíte eftado veio a
perder inteiramente naô fó o fabor
de moífto, e vinho, mas tambem
ficou perdendo todos os efpiritos
inflammaveis que continha.
E com effeito do vinagre ne-
nhum efpirito fe extrahe que feja
capaz de fe accender ; antes o vina-
gre todo fe compoem de proprie-
dades oppoftas ao moíto, e vinho;
Part. II. Gui prin-
102 Problema
principalmente na aptidaô que tem
para produzir, e confervar em fi
huma multidaõ innumeravel de ani-
malculos invifiveis, e fó percepti-
veis por meio do microfcopio , os
quaes fe achaô como nadando em
todo o liquido acetolo , como em
elemento ou efphera propria.
Quem diflera que hum licor
quafi corrofivo, qual he o vinagre,
era a verdadeira matriz de huma
certa efpecie de animaes, que alli
naícem , e alli vivem em continua
agitaçaô , de que o microfcopio
fez a primeira defcoberta! Quem
diflera que efteve a pratica medeci-
nal entendendo tantos annos que o
vinagre era o anthelmitico mais fe-
guro, fendo que naô ferve para
deftruir a eftirpe verminofa, mas
fim para a produzir! Muitas cou-
fasha, que paffaraó fempre por no-
civas
De drchiseeturá Civil. 103
civas, e depois veio a conhecerfg
ferem faudaveis, et vice ver/a.
Porém aquella metamorpho-
fe, ou aquella mudança de hum li-
cor para outro diferente, e de
hum liquido com certas qualidades
para outro liquido com qualidades
contrarias, humas vezes faz-fe len-
tamente, e outras com vagar; por
graos) imperceptiveis, mas fempre
fucceflivos ; porque a natureza ,
naô defeanfa, nem remitte a lua
acçaô, :ou feja para formar ,: ou
feja para transtormar ; e ainda quan-
da nos parece que ella pára, ou fe
fuípende, entaô trabalha mais ; por-
que o trabalho vifivel, e mamfef-
to talvez que naô feja o mais act»
vo, !e forte. À quiefcencia; ou
langor das partes, procede da mu-
tua, e igual refiftencia das meímas
partes entrefi; de forte, que o def-
Giv canfo
104 Problema
canfo parece naô refulta da inac-
çaô, mas da igualdade de acçoens
oppoftas : aflim como duas forças
iguaes quando mutuamente fe en-
contrad, e refiftem, perde cada
huma dellas o feu movimento ap-
parente, mas (empre perfiftem na
agitaçaô, ou força de reziftir.
A luz nunca eftá em hum
mefmo fer a noíTo reípeito, e tam-
bem trabalha fempre; porque ou
vai crefcendo, ou vai diminuindo ;
porém taô infenfivelmente, que
naô podemos perceber, nem o
augmento, nem a diminuiçao ; e
quando percebemos , he já depois
de ferem paflados infinitos graos de
mais ou menos luz. E com efleito
na fombra póde haver fignal, na
luz naô. Da mefma forte crefcem,
e decrefcem as agoas; e commu-
mente o que caminha de hum e
o
De Árchiteétiira Civil. ves
fo lento, e fummamente igual,
parece immobil; e o movimento ,
ou mudança de lugar Íó fe diftingue
pelos termos, ou balizas que co-
nhecidamente fe naô movem. Fal-
tanos a paciencia para notar a ace
çaô , e reacçaô dos corpos que fe
movem muito lentamente. Obferva-
mos melhor , e com mais certeza
o que obfervamos comparadamente,
ilto he, a mobilidade de hum cor-
po pela immobilidade de outro ;
o fabor de hum pelo femfabor de
outro ; a dureza de hum pela bran-
dura de outro; a fenfibilidade de
hum pela infenfibilidade de outro ;
o luminofo de hum objeéto pelo
opaco de outro.
Affim fe vê que a natureza
commumente em tudo, o que pro-
duz, vai lentamente, e por iflo
faô perfeitas as Íuas nd
106 Problema
A arte he mais apreílada, e por
iffo naô acerta fempre; e ainda
obrando fegundo as regras de pro-
porçoens e medidas conhecidas,mui-
tas vezes erra, e fe deívia do in-
tento procurado : fim faz quafi de
repente o vidro, mas que importa
fe o faz fragil, etaô facil de que-
brar? Sendo que nem fe poderia
fazer fem fer por aquelle modo ; e
como de repente, e accelerada-
mente , porque o fogo devendo fer
violento , nefte eítado naô have-
riaô vafos que podeflem conter a
materia vitrificavel fem fe vitrifica-
rem tambem; de que refultaria in-
troducçaô de fragmentos heteroge-
neos no corpo do meímo vidro ,
milturados confufamente;com o que
ficaria imperfeita a maffa vitrifica-
da, fem adquirir duétilidade no
eftado de fundiça 6.
O ferro
De drckiteéiurá Civil. Goy
O ferro, o cobre, couro, a
prata faô metaes que fe naô fun-
dem fem calor grande, e eíte de-
ve fer adminiftrado como de repen-
te; porque fendo pouco aétivo, ain-
da que dure por efpaço mais conti=
nuado , naô fe fundem os metaes;
em lugar que baftaraô poucos mi-
nutos para fe fundirem, quando o
calor he tal, que póde duvidir ou
desfazer o nexo que une as partes
metallicas entre À, e as tem como
encadeadas, e intimamente chega-
das humas com as outras. Porém
naô haô de baftar feculos para fa-
zer aquella defuniaô, quando o fo-
go naô adquire o grao precifo de
calor; ou quando efte naô perfifte
fucceflivamente no meímo ponto de
actividade. Os mefinos metaes de-
pois de excandecidos obedecem ao
martello facilmente , mas he por im-
pulfos
108 Problema
pulfos apreflados , e repetidos fem
defcanfo ; porque em o ar frio fe
introduzindo no corpo do metal,
fica efte adquirindo mais dureza, e
tornando a tomar toda aquella que
deve ter naturalmente.
De tudo , o que fica expofto ,
devemos inferir que entre os phe-
nómenos naturaes huns ha , que fe
formaô de vagar, e que fem hum
certo tempo naô alcanfad aquella
perfeiçaô, ou aquelle fim para que
os deítina a natureza; e pelo con-
trario ha outros (ainda que em me-
nos numero) que exigem prompti-
daô, eque fem efta naô correfpon-
de nelles, nem fuccede o efeito
que fe efpera. Nefta clafle entra a
cal, que fe prepara para a conftruc-
çaô dos edificios.
Supponhamos cozida , ou cal-
cinada a pedra de que a cal fe faz;
de-
De drcbiseciura Cívil, 109
depois deve fer reduzida a pó pela
aíperfao fuccefliva da agoa pura
fobre a mefma pedra: porém efta
afperfaô deve começar-fe, e aca-
barfe fem que fe metta muito tem-
po em meio. "Tambem naô deve
fer tanta a quantidade de agoa ,
que poíla reduzir a pedra em pol-
me, ou maíla; porque neite efta-
do fica como fem fubítancia a cal,
e inhabil para qualquer obra.
À razaô he, porque (como já
diflemos) a força da cal toda con-
fite nos efpiritos igneos concen-
trados na pedra pela acçaô do fogo,
e introduzidos intimamente nos in-
teríticios della. Aqueles efpiritos
naô fe podem confervar todos ;
mas he precifo confervaremfe os
que póde fer : nefta hypothefe fuc-
cede que a reducçaô em pó pela
aíperfaô da agoa, ainda que al-
guns
IO Problema
guns efpiritos fe diffipem , outros
fe confervaô, Porém fe a agoa for
demaziada, e em quantidade tal
que reduza a pedra em mala, ou
polme, os efpiritos igneos todos fe
diflipaô, e a maíla, que fica, he
inerte, e fem calor.
Na arte da Agricultura fe co-
nhece aquella verdade phyfica ; por-
que em muitas regioens coftumad
fecundarfe com cal os campos; e
ilto naquellas partes em que a cal
fe fabrica com difpendio pouco ;
tanto por fer abundante a lenha,
como por haver pedra propria para
aquelle minifterio. Para o dito fim
naô fe pulveriza a pedra , mas logo
ao fahir do forno he conduzida para
as terras que fe querem fecundar ;
e alli fe poem dividida em porçoens,
ou monticulos diverfos, cobertos
eftes com barro bem amafado,
para
De ArchitecluraCivil. 111
para que o calor da cal fe naô dif.
fipe de repente pela acçaô do ar,
depois de eftar pulverizada pela hu-
midade do chaô : entad a repar-
tem igualmente pela terra; ficando
efta recobrando de algum modo
o vigór perdido , e animada por
aquelle calor artificial, para pro-
duzir abundantemente.
Se porém aquella pedra for
reduzida em mafla, deitandolhe
agoa em quantidade tanta, quea
mefma pedra: fe derreta , ou desfa-
ça em polme, efle-fica inhabil, -e
totalmente :improprio para o inten-
to; porque os efpiritos igneos, que
involvidos com a terra lhe conci-
haô fecundidade, diflipad-fe por
meio de huma exhalaçaô promptas
e violenta. Sim he precifoque em
parte fe diffipem ; porque ; eftando
todos, ou eftando a pedra de cal
com
II> Problema
com toda a fua força, ferve mais
de cauítico deftruente , que de au-
xilio vegetante.
Todas as producçoens, ou fe-
jaô vegetaes, animaes, ou mine-
raes , exigem hum certo grao de ca-
lor proporcionado a cada huma ;
porque fe o calor he mais intenfo ,
deftroe; fe he mais remiflo , do que
deve fer, naô excita. Os animaes
querem hum grao de calor que fe
fente apenas, e por iflo fe chama
natural. O feto tem no utero ma-
terno hum liquido em que eftá
como nadando em banho menos
que vaporofo. Os vegetaes amaô o
calor de huma atmoÍphera tempera-
da; e como nefte ha mudanças in-
finitas, dahi vem a variedade no
modo de vegetar. Os mineraes faô
os que fe formaô por meio de ca-
lor maior; por iflo muitas pedras
fe
De Árcbiteetura Civil. 113
fe calcinaô pelo calor da-meíma
terra; e da melma forte que a cal
fe faz artificialmente , como fe ob-
ferva no geílo, e em outras feme-
lhantes pedras, nas quaes fe acha
a propriedade da cal, ainda que
em grao, ou força algum tanto in-
ferior.
E a razaô, porque a cal fecun-
da a terra, naô vem fó do calor
que em fi contém, mas porque
aquelle meímo calor attrahe a humi-
dade nutritiva efpalhada em todo o
ambito do ar. E com efleito fem
calor, e humidade naô fe dá ve-
getaçaô vegetal, animal, nem mi-
neral, "Todos os corpos vegetaõ,
fegundo a indole que lhes he pro-
pra. Os meímos metaes achados
no lugar, em que fe formaô, moftrad
muitas vezes configuraçoens, ou
delineamentos vegetantes.
Part. II. H Cada
114 Problema
Cada hum dos faes affe&a hu-
ma figura propria, e infeparavel de
cada hum; e quando a perdem,
mudaô de natureza, e já naô faô
os meímos. Tudo fe move:, po-
rém fem calor tudo entorpece. A
fufpenfaô de acçad he morte. A
humidade he receptaculo dos efpi-
ritos feminaes ; eftes naô fe alteraô
fem calor; e excitados huma vez,
tendem a bufcar inceflantemente a
fua propenfaô , ou genio natural.
Em quanto o calor fubfifte, profe-
guem na fua operaçaõô ; fe o calor
fe extingue, ficaô no ponto em
que fe achavad, e fe deíviaô do
caminho começado. Daqui reful-
taô effeitos raros, e partos monf-
truozos.
No concurfo porém da hu-
midade, e do calor, ainda fe naô
fabe qual deítes dous agentes he
o prin-
De Arcbiteétura Civil. 115
o principal, ou qual delles entra
em mais porçaô na compoliçaõ dos
mixtos. À humidade parece que
conftitue o corpo, e o calor dif.
poem a organizaçaõ ; aquella faz
a mala, efte a figura; ou huma a
materia, e outro a forma: fendo
que hum, e outro faô infeparaveis;
porque verdadeiramente naô há hu-
midade fem calor, nem calor fem
humidade. Iíto parece hum para-
doxo, mas naô he o que parece ;
porque a agoa quando perde o ca-
lor em hum certo grao, fica corpo
duro, e folido, como fe obferva
bem no gélo: o calor quando per-
de totalmente a humidade, fica
tambem perdendo o movimento ra-
pidiflimo em que confifte a fua na-
tureza ; nefte eftado fe extingue in-
fallivelmente, como no fogo vulgar
fe ve; O qual, em lhe faltando a
Hi com-
LIÓ Problema
communicaçaô do ar (que he don
de recebe a humidade 3 apaga-fe ; e
quando fe lhe introduz mais humi-
dade por meio do afloprar de hum
folle, crefce em força; e aétivi-
dade.
- Quem differa que a humida-
de, ea agoa tambem fabem accen-
der o fogo da meíma forte, que o
fabem apagar? De que o fabem
apagar, todos o vemos commu-
mente, e naô he neceflario prova,
nem demonítraçad ; porém de que
o accendem, naô he menos certo ;
e ainda que o vemos, he fem ad-
vertir, e fem reparo; porque tudo,
quanto vemos fem advertencia nem
ponderaçaô , he como fe o naô vil-
femos. É com efeito a humidade ,
e aagoa, em quanto eltaô em fub-
ftancia liquida, fuffocad , e apa-
gaô o fogo promptamente ; porém
aflim
De Archiseclura Civil 117
aflim que fe reduzem a fubftancia
vaporola, e halituofa , entaô en-
tretem o fogo, e lhe fazem dobrar,
e ainda triplicar os graos de aéti-
vidade , e força.
Ito fe conhece por meio do
inftrumento chamado eolipilo, com
que a phyfica experimental def-
cobrio; e demoftrou aquella verda-
de phyfica. Naô he o ar impellido
do vacuo do folle o que augmen-
ta o calor do fogo, mas he a hu-
midade defle meífmo ar rareficada
a que augmenta, e faz creícer pro-
orcionalmente o movimento rapi-
do daquelle fubtiliflimo elemento.
Aflim o moftra o eolipilo em hum
inftante. Os licores fermentados , e
inflammaveis accendemfe, ainda ef-
tando em fórma liquida ; porém,
lançados fobre o fogo, naô o fa-
zem mais aétivo : efta propriedade
Pare. IL H im fó
118: Problema
fó tem a agoa ou humidade , re-
duzidas em vapor, e dirigidas com
violencia para a parte do fogo, que
fe quer fazer mais forte.
Os metaes ( exceptuando a
chumbo e eftanho ) naô fe fundem
fem que a humidade do ar avive o
fogo; e por mais que os queira-
mos fundir.por meio de materias
refinozas ,' como faôd o pinho, o
alcatraô, ou outros femelhantes
mixtos oleozos, naô he poflivel
que fe fundad; por mais tempo
que queiramos confomir na opera-
çaô. O ferro funde-fe no enxofre
derretido, e acefo, mas naô he
pelo calor do enxofre , mas porque
efte fe une intimamente com o fer-
ro, e porque o acido do melmo
enxofre val o mefmo que hum li-
cor corrofivo em que aquelle metal
fe funde ;'e principalmente porque
a ho-
De ArchitecturaCivil. 119
a homogeneidade de principios he
caufa das difloluçoens dos corpos
huns nos outros; a heterogeneida-
de os faz indifloluveis : por iflo al-
guns repellemfe reciprocamente ,
outros attrahemfe. A impulfaô, e
repulfaô parece que vem da Te.
e e diverfidade. sos!
ns A pedra iman ( chamada de
cevar) Íó attrahe o ferro, e nada
mais; porque entre o ferro, e
aquella pedra vai pouca “differén-
ça; Os principios, de que fe com-
poem, Ífaô quafi os mefmos. :Hu-
ma porçaô de ouro fundido jun-
ta-fe com a prata na mefma: fundi-
çaô, e formaô hum'fó corpo , por-
que os principios: faô os meímos
na razaô de metaes ; porém melhor
fe funde com outra por çaô tambem
de ouro ;: porque naô fó faô unifor-
mes na razaó generica de metaes,
H iv mas
120 Problema
mas tambem na razaô de hum tal
metal, Para haver entre partes
uniaô intrinfeca , e perfeita, he ne-
ceffario que fejaô femelhantes no
genero da qualidade, ainda que fe-
jaô diverfas no numero da efpecies
meça meters eee dep ee mete te
CAPITULO VII.
sã que em humas com-
pofiçoens era precifo vagar,
e em outras preíla; e que humas
deviaô fer preparadas lentamente
e outras como repentinamente ,
e fem difcontinuar ; porque a hu-
mas perde huma maô accelerada ,
e prompta, e a outras diflo mef-
mo depende o Íuccederem bem.
Tudo ilto he para moftrar que a
pulverizaçad da pedra calcinada
pela
De Archiseélura Civil. 121
pela afperfaô da agoa deve prati-
carfe por hum aéto Íucceflivo, e
naô interpolado.” Ifto exemplifica-
mos com a fundiçaô de alguns me-
taes, os quaes naô cedem fem lhes
fer adminiftrado hum calor aétivo ,
e fucceflivo; para cujo fim he ne-
ceflario que o fogo feja incitado
pelo ar exterior introduzido nelle
com violencia, como fe obferva na
agitaçaô do fole, artificio ideado ;
e achado para aquelle intento.
Porém que-folle ha que excite
o fogo nos incendios que a'conte-
cem algumas vezes , nos quaes fe
achaô os metaes fundidos fem de-
pendencia de artifício algum ? A
efta objecçaõ facilmente fe refpon--
de Ífó com advertir que he “raro
o grande incendio, em quê o vento
naô feja o que o defperte'; e no
mefmo vento temos hum fole, e
fem
722 Problema
fem artifício algum , e ainda mui-
to mais aétivo ; porque o folle naô
incita o fogo fe naô naquella par-
te, para donde fe dirige a fua ac-
gaô; em lugar que o vento por to-
das as partes avivaa chama, por-
«que a comprehende toda ; por iffo
ie fundem os metaes dificeis de fun-
dir ; porque:naquelle fogo achaô
o mefmo , ou maior grao de calor
«om que fe fundem com effeito.
Ainda temos outro fundamen-
tos de que procedem o fundirem-fe
os metaes em todos os Incendios,
ainda quando naó ha vento ; e vem
a fer, que ha' certas fituaçoens
que por fi melmas attrahem o ar
vigorofamente , e o dirigem por ef-
paços determinados ; porque, fe ob-
fervarmos bem , veremos que aquel-
las portas; que eftaô fronteiras, por
ellas pala conhecidamente o ar,
“ainda
De Archiseitura Civil. 123
ainda em-eftaçaô ferena. E regu-
larmente, fe em hum efpaço gran-
de, fó lhe:dermos huma falida
eftreita, e hmitada , nefta veremos
que o,ar paíla com mais força, e
fe faz perceber fenfivelmente. Por
eita regra fe inventarad varios mos
dos de fornalhas , fegundo .ôs ufos
mechanicos, para que eraô necef,
farias.
Além difto nos incendios en-
contraô-fe commumente ceftanho,
o chumbo , o bronze. Aquelles dous
metaes» fempre faô fufiveis , e fe
fundem com effeito em calor remif-
fo , ou branda ; fe entre elles: fe
acha algum ouro, ou prata”; eftes
metaes , que aliás exigem.! maior
fogo, fem efte chegaô a fundir-fe
afim. que.tocad no teftanho:, ou
chumbo derretido .; afim como fe
desfazem , ouamalgamaó no azou-
gue s
124 Problema
gue,ainda fem calor algum. Ifto vem
pela razaô que já diffemos , de que
hum metal fundido faz fundir fa-
cilmente outro , pela analogia que
tem huns com os outros , fégundo
a qual hum metal fundido penetra
eoutro, e o faz fundir tambem.
Daquella miftura , ou confu-
faôd entre o ouro, e prata fundi-
dos com o eftanho, ou bronze , re-
fulta difficuldade quando he quef-
taô de feparallos ; porque em quan-
to eftaô confulos , nem o ouro,
nem a prata tem valor determina-
do, e certo, porque eftaô incapa-
zes de fervirem , e faô totalmente
inhabeis para ufo algum ; viíto que
o bronze , e o eftanho induz fragi-
lidadade em cada hum dos dous
metaes, e quebraô facilmente ao pri-
meiro golpe do martello. Por io
a feparaçaô , ou affinaçaô he in-
difpen-
De Architethura Civil. 1 24
difpenfavel, e deve procurar-fe pe-
los meios mais feguros, e compe-
tentes , com tanto que fe pratique
em fórma, que fó fe deftrua o ef-
tanho , ou bronze , fem fe diffi-
par alguma parte do ouro , ou
prata.
Nefte cafo recorrem os ar-
tifices aos meios fabidos de affinar;
porém eftes meios fabidos naô faô
os que. convém , porque mais con-
duzem para perder parte do ouro;
ou prata, que para os aproveitar.
O primeiro meio , que lhes lembra,
he aquelle que chamaô de cupella;
mas efte tambem he o primeiro
oe naô ferve ; porque. a cupella
ó deve ter lugar quando aquel-
les dous metaes fe achaô miftura-
dos com ferro , ou cobre ; e naô
quando a miftura he de eftanho,
ou bronze ; porque o eftanho pe-
netra
126 Problema
netra a cuppella entranhando-fe
nella com parte de ouro, ou pra-
ta, até que a rompe. O fegundo
meio , a que recorrem , he o anti-
monio ; porém efte mineral vola-
tiliza à prata ; e tambem o ouro
quando acha eftanho nelle. O ter-
ceiro meio , de que alguns ufaõ , he
o do folimaô ; porém efte, em achan-
do eftanho , ou bronze incorpora-
do no ouro , ou prata , faz exha-
lar o eftanho , e efte leva comfi-
go huma grande parte da mefima
prata, ou ouro, fazendo huma ef-
pecie de butyrum que fe diflipa no
ar, e juntamente os metaes de que
o mefmo butyrum fe fórma.
O quarto meio,a que recorrem,
he o do falitre; porém efte tem os
mefmos inconvenientes ; porque, em
achando eftanho, ou bronze , faz
com eftes metaes aquella detona-
çaõ
De Architectura Civil. 127
çaô a que os Chimicos chamaô fi)-
men Sovis , na qual o eftanho fe
evapora , e tambem baftante parte
do metal a que eftá conjunêto , dif.
fipando-fe hum, e outro no mef,
mo inftante em que o nitro chega
a penetrallos. O artifice naô conhe-
ce o que perdeo de prata , ou ouro
que affinou por aquelle modo ; e o
pezo , que lhe falta no metal affina-
do, parecelhe que foi metal im-
puro que o falitre confomio: po-
rém engana-fe ; porque naquelle
cazo o falitre naô Íó confome o ef
tanho , ou bronze que o metal tem;
mas tambem parte defle mefmo me-
tal que fe quizer afinar por aquelle
méthodo.
Para prova do referido, to-
memos v.g. huma porçaô arbitra-
ria de ouro, ou prata; efta feja de
doze dinheiros, e o ouro da lei
de
128 Problema
de vinte e quatro quilates. Eftes
dous metaes poftos naquellas leis,
naô pódem quebrar depois de fun-
didos, fe na operaçaô naô houver
erro. Ifto fuppoíto como princi-
pio certo, fundamos hum daquel-
les metaes em hum cadinho, e
nefte mefmo lhe deitemos huma
igual porçaô de eftanho , ficará
huma maífa compofta de ouro, e
eftanho; ou de prata, e eftanho.
Aquella maffa , fe a quizermos affi-
nar, ifto he, fe quizermos feparar
do ouro, ou da prata o eftanho
que em fitem, e para iflo nos fer-
virmos do falitre, veremos infalli-
velmente que efte fal, em chegando
á mafla fundida , e fundindofe tam-
“bem , faz com oeftanho, a que fe
une, o chamado fulmen Fovis. Aca-
bada a operaçaô, e pezando o ou-
to, ou prata que continha a maíla,
entaô
De Architettura Civil. 129
entaô acharemos bem vifivelmente
o quanto na operaçaô fe perdeo de
prata, ou ouro.
Quando a affinaçaô , praticada
por aquelle modo, fe faz em por-
çoens grandes, naô he facil de dif-
tinguir a perda que nella houve ;
porém póde fazer-fe a conta por ef-
te modo; dizendo: Por cem mar-
cos de ouro no eftado , em que fe
achava, davaô-me, ou poderme-
hiaô dar tanto ; aquelles cem mar-
cos; depois de affinados , ficarãô re-
duzidos a oitenta v. g.; por eftes
oitenta marcos de tal lei devem
darme tanto ; efte tanto abatido do
total, que me davaô pelo ouro an-
tes de affinado , a quantia, que fo-
brar naquelle total, he a que per-
di na aflinaçaô; a cuja perda devo
accrefcentar mais a importancia do
falitre, e todas as mais deípezas
Part, JE I feitas
130 Problema
feitas na meíma affinaçaô.
Aquella mefma conta, feita em
porçaô grande, pode fazer-fe tam-
bem em porçaô pequena quutatis
mutandis , dizendo : Por efte marco
de ouro de tal lei devem darme
tanto; o meífmo marco depois de
affinado ficou reduzido Ífómente a
tantas onças ; por eftas devem dar-
me tanto; efte tanto abatido da
quantia que me davaôd pelo marco
de ouro no eftado em que fe acha-
va, o que falta para completar
aquella quantia, que me davaô, he
juftamente o que perdi; a cuja per-
da devo da mefma forte accrefcen-
tar a importancia do falitre, e to-
das as mais que fiz na aflinaçaô.
Naô he menos para notar
que o ouro, ou prata antes de af.
finados perfeitamente, naô fe po-
dem enfaiar , nem faber as Íuas
Jeis ;
De AÁrcbiteélura Civil. 3x
leis; e fe de faéto fe enfaiad, faô
errados os enfaios infallivelmente :
e aquelles metaes fe dizem affina-
dos, quando acquirem a ductilida-
de neceflaria; porque em quanto
quebraõ ao golpe do martello, ou
em quanto quebraô no paflar pe-
las fieiras; he fignal certo de con-
terem materia eftranha que os faz
precifamente quebradiços: e entaô
fe diz naô eftarem affinados, ecom
effeito naô eftaô; porque a duéti-
lidade he circunítancia indifpenfa-
vel em cada hum daquelles dous
metaes : o falitre fim os faz duéti-
veis em certos cafos; mas quando
contém eftanho , ou bronze, a du-
étilidade , procurada por meio do
falitre, he muito à cuíta dos mef-
mos metaes , porque huma parte
delles fe perde na operaçaô ; fe
bem que a perda verdadeiramente
— Ti he
132 Problema
he do fenhor, naô dos metaess
nem do artifice que os prepara; e
efte fempre faz a conta em fórma,
que o fenhor do metal naô perce-
ba a fua perda; eelta fó quem he
da mefma profiflaô a póde facil.
mente diftinguir.
Porém já diffemos aíflima que
regularmente a imperícia naô he
culpa. Hum artifice fatisfaz quando
fabe o mefmo que os outros da Íua
profiflaô fabem. O cafo dos incen-
dios (que he quando coftuma ha-
ver confufaôd , ou miftura de me-
taes ) he cafo raro, para o qual ne-
nhum artifice póde eftar aparelha-
do , nem ter feito eftudo para fe-
parar metaes EE raras vezes fe
achaô juntos. Mas fempre pelo que
fica dito ficará fabendo que aquel-
la feparaçaô:naô deve fazer-fe por
meio do falitre.; e que he neceíla-
rio
De Architelura Civil. 133
rio bufcar outro caminho para fe-
parar-fe o eftanho; e.o faber que
hum caminho naô he bom , he meio
para bufcar outro melhor: eu o def-
crevera aqui fem fazer diflo my(-
terio , nem fegredo;; porém naó
devo entrar em huma digreflad, que
faria perder de vifta o noflo ponto
principal.
CAPITULO IX.
T Inhamos dito, (e era o ponto
M em que ficâmos ) que a pul-
seRRaçaE da cal pela aífperílaô da
agoa Ífobre a pedra calcinada , de-
via fer por hum aéto continuado ,
e naô deixado , e tornado a praticar
por intervallos. Em prova difto fi-
zemos mençaô de alguns exemplos;
Part. II, Iii e te-
134 Problema
e temos outro na fermentaçaô de
todas as farinhas de que eloa o
paô; nas quaes a agoa ; com que
fe amaífaô , deve fer lançada de
vagar , mas fuccellivamente por
hum aéto continuo , e naô inter-
polado. Se a agoa he em menos
porçaô , fica imperfeita a fermen-
taçaôd; fe he em demazia , o que
provém , he hum polme glutinofo ,
q indigefto : e em lugar de huma
mafla fermentada, o que procede
he huma efpecie de bitume vifco-
fo, e fem fabor.
Ito he afim; porgue naô ha'
fermentaçaô perfeita , fem que as
partes fermentaveis , trabalhem
igualmente ; e para aflim fer ne-
ceflitaô huma porçaô de agoa com-.
petente: quando he muita, as par-
tes achad-fe taô foltas, ou diluídas,
que nenhuma tem acçaô para mo-
ver-fé,
De Architeélura Civil. 135
ver-fe, nem fazer mover as oui
tras; e quando he pouca , ficad co-
mo prezas entre fi, e fem pode-
rem entrar em reciproco movimen-
to. He porém precifo que o paô
fe coza logo, que a fermentaçad
célla , e antes quafi no fim , que
depois que ella tem ceflado intei-
ramente; porque neíte eftado já naô
creíce o pãô, nem acquire mais vo-
lume, que o que tinha a maífa ao
entrar do forno. Em conhecer aquel-
le certo ponto , confifte aquella
arte, : |
O mefmo fuccede na fabrica-
çaô , ou pulverização, da cal. À aí-
perílao da agoa fobre a pedra cal-
cinada a reduz em pó : alguma
parte da mefma agoa fe evapora ,
e com ella alguns efpiritos igneos
que a reduzem em vapor ; outros
ficad concentrados no pó! e'fad
Liv os
136 Problema
os que fazem aquella efpecie de pe-
trificaçaô que fe obferva nos mu-
ros antigos, e que fervem de mof-
trar que foraô fabricados com bons
materiaes. E com effeito o muro,
que demolido efpalha no ar huma
poeira fubtil, e como branca , dá
indício certo de haver fido conftrui-
do com materiees improprios ; por-
que fendo fabricado com cal, e arêa,
depois de paflar hum certo tempo;
fica taô folido ; e compaéto, que
quando fe desfaz cahe em pedaços
unidos , e apenas faz huma poeira
pezada, que fe naô póde Íultentar
no ar, nem póde fubir a grande al-
tura , mas logo fe precipita , fem
o offufcar confideravelmente.
Outro indicio verdadeiro de
que os materiaes de huma parede
foraô efcolhidos fem regra, e in-
advertidamente , he que quando a
pare-
De Arcbiteélura Civil. 137
parede.cahe, fica nas ruinas gran-
de porçaô de pó chamado caliça
vulgarmente, em: lugar que quando
os materiaes faô bons , a caliça he
pouca ; e para fe haver quando he
precifa, neceílita pizarem- fe os pe-.
daços da parede demolida. Porém
como naô ha coufa no mundo, que
em alguma occafiaô naô tenha al-
guma ferventia, a caliça provinda
do muro feito com materiaes im-
proprios ferve a varios uíos, para
que naô póde fervir a que provém
de parede feita com bons materiaes.
Ito fe obferva tambem na Agricul-
tura ; porque os campos fe fecun-
daô por meio de huma caliça impu-
ra, principalmente quando a terra
eftá cançada com as repetidas pro-
ducçoens; porque eftas com effei-
to elterilizad a terra , como enten-
deo Marcial quando difle : p
Ter
138 Problema
Ter centum Lybici modios de mefje
coloni
Sume , fuburbasus ne moriatur
ager.
A mefma caliça, que provém de
materiaes irregulares, ferve para a
fabricaçaô do falitre artificial, por-
que nella fe acha o acido do fal
commum , que coftuma fervir de
bafe ao nitro, camo fe vê quando
o falitre fe purifica ; porque depois
de repetidas criftallizaçoens daquel-
le fal aereo, no fim fe acha hum
verdadeiro fal commum , que já fe
naóô criftalliza como o nitro. Daqui
vem que a agoa forte feita com fa-
litre bruto naô he taô propria pa-
ra diflolver a prata; porque , con-.
tendo alguma parte do acido com-
mum, efte tem a propriedade de
diflolver o ouro, e a prata naô.
Para
De Architeétura Civil. 139
Para nenhum dos referidos mi-
nifterios ferve a caliça que provém
de materiaes finceros ; porque nem
para fecundar os campos , nem
para as fabricas do falitre póde fer
conveniente ; e vem a fer o mefmo
que huma pedra moida, e efteril
totalmente para aquelles ufos. Por
iflo muitas vezes naô fuccedem bem
alguns experimentos, fendo prati-
cados (ao parecer ) com os mefimos
ingredientes; porque qualquer cir-
cunitancia baíta pára que oartifiz
ce humas vezes configa o feu in-
tento, e outras nãô ; é para qué
trabalhando da mefina foge, e fe-
guindo o meftno méthodo , nad al-
canfe o que procura.
* Ecom efeito quem ha de di.
zer que entre as caliçás haja tanta
diferença? e queicom huítas fé
faça o que fe nad póde fazer com
ou-
140 Problema
outras? Iíto mefmo fe obferva em
outros muitos artefactos, v. g. fe
deitarmos a diffoluçaôd da prata em
agoa da mais pura fonte, logo a ve-
remos turvar-fe, e tomar a cor de
leite :. porém a agoa da mefma fon-
te, fe for primeiro deftillada , naô
veremos nella tal mudança , e ha
de ficar taô diáphana como era, e
a veremos milturar com aquella dif-
foluçaô , fem perder a fua tranípa-
rencia natural. A agoa pura depois
de deftillada parece que naô ad-
quirio, nem perdeo nada, por on-
de ficafle mais pura do que tinha fi-
do; e ifão porque a tranfparencia
ou claridade he a mefma; o pezo
efpecifico,obfervado antes da deftil-
laçaô, tambem he o mefmo; e fe
ha differença alguma de pezo a pe-
zo, he certamente imperceptivel,
Porém o contrario moftra a
diflo-
De Architecturá Civil. 141
difloluçaô da prata, porque logo
fe precipita em toda, e qualquer
agoa , e ainda na da chuva (toma-
da em parte livre) que fem duvida
he a mais pura , e como tal mais
leve que todas quantas agoas ha ;
e Íó na agoa deftillada naô fe preci-
pita aquella: difloluçaô, nem con-
«cilia cor alguma ; o que he fignal
clariflimo , e infallivel de que as
agoas , por mais puras que pare-
çaôd, com tudo naô o Ífaô ; por-
que fempre contém porçaô acida
ou alchalina , imperceptiveis total-
mente á vifta , e totalmente in-
fenfiveis ao fabor, e em pezo mi-
nutiflimo , que naô póde perceber-
fe, nem ainda por inftrumento al-
gum hydraulico; de que refulta a
precipitaçaô da prata; cuja diflo-
Juçaô no efpirito do nitro he a pe-
dra de toque para examinar-fe a
ulti-
142 Problema
ultima regularidade , e precizãô ,
a qualidade de todas quantas agoas
ha no mundo ; e para diftinguir in-
fallivelmente o grao de pureza, ou
impureza dellas, fegundo a quan-
tidade de prata que nellas fe pre-
cipita, e fegundo a turvaçad lactea
que Ífuccede (empre.
Daqui poderiamos inferir, e
naô fem provavel fundamento, que
a agoa deftillada feria a melhor pa-
ra beber, e mais faudavel, viito fer
de todas a mais pura, e por con-
fequencia a mais leve, por naô con-
ter (ou conter imperceptivelmente)
particulas acidas , ou alchalinas ,
que introduzidas nos vafos; em que
a circulaçaõ fe faz, podem fer caufa
primeira de muitas obítrucçoens , e
coagulaçoens que naquellas partes
fe fórmaô pela fucceflaô do tempo ,
e incuraveis quafi fempre, ou, ao
menos
De Árchitetlura Civil. 143
menos, difficeis de curar. Com tu-
do, naô obitante o que temos di-
to, e ferem com effeito as agoas
deftilladas as mais puras, e mais.
ligeiras, nem por 1flo faô proprias
para fe beberem ; eiftohe tanto af-
fim, que ainda os que ufaô de
agoa morna em tempos frios, (o
que aliás he mui conveniente ) nad
a devem beber amornada toda, mas
fim deftemperarem (como fe diz)
a agoa fria com agoa morna, e
naô amornada toda ao calor do
fogo.
“A razaô de diferença, ou a
razaô, porque aquillo deve fer af-
fim, exigiria hum difcurfo dilata-
do, e proprio para hum profeilor
de Medicina » à quem compete co-
mo privativamente tudo o que ref-
peita ao corpo humano, ou feja
para curar a enfermidade, ou Íeja
para
144 Problema
para a precaver, fegundo o axio-
ma certo em que fe diz:
Principiis obfra, fero medicina pas
ratur
Cum mala per longas invaluere
moras.
E fuppofto que he permittido a to-
dos o difcorrer em algumas partes
daquella nobiliflima (ciencia, e au-
gmentar os feus thefouros com ob-
fervaçoens proprias, (porque ella
mefma deíta forte começou, e te-
ve a Ífua origem de obfervaçoens
particulares ) com tudo , iflo deve
proceder quanto à narraçaô ou ex-
pofiçaô de hum faéto fimplefmente
expoíto, e naô quando fe trata dos
porquez , ou razoens phyficas, de
que o mefmo faéto veio a refultar.
Neite cafo o profeílor tem mais
autho-
De Architettura Civil. 14s
authoridade , ou deve faber mais
do que outro qualquer : fe bem que
tudo, quanto heutil, todos tem di-
reito, ou obrigaçaô para o dizer ;
pre a utilidade publica deve
preferir a toda, e qualquer confi-
deraçaô ; por iflo nefte Tratado ,
ou Problema de Architeétura, dif-
corro eu fobre profifloens que naô
profeílo, e muitas vezes me aparto
do intento principal, Íó por naô
omittir o que tem com elle alguma
relaçaô, e de cuja expofiçaô póde
refultar alguma utilidade. Além
difto , profeflor da arte naô he
fó quem a exercita, mas tambem
todo aquelle que de algum modo a
fabe. Tornemos á caliça.
Pelo que fica aflima referido
fe verifica bem que a differença
notavel que ha, e que obfervamos
com effeito nas caliças , denota a
Part. II, K diffe-
146 Problema
differença que ha tambem nos mu
ros, de que foraô extrahidas ; naô
fó a refpeito do tempo em que fo-
raô conftruidas , mas a refpeito dos
materiaes com que foraô fabricados.
Os muros , de que provém muita ca-
liça depois de demolidos ; e aquel-
les, que no inftante da ruina elpa-
lhaô no ar huma grande porçaô de
poeira fubtil, e importuna , e que
em eftaçaô ferena fe conferva mais
efpaço Íufpenfa no mefmo ar , mof-
traô com certeza que forad Fabri»
cados com materiaes incompeten-
tes.
Aquelles muros porém , que
quando cahem efpalhaô huma te-
nue porçaô de pó » e que efte em
eftaçaô igual naô fe fuftenta mui-
to no ar que offufca ( porque he
mais pezado, emenos fubtil) dad
niílo mefmo prova certa de que
forad
De Archiseltara Civil. 147
foraô fabricados com regularidade,
ifto he, com bons materiaes: e
ifto porque os pança: naô fe
havendo unido bem os feus princi=
pios, confervad aptidaô para fe
dividirem em partes minutiflimas ; a
que chamamos pó : os fegundos por-
que havendo uniaô eftreita entre os
Ífeus materiaes , ficaô eftes mais pe-
zados, e 'difficilmente fe feparaõ ;
e ainda quando fe dividem , he em
particulas maiores; e poriflo, pe-
zando mais, logo fe abatem.
Segue-fe pois do que fica
expoíto ,- que a pedra de cal logo
ao fahir do forno deve fer pulve-
rizada por meio da agoa lançada
fucceflivamente , e de vagar, mas
fem mais interpolaçaô de tempo
que aquelle que he precifo para fe
moverem de huma parte para ou
tra as pedras:que fe vaô pulverizan-
FT do 3
148 Problema
do, até que toda a pedra fique
igualmente reduzida em pó; eain=
da depois defta reducçaô , deve
continuar-fe o mefmo movimento ,
para procurar-fe a igualdade necef-
faria, e para que naô hajaô porçoens
pequenas menos bem pulverizadas
e naô de todo defunidas. Todos os
artifices fabem efta pratica, mas
talvez que naô conheçaô a impor-
tancia de que he,
meme remo meme me maça mt era meme
CAPITULO X.
Elo modo acima deduzido te-
mos a cal propria para o ulo
deftinado : mas a cal Íó por fi naô
faz a obra; nem eftando Íó fe pe-
trifica, por mais bem que feja pre-
parada; neceílita aréa pura, e fi»
na.
De Architeélura Civil. 149
na. Eltes faô os dous ingredientes,
que eftando exactamente miftura-
dos por meio da agoa competente,
e em proporçoens devidas, unem-
fe de tal forte, e taô intimamente,
que delles refulta huma efpecie de
lapidificaçaô ; ficando habeis em
pouco tempo, para refiftirem á ac-
çaô dos elementos, e principal-
mente à acçaô da agoa ( que he
contra quem fe dirige o intento
principal da obra) e para conterem
apertadamente as pedras cruas, de
que os muros fe compoem, fazen-
do com ellas hum corpo congluti-
nado, e fó defunivel por huma
grande força, ou por hum grande
movimento.
A pureza da arêa naô confif-
te em outra coula mais, do que
em fer fômente arêa, fem outro
algum corpo junto : fe contiver al-
Part. TI. K ui guma
ISO Problema
guma porçaô de terra, ou barro,
Já fica fendo arêa impura, e total-
mente impropria para a conftruc-
çaô dos muros; porque a terra ou
barro, de qualquer genero que fe-
jaô, impedem a cal para naô li-
gar-fe, nem petrificar-fe com a
aréa; e ifto como fe fofle hum in-
termedio que retunde a acçaô da
cal na aréa, e a deíta tambem na
cal; da mefma forte que as mate-
rias oleofas enervaô os efpiculos fa-
linos de todos os corrofivos, ou fe-
Jaô naturaes, ou artificiaes.
O barro milturado, e amal-
fado com arêa, faz hum pó folido ,
depois de eftar fecca a compofiçad,
como fe ve no tijolo, e telha, e
«em outros artefaétos femelhantes ,
fegundo o ufo cominum, para que
fe fazem. Porém fe ao barro junto
com a arêa lhe múlturarmos cal,
Já
De Architeilura Civil, agi
já fe naô faz nem telha , nem tic
jolo; porque ertaôd a cal he o in-
termedio que impugna a liga exa-
ca entre aarêa, e o barro.
O barro ainda he mais impro-
prio, do que a terra fimples; por-
que efta, ainda que propenda a def-
unir-fe em eftando fecca;; e que
aquelle mais fe incline a fazer cor-
po quando endurece; com tudo o
barro fempre he mais unétuofo , do
que a terra; e aquella meíma un-
etuofidade ( quali faponacea ) lhe
interrompe o poder ligar-fe com ou-
tros corpos que «naô fejaô da-fua
natureza. Por-iflo na fabricaçaô da
telha, ou do tijolo , efcolhem-fe
barros; differentes , para que o que
huns tem de fortes, e queros faz
abrir quando vaô feccando, fique
temperado com os que faô delga-
dos, os quaes faô areolos commu-
K iv mente,
152 Problema
mente. Nefta eleiçaô, ou compofi-
çaô de barros de diverfas qualida-
des entre fi, confifte a arte a que
os Latinos chamaô figulina.
A mefma impropriedade tem
o faibro ou terra aflim chamada, de
que os artifices fe fervem muitas
vezes em lugar de arêa na conf-
trucçaô dos muros. He improprio
naô Ífó pela razaô fabida de fer fó-
mente huma efpecie de arêa mif-
turada com terra ; mas tambem por-
que a terra, que contém, pende
para oleofa ; e de tal forte , que até
he impropria para a producçaõ dos
vegetaes : em lugar que outra qual-
quer arêa, em cuja natural compo-
fiçaô entra alguma porçaô -de ter-
ra pura, naô deixa de fer fecun-
da, e nella fe daô muitos vege-
taes, e algumas vezes ainda me-
lhor do que em outra qualquer
terra. E
De Archiretlura Civil. 153
E com effeito a arêa com cer-
ta porçaô de terra fimples he don-
de as vinhas fruéhficad mais, e
donde o vinho he mais feleéto. A
aquella arêa chamaôd os agriculto-
res arêa com fubltancia ; e efla
confifte na porçaô que tem de ter-
ra vulgar. Hum chaô defta qualida-
de (a que chamaô tambem terra
delgada ) he mais fecundo; porque
as raizes das plantas achaõ nella
mais facilidade para fe eftenderem,
tanto lateralmente ', como profun-
damente ; e deíta facilidade depen-
de muito a vegetaçaô; porque quan-
do as raizes naô podem romper a
terra , ou achaô nella refiftencia,
a vegetaçaô Íuccede menos feliz-
mente. Defte principio certo reful-
tou oarado , e outros inftrumen-
tos ideados para fazerem a terra
mobil, e penetravel aos primeiros
rudi-
I54 Problema
rudimentos das plantas, quando
entraô a vegetar. Aflim o indicou
o Poeta quando diffe :
Multum adeo rafris glebas qui
frangit inertes ,
Vaimineasque trabit crates , juvar
arva; neque illum
Flava Ceres alto nequicquam fpe-
étar Olympo :
Es qui profeo que fufcirat equo-
re terga ,
Rurfus in obliquam verfo per-
rumpit aratro,
Exercetque frequens tellurem.
Segue-fe pois que nenhuma ter-
ra, ou barro, deve entrar na conf-
trucçaô dos muros ; porque eftes
fempre ficaô imperfeitos, à propor-
çaô da terra, ou barro que contém;
e nunca podem adquirir aquelle grao
de
De Architectura Civil. ass
de fortaleza , que adquitem com ef-
feito » quando na fua compofiçaô
naô entra outra coufa mais do que
acal, e a aréa. Eftes dous mate-
riaes lapidificad-fe de algum mo-
do, eltando fós , e fem outro in-
grediente algum. Outro qualquer
mixto junto perturba , e impede
totalmente aquella petrificaçaô ar-
tificial,
Nas entranhas da terra., ou
ainda na fuperficie della, fuccede
o mefmo; porque nem toda a qua-
lidade de terra fe converte em pe-
dra, nem chega a ter a dureza del-
la ; porque nem em toda a parte
acha a natureza os ingredientes pro-
prios para formar a pedra: em huns
lugares faô os ingredientes menos,
e em outros mais. Por ifloa natu-
reza ou naô produz a pedra, ou,
fe a produz, naô he toda da mefi
ma
156 Problema
ma qualidade ; huma he branda,
outra he rija ; huma tem efta côr,
outra tem côr diverfa: tudo mof-
tra que os materiaes forad diveríos,
ou que houve diverfidade no modo
de compór.
He fem duvida que tudo quan-
to a natureza fórma, ou o artifice
compoem , exige certos materiaes,
e em porporçaô certa. Se os mate-
riaes faô mais , ou menos; fe naô
faô precifamente os que devem fer;
ou fe a proporçaô delles he erra-
da, fica a natureza errando , e o
artífice tambem ; ifto he , naô fe
fegue, ou naô fe faz o que hum,
ou outro pretendia: fegue-fe hum
monftruofo parto ; ou hum aborto.
Ito fe verifica fem prova, e a no-
çaô, e conhecimento vulgar, que
todos temos, nos perfuade ; por-
que ha muitas propofiçoens que nad
necefli-
De Archite&tura Civil. sm
neceflitaô de demonftraçaô; e quan-
do fe demonítraô , he mais para ex-
ercitar a regra , do que para fazer
patente a coufa demonitrada ; afim
como quando a Geometria prova
que dous , e dous faô quatro ; ou
que dous, e dous naô faô finco.
E com effeito da femente de
certa planta , naô provém outra
planta diferente. Cada raiz pro-
duz o fruto que lhe he proprio, e
naô outro ; fendo que a arte de
inocular ( a que chamamos enxer-
tar ) nos moftra as largas excep-
çoens, que aquella regra tem, por
mais univerfal que nos pareça. Ena
verdade, quantos troncos , e raizes
vemos obrigados a nutrir frutos
alheios ; defconhecendo as fuas mef-
mas producçoens , fupente natura
ipfa? e para mais admiraçaô, fen-
do taô facil, e taô breve o artifi-
cio:
158 Problema
cio : efte he o que metaphoricamen-
te fe chamou: Mrborum adulterium.
O Poeta o deu entender afim :
Nec modus inferere , atque oculos
imponere fimplex ;
Nam qua fe medio trudunt de
cortice gemma »
Et tenues rumpunt tunicas, an-
guftus in ipfo
Fit nodo finus: buc aliena ex ara
bore germen
Includunt , udoque docent inolefce-
re libro.
“Aut rurfum enodes trunci refe
cantur » & alte
Finditur in folidum cuneis via :
deinde feraces
Plante immittuntur. Nec longum
tempus, d ingens
Exiit ad colum ramis felicibus
arbos »
Mira-
De Archireétura Civil, 159
Miraturque novas frondes , de
non Jua poma.
Naô he porém, geral a excepçad
de que hum tronco fe accommode
a produzir frutos eftranhos , dege-
nerando por aquelle modo para
contentar o avaro agricultor; por-
“que a maior parte das plantas, que
conhecemos, he tenaz , e fe nega
inteiramente ao artifício que lhe
quer mudar a indole primeira. Ou-
tras facilmente chegaô a vencer-fe;
e deixando a fua verdadeira, e na-
tural inclinaçaô , fujeitad-fe a fe-
guir a intençaô que lhes prefcreve
o que devem produzir. Quem dif-
fera (fe o naô ville) que ha arte
para mudar a natureza ; ou para fa-
zer que hum tronco veja nos feus
ramos flores, que naô conhece , e
frutos que nunca vio?
CA-
160 Problema
COESO Ce
eta e re met cerne e e ter term
CAPITULO X.
Di de verificado o quanto
importa fer a arêa pura para
fazer duraveis os edificios ; e de-
pois de havermos viíto que a ter-
ra, ou barro, de qualquer forte que
fe tomem , fempre faô ingredientes
oppoftos a aquelle intento ; fegue-
fe outro requifito nad menos im-
portante, e quafi fempre defpreza-
do por todos aquelles que edificaõ;
e com tanto deícuido neíta parte,
que já mais lhes vem ao penfamen-
to a circunftancia neceflaria de fer
aarêa fina. E com effeito todos nos
defcuidamos , e raramente fe en-
contra algum de nós, que faça re-
paro em fer a arêa fina, ou por
as
De drcbiteetura Civil. 161
fa; em fendo arêa, he o que baf-
ta; e julgamos que o volume de ca-
da huma das fuas partes he mate-
ria indiferente , e de entidade pou-
ca. Porém he engano manifefto ;
porque a cal amaflada com arêa
grofla em nenhum tempo póde fa-
zer perfeita liga, como moftra a ex-
periencia, e a razaô o diéta, com-
provada por muitos experimentos
certos.
Os metaes ( exceptuando o
ferro ) unem-fe perfeitamente , e
intimamente com o azougue ; e nef.
te liquido metallico fe diflolvem , ou
derretem quafi da mefma forte,
que 0 fal fe derrete na agoa. Po-
rém para efla difloluçaô , ou amal.
gamaçaô ( como fe explicad os ar-
tiítas ) exige-fe que os metaes fejaô
limados, e reduzidos primeiro em
particulas menores. Daqui vem, que
Part. IL L fe
162 Problema
fe fe deitar huma barra de ouro, ou
prata fobre qualquer quantidade de
mercurio, as barras haô de conter-
var a figura folida que tem, fican-
do fómente quebradiças, e brancas
nas fuas fuperficies; e ainda que o
azougue as penetre interiormente,
nunca as fuidifica, pela razaô cer-
ta de as achar em maíla groíla,
Ao eftanho , e chumbo fucce-
de o mefmo : e fuppofto que eftes
dous metaes fejaô facilmente com-
binaveis com o azougue , e com
elle fe incorporad , fempre exigem
tenuidade para É amalgamarem
bem, e fem iflo ficad em mafia fo-
lida, (ainda que fragil) na fuper-
ficie” » ou parte fuperior do azou-
gue. O cobre refifte mais à intro-
ducçaô daquelle femimetal ; por-
que ainda limado requer trituraçaô
violenta para fe unir com elle. O
ferro
De ArcbiteékuraCivil. 163
ferro naô admitte aquella focieda-
de, e fempre fe conferva intaéto
fobre o azougue , fem ficar fragil,
nem mudar a cor exterior, e ain-
da que limado, ou dividido efteja
em pó ligeiro.
Os outros metaes porém em
tendo a aptidaô precifa, ifto he,
em eftando limados, ou reduzidos
em pó, logo fe incorporaô com o
azougue , e fe unem taô eltreita-
mente , que fó o fogo os póde fe-
parar de todo. O mefmo fal, que
de todos os corpos conhecidos he
o que tem mais propenfad , e pro-
pençaô inevitavel para derreter-fe
na agoa, e para cahir em deliquio,
como os artiftas dizem , cuja fa-
culdade naturaliflima fe naô póde
impedir, fem deftruir de alguma
forte o fal, e fem fe lhe mudar a
fua propria contextura ; com tudo
Lii em
164 Problema
em quanto eftá em maffa firme re-
fifte algum tanto mais à acçaô da
agoa, e à doar; e quando fe dif-
Íolve nella, he lentamente: porém
aflim que o fal feacha em pó, ou
reduzido em porfoens menores, de
improvifo fe derrete, e ainda fem
indigencia de calor.
Ito procede certamente pela
razaô univerfal, de que toda a com-
pofiçaô , em que de varios mixtos
deve refultar hum corpo folido , exi-
ge que cada hum dos feus ingredi-
entes fe reduza primeiro em par-
tes minutifimas por meio de hu-
ma trituraçaô exacta. Elta prepa-
raçaô antecedente he [empre ne-
ceflaria naquelles cafos , e fem ella
nunca fe confegue hum corpo, ou
hum compofto bem unido, antes
fica fempre defunivel, á propor-
çaô que as partes componentes ,
faô.
De Architeétura Civil. 165
fao mais; ou menos denfas.
E aflim deve fer; porque a
uniaô de diverfos corpos, de que
deve refultar hum fó, fuppoem hum
contaéto immediato, ou huma in-
tima miftura entre todos elles ( fem
a qual nenhum perde a Íua forma-
tura antiga, e natural) para tomar
outra moderna , e artificial. O vi-
dro compoem-fe (como temos di-
to) dearéa, e de fal alchalino fi-
xo; porém eftes dous ingredientes
primeiro fe pulverizaô , e mifturad
o mais perfeitamente que he poffi-
vel, e fem iflo naô póde relultar
hum perfeito vidro; e efte fica mui-
to mais fragil, do que coftuma fer
ordinariamente ; além de naô po-
der adquirir por nenhum modo hu-
ma grande tranfparencia , ou cla-
ridade.
Em outras muitas compofi-
Part. II. Lai çoens
165 Problema
çoens vulgares fe obferva o mel
mo. De todos os metaes fundidos
entre fi refulta huma mala fó, à
que alguns chamaô eleétrum mine-
rale. Efta compofiçaôd , ou uniad
metallica fuccede afim , porque ca-
da metal no eftado de fundido fi-
ca como fe eftivelle feito em pó,
vifto que o fogo defune de tal for-
te as fuas partes integraes, que as
faz fluidas , correntes, e fepara-
veis: daqui vem o ficar liquido o
metal; porque o fogo, que entra ,
e occupa os feus interíticios todos ,
faz que cada huma das fas par-
tes femova, por caufa de eftarem
feparadas entre fi, e agitadas pelo
movimento rapido do fogo. Efte he
o eftado de maior divizaô, a que o
metal póde chegar : e por iflo mef
mo, fe o fogo fe modera , ou cel-
fa, as particulas metallicas defuni-
das;
De ArchisecturaCrvil, 167
das, tornad a ajuntar-fe, e formad
hum corpo Íolido , e compaéto.
O mefmo fe vê nas fementes
farinofas de que o paô fe faz, as
quaes naô podem fervir para aquel-
le minifterio, fem que primeiro fe
reduzaô a pó fubtil : entad. ficad
habeis, e difpoítas para fermenta-
rem, depois de amafladas com agoa
fufficientemente , e para formarem
huma maffa cozida, alimentofa, e
por confequencia digerivel. Se as
fementes porém fó fe quebraõ, e
naô fe moem, naô procede a fer-
mentaçaô perfeitamente; porque as
partes da maíla naô fe ligad entré
fi, de que refulta o ficar infalutife-
ra, afma, e de hum fabor ingrato:
Se ifto aflim procede a reípeito do
paô, que alias fe compoem de hu-
ma Íó materia , ou ingrediente, qual
he cada huma das fementes vege-
Liv taes,
168 Problema
taes, de que aquelle artifício util
fe fabrica, com quanta mais razaô
naô ferá o mefimo em outras com-
pofiçoens, cujos ingredientes faô di-
verfos, e naô hum Íó, e exigem
ferem preparados , para poderem
produzir hum efeito deftinado ?
A Pharmacia contém grande
numero de mifturas, de que os feus
medicamentos fe compoem : porém
as partes dos mefmos medicamen-
tos, que fegundo a arte delles de-
vem fer moidas , efte preceito fe ob-
ferva fielmente ; porque , fe os mix-
tos medicamentofos , e pulveriza-
veis, naô faô moidos , efta circunf-
tancia defprezada , faz que o reme-
dio ou naô produz effeito algum,
ou o que produz he contrario ao
que fe efpera delle; e qualquer fal-
ta no modo de preparar qualquer
remedio , he o de que procede mui-
tas
De Arcbiteélura Civil. 169
tas vezes a Íua inefficacia ; porque
naô fó relulta a falta de huma qua-
lidade procurada , mas tambem lhe
muda , ou perverte aquella que já
tem naturalmente.
Às pedras preciofas faô mui-
tas vezes indicadas na pratica da
Medicina ; porém devem fer moi-
das exactamente;porque fendo pou-
co, ou mal moidas, nefte cafo he
nocivo o ufo dellas; porque os an-
gulos, ou pontas agudas, e deli-
cadas , com que ficaô, fervem para
lacerar todas as partes, por onde
paffaô. Foi abufo antigo o enten-
der-fe que o pó do diamante era
perniciofo , naô o fendo na verda-
de. Efta pedra quando eftá moida
em pó fubtil naô tem propridade
alguma má; porém quando o pó
he groffeiro, e mal moido , entaô
as pontas imperceptíveis, que con-
ferva,
170 Problema
ferva, faô as que fazem todo o
dano: e aflim o pó do diamante
he nocivo fó pela figura, e acci-
dentalmente , e naô pela fubltan-
"Clãs
O mefmo Íuccede a reípeito
de todas as mais pedras preciofas ;
e a refpeito de todo , e qualquer
vidro : efte, que tambem paílou por
fufpeitofo , he innocente na verda-
de; e fe faz mal, he porque foi
moido mal; porém depois de eftar
moido exactamente, naô póde com
effeito fazer mal, nem bem. E de
faéto nem o vidro, nem as pedras
preciofas tem qualidade activa , que
introduzida nos folidos, ou fluidos
de qualquer corpo , poíla fufpen-
der-lhes, ou accelerar-lhes o mo-
vimento ; e fe fazem prejuizo, he
por razaô do pezo , ou impaítaçad,
mas naô que fubltancialmente con-
tenhaô
De Arcbiteélura Civil. am
tenhaô a mais leve porçaô de qua-
lidade intrinfecamente má. Muitas
coufas fe fuppoem nocivas, fem o
ferem ; e outras tambem fe fup-
poem innocentes com pouco funda-
mento ; tanto em humas, como em
outras feguimos a precccupaçad
vulgar : a antiguidade as introdu-
zio fem exame , e nós tambem fem
exame as confervamos ainda.
Temos outro exemplo na pol-
vora. Efta ( como todos fabem )
compoem-fe de falitre, carvad, &
enxofre. Eltes tres ingredientes pri-
meiro fe pulverizaô ; depois miftu-
raô-fe, depois granulad-fe, e ulti-
mamente feccad-fe. Porém primei-
ro que tudo, cada hum daquelles
ingredientes fe reduz em pó lub-
til; para cuja reducçaô tem inven-
tado a experiencia varios modos ; e
os que fe praticaôd por meio da agoa
corren-
172 Problema
corrente faô os mais promptos, e
menos diífpendiofos. A melhor pol-
vora he a que he mais fina; e efta
circunítancia lhe provém da fubti-
leza, ou pulverizaçao dos feus ma-
teriaes, e tambem das proporçoens
reciprocas entre os mefmos mate-
riães.
E com effeito a bondade, e
actividade da polvora naô podem
verificar-fe, fe ofalitre, o carvaô ,
e o enxofre naô fad moidos per-
feitamente, e naô faô bem miltu-
rados; porque naô ha miftura per-
feita entre partes mal moidas. O
falitre he o principal agente naquel-
la compofiçaô , vifto que de fer o
falitre mais, ou menos purificado ,
e de entrar em maior, ou menor
porçaô ( fem exceflo porém na ra-
zaô da quantidade ) depende a per-
feiçaô , ou imperfeiçao da polvora.
De Architeélura Civil. 173
A qualidade do enxofre, e do
carvaô naô he materia indifferen-
te ; porque o enxofre, para fazer
perfeita a compofiçaô , deve fer re-
duzido a flor por meio da fublima-
çaô. Nefte eftado naô fó perdeo
o enxofre alguma parte do feu fal
acido, mas tambem fica pulveri-
zado pela mefma operaçad. O fal
acido attrahe avidamente a humi-
dade do ar; poriflo a polvora fa-
bricada fem aquella circunítancia
he mais fujeita a humedecer; por-
que o fal acido Íulphureo attrahe
com effeito a humidade , ainda com
mais força do que o mefmo fal ni-
trofo.
Naô fei fe os artífices obfer-
vaô aquella pratica ; e fe a naô ob-
fervad, experimentem, e veraô a
differença que vai da polvora fabri-
cada com enxofre fimples , ou fei-
ta
174 Problema
ta com enxofre florificado. Daqui
vem que algumas polvoras em me-
nos quantidade fazem mais effei-
to, do que outras em maior. Tudo
he polvora ; mas nem toda tem a
mefma actividade; huma he debil,
e outra he forte. Do enxofre vem
a fulminaçaô ; e do falitre o impe-
to, ou elafticidade.
A qualidade do carvaô tam-
bem he requifito neceflario, e im-
portante; porque nem todo o car-
vaô he proprio; e alguns ha que
faô ineptos, e que naõ fó nad pro-
movem a acçaô do falitre, e en-
xofre, mas antes a impedem de al-
gum modo. A habilidade do artifi-
ce eftá em faber diftinguir, e co-
nhecer os materiaes de que fe fer-
ve ; porque de huma eleiçaô bem
entendida depende a bondade da
obra, ainda mais que da manipu-
laçaô,
De Architelura Civil. 1975
laçaô, ou formaçaô material, Se-
gue-fe depois a miltura exacta da-
quelles ingredientes , fem a qual
naô fe póde efperar o effeito que
coftuma fazer a polvora. À miftura
exige, e Ífuppoem que os mefmos
ingredientes fe fubtilizem primeiros
e fe moaô; porque fe naô faô moi-
dos, e ainda fe o faô grofleiramen-
te, a polvora fica fendo pouco vi-
gorofa, e fó capaz para fazer hu-
ma detonaçad , ou deflagraçad ir-
regular.
Aflim fe faz aquelle eftupen-
diflimo artefato , cujos efeitos, ou
a razaô, porque fuccedem , ainda fe
naô fabe , nem fe explicou bem, e
talvez que feja hum dos que nunca fe
haô de faber, nem explicar: tudo,
o que a refpeito delle fe tem dito,
fó fatisfaz a quem he bom de con-
tentar; mas nad a quem nas mate-
ras
176 Problema
rias Phyficas naô fe fujeita facil-
mente à incerteza dos fyítemas.
Nefte cafo parece que he melhor
fufpender a conclufaô , ifto he, nad
determinar a caufa,de que hum phe-
nómeno provém. Devemos conten-
tar-nos com a coufa, fem entrar a
decidir a razaô della ; bafta que
faibamos que coufa he, ainda que
naô faibamos o como , nem o por-
que he.
À intelligencia dos effeitos he-
nos mais util, que a das caufas.
Aflim como fabemos que o Iman,
ou pedra de cevar, attrahe o fer-
to, e que faz que a agulha nauti-
ca, (e ainda outra qualquer ) mof-
tre os polos do Norte, e Sul. Sa-
bemos que c opio Oriental (e ain-
da o de outras partes ) ferve para
calmar, e moderar a agitaçaô dos
efpiritos irritados , por huma quali-
dade
De Architeilura Civil. 177
dade que fe diz narcotica, ou fo-
porifera. Sabemos que o extraéto
do açafrad excita alegria , e rilo.
Sabemos que o regulo de antimo-
nio ; he hum vomitivo perigofo,
Sabemos que a planta chamada fen-
fitiva, por fi fe move todas as ve-
zes que lhe tocaô. Ignoramos os
principios de que refultaô aquelles,
e outros effeitos admiraveis. Porém
que importa que os ignoremos? o
conhecimento dos effeitos he fem-
pre proveitolo; o das caufas tal-
vez que Íó feja curiofo.
De tudo, o que fica expoíto ,
podemos inferir que a arêa, que
houver de entrar na conftrucçaô dos
muros, deve fer fina para fe incor-
porar bem, e mifturar com a cal,
e agoa com que fe amafla; porque
fó de huma miftura igual, e per-
feita, he que póde refultar a inti-
Part. II. M ma
178 Problema
ma adhefaô daquelas partes entre
fi Só entaô he que provém aquella
eípecie de petrificaçaô artificial, que
ferve de unir as pedras divididas, e
de as conter juntas, e ligadas; fa-
zendo ( como temos dito ) de mui-
tas pedras feparadas hum corpo
continuado , e forte. Nelte eítado
fica fendo o muro huma mafla fo-
lida, capaz para refiflir á introduc-
çaô da agoa, e á acçaô do ar. E
com efeito a agoa naô fe póde in-
troduzir em huma tal parede para
defunir as fuas partes; e da mefma
dorte o ar naô tem vigor para a
penetrar, nem pulverizar as fuper-
ficies exteriores que ficad mais ex-
poftas ao movimento perpetuo da-
quelle fubtililimo elemento.
Naô he porém precifo que fe
môa a arêa para a fazer exacta-
mente fina; e iflo feria quafi im-
pra-
De Architetlura Civil. 179
praticavel; mas bafta que fe efco-
lha aquella que he fina naturalmen-
te. Defta qualidade coftumaõ fer
todas as arêas que fe achao nos al-
veos dos rios, e juntamente aquel-
las que os meímos rios lançaô para
as fuas margens : eftas naô Ífó tem
o grao de fineza fufficiente , mas
tambem faô izentas commumente
dos principios heterogeneos , e con-
trarios a toda a fabricaçad dos mu-
ros; iftohe, aterra, o barro, eo
fal. Todos eftes a mefma agoa cor-
rente os leva: o fal vai derretido
nella; e a terra, oubarro, ainda
que fe naô derretaô , (empre a agoa
os amollece , e divide em fórma,
que os fufpende em fi, e os vai co-
mo arraftando fuccellivamente; em
lugar que a arêa, fendo mais peza-
da, e por iflo naô podendo fuf-
tentar-fe na agoa , ptrecipita-fe ao
ti fundo
180 Problema
fundo della , e vai ficando pelas
margens, de donde depois fe tira,
quando as agoas diminuem, ou fe
tira tambem dos alveos nas partes ;
em que os rios feccaô totalmente.
Daqui vem que os edificios ruf-.
ticos coftumaõ fer muito mais du-
raveis do que os urbanos ; porque
naquelles ordinariamente a arêa
tira-fe dos rios, ou daquellas par-
tes, por onde paíflaô de inverno
muitas agoas, e depois fe feccaô.
À cal tambem nelles he mais pura,
porque fe naô fabrica junto ao mar,
e he fempre desfeita , e amaflada
com agoa doce, e naô falgada, nem
falobra. Nãô he porém regra ge-
ral que todos os edificios rufticos
fejaô mais fortes, e duraveis; por-
que ainda que Íejaô conftruidos com
materiaes melhores, fuccede mui-
tas vezs ferem inferiores os feus
arti-
De Aribiteeiura Civil, 18r
artífices; de forte , que O que ga-
nhaô na materia, perdem no arti»
ficio.
Verdade he, que fendo a arêa
fina, e pura, exige maior porçaô
de cal, e por efte modo vem a fer
a obra mais difpendiofa. Aflim he
fem duvida ; porém o noílo inten-
to naô he de economizar a eltru-
Etura do edificio , mas fim propor
o meio de c fazer duravel: o cuf-
tar pouco he materia diftinéta do
prefente aflumpto. Muitos meios ha
para que qualquer obra cuíte me-
nos; porém para que dure mais ha
hum meio fó, e efte confifte prin-
cipalmente na bondade dos feus ma-
teriaes. À vida dos edificios ( diga-
mos afim ) depende daquella cir-
cunftancia. A quem lhe naô impor-
ta que a obra dure mais ou me-
nos, tambem lhe naô deve impor-
Part. II. M in tar
182 Problema
tar nada do que fica dito: para ef-
fes naô efcrevo,
Todos, os que edificaô , tem
hum certo fim, ou certo penfamen-
to que os dirige; e quando o pen-
famento naô vai longe , ifto he,
quando quem edifica ; fó fabrica
para fi, parece-lhe efculado o fer
efcrupulofo no modo de fabricar :
fendo que fuccede algumas vezes.
crefcer a vida, e faltar a obra; en-
taô he que parece mal o naô haver
fido efcrupulofo ; e muitas vezes
efle mais, que fe difpende, confif-
te em taô limitado objeéto, que a
penas tem deículpa quem edifica
mal. Porém fó cada hum fabe o
que póde; e quem naô póde mais,
defculpa tem : a indigencia tem
muitos privilegios , e aquelle he
hum delles.
E aflim feja como for a ref-
peito
De Architeélura Civil, 183
eito do edificio particular: aquel-
A porém, em que o publico fe in<
tereíla, naô deve fer feito eftreita-
mente, porque vai muita differen-
ça de hum cafo ds O outro, co-
mo já diflemos. É verdadeiramente
o edificio particular faz-fe para
hum; o publico para todos : nefte
parece que todos tem direito de inf-
pecçaô ; naquelle a razaô de cen-
for fó compete a hum: o primeiro
ferve para ornar o mundo ; o fe-
gundo para abrigar hum homem ;
por iflo o edificio particular nad
he mais do que domicilio ; e o edi-
ficio publico he como patria com-
mua ; aqueile coftuma ver o Ífeu
principio, e fim; eíte he feito pa-
ra ver o fim de tudo.
Miv CA-
184 Problema
meme mma et res rem ts er re mt
CAPITULO XI.
T Emos difcorrido fobre a preci-
faô dos materiaes , e qualida-
des que devem ter, para que del-
les refulte a firmeza , e duraçaô dos
edificios. Agora fegue-fe o dizer
que naô he menos importante o
faber mifturallos com arte; porque
todo o compofto exige certa pro-
porçaô entre as partes que o com-
poem a fem a qual nunca corref-
ponde o effeito à juíta intençaô do
artífice. Se a aréa he muita, e à
cal pouca, ou muita a cal, e pou-
ca a arêa, naô póde haver uniad
forte entre huma coufa, e outra;
e nada havendo, fempre ficaô divi-
fiveis, e mal ligadas; e tanto dano
faz
De Arcbitelura Civil. 18g
faz à falta de hum material, como
a fuperabundancia delle: Tudo ne-
ceffita porçaô determinada , para
que naô haja exceílo nem no mais,
nem no.menos.
Ito mefmo fe obferva em to-
dos quantos artefactos ha; e com-
mumente aquelles, que naô operaô
como fe pretende , ou como tem
operado outras muitas vezes , he
porque houve deícuido , ou erro nas
proporçoens de cada huma das fuas
partes. Por iflo hum mefino artifice
humas vezes trabalha com Íucceflo,
outras naô. Muitos experimentos
fingulares fuccederad bem a pri-
meira vez, e depois, fendo repeti-
dos , faltaraô ; porque a primeira
vez por acafo fe acertarad as pro-
porçoens. E com effeito tem havi-
do inventos admiraveis que fó fe
viraô huma vez; e tornando ares
petite
186 Problema
petir-fe , já mais fe poderaô en-
contrar ; como fe a fortuna tambem
tiveíTe arbitrio nas experiencias phy-
ficas, concedendo alguma vez aquil-
Jo mefmo que outras denega.
Porém a verdade he que a for-
tuna em nenhum cafo influe, nem
“tem poder algum. À razaô , porque
hum experimento humas vezes fuc-
cede , e outras naô, he provavel-
mente porque huma longa opera-
çaô diverte, ou confunde o artifta
para naô ter lembrança certa nem
do modo , com que trabalhou, nem
das proporçoens de que fe fervio;
e aflim quando encontra o que naô
bufcava , fe quer retroceder para
repetir, e ver o mefmo que já vio,
raras vezes acha o caminho por on-
de ahdou; até que de canfado de-
fifte, e larga a empreza , impacien-
te de naô defcobrir o que enten-
deo
De Árchivetlwra Civil. 187
deo ter deícoberto. Daqui vem que
alguns artiftas menos inftruidos che»
garaô a affirmar que haviaô du-
endes invejofos, e malignos , que
mudando , ou pervertendo os feus
ingredientes, faziaô fallir qualquer
operaçaô. Porém o verdadeiro du-
ende fempre confiftio em fer mal di-
rigido o experimento ; na falta das
juítas proporçoens ; e no erro em
o medo de operar.
Ifto he como o que alguns Au-
thores efereveraô quando dizem que
nas cavernas mineraes , donde os
metaes fe tiraô , ha efpiritos mal in+
tencionados , que perturbaô aos mis
neiros , e efeondem os metaes pa-
ra naô ferem extrahidos ; appare-
cendo algumas vezes em fórma, ou
figura de Religiofos Capuchinhos ,
trabalhando com os mefmos minei-
ros; porém efcondendo fempre os
metaes
188 Problema
metaes mais preciofos , e fazendo
com que fe naô achem Elta opiniaô
fuftentou o famofo Agricola nas fuas
obras, em que ex profefjo tratou
da extracçaô de todos os metaes.
ConfeiTo que efte Author he gra-
ve, e foi o mais experiente na ma-
teria, e efcreveo nella com pro-
funda erudiçaô , como as fuas mel-
mas obras manifeftaô ; porém quan-
to dos Capuchinhos cfpirituaes ,
fides fit penes Authorem ; falvo fe
eflas taes intelligencias exiltem Í1ó
nas minas de Alemanha , que he
donde o referido Author fez todas
as fuas obfervaçoens ; porque nas
minas da America nap coníta que
hajaô vifoens algumas.
Porém para conciliar-fe a ver-
dade (ao menos apparente neíte ca-
fo ) daquelle illuíftre Author , de-
vemos confiderar que as minas de
Ale-
De Architeéturá Civil. 189
Alemanha , Polonia , Suecia , e ou-
tras , todas faô commumente fub-
terraneas, difcorrendo por baixo da
terra efpaços grandes , nos quaes
fe naô vê a luz do dia, mas o tra-
balho fe faz com luzes artificiaes.
Concorre maisa circunftancia de fe-
rem aquellas minas ordinariamente
fulphureas , e fempre inficionadas
de hum halito, ou vapor de enxo-
fre, que inunda todos aquelles ef-
paços fubterraneos ,e mineraes, co-
mo affirmaô todos os Efcritores que
fazem mençaô dellas. Ifto fuppotto,
fica fendo verofimil que as Ífom-
bras das meímas luzes artificiaes , e
os vapores denfos que os mineraes
exhalaô, fazem illufad aos olhos,
figurando reprefentaçoens phantaf-
ticas, como fuccede aos febricitan-
tes, a quem os vapores halituofos,
que o fangue circulando defordena-
damente
190 Problema
damente fuggere ao cérebro,ou idéa
mental, donde com efeito fe fór-
maô configuraçoens diverfas, ou
imagens efpanto(as.
Nas minas da America naô
fe encontraô taes vifoens, porque
fe naô encontraô tambem as mef-
mas circunítancias de que podem
refultar aquellas illufoens ; e he cer-
to que nas minas , de que fe extrahe
a prata, ou ouro , naô fe daô va-
pores fulphureos , e arfenicaes, co-
mo fe verifica pelos mefmos metaes
extrahidos ; porque regularmente
fe acha a prata pura, e com a fua
meíma cor, por onde fe diftingue;
em lugar que donde ha vapor de
enxofre , precifamentc a prata he
denegrida , nem fe póde nunca unir
ao azougue para por meio defte fe
feparar da terra, ou pedra em que
fe acha, fendo efte hum dos me-
lhores
De Architetlura Civil. 91
lhores argumentos contra os que en-
tenderad que na formaçaô natu-
ral daquelles dous metaes entrava
o enxofre como parte efliciente,
Ântes he provavel que aquelle mi-
neral indigefto, e corrofivo, he
contrario a toda a producçaô da
prata, e ouro.
E aflim naô ha nas minas Ame-
ricanas as mefmas vifoens, ou illu+
foens que fe diz haver nas minas
Septentrionaes; porque naquellas
os vapores mineraes fad outros ;
nem faô taô profundos , e caverno-
zos os meatos fubterraneos , donde
habrtad (por aflim dizer) o ferro, e
o cobre, como fe vê principalmente
nas dilatadas minas de Suecia , don-
de fe achaô abundantemente o an-
timonio, o Arfenico, o Bifmuth ,
o. Zync, e outros mineraes noci-
vos, que com efeito perturbaô a
facul-
192 Problema
faculdade imaginativa, e tambem
a vifivel dos mineiros que trabalhaô
nellas.
Ito naô he dizer (nem ainda
imaginar ) que deixem de haver ef-
piritos malignos, que de facto, e
verdadeiramente infeftem os minei-
ros, aílim como infeftaôd a todos os
mais homens todas as vezes que
podem, e tem permiflaô para o fa-
zerem; mas fim he ponderar que
aquellas illufoens podem fucceder
naturalmente , e pelo modo referi-
do ; e he certo que em quanto hum
faéto póde ter lugar naturalmente,
naô o devemos entender , como
procedido de cauía fobrenatural : e
pelo que parece, tanto he erro at-
tribuir hum faéto a caufa fobrena-
tural, naô o fendo ; como attribuir a
caufa natural aquella, que verda-
deiramente he fobrenatural. A
natu-
De Architeélura Civil. 193
natureza tem limites determinados;
e tudo, o que os excede, naô he
obra fua mas fim de hum agente ex-
terno, immaterial, intelligente.
Aquella digreflaô talvez foi
ociofa , por naô ter competente
connexad com o ponto principal,
de que tratamos. Porém feja ociofa
embora, com tanto que o conhe-
cimento della poíla fer conveniente
alguma vez. Qualquer livro , ainda
que pequeno , he como hum erario
publico, em que póde recolher-fe ,
ou depofitar-fe tudo ; quanto póde
fer publicamente util. A noticia
dos phenómenos mais raros em
toda a parte tem lugar; e aquelle
mefmo , de que alguns homens nad
tem curiofidade , outros fe interef-
faô muito, e querem ver tratada
huma materia , ainda que feja alheia
da materia, de que fe trata, Quanto
Pact. II. N mais,
194 Problema
mais, que no mundo ha poucas
coufas, que deixem de conter al-
guma connexaô humas com as ou-
tras; e efta talvez he a catena
aurea de que faz mençaô Homero.
As artes, e Íciencias todas tem
entre fi affinidade conhecida, e de
tal forte, que huma Íciencia ou ar-
te, mal póde eftabelecer-fe fó ,
fem a concurrencia, e afliftencia de
outras ; todas faô igualmente de-
pendentes.
ES 1 ren
e eee meme mega a
CAPITULO XII
Inhamos expendido, que a
cal, e arêa deviaô miiturar-
fe em proporçoens devidas, e naô
fem regra , e como tumultuariamen-
te. Lito comprovámos com alguns
exem-
De Árchisetlura Civil. 195
exemplos; e além de outros muitos,
temos hum no regulo de antimonio
marcial. Efte compoem-fe de ferro,
de antimonio , e de falitre. Se o fer-
ro he em porçaô maior , refulta
hum regulo de Marte em lugar de
regulo de antimonio. Se o falitre
he em porçaô demaziada , confome
o antimonio, e ferro, e naô fucce-
de regulo de antimonio , nem de
Marte, Tudo requer proporçaô con-
veniente , fem a qual nenhuma ope-
raçaô fuccede bem ; porque naô
eftá fó em juntar os materiaes pre-
cifos, mas devem fer juntos em pre-
cifa quantidade. À diminuiçaô , ou
o exceílo de cada hum desfaz a
obra, ou a naô faz ; e detal Ífor-
te, que de hum compofto medici-
nal refulta muitas vezes hum com-
poíto virulento.
Ito fe vê claramente no an-
N ii timo-
196 Problema
timonio ; porque fe algumas das
Ífuas partes faô feparadas delle por
meio de porçaô mediocre de falitre,
ou de qualquer fal alchalino fixo
que as abforbe , refulta hum me-
dicamento emetico de approvado
ufo; porém fe as partes fulphureas
fe feparaô com maior quantidade
de cada hum daquelles faes, o eme-
tico, que provém, he violento, e
nefte eftado naô he medicamento,
mas fim hum vomitivo formidavel,
e reprovado. Quantas mil vezes te-
rá tomado a morte o traje de reme-
dio! E quantas mil vezes os reme-
dios preparados com menos atten-
çaô fervem mais para tirar a vi-
da, que para a confervar ! Por if
fo ao Medico perito cufta mais li-
vrar ao infermo do remedio , que
do mal ; fendo que a defordem , que
procede do remedio , quafi fempre
he
De Architeélura Civil. 197
he incuravel; porque fe attribue á
qualidade do mal o que fó foi qua-
lidade do remedio. Difiite fcren-
tiam moniti.
He neceflario pois que haja
certa proporçaô entre a arêa , e
cal, para que eítes dous materiaes
fe petrifiquem de algum modo, e
adquiraô dureza lapidifica ; efta
nunca adquirem, fe a obra fe faz ne-
gligentemente , e fem regra nas
porçoens dos mefmos materiaes. Hu-
ma parede he como hum compof-
to de varios ingredientes , da regu-
laridade dos quaes depende a regu-
laridade do compoíto. Naô eftá fó
em fazer direito o muro , e bem
perpendicular ao orizonte ; tam-
bem deve imaginar-fe , que para
confervar-fe naquella fituaçaô , he
precifo que as fuas partes tenhaô
difpofiçaô para fe endurecerem lo-
Part. II. N ii go;
198 Problema
go; porque, de outra forte, a pare-
de, que no feu principio ficou di-
seita, vem depois a inclinar-fe fa-
cilmente, e bafta qualquer inclina-
çaô e a para que naô
pofla fuftentar o Ífeu proprio pezo;
e ainda menos para refiftir a qual-
quer movimento irregular da terra.
E com efeito tudo depende
de juftas proporçoens, fem as quaes
naõ fe confegue o fim que fe procura;
e quando naô ha certeza das pro-
porçoens , que devem concorrer em
qualquer experimento, efte, fe al-
guma vez fuccede bem , outras
muitas falta ; e de tal forte, que hum
mefmo experimento feito , fe fe tor-
na a repetir , Ífuccede mal, ou to-
talmente naô fuccede. A famofa
Palingenezia das plantas tem occu-
pado infinitos curiolos ; porém faô
raros os que a viraó , fó por naô
haver
De Árchiteétura Civil. 199
haver regra ainda fabida nas por:
çoens que devem intervir em cada
huma das partes de que fe com-
poem : fim fe fabe quaes faô os
Íeus materiaes, mas ainda fe igno-
ra quaes devaô fer as Íuas pro-
porçoens.
Chamaô Palingenezia huma
efpecie de relurreiçao de qualquer
planta depois de queimada, e re-
duzida em cinza; efta fe miftura
com fal armoniaco , efpirito de vi-
nho tartarizado,e outros mais ingre-
dientes , cuja compofiçaô accom-
modada em hum vidro efpherico, e
tapado hermeticamente, e poíto em
hum calor que imite aquelle que o
Sol tem no mez de Março com pou-+
ca differença , depois de paílados
alguns dias, entra a ver-fe no con-
cavo do valo huma verdaderra re-
prefentaçaô da planta , de que pro-
Iv veio
200 Problema
veio a cinza. Nifto confifte a tal
Palingenezia , a qual chegou a
moftrar no feu laboratorio o infig-
ne Monfieur Groflée Academico da
Real Academia de Íciencias de Pa-
riz. Porém aquelle mefmo Author,
( cujo nome he conhecido no mun-
do litterario ) afirmou tambem fin-
ceramente que Íó huma vez pôde
confeguir aquella rara curiofidade,
por naô poder acertar nunca nas
mefmas proporçoens , de que tinha
ufado já fem fazer lembrança del-
las.
Naô fó nos materiaes ha , e
devem haver certas , e determina-
das proporçoens ; mas tambem as
devem haver nos liquidos que fer-
vem de os unir: porque ainda fup-
pondo que as porçoens de arêa , e
cal fejaô bem difpoíftas, com tu-
do, fe for exorbitante a quantida-
de
De drcbiteélura Civil. 201
de de agoa com que aqueiles dovs
materiaes fe amaflaoO, já fe naô pó-
de efperar delles o effeito que de-
vem produzir, ficando como iner-
tes, e affogados em hum liquido
exceflivo , e fem poder refultar del-
les huma maíla Íolida , e compa-
ca. H
O mefmo fe obferva na fer-
mentaçaô do paô ; porque, fe a fa-
rinha he amaílada com agoa em
demazia, as partes da farinha fi-
caô taô oltas, e diluídas, que per-
dem a acçaô , ou difpofiçaô que
tem para fermentar; e a fermenta-
çaô » que depois refulta, he quafi
corruptiva, e putredinofa. Da mef-
ma forte, fe a agoa he em menos
quantidade que a que deve fer, a
fermentaçaô, que provém,he imper-
feita, e defigual; e nefte cafo a maíla
da farinha conftitue hum corpo fer-
mentan-
202 Problema
mentante, e naô fermentado; con-
trahindo fempre hum (abor de fer-
mento, e naô de paô; azedo em
todas as Íuas partes, e ferindo o
olfato com hum cheiro ingrato, e
defagradavel.
A compofiçaô natural do fan-
gue, exige tambem huma certa
porçaô de liquidos diferentes, de
que o mefmo fangue fe compoem.
Efta porçaô , ou proporçaô fó a
natureza o fabe; porque a fangui-
ficaçaô he obra toda fua, nem ha
arte alguma que a poíla imitar de
alguma forte. He como hum cafo
refervado, cuja Íciencia, ou co-
nhecimento fó para fi refervou a
natureza; nenhuma arte, por mais
fublime que feja, ou pofla fer , po-
derá fabricar nunca huma Íó gota
de fangue verdadeiro. Bem fabe-
mos que dos alimentos ordinarios fe
fórma
De Arckiteélura Civil. 203
fórma aquelle liguido vital; temos
os materiaes fabidos; porém igno-
raremos fempre a ordem de os dif-
por, de os ajuntar, e proporcio-
nar. À fuperabundancia, ou indi-
gencia de algum dos liquidos, de
que aquelle liquido principal fe faz,
ou arruina o que eftá feito, ou naô
faz o que eftá por fazer ainda; e
aflim naó fe fórma hum liquido bal-
famico , glutinolo , activo, mas
fim hum que he languido, corru-
ptivel, tumultuolo, e fem vigor.
Que differença notavel ! e que dif-
ferenças fe naô oblervad em todos
os fangues que fe examinaõ ! fendo
que os materiaes faô os mefmos
commumente , e Ífaôd as mefmas as
officinas em que fe fabrica aquelle
licor efpirituofo: porém, faltando
acontextura regular, e defordena-
da a ordem dos inftrumentos , e
vicia-
204 Problema
viciado o movimento delles, nad
faô as meímas as proporçoens ; ilto
bafta para fazer fulpender , retar-
dar, ou impedir aquella acçaõ fin-
gular da natureza.
O fogo tambem he hum ligui-
do; mas em fummo grao de fe-
quidaô , de lubtileza, e força : as
compufiçoens, que neceffitaô delle ,
e que por meio delle fe fabricaô ,
exigem hum fogo proporcionado ;
o que he violento, he deftruétivo,
e improprio para certos ufos; o que
he baftantemente moderado, ás ve-
zes naô chega a dar a excitaçaô
precifa nos materiaes de algum
compoito ; e neíles cazos naô fer-
ve abfolutamente nem o fogo bran-
do, nem o forte; em hum fobra a
força, e em outro falta; e afim
vem a faltar as verdadeiras e juítas
proporçoens. O artefacto do vidro
pede
De Arcbiteliura Civil. ox.
pede hum fogo o mais intenfo :
a deftillaçaô da rofa quer hum ca-
lor remiflo, mas igual; e em che-
gando a exceder, o corpo da rofa
fica reduzido em cinza, e em lugar
de hum liquido fragrante, o que
provém he hum defagradavel , em-
pireumatico , e nauzeozo. Naô hou-
ve proporçaô no fogo; ficou per-
dida a obra, e o trabalho ficou def-
vanecido.
Os metaes naô fe fundem por
hum mefmo grao, ou proporçaô de
fogo: huns em hum fogo fortifimo
fe apuraô, ou purificad ; outros
qualquer fogo-hum pouco aftivo os
deftroe , e vitrifica: huns fuppor-
taô todo o ardor fem perder nada
do feu pezo; outros, em fendo o
calor maior, entraô a exhalar huma
grande parte da fua fubltancia, e a
mudar inteiramente a figura de me-
tal.
206 Problema
tal. Para os mineraes tambem na
fogo ha graos de proporçaô ; por-
que em alguns, em o fogo fendo
mais ardente, diflipaô-fe de todo em
fumo ; outros reduzem-fe a huma
efcoria, ou fedimento terreo. O
enxofre (de que participaô quafi to-
dos os mineraes) conferva-fe fundi-
do em hum calor debil; e em efte
fe augmentando , o enxofre fe in-
flamma , e exhala totalmente, per-
dida a proporçaô do calor a que po-
dia refiftir.
Até no tempo ha juífta propor-
çaô a refpeito daquelle,em que hum
compofto deve adquirir a (ua per-
feiçaô; porque quando o fogo en-
tra como parte que ferve a endure-
cer a mafla, ou corpo do compo(-
to, deve fer o fogo proporcionado
a elle naô fó na actividade , mas
tambem no tempo, ou efpaço E
ua
De Architeciura Civil. 207
fua duraçaô ; de forte que alguns
mixtos podem foffrer mais tempo de
calor; outros ficaô perdidos , fe o
calor permanece mais. O cobre v. g.
depois de eftar fundido, fe o mef-
mo grao de calor fubíifte por ef-
paço de tempo mais continuado , ul-
timamente perde a fufaô em que fe
achava, e fica como reduzido em
terra. As materias oleofas o fogo
as clarífica, e as poem em melhor
eftado , diflipando a parte puramen-
te aquola ; porém fe o calor he mais
perfeverante do que deve fer, aquel-
las materias ou fe inflammad, ou,
ficando mais denfas , perdem a lim-
peza , ou claridade que devem ter
naturalmente, E aflim ha com effei-
to proporçoens naô Íó no pezo, e
quantidade ; mas tambem no tempo.
CA-
208 Problema
CEEE Ca TE smesam Tctorreimm
e eee ema pe e meme eim
CAPITULO XIV
Proporçaô , que deve haver
entre acal, eaarêa para o
fim de fabricar huma parede, naô
he facil de determinar , nem fe pó-
de dar regra certa , por onde fe des
va definir ; porque he materia de
fi mefma variavel , e toda depen-
dente da qualidade efpcifica daquel-
les dous materiaes. À arêa quanto
mais pura, e fina he, mais cal exi-
ge; ea cal da melma forte pede
mais arêa , quando he mais forte , e
mais activa ; porque a cal, que de fa-
éto he debil, e ifto porque ou o
tempo a tem enfraquecido , diffi-
pando-lhe os efpiritos igneos , que
he donde confifte toda a fua for-
taleza »
De Árchiteétura Civil. 209
taleza, ou porque a pedra, de que
foi feita era branda, e poriflo me-
nos apta para receber , e concen-
trar em fi huma grande porçaô da-
queiles mefmos efpiritos de fogo;
nefte cafo deve fer a arêa menos.
Tudo quer huma combinaçaô bem
entendida. A cal forte fupporta com
effeito mais arêa ; e menos a que he
fraca: a arêa fina pede mais cal; e
a que he grofla menos. Neítas pro-
porçoens , ou quantidades ; eftá to-
da a dificuldade. O Poeta o deu a
entender aflim :
Alter onus quantum fubeas, quan-
tumque laborem
Impendas craffam circa molem ac
rude pondus.
E na verdade habilem reddere map»
Jam, boc opus , bic labor ef. Por if-
Parc. UI. O fo
210 Problema
fo a arte da miftura , ou de pro-
porcionar a quantidade relativa de
cada hum dos materiaes, naô deve
eftar, nem ficar no arbitrio do fer-
vente inexperto , ou aprendiz ; an-
tes deve fer a occafiad, em que o
proprietario , o meftre, ou o archi-
tecto, fe apure mais, como em hum
dos objectos de confequencia gran-
de, em que confifte a melhor, e
mais bem dirigida fortificaçad , e
fem a qual naô podemos efperar
que a obra chegue a vencer huma
grande antiguidade, antes, qual-
quer tempo que vença, fempre ha
de fer como obra moderna nos ef-
feitos.
Temos hum exemplo vulgar ,
e bem fabido na liga do ouro, e na
liga tambem da prata. Eftes dous
metaes, eftando no ultimo grao de
fineza, a que podem chegar natu-
ralmen-
De Archite&tura Civil. 11
ralmente, e a que a arte os póde
reduzir, faô totalmente ineptos pa-
ra delles , ou com elles fe formar
alguma obra; porque naquelle ef-
tado de pureza faô taô brandos,
e malleaveis, que com pouca for-
ça fe dobraô; de forte que huma
barra de ouro , ou prata , e de grof-
fura confideravel , a maô a póde
dobrar com facilidade. Para evitar
aquelle inconveniente junta-fe por
meio da fundiçaô huma certa por-
çaô de cobre a cada hum dos dous
metaes ; e fegundo a porçaô do co-
bre, adquirem maior rijeza, e Íó
entaô ficaô capazes para ferem tra-
balhados, e para refiftirem a qual-
quer força exterior ; e por aquelle
modo fe concilia a dureza compe-
tente a aquelles dous metaes, que
por fi faô exceflivamente brandos,
e dobradiços : a maior , ou me.
H nor
212 Problema
nor porçaô de cobre he juítamente
o de que refulta mais ; ou menos
fortaleza no metal, e o de que pro-
vém o ferem mais, ou menos mal-
leaveis.
A fabricaçaô do bronze naô
confifte em mais do que na confu-
zaô, ou fundiçaô de metaes diver-
fos, e unidos todos em hum corpo
fó. Porém, fe a miftura fe faz fem
regra, ou proporçaô de cada hum
dos metaes fundidos, a maíla que
refulta naô he bronze , mas fim
hum compofto, ou corpo fragil ao
menor impullo, e que com effeito
quebra, e fe defpedaça em fendo
tocado rudemente; e nefte eftado
naô tem ufo, ou ferventia alguma ;
porque os metaes foraô unidos em
fórma , e irregularidade tal, que
o feu meímo pezo baíta muitas ve-
zes para os dividir, perdendo aílim
qual-
De Archiseélura Cívil. 213
ualquer configuraçad , ou figura.
Porgje ainda que naô ha bronze
que naô feja quebradiço , com tu-
do a fragilidade fumma he total-
mente oppofta á intençaô , para que
o mefmo bronze fe fabrica.
A compofiçaô metallica, de que
fe fazem os finos , commumente
tambem exige proporçaô , ou quan-
tidade certa entre cada hum dos me-
taes de que aquella compofiçaô fe
fórma ; e fem efta circunítancia, ou
os finos quebraô logo, ou ficaô fem
difpofiçaô para fazerem no ar aquel-
la vibraçaô de que o fom depende.
Por io alguns finos fe quebrad fa-
cilmente por haverem fido menos
bem difpoítas as proporçoens dos
feus metaes ; outros ficaô com hum
fom groffeiro , e pouco harmoniofo.
De forte,que aquella arte confifte na
ordem da miftura, e nas juítas pro-
Parc. II. O iii por-
214 “Problema
porçoens-dos feus ingredientes ; if-
to he, dos. metaes diverfos de que
a mafla metallica fe fórma. Daqui
vem que dous finos de iguál gran-
deza, e de pezo igual ,-e tambem
de huma figura femelhante ; nem
por alo tem o mefmo fom.; .e ef-
te indica pela differença de hum;
e outro, a differença, proporcional
entre os metaes: de-que; faô com-
poftas. |
Na compofiçaô das tintas fe
obferva o memo vulgarmente; por-
que das porçoens dos. mixtos, de que
as mefmas tintas fe compoem, re-
fulta eíta, ou aquella cor; o bran-
co, e o preto ferve muitas vezes de
bafe a outras muitas cores ,'' fegun-
do a miftura, ou modulaçaô de
alguns dos mixtos de que as mef-
mas cores vem a proceder; e ifto
por meio da paflagem , ou tranf;
miflaô
DeArchitectnra Civil. arg
miffãô da luz, que he à fonte óri-
ginal de todas quantas cores ha. A
purpura, a que os ântigos chamarad
de Cartago ( por: fe fabricar perfei-
tamente naquela ififéliciflima Ci-
dade) naô podia, fer outra coufa ,
fe naô 'o ouro diflolvido”, e preci-
pitado” pelo eftariio ; 'de que com
effeito provém huma cor de purpu-
rá excellente ;'a qual he mais ou
menos fobida , e forte; fegundo a
proporçaô: do -diflolvente ; e:tam-
bem' fégundo a quantidade de efta-
nho que precipita o ouro.
O admyravel: artifício dos ef-
máltes he outro exemplo” conhe-
cido; compoem-(e de huma verda-
deita vitrifitação ; porgiie todo o
verdadeiro: efmalte-he vidro; a cor;
que felheimprime, ven: dos mixtos
vitrificaveis , a que he própria efta;
ou aquela. cor.. Do celebre bifi
Oiy muth;
216 Problema
muth, mineral nativo de Polonia,
fe extrahe a cor azul, cujo ufo he
taô commum; porém fempre de-
pendente das proporçoens do fal
que fe lhe junta para o fazer vitrifis
car; deíta addiçaô refulta a fua
cor , mais ou menos clara , ou mais,
e menos agradavel; a arte eftá nas
quantidades da miftura, e tambem
na bem difpofta adminiftraçaô do
fogo, que ferve fó para reduzir em
vidro huma materia por fi mefma
vitrificavel, mas naô vitrificada ain-
da; com difpofiçaô para exaltar
aquella cor, que eftava como fopita,
ou efcondida no bifmuth. Efte mi-
neral contém propriedades raras,
mas pouco inveltigadas; a que fa-
bemos com certeza , e de que ufa-
mos commumente, he a cor azul
conhecida em toda a parte; os do-
tes ulteriores , que o mefmo mineral
encer-
De Architettura Cívil. 21%
encerra, refervarad para fios Alchi-
miftas, (fegundo o que elles que-
rem dar a entender) porém receio
que os que intentaô achar alli os
mais reconditos fegredos , percaô
o trabalho, e o fuor.
No fabor temos outro exem-
plo manifefto. A lingoa fente a
impreífaô que nella faz tudo quanto
he azedo; ou doce: mas de que
procederá differença taô notoria ?
Os fães faô a caula certa, ou prin-
cipio verdadeiro, de donde fe deri-
vaô os fabores diferentes; o azedo
eftimula a lingoa, fazendo nella a
fenfaçao que he propria a cada
hum dos faes; eftes mefmos fe fe
juntaô a huma materia volatil, e
unétuola , já naô fazem a fenfa-
çaô do azedo , mas fim de doce:
nas proporíoens de huma materia
volatil, e oleofa conflte o artifi-
cio
218 Problema
cio paturãl de hum corpo azedo,
ou doce; deforte, que fegundo à
quantidade , 'e qualidade de hum
corpo acido , e outro oleofo , reful-
taô aquellas duas fenfaçoens con-
trarias; porque toda, e qualquer
materia -oleofa , ou unétuofa retun-
de vigorofamente os efpiculos fali-
nos de hum fal acido, ou fimplef-
mente azedo ; e confórme a pro-
porçaô ,.ou porçaô de qualquer del-
les, procede o mais ; ou menos aze-
do ; e por confequencia o mais, ou
menos doce.
“À arte; que em muitas cou-
fas imita a naturezá , .perfeitamen-
te a imita na fabrica do fabor. O
vinagre 'he hum licor acido, e efta
qualidade fe exalta ás vezes tanto,
que fica fendo o-vinagre "hum li-
córacidiflimo , penetrante, e forte;
porém fe lhe juntarmos huma por-
çaõ
De Architelwra Civil. 219
çaô de chumbo , efte metal vola-
til, e unêtuolo diflolvido no vina-
gre , retundindo-lhe os efpiculos,
brevemente o muda, fazendo de
hum licor picante, e auítero ou-
tro totalmente doce, a que os ar-
tiftas chamaô Sacharum Saturai , ou
aflucar de chumbo , conhecido vul-
garmente por aquelle mefmo titu-
lo. O mais , ou menos doce provém
do mais , ou menos chumbo diflol-
vido; e quanto mais o vinagre he
forte , tanto mais doce he o cha-
mado aflucar de Saturno. Aquelle
mefmo licor, que de acidifimo que
era velo.a ficar doce, em fe evapo-
rando delle a parte mais phlegma-
tica, fica o alfucar tomando hum
corpo folido , e perdendo o liqui-
do que tinha ; e da melma forte,
e pelo mefmo modo que o aflu-
car natural fe fórma.
Às
219 Problema
Às proporçoens das partes o-
leofas , e falinas, e reacçaô que
fuccede entre ellas , foi o artífice
da mudança. O mefmo aflucar na-
tural , em fe feparando delle as par-
tes oleofas de que refulta o fabor de
doce , fica reduzido a hum licor fa-
lino , e quafi corrofivo ; da mefma
forte, que fe fepararmos o chumbo
daquelle aflucar artificial , torna o
vinagre ao feu primeiro eftado ,
perdendo totalmente a doçura ad-
venticia a que eftava reduzido , e
tornando a reaflumir o meímo fa-
bor acido que tinha naturalmente.
Affim fe fórmaô, etransfórmaõ al-
guns corpos. Em fe fabendo a orga-
nizaçao das partes que os compoem,
e a fórma com que a natureza fe
comporta , facilmente imitamos a
mefma natureza , e ás vezes em
menos tempo ; porque a arte he
mais
De 4rchiteélura Cívil. 221
mais precipitada, e ablolve os feus
eriodos em mais breve eÍpaço.
Tudo eftá na applicaçaõ de certos
materiaes, e de certas, ou deter-
minadas proporçoens ; fem eftas,
nem a arte,'nem a natureza po-
dem fazer nada; e o que fazem
he como cegamente , e fem inftin-
Eto; e por illo fazem erradamente ,
e imperfeitamente,
Vemos que he azedo hum fru-
to verde; e tambem vemos que he
doce depois que madurece : huns
fempre ficaô fendo azedos , e a
madureza naô lhes muda o fabor
ingrato: outros adquirem á doçura
à medida que vaô fendo já madu-
ros; e-outros depois de eftarem do-
ces, e maduros , fem tornarem pa-
ra o eftado da verdura , por hu-
ma nova acçaô tornaô a fer aze-
dos. Que mudanças exquifitas !
Que
222 Problema
Que inverfoens de qualidades! que
retrogradaçoens de naturezas, e
que differenças totaes nos acciden-
tes! Que diftancia naô vai do mol-
to turvo, fem graça, e fem fabor
conftante, ao vinho claro, faboro-
fo, e agradavel | Se virmos em
hum mefmo campo muitas flores
diferentes, naô teremos razaô
para admirar-nos; porém em hum
mefmo liquido vermos taô dif-
tinétas apparencias, naô deve dei-
xar de fazer reparo; tem difculpa
a nofla admiraçaô ; e as attençoens
mais vivas devem occupar-fe al-
guma vez, naô para difcorrer in-
fallivelmente, mas provavelmente.
Se quizermos perícrutar as ra-
zoens phyficas daquelles phenóme-
nos admiraveis, acharemos que o
fruto verde he fempre azedo em
quanto naô chega a huma perfei-
ta
De Architeétura Civil. 223
ta madureza ; porém efte funda-
mento naô defcobre a razaô, que
procuramos ; e fó he refponder á
difficuldade , propondo o mefmo
cafo della: a repoíta deve fer , que
no fruto verde naô eftaô ainda bem
unidos os principios de que hum
tal fruto ha de compôr-fe ; aquel-
la uniaô perfeita he a que faz a
digeftad do mefmo fruto; na ma-
dureza podemos confiderar digeri-
das as fuas partes, e eftas nunca fe
unem , ou digerem , fem que as
fuas proporçoens fe encontrem de-
vidamente. He precifo que o aci-
do vegetal fe ache defvanecido ,
e abforbido pelas partes oleofas : fó
entaô fe diz maduro ofruto, e en-
taô he que o fabor acerbo recebe ,
ou adquire a doçura natural.
CA-
224 Problema
[E Emas
mma mr cem me
CAPITULO XV.
Inda duraô hoje alguns dos
amphitheatros, que a fober-
ba Romana edificou para divertir
hum povo foberbiílimo. Ainda fe
moítrad os veltigios das eftradas fa-
mozas , que fahindo da Cidade ca-
pital daquelle Imperio , hiaô ter a
outras capitaes da Íua vaíta domi-
naçaô. Ainda exiftem as mageíto-
zas piramides do Egypto. A vora-
cidade dos feculos naô tem podi-
do anihilar tantos illuftres monu-
mentos ; antes guardaô nas ruinas
hum authentico fignal da fua gran-
deza ; como fe naquelles triftes ref-
tos quizeflem competir com o tem-
po em duraçaô ; ou como fe o tem-
po
De drcbiteélura Civil. as
po naô tiveffe força para os deftruir,
nem actividade para os acabar. Fe-
lices edificios, cujos fragmentos
deftroçados fervem para confervar
inteira a memoria da fua pompa :
e aílim, que importa que a vicifli-
daô das coufas lhes tenha feito
perder o efplendor primeiro, fe
ainda fem ulo, e depois de extin-
Eto o fim para que foraô levantados,
tem no mefmo abatimento tudo o
que baíta para infundir refpeito ;
fendo maravilhas raras, ainda no
eftado inutil em que fe achaô, e
fendo admiraveis nefle pouco que
agora faô, independentemente do
muito que já forad?
Porém porque fubfiftem hoje
aquelles infignes monumentos, que
a douta antiguidade nos deixou
para modelos? Será , porque fo-
raô fabricados fem regra, fem pro-
Part. II. P por-
226 Problema
porçaô, femarte? Naô, antes he
certiflinio o contrario. Entaô flo-
recerad architeétos excellentes; e
a Architeétura naô conhifte fó na
apparatoza figura do edificio, nem
na regularidade vifivel de cada
huma das fuas partes; mas tambem
na juíta eleiçao dos feus materiaes ,
e na próporçaô reciproca que entre
elles deve haver. Daqui vem a for-
taleza de toda, e qualquer obra,
eefte he o penhor feguro que ccr-
tifica a fua duraçaõ.
De que ferve a magnificencia
em hum corpo debil', ou de que
val a fumptuozidade em hum edifi-
cio infermo? Ninguem fabrica para
hum dia, nem para hum anno fó ;
porque naturalmente nos parece que
havemos de durar muito. Devemos
pois edificar com fegurança , ainda
“quando edificamos fó para a nofla
vida,
De Architeétura Civil. az
vida. Naô digo que tenhamos no
fentido o-fim univerfal, nem que
prefumamos feriamente que os nof-
fos edificios podem chegar a efle
tempo ; mas ao menos edifiquemos
para aquella pofteridade que fe ha
de feguir logo depois de nós , à
maneira de hum contrato feito-pa-
ra fubfiftir em duas, ou- tres vidas.
Naô tenhamos inveja aos-que had
de vir; preparemos-lhes a habita-
çaô , allim como elles prepararad
efta em que nós eítamos: exerci-
temos efta efpecie de Iiberalidade
a refpeito dos vindouros ; e feja-
mos defta forte liberaes, já que a
efle tempo naô o-havemos poder
fer por outro modo. Duremos na
duraçaô da obra; já que em nós
mefmos he taôd: pouco o que dura-
mos. Façamos de conta que o edi-
ficio he huma parte nofla ; e que
Pi nefta
228 Problema
nefta parte exterior , afaítada , e in-
fenfivel, podemos permanecer fem
fuftos , fem tribulaçoens, fem do-
res. Em fim fupponhamos que tam-
bem alli fe continua a nofla def.
cendencia , e que efta ainda que
feja immobil, e fem acçad, com
tudo he, e ha de fer fempre in-
nocente , por força da fua mefma
inacçaô , e immobilidade, incapaz
de merecimento , e de virtude,
mas tambem incapaz de vicio, e
culpa.
Se bem confiderarmos, acha-
remos que os Varoens illuftres da
fabia Grecia feguirad aquelle pen-
famento , e que ennobrecendo a
terra de nobres edifícios, perpetua-
raô nelles a gloria dos feus nomes,
fem temer que a fama delles cadu-
cafle involvida nas revoluçoens do
mundo. Olhemos para a nofla Ma-
fra,
De Architeétura Civil. 2219
fra, em cujos obelifcos , porticos
e colunas , ficou comos em hierogli-
phico o fiel, e immortal retrato
do Augufto Rey D. Joaô, que
ainda choramos, quinto no nome,
primeiro na grandeza : alli parece
que o vemos refpirar ainda; e que
o feu gloriofo efpirito recebe o tri-
buto voluntatio das noflas lagrimas,
o incenfo dos noflos votos, e as
oblaçoens da noíla faudade : pe-
queno obfequio para taô alto ob-
jeéto. Ditofos bronzes, marmores
venturo(os, em que as idades mais
remotas , fem dependencia de ci-
fras, e caraéteres , haô de ler co-
mo em emblema a hiftoria memo-
ravel daquelle Monarcha generoflo;
cujas acçoens heroicas fó foraô
dignas delle para as obrar ; e Íó
feriaô dignas de hum Homero pa-
ra as efcrever. Em outro fagrado,
Part. HI, P in e mag-
230 Problema
e magnifico lugar defcançaô as fuas
Reaes cinzas: lá recoftada a Lufi-
tania fobre a veneravel urna abra-
ça religiofamente aquellas mefmas
cinzas para as animar com o feu
pranto; invoca como Nume tute-
lar o feu efclarecido nome ; e fe-
gura na fé do amor , eftá vendo
em vaticinio que do tumulo fecun-
do haô de renaícer os verdes lou-
ros para coroar tropheos , felicida-
des, e triumphos.
mms entes eee amem ee rea ee meme
CAPITULO XVL
E precifo pois huma certa
proporçaõ entre cada hum dos
materiaes de que os muros fe com-
poem. O architeéto experiente
nunca ignora aquella regra, antes
nella
De Architetura Civil. 231
nella poem o Ífeu primeiro, e prin-
cipal cuidado. Fortificando princi-
pia, e ornando acaba. O ornato
póde vir em qualquer tempo , a
fortificaçad ha de fer logo ; por-
que aquele faz-fe para o agrado da
vita , e efta para fubfiftencia da
coula. O edificio póde fubfiftir fem
ornato algum , mas naô fem toda
a fortificaçaô ; póde fer tofco na
apparencia fuperficial, mas naô na
fua fubftancia interior.
Aquella porçaô porém (co.
mo já diflemos ) naô admitte re-
gra invariavel, nem póde regular-
fe de huma fó maneira ; porque hu-
ma cal neceflita mais arêa do que
outra ; e da mefma forte huma
arêa requer mais , ou menos cal.
Com tudo algum meio deve haver
para fazer-fe aquella diftinçaô , e
para explorar-fe exactamente quaes
Piv devad
asa Problema
devaô fer as verdadeiras propor-
çoens; porque, de outra Íorte , edi-
ficariamos cegamente , e fem mais
certeza que a de hum arbitrio in-
certo , e vago. Aquelle meio, ou
aquelle conhecimento baíta que fe
tire, e faiba 4 pofteriori, como os
Philofophos fe explicaô ; e que pro-
venha de experiencia certa, como
logo havemos de moftrar em be-
neficio dos que querem fabricar com
arte, e que defejaô a duraçaô da
obra,
He muito de reparar, que fen-
do a fortaleza do edifício o primei-
ro objeéto a que devemosattender,
raras vezes nos occupamos em or-
denar as porçoens juítas de que ha
de compôr-fe a mafla que ferve de
ligar as pedras humas com a ou-
tras. No que confideramos mais,
he, que a obra efteja bem delinea-
da
De Architeélura Cívil. 233
da no papel, e que nefte efteja
bem difpoíta a ordem da profpe-
étiva , a correfpondencia das en-
tradas , a diftribuiçao das ferven-
tias, a divifad das Ífuas partes , a
introducçaô da luz em cada huma
dellas , e finalmente a fymmetria em
todo o corpo do edifício. À fegu-
rança das paredes entra como cou-
fa menos importante. A qualida-
de dos materiaes, e as proporçoens ,
em que devem concorrer, tambem
he como materia fuppofta , para
que fe olha pouco ; e como tal,
commumente fe entrega aos primei-
ros ferventes que a noticia da obra
convocou. Naô fe inquire quaes
faô os materiaes melhores , e mais
proprios, mas fim quaes faô os que
eftaô mais perto, e donde fe haô
de haver com menos defpeza. Nef-
ta economia confifte o maior def
velo
234 Problema
velo de quem dirige a obra. Naô
fe examina como foi feita, e des-
feita a cal; e da melma forte naô
fe experimenta a arêa, para fe fa-
ber fe contém barro, ou terra; fe
he falgada , ou fem fabor ; fe he
grofla, ou fina.
Aflim vai logo crefcendo a
obra mas imperfeita, e defeituofa
defde o feu principio. Naô fe paf-
faô muitos dias que fe naô veja hir
cahindo a cal juntamente com a
arêa, defamparando as partes fu-
perficiaes, e lateraes do muro. Os
artifices que o vem , nunca lhes im-
porta o indagarem a razaô porque
aflim fuccede; e fe forem pergun-
tados , raramente acertaráô com
a caufa de que procede ; bufcan-
do fundamentos menos verdadei-
ros, a que erradamente attribuad
aquelle facto. Os que edificad por
aquel-
De Architectura Civil. 23%
aquelle modo , talvez entenderãõ
que o mundo tem já pouco que du-
rar; e que por ponco que a obra
dure , fempre chegará até o tem-
po, em que haô de acabar todas
as coufas, Hum Philofopho aflim o
entendeo tambem , quando diffe,
fallando do mundo : Yam jam fe-
pulcrum premiz. Porém efta porten-
tofa machina , parece que naô foi
feita fó para Ífeis mil annos.Al-
guns dos que quizerad computar as
femanas de Daniel, fizerad calcu-
los menos acertados ; porque fe fof-
fem certos , já teria acabado o
mundo. O Divino Architefto do
Univerfo , relervou fó para fio
tempo em que a fua obra ha de
ter fim: fó elle podia dizer Fiat,
e fó elle fabe quando ha de dizer
Intereat.
Para conhecer-fe pois quaes
fad
236 Problema
faô as proporçoens, em que devem
concorrer aquelles dous materiaes,
he neceffario , antes que a obra prin-
cipie , fazer alguns experimentos
em porçoens pequenas: em humas
v. g. em que fe juntem iguaes par-
tes, ifto he, tanto de cal, co-
mo de aréa: em outra em que fe
junte parte e meia de arêa con-
tra huma de cal: em outra em que
fe juntem duas partes de arêa con-
tra huma de cal: em outra em que
fe juntem duas partes e meia de arêa
contra huma de cal ; e em outra
em que fe juntem tres partes de arêa
contra huma de cal.
Feitas eftas mifturas feparada-
mente, e poítas ao ar cada huma
de per fi, ( depois de amafladas
bem com a agoa neceflaria, e da
meíma com que fe ha de fabricar
a obra) entaô fe verá como fica
cada
De Arcbiteétura Civil, 237
cada huma daquellas compofiçoens:
a que feccar com effeito em menos
tempo, e que endurecendo mais de
preíla , fuítentar a agoa que por
fima fe deitar , fem a extravazar,
nem amolecer a fua fubftancia , he
a melhor , e em que as proporçoens
dos materiaes forad acertadas. En-
taô fe fará o amafladouro em gran-
de; obfervando as mefmas propor-
çoens fabidas pela experiencia an-
tecedente.
O que fica dito, he fuppondo
fempre ferem bons os materiaes que
ferviraô para a experiencia; por-
que fe a arêa tinha terra, oubarro;
fe era grofla damaziadamente ; fe
continha fal de qualquer genero que
fofle: e da mefma forte, fe acal
foi feita com pedra branda ; fe foi
desfeita ao ar, oucom agoa falga-
da, e ainda falobra ; de femelhan-
tes
238 Problema
tes materiaes, nunca podemos ef-
perar que refulte hum corpo folido;
tanto em grande, como em peque-
no; e por mais bem ordenadas que
as proporçoens fe encontrem entre
aatéa,e a cal,
Talvez que aquelle fofle o
fimplicifimo, e faciliífimo fegredo
de que ufavaô os antigos, quando
edificavad , fegurando-fe por aquel-
Je modo das jutas proporçoens que
deviaô praticar; e por cujo meio
confeguiad o fazer tad fortes as pa-
redes, que quando queriaô demo-
Hr-fe para alguma nova obra , era
menos cultofo que ebrar as pedras pe-
lo meio dellas , do que dividillas pe-
las fuas juntas; como vemos ainda
hoje. em todas as paredes de edi-
ficios antigos. Sendo tambem para
notar, que aquelles edificios tinhad
as paredes comumente menos grof-
fas;
De Arcbitectura Civil. 239
fas; e ainda aflim fuftentavaõ pe-
zos exorbitantes, fem ceder a elles;
e aflim mefmo duravad muitos fe-
culos fem o menor defeito; em lu-
gar, que as grofluras das paredes
nos edificios modernos fendo mui-
tas vezes exceilivas , nem por if-
fo faô mais fortes , nem promet-
tem duraçaô maior: de forte que
nos primeiros a arte;com que os mu-
ros fe formavaôd , e a bondade, e
Juítas proporçoens nos feus mate-
riaes, Íuppria a falta das grofTuras;
e nos fegundos as groíluras ex-
ceflivas naô podem fupprir a irre-
gularidade de cada hum dos mate-
riaes'; e Íuas devidas proporçoens.
CA-
240 Problema
“E CT O ra rr
—me ma
CAPITULO XVI
| TE seg a fortaleza dos edi-
ficios depende da miftura regu-
lar daquelles materiaes, de que as
paredes fe compoem ; porque da
cal, e da arêa mal juntas, ou amaí-
fadas mal, nunca póde refultar hu-
ma liga forte. Do contaéto imme-
diato provém a uniaô perfeita; e
fem efta naô póde haver indura-
çaô; de forte, que os ingredientes,
depois de mifturados mal , ainda
confervad alguma parte da divifad
que tem naturalmente. Quantas ve-
zes vemos que no inftante em que
a obra principia, nefle mefmo inf.
tante fe prepara a cal, e fe junta
com aarêa? E tudo taô precipita-
damen-
De Architeliura Civil. 24x
damente que o intento do artifice
parece encaminhar fe fó a fazer
de preíla , e nad a fazer bem. A
natureza naô faz, nem fabe fazer
milagres ; por iflo nada faz fem
tempo. O prudente agricultor pri-
meiro prepara a terra, e neíta pre-
paraçaô impende o maior traba-
lho: efpera a fezaô propria ; obfer-
va algumas vezes as phafes da lua
nova, ou chea ; efcolhe o dia fe-
reno, e claro, eentaô femêa. Neí-
te ponto começa a natureza a Íua
obra , e a vai continuando lenta-
mente até que em efpaços certos à
conclue.
Tudo , o que fe faz de repen-
te, tambem de repente acaba. Às
coufas que fe fazem de vagar , e
com premeditaçad, faô as que du-
raô mais. Aflim faô os edificios ;
para eítes he primeiro nec eflario
Part. II. Q que
242 Problema
que a materia fe difponha , ifto he,
que os materiaes recebaô aquella
elaboraçaô primeira, por meio da
qual fe fazem habeis para produ-
zirem huma acçaô determinada. Ne-
nhum artefaéto ha, que naô necef-
fite preparaçoens antecedentes. Só
o que he feito de huma fó coufa
neceflita menos, (fe he que póde
haver alguma coufa que provenha
de huma coufa 16.) Aquillo po-
rém , em que entraô muitas , e
diverfas entidades , cada huma
dellas exige hum modo de prepa-
rar diverío; porque a perfeiçaô de
hum compofto Ífuppoem necefla-
riamente a perfeiçaô das partes que
o compoem.
Quem fouber que o vidro fe
faz comarêa, e fal, nem por iflo
o ha de faber bet, fe igualmen-
te naô fouber o como fe preparaô
para
De Architettura Civil. 243
para, aquelle effeito o fal, e mais
a arêa. Quem fouber que o ver-
melhaô fe faz com enxofre, e azou-
gue , nem por iflo o ha de fazer
nunca , fe ignorar a preparaçaô de
cada hum daquelles dous ingredi-
entes; porque naô baíta o conhe
cimento abítraéto ; mas he necef-
fario arte na execuçaô. Todos vem
que a folha, chamada de Flandres ,
he fabricada com eftanho ,; erla-
minas de ferro; mas nem aflim fa-
zem todos aquela folha, por naô
eftar vulgarizada a preparaçaô an-
tecedente de hum e outro metal
para aquelle util minifterio.
Muitos fegredos fe perderads
fem que a noticia fe. perdefle dos
feus materiaes; mas porque fe per-
deo o modo de os preparar. Raros
faô os que naô conhecem quaes
faô as partes, ou ingredientes, de
Qii que
244 Problema
que fe faz a compofiçad metallica,
chamada Electro Mineral ; porém
efte faô rariflimos os que o fabem
fazer , porque o ufo de difpôr
aquellas partes naô he commum.
A arte tem Íeus materiaes, e tam-
bem a natureza ; defta os mate-
riaes faô os quatro vifiveis ele-
mentos. Só a natureza fabe obrar
com elles; porque fó ella os fabe
preparar. À arte prefupppoem
aquellas preparaçoens anteriores ,
que fó a natureza Ífabe dar.
E com effeito o que a arte faz
he tudo por meio dos corpos já
feitos, ou formados pela natureza;
e eíta o que produz he por meio
de elementos ainda nad corporiza-
dos ; porém fem miftura , nem a
natureza, nem a arte podem pro»
duzir. Huma miítura defigual, ou
negligente, o que faz he hum monf-
tros
De Architetlura Civil, 245
tro, ou hum aborto. Ha fortes cor-
rofivos , a que huma miltura di-
ligente-dulcifica ; e a leve, ou pou-
co cuidadofa , naô tira a qualida-
de cauítica. O Mercurio , a que cha-
maô doce , póde fervir de exem-
plo. Commumente provém de hu-
ma trituraçaô conftante ; fem a
qual naô perde o fublimado Mer-
curial, a corrofaô , ou cauíticidade
que lhe he propria.
A Pharmacia toda fe reduz a
trituraçoens , ou mifturas differen-
tes; da exactidaS deftas depende
abfolutamente a fingularidade dos
remedios. O artifice impaciente ra-
ras vezes foi util ao infermo; an-
tes quafi (empre lhe caula prejuizo
irreparavel; porque a precipitaçaô,
com que a receita fe prepara , ou
faz o remedio inutil, ou faz o uío
delle perigofo. Tudo aquillo, em
Part. II. Q in que
246 Problema
que entraô partes diverfas , para
de todas refultar hum (ó compof-
to , he fempre neceffario ( como
já diflemos tantas vezes) que ef-
fas mefmas partes fe mifturem bem;
e nenhuma miftura fe faz perfeita-
mente fem paciencia, e tempo. E
aílim, que importa que o artifice co-
nheça a ley, ou proporçaô das
quantidades , fe ao tempo da mif-
tura ou fe efquece della, ou a
trata comb ponto menos importan=
te, e pouco eflencial ?
Naô he porém aíflim ; por-
que fe a cal, ea arêa fe naô in-
corporaô bem por meio de huma
miltura diligente, e rigorofa, nuns
ca daquelles dous ingredientes ha
de refultar hum corpo Íó ; antes
cada hum confervando tenazmen-
te afua natural propriedade ha de
ficar habil fempre para feparar-fe
- € para
De Architeétura Civil, 247
e para tornar ao eftado de divifaõ,
que de antes tinha ; e com efeito
de huma tal compofiçad , ou de hu-
ma miftura fuperficial, e negligente,
nunca póde refultar huma concre-
çaô laprdifica , forte, e perduravel.
Sendo pois certa, e bem fabi-
da aquella propofiçaô ; e proce-
dendo geralmente em todas quan-
tas compofiçoens fe fazem ; ainda he
mais conftante, e invariavel na quel-
taô de que tratamos ; porque as
paredes nad fe fazem para Ífuften-
tarem fó o feu proprio pezo; mas
tambem , e mais principalmente pa-
ra fuftentarem todo o pezo de to-
das as partes do edificio ; e ifto nad
para hum dia, ou para hum anno
fó , mas para muitos. Por io quan-
to menos obfervancia ha na exa-
étidaô das regras, tanto menos he
duravel o edifício.
Qiv Ne-
248 Problema
Neceílitamos de huma efpe-
cie de liga , ou cola preparada de
tal forte, e com arte tal, que en-
dureça logo , e depois de endure-
cida fe petrifique com o tempo ; pa-
ra que nelfte eftado poíla refiftir à
agoa , e aoar: á agoa, para que
a naô penetre; eao ar, para que a
naô faça em pó. Nos edificios an-
tigos obfervamos muitas vezes que
corroendo o ar o corpo Íolido das
pedras, naô póde fazer a mefma
corrofaô na cal e arêa com que
foraô fabricadas as paredes. Iíto
procede aflim pela razaô de have-
rem fido aquelles dous materiaes
efcolhidos prudentemente, e amaf-
fados bem, de forte que nem a agoa,
nem o ar os poderaô deftruir ; e
foi naquella parte mais douta a ar»
te, que preparou os materiaes, do
que a natureza que fez as pedras; a
lo
De ArcbiteéluraCivil. 249
io eftas refiftirad menos á impreflaô
diuturna daquelles elementos; em lu-
gar que os materiaes depois de uni-
dos, ficara totalmente impenetra-
veis, e daqui procedeo a duraçaô.
E aflim he neceffario que os
materiaes fe mifturem bem , e que
neíta preparaçaô fe occupe o tem-
po que for precifo : porém como
em tudo póde haver exceflo , e efte
em tudo he ruinofo, commumente
tambem o póde haver no vagar de-
maziado, com que fe proceda-na mif-
tura; porque diílo refultaria o mef-
mo, ou maior erro. À força da cal
depende inteiramente dos efpiritos
igneos que contém ; e fem os quaes
nenhuma preparaçad , ou tritura-
çaô póde fer fufficiente para fup-
prir , e emendar aquella falta. Tf-
to Íuppofto , já fe vê que huma
preparaçaô efpaçofa ou prolongada,
lenta-
250 Problema
lentamente faz diflipar huma grande
parte daquelles memos efpiritos
que devemos confervar; e que faô os
primeiros » e verdadeiros agentes da
pemificaçaô artificial que procura-
mos, e que he com effeito o fim a
que a obra da parede fe encaminha.
A expofiçaô da cal ao ar por
muito tempo, faz perder-lhe a for-
ça; porque no mefmo ar fe diffi-
paô os efpiritos, em que toda a for-
ça eftá. Iíto fuccede à cal, naô ló
quando eftá folitariamente ; mas
tambem depois de mifturada com à
aréa, e no intempeftivo tempo da
miftura; porque nefle meímo fe
perdem tambem os feus efpiritos
mais fortes, e aétivos. Temos o ex-
emplo em todos os licores inflam-
maveis ; os quaes eftando algum
tempo expoftos ao ar livre, perdem
infenfivelmente o força , a qual
confif-
De Árcbitebtwra Civil. asa
confiftindo nos efpiritos mais pu»
ros, eítes fe diflipaô; eo que fica
do licor, he a parte-mais:aquofa ,
e menos inflammavel. “O ;mefmo
fuccede a todos os efpiritos volas
teis dos animaes, e vegetaes; por
illo os valos, em que:feguardad ;
devem elftar'tapados fempre ,'co-
mo enfina a pratica vulgar ; e quan»
to mais fubtis ; e efprrituofos faô,
tanto mais neceflitaô. aquelle: ref-
guardo , £ providencia;
: A mefma agoa fimples»conti-
nuamente fe evapora, e vai per-
dendo alguma parte da fua melhor
fubftancia , como a diminuiçao mof
tra; e fe evapora totalmente em
tempo-campetente; e a parte; que
vai ficando, (empre he a mais den-
fa, emenos pura; tornando por ef-
te modo a entrar na vaíta regiad do
ar, que he de donde as ig
as
as Problema
das vem. Entre os efpiritos vola-
teis alguns ha com tanta força ,
que com difficuldade fe confervad,
por mais que vedadamente eftejaô
refguardados ; porque, franqueando
os vafos mais feguros;, recobraô a
perdida liberdade, illudindo a pou-
ca vigilancia do artifta inexperto ,
e defcuidado.
Deve pois a preparaçaô, ou
miftura dos noflos materiaes , fer
regularmente praticada , impenden-
do-fe o tempo neceflario , mas naô
com tal exceílo , que a força da
cal, que devemos confervar, fe ve-
nha a perder por efle meio. Fefti-
sa lente , como diz o proverbio
conhecido. À prudencia deve pref-
crever as regras neceflarias , ifto he,
o tempo que ha de gaftar-fe na mil-
tura, para que efta naó fe faça pre-
cipitadamente , nem tambem com
mais
De Architeliura Civil. 253
mais vagar do que aquelle que he
precifo. Affim teremos os dous ma-
teriaes taô juftamente preparados ,
que venhaô a fervir de huma liga
forte, que contenhaô os muros dos
noílos edificios ; e aflim veremos
que os edificios antigos nunca fo=
raô mais duraveis , doque os noflos
haô de fer. Que os elementos fe
conjurem, e que a terra trema, ve-
remos as noflas habitaçoens refife
tirem mais , naô cedendo ao pri-
meiro impulfo , mas aos impulíos
repetidos de hum tremor mais vio-
lento , e extraordinario ; porque
defte naô ha arte humana que pof-
fa defender.
Aquella he a refoluçao do nof.
fo Problema. Os edificios antigos
duravad mais , e refiftiaô algum
tempo mais aos movimentos Íub-
terraneos ; porque foraô fabricados
com
254 Problema
com mais regularidade. Alguns dos
noílos, e modernos edificios refif-
tem menos, e tem menos duraçaô;
porque fe fabricaô com menos at-
tençaô , e fem intençaô de dura-
rem muito : de que fe fegue que naô
he para admirar que os vejamos
durar pouco. Nifto naô digo eu
nada de novo; lembro aquillo mel-
mo que todos fabem. O mais, que
fiz , foi verificar aquella verdade
conhecida , com experimentos phy-
ficos igualmente conhecidos. Para
os architeétos naô era precifo di-
zer nada; porque fabem melhor do
que eu todos os preceitos de huma
profiflaô , que naô he minha.
Naô affirmo porém que to-
dos os noílos edificios fejaô fabri-
cados com menos fegurança ; por-
que alguns eftamos vendo que com
effeito fe fabricaô com a mais fe-
véra
De Arcbite&lura Civil. ass
véra exactidad. “Temos huma pro-
va memoravel: no Arfenal famofo,
donde a arte mais efcrupulofa ex-
ercita as regras mais fublimes pa-
ra formar hum edifício fumptuofo,
que ha de ficar fervindo de indicar,
como Padraô Real, o auguito nos
me do Monarcha Inviéto que o pro-
tege; do fabio Minifterio que o pro-
move; e do nobre Magiftrado que
o dirige. Alli veraô os feculos vin-
douros o quanto póde em hum Prin-
cipe o cuidado Paternal; em hum
Miniftro ozelo ardente; eemhum
Corpo refpeitavel a prompta exe-
cuçaô. Que duraçaô naô devemos
eíperar de hum admiravel edificio,
cujos fundamentos faô eftabelecidos
naquelles generofiflimos motivos ?
As pofteridades o haô de ver du-
rar, e perfflir na mefma pompa
contra todo o rigor dos elementos;
nelle
256 Problema
nelle haô de achar como em livro
vivo e permanente, os melhores do-
cumentos para edificar com forta-
leza: enós obfervando o methodo,
com que aquelle edificio fe levanta
felizmente , nelle acharemos tam-
bem os preceitos regulares para pra-
ticar em pouco efpaço , a mefma fe-
gurança que alli vemos praticada
em grande.
FIM.
pis
PROTESTATIO.
I aliquid in hoc Civilis Architefturz
Problemate, me início , elapfum fit,
quod Catholic Fidei, aut bonis moribus
aliquatenus adverfetur, id omne non di-
étum nec feriptum volo; & facrofanttx
Romanz Ecclefiz cenfurz , aut alicujus
in Phyficis melius fentientis correétioni
fubjicio ; ex debito voveo , ex animo li-
benter amplector.
IN
TA
INDEX,
OU EXPLICACGAO
de alguns termos proprios , de
que no Problema de Archite-
Cura Civil fe faz mençaô.
Cido alcalico:fal alcalino fixo.
A Todos eftes termos fe appli-
cad a aquelles faes que fer-
mentaô entre fi;naô porque haja en-
tre elles huma verdadeira fermenta-
çaô; mas huma efpecie de combate,
ou ebulliçaô em que o acido perde a
natureza de acido ; e da mefma
forte o alcalino perde a natureza
alcalica. O acido porém fempre fe
manifeíta em hum fabor pungente,
ou amaricante, como fe nota no fal
commum, no nitro, no vitriolo, e
em outros muitos faes , aflim mi-
Part. II. R nêraes,
258 Index do Problema
neraes, como vegetaes; em lugar
que os alcalinos tambem fubliftem
fem fabor algum; em cuja ordem
entra a terra vulgar, todas as for-
tes de cal, e outros muitos corpos;
os quaes faô alcalinos, fem conte-
rem aliás fabor algum. E por ef-
te principio o fal acido he fempre
difloluvel na agoa ; porque ainda
aquelle, que eíta junto intimamen-
te a hum corpo indifloluvel, em fe
feparando delle logo fe diffolve ;
em lugar que osalcalinos , nem to-
dos fe diflolvem na agoa ; porque
a terra, acal, as cônchas do mar,
e outros muitos corpos , naô obitan-
te o ferem alcalinos, nunca fe dife
folvem. Os faes alcalinos fixos, ef-
fes todos fe diflolvem na agoa
promptamente , e a humidade do
ar bafta para os diflolver perfeita-
mente, Todo o fal, que fe acha
nas
De drchiteélura Civil. 259
nas cinzas dos vegetaes queimados,
he hum verdadeiro fal alcalino fixo;
e da mefma forte ofal, que exifte
no farro do vinho queimado, he
hum falalcalino fixo, e o mais for-
te de todos os daquella natureza.
O conhecimento dos acidos,
e alcalicos , he o mais precifo no
ufo da Medicina , e fem aquelle
conhecimento exaéto nad póde ha-
ver perfeito Medico ; porque ape-
nas ha doença, ou mal algum que
fe pola explicar diftinétamente ,
nem conhecer o feu principio, fem
recorrer a hum acido predominan-
te, ou a hum degenerado alcalico:
os remedios commumente tendeim
oua moderar, e extirpar hum aci-
do abundante , ou a moderar , e
extirpar tambem hum alcali efcor-
butico , e corrofivo. À razad he;
porque a fabrica vivente em todos
Ri os
260 Index do Problema
os animaes toda fe compoem de
liquidos diverfos que circulaô , e de
cuja circulaçad depende a contex-
tura, e ordem natural: viciada, ou
embaraçada de algum modo a cir-
culaçaô, logo eftá prefente o mal
que ha de vir precifamente. Iíto
fuppofto , he certo que dos aci-
dos; e alcalicos provém ordinaria-
mente as concreçoens , coagula-
çoens , e indigeítoens que perver-
tem a economia circular no corpo
dos animaes; e pervertida a circu-
laçaô, diflo vem a refultar a eftag-
naçaô de hum liquido , e deite a
de todos os mais progreflivamente
Janguis tibi figna dabis.
E com effeito os acidos, e al-
calicos faô os promotores das def-
ordens principaes que o corpo fen-
fitivo experimenta ; porque a al-
guns dos liquidos attenuaô exceffi-
vamen-
De Architectura Civil. 261
vamente, ea outros engroflaô, fa-
zendo a huns mais fluidos do que
devem fer, e a outros mais denfos;
e por eíte modo ou fe fuípende a
circulaçao , ou fe defordenaô as
funçoens vitaes. Naô fe fegue da-
qui que todos os acidos e alcalicos
fejad morbofos fempre ; antes a to-
tal exterminaçaô delles he nociva:
huma jufta porçaô , e proporçaô
deve intervir; o mal eítá no excef-
fo , e efte confifte ou na quanti-
dade , ou na qualidade. O acido
exceílivo , predominante nas pri-
meiras vias, he commumente o fa-
bricador , e confervador das varias
eípecies de lumbricos inteftinaes.
Daqui vem que, azedando o leite
no debil eftomago das crianças, alli
fe converte em eftirpe vermino(fa ;
e defta refultad os funeftos acci-
dentes, de que a maior parte das
Part. II. Ri crian-
262 Index do Problema
crianças morre. Os lumbricos ,
(ou lumbrigas ) caufaô convulfoens
horriveis; e nefte calo , fe a cura
fe dirige a outro motivo, a morte
he infallivel. Effa verdade prati-
ca conhecem perfeitamente os Me-
dicos ; mas naô fei fe todos co-
nhecem o remedio mais perfeito. A
tintura azul he remedio efficaciffi-
mo. Quis potef? capere capiat.
Alchool , ou efpirito de vinho
recbificado, ou tartarizado. Álchool
fe chama o efpirito do vinho fum-
mamente deflegmado , e pofto no
ultimo grao da pureza que póde
ter. Aquella depuraçao fe faz por
meio de qualquer fal alcalino fixo,
ou por meio do tartaro queimado ;
porque todo o fal alcalino fixo attra-
he a fia humidade aquofa , e dei-
xa intacta a oleofa, O efpirito do
vinho, privado inteiramente de hu-
mida-
De Architeétura Civil. 263
midade , he o diffolvente proprio
de todas as gomas , e rezinas , e
geralmente de todos os corpos re-
zinofos. Por meio daquelle mefmo
efpirito fe extrahem as tinturas de
todos os vegetaes; e os remedios
mais exquifitos commumente exi-
gem o alchool; porque o efpirito
do vinho em quanto contém hu-
midade aquofa, e em quanto naô
eftá reduzido ao que chamamos al-
chool, naô tem a força neceflaria
para diflolver alguns corpos , ou
extrahir algumas tinturas , que Íó
cedem ao alchool , e refiftem ao
efpirito do vinho. Efpirito reétifi-
cado he aquelle que, deftillando-fe
varias vezes, vai deixando no fun-
do do vafo deftillador a parte aquo-
fa que continha , recebendo-fe fó
a que primeiro fahe , e entra no
valo recipiente ; porque os primei-
iv ros
264 Index do Problema
ros efpiritos que fobem faô os mais
puros, e os que contém menos aquo-
zidade ; porque efta, como mais pe-
zada, e menos efpirituola , naô fo-
be fe naô no fim da operaçaô, e
quando o fogo adminiftrado a inci-
ta com mais força; por iflo repc-
tindo-fe muitas vezes a operaçaõ,
e tomando Íó os primeiros vapores
que fe levantaô, vem a adquirir-fe
hum efpirito oleofo em todas as
fuas partes, e proprio para os ufos
deftinados. O mefmo efpirito tarta-
rizado he hum puriflimo alchool ;
porque o fal fixo do tartaro quei-
mado embebe em fi a humidade
fuperfua, e fó deixa livre a parte
oleofa , e efpirituofa ; e ifto pelo
principio commum , de que os ef-
prritos fermentados, fó embebem a
aquofidade , e naõ penetraô, nem
diflolvem fal algum,
O al
De Árchitetlura Cioil. 265
O alchool tem ufos excellen-
tes nos experimentos phyficos ; e da
mefma forte na Pharmacia, Medi-
cina, na Cirurgia, e na Anatomia.
A manufactura dos vernizes ; a ex-
tracçaô de tinturas mineraes , ve-
getaes ; e medicinaes; e fabrica dos
termómetros, ou conhecimento exa-
éto dos graos do frio, e do calor
em todas as eltaçoens do anno; a
confervaçao de algumas figuras
monftruofas animaes ; a cura de
muitos males; a reprefentaçaô vi-
fivel dos liquidos que circulaô nas
arterias, e nas vêas; tudo depen-
de do alchool; e fe efte he depu-
rado menos bem, fuccedem mal os
experimentos que com elle fe pra-
tica. E com effeito o alchool, que
contém ainda humidade aquofa,
diflolve fó groffeiramente as go-
mas , € rezinas de que os vernizes
fe
266 Index do Problema
fe compoem” naô moftraô exacta-
mente os differentes graos de frio,
e de calor; por iffo ha poucos termó-
metros que fejaô bem exaétos em
moftrar aquellas differenças ; por-
que faô rariflimos os que tem o al-
chool perfeito: da meíma caufa vem
o naô fe confervarem fempre as
partes animaes que fe devem pre-
fervar de corrupçaô : a tintura do
coral naô fe extrahe como deve fer,
quando o alchool he menos defleg-
mado ; e a outras muitas tinturas
fuccede o mefmo por hum funda-
mento igual.
Na Cirurgia deve fer muito
circunípeito o ufo do alchool; por-
que efte efpirito concentrado , he
menos proprio naquella arte; a Íua
meíma pureza , e fortaleza faz mui-
tas vezes paralytico o membro a que
fe applica, tirando-lhe o fentimen-
De drchbiteélura Civil. 267
to, ou fazendo-o infenfivel, e fem
acçaô vital ; principalmente nas
partes nervofas, as quaes de algum
modo eftupifica. Naô fei fe os pra-
ticos conhecem bem efta verdade,
e a importancia della: fe bem que
efte cafo he menos perigofo , por-
que raramente fe encontra hum al-
chool verdadeiro, e puro: porém
ainda o mefmo efpirito de vinho he
fufpeitofo; porque coagúla o fan-
gue: a agoa ardente commua he
mais proveitofa , e mais fegura no
tratamento das feridas; porque cu-
ra fem mortificar, ou fopitar os ef-
pititos animaes. Os remedios for-
tes faô infiéis as mais das vezes;
com os brandos fe confórma a nã-
tureza; com os outros fe exafpera,
e perde o alento curativo que em fi
tem naturalmente,
O alchool naô fó provém do
efpi-
168 Index do Problema
efpirto vinofo, mas tambem de
todos os licores fermentados , co-
mo faô os que produz otrigo , a
cevada, o milho, e outros muitos
vegetaes que fermentaô da meíma
forte: de todos elles fe tira hum ef-
pirito em tudo femelhante , e fem
differença alguma ; porque todos
fad inflammaveis igualmente ; e fe-
guindo o mefmo methodo , de to-
dos fe confegue hum puriffimo al-
chool, e proprio para os meímos
ufos, e experimentos.
“Amalgamar. Amalgamar fe
diz da miftura que fe faz do azou-
gue como ouro, ou prata, e com
os mais metaes , exceptuando o fer-
ro, porque fó elte naô admitte o
mifturar-fe com o azougue. Aqguel-
la acçaô , por onde o azougue inti-
mamente fe miftura com o ouro,
ou prata, tem ulos fingulares em
varias
De Architeiura Civil. 269
varias artes. Os chimicos novatos,
quando vem que o corpo compa-
étiflimo do ouro recebe avidifh-
mamente em fi o azougue, e nelle
de algum modo fe derrete , logo
entendem que aquelle femimetal he
o diflolvente natural do ouro, e
que he o de que falla o Conde Ber-
nardo Treviflano ; e julgaô fer
aquella a fonte parabolica do mef-
mo Conde : fundados nefta idéa
entraô a intentar experimentos ra-
ros com a miftura do azougue ; e
ouro ; e entre elles faô rariílimos
os que depois de muitos annos de
trabalho conhecem a illufaô , e fe
affaftaô della.
Porém naô tem fido inuteis
aquelles inutilifimos trabalhos ;'e
indagaçoens infruétuofas ; porque
dellas provierad inventos admira-
veis, de que as artes fe eftaõ fer-
vindo
270 Index do Problema
vindo hoje. Os melhores praticos
tem efcrito largamente experien-
cias feitas por meio do amalgama
do ouro com o azougue ; nelles fe
haô de achar experimentos exqui-
fitos, e curiolos, O que eu obfer-
vei naquella metallica miftura , foi ,
que os metaes naô recebem igual-
mente a meíma porçaô de azou-
gue; porque huns recebem nos Íeus
póros maior porçaô , outros menor:
o ouro v. g. amalgama-fe com deza-
feis partes de azougue ; a prata com
oito , e a efta proporçaô os mais
metaes Ífendo de advertir ; que
quando o ouro fe amalgama com
o azougue , exhala no tempo da
miítura hum fétido urinofo. Efte
phenómeno » por mais Ífimples que
pareça , naô deixa de fer muito ob-
fervavel; porque da uniaô daquel-
les corpos naô devia provir fe-
melhan-
De Architeétura Civil. 291
melhante fenfafaô : outros mais ex-
perientes delcobrirãô a caufa.
Athanor he huma efpecie de
fornalha , fabricada de tal forte,
que ocarvaô, que contém na parte
chamada torre, vai cahindo de
vagar , e fuccellivamente no lugar
da fornalha em que o fogo eftá.
Serve efte inftrumento para con-
fervar hum fogo moderado ; e igual;
fem fer precifo deitar-lhe carvad
todos os dias; "por illo lhe chama-
raô tambem P;ger Henricus. E com
effeito o athanor he hum dos inftru-
mentos neceflarios , de que hum
bom laboratorio deve eftar provi-
do: por meio delle fe fazem as ob-
fervaçoens mais fingulares ; os lt-
cores que devem circular baftante
tempo; as digeftoens que fe fazem
lentamente , e outras muitas ope-
raçoens de experimentos naô vul-
gares ;
272 Index do Problema
gares ; tudo neceffita hum =
igual, fucceflivo, e moderado : o'
athanor fatisfaz a todas eftas in-
tençoens.
Butyrum. Aflim fe diz de a
ma materia unétuola que os artif-
tas extrahem de alguns corpos que
tem aptidad para a produzir , fen-
do dirigidos de hum certo modo ;
a materia unétuola he da meíma
forte congelada por fórma de man-
teiga, e porillo lhe chamaô buty-
rum. Do antimonio , do eftanho,
do vitriolo fe extrahe hum buty-
rum criftallino ; os quaes ainda que
faô famigerados no ufo da Me-
dicina , e fejaô tidos por reme-
dio heroico, com tudo, fe eu fo-
ra Medico, nunca o applicara in-
teriormente , por mais correãto , e
cicurado que aquelle remedio fof-
fe ; por fer hum indomavel cor-
rofivo.
De drchitectura Civil. 273
rofivo. , À Medicina chimica he
fufpeitola ; e quem fe ferve della,
eu he Medico inexperto , ou chi-
mico menos inítruido. O corpo
humano naô he feito para fe fa-
zer nelle experiencias , e anatomias,
fe naô depois de morto. Os chimi-
cos jaétaô muito os feus remedios,
e confiaô delles muito; porém os
veteranos chimicos , de todos os
feus remedios defconfiaô. A Chimi-
ca deve fer confiderada como fcien-
cia phyfica, mas naô medicinal, De
alguns corpos vegetaes fe extrahe
hum butyrum feguro, como he o
da cera v. g. aquelles que provém
dos mineraes , e que delle fe ex-
trahem com maisarte, e mais tra-
balho, faô infiéis, e perigolos fem-
pre. Os Medicos peritos conhecem
bem efta verdade. À verdadeira man-
teiga , que provém do leite , he hum
Part. II. Ss vers
274 Index do Problema
verdadeiro butyrum natural : efte
he nutritivo , e anodino ; porém
naquelles, que tem por bafe os faes
mineraes, Jatet auguis in berba.
Calcinaçaô. Todo o corpo fo-
lido , que eftando expofto ao fo-
go, perde inteiramente a parte hu-
mida que tem, fica calcinado , if-
to he , reduzido em pó, ou em
hum eftado de divifaô, que facil-
mente fe reduz em pó, Hto he ao
que fe chama calcinar, e calcina-
çaô. Porém nem todos os corpos
fe podem calcinar ; porque muitos
ha em que de nenhuma forte pó-
de ter lugar a calcinaçaõ. O vidro
v.g. nunca fe calcina, porque nel-
le o que o fogo faz, he reduzillo em
vidro corrente , mas naô por fi
meímo reduzivel em pó. O ouro, «
a prata tambem naô admittem
aquella acçaô; porque o fogo os
funde,
De Árchiteélura Croil. 275
funde, mas naô os pulveriza. Al
gumas vezes fe diz impropriamen-
te que hum corpo eftá calcinado.,
fó porque efteve algum tempo ao
fogo ; porém naô he iflo verdadei-
ra calcinaçaO; porque o ouro; ou
prata , ainda que efteja a hum fo-
go violento, nunca fe calcinaô, e
ficaô taô fufiveis como eraô, fem
perder porçaô alguma da fua fubf-
tancia. À propria calcinaçaô fup-
poem deperdiçaô , e mudança de
fubftancia,
c Concentrado. Todos os efpirt-
tos, € licores reduzidos por qual-
qualquer modo a hum eftado de
mais força, e mais pureza, fe di»
zem concentrados. O modo mais or»
dinario por onde os efpiritos , e li
cores fe concentraô, he a diftilla-
çaô; porque por meio della fe fes
para a parte menos forte, e pura-
S ii mente
276 Index do Problema
mente phlegmatica , ou aquofa , da-
quella que Íó fe compoem das par-
tes mais aftivas, e efpirituofas. O
efpirito do fal v.g. na fua primei-
ra extracçaô, he compofto de tu-
do quanto tem o fal commum de
mais volatil, e que com mais faci-
lidade póde fer extrahido daquel-
le fal. Porém repetindo-fe depois
a mefma operaçaô ( fegundo a in-
tençaô do artifta, e fegundo o grao
de força , e de pureza que fe procu-
ra) entado licor, que fica no vafo
deftillatorio, he juftamente o licor,
a que fe chama concentrado, e nef-
te eftado tem propriedades, e vir-
tudes mais efpeciaes, provindas uni-
camente da força maior que tem. À
agoa ardente he o liquido que fe
extrahe na primeira diftillaçaô do
vinho; porém fe a melma opera-
çaô he mais vezes repetida , rece-
bendo-
De Árchiteclura Cívil. 277
bendo-fe fó os primeiros vapores,
ou os primeiros efpiritos que fe le-
vantaô, e entraô no valo recipien-
te, já entaô fe nad diz agoa arden-
te, mas efpirito de vinho ; e fe
com efte fe torna , ou continiia a
repetir a mefma operaçaô receben-
do-fe fó os primeiros efpiritos que
fe volatilizad em fentindo o calor
do fogo, já fe naô chama efpirito
de vinho , mas efpirito concentra-
do. O mefmo Íuccede a todos os
efpiritos corrofivos , como faô os
do fal commum, o do nitro, o do
vitriolo , e o do enxofre; porém
com a differença , de que nos lico-
res inflammaveis ( como faô os da
agoa ardente , do efpirito do vi-
nho , do efpirito concentrado, e
“outros ) a parte mais forte , e vi-
gorola , he (empre a mais volatil,
'e a que primeiro fahe ; em lugar
Parte II. S iu que
278 Tudex do Problema
que nos efpiritos corrofivos a par-
te, que primeiro fe volatiliza , he a
menos forte; ea que cede em ulti-
mo lugar á acçaô do fogo, e que
exige mais actividade de calor, he
fempre a mais vigorofa , eforte, e
por io fe diftingue com a qualida-
de, e denominaçaõ de concentrada.
Criftallizar. Criftallizaçao. Só
os faes, ou materias falinas fe crif-
tallizaô; porém criftallizaçaô per-
feita fó fe obferva nos faes puros.
A agoa do mar evaporada lenta-
mente ao fogo , ou ainda pelo ca-
lor do Sol intenfo , depois de fe
exhalar a maior parte da agoa, em
que o fal eftá , e depois que a agoa
reftante tem unicamente aquelle fal
que póde conter diflolvido em fi,
logo na fuperficie della entra a for-
mar-fe huma pellicula , ou côdea
criftallina , a qual ferve de final
de
De Architebiura Civil. 279
de que a agoa tem mais porçaô de
fal, do que aquelle que póde em
fi conter: entaô fe retira do fogo
o valo, em que a evaporaçaõ fe faz;
mas (empre com a cautela de o ti-
rar em fórma que a agoa fe naõ
mexa , eifto para que o fal fe naô
perturbe, e tome a fua mefma , e
natural figura: o valo retirado af-
fim logo fe poem em parte fubter-
ranea , ou em outra qualquer que
feja fria , ou ao menos frefca : à
agoa aílim que começa a esfriar ,
logo começa tambem a expellir de
fi o fal demaziado que em fi tinha;
e depois que esfria totalmente, vai
acelerando a expulfaô do fal, até
que, fendo paífado o tempo necef-
fario, todo fal que naô póde fub-
fiftir diffolvido na agoa , entra a to-
mara Íua fórma , ou figura propria.
Io he ao que chimicamente fe cha-
S iv ma
280 Ludex do Problema
ma criltallizar , ou criftallizaçao.
Só os faes, como fica dito, fe
criftallizaô. E o que tem de nota-
vel efta acçaô da natureza (que a
arte fabe promover perfeitamente )
he que por meio della cada hum
dos faes toma infallivelmente huma
certa fórma, ou figura determina-
da que affeéta fempre ; porque huns
tomaô a figura cúbica, pyramidal,
outros a octogona , &c, de forte
que fó pela figura podemos laber
diftintamente o genero de fal cril-
tallizado : e aílim que virmos hum
fal com perfeita figura cúbica, lo-
go fabemos com certeza que he o
fal do mar, ou ontro qualquer fal,
que tenha a fua mefma natureza,
como he o falgema. Nenhum ou-
tro fal toma aquella figura regu-
lar; e da mefma forte os outros
faes, que tambem affectad fempre
as
De Architetura Civil. 281
as figuras , ou aquelles delineamen-
tos que lhes faô proprios. Que or-
dem conflante em tudo quanto a
natureza cria, e que uniforme re-
gularidade fujeita a huma mefma ,
e invariavel difpofiçaô ! Para evitar
a confufaô difpoz o divino Archi-
teéto do univerlo que todos os
corpos fe diftinguiflem entre fi,
naô fó pelas qualidades , ou pro-
priedades interiores , e fubltanciaes,
mas tambem por huma fórma exte-
rior, e vifivelmente conhecida; e nad
fó pela parte eflencial, e invifivel ;
mas por huma fimple fmente configu-
rada, material, e perceptivel.
Aquella fórma , ou configu-
raçaô conftante , a natureza ob-
ferva exaétamente em todos os tres
Reinos da fua vafta Monarchia. Os
animaes vegetaes, e mineraes, to-
dos tem figuras difiintivas ; e quan-
do
182 Index do Problema
do algum dos individuos fe aparta
confufamente da regra configurati-
va, entao relulta o monítro; e ain-
da neítes a natureza he admiravel.
A criftallizaçaô he a que moftra ;
e poem patente a figura indicativa
do fal criftallizado ; e parece que
tambem no fal dos animaes , e ve-
getaes , he donde refide o efpirito
informante , ou formador. E com
effeito em todos os corpos conhe-
cidos a parte aétiva eftá nos faes ;
-deftes mais , ou menos exaltados ,
em mais, ou menos acçaô depen-
de a efpecifica virtude dos corpos
mineraes , animaes , e vegetaes;
todas as mais partes, de que aquel-
les corpos fe compoem , ou faô
phlegmaticas inertes, ou terreftres
inactivas; o fal he a parte que con-
figura. Daqui vem que, fe extra-
hirmos de algum dos mixtos o fal
chama-
De 4rchiteluraCivil. 283
chamado juftamente effencial, o
mixto fica fem virtude , e como fem
alma , e eftupefaíto. Da qualidade
do fal refulta a qualidade do mix-
to que o contém; porque na com-
pofiçaô natural dos corpos, a ter=
ra naô ferve mais que de recepta-
culo ; o movimento naô póde vir
fe naô do elemento igneo , e efte
fó nos faes tem aflento firme , e
corporizado ; a acrimonia delles,
moftra a prefença actual de hum ele-
mento efpirituofo, fubtiliílimo , e
rapidiflimo. Os mefmos faes dulci-
fórmes Ífaô originariamente acri-
moniofos , e picantes ; a miftura,
ou temperança de partes oleofas,
lhes muda o fabor auítero para
outro, em que o paladar encontra
mais agrado.
E verdadeiramente parece que
a configuraçaô dos corpos procede
dos
284 Index do Problema
dos feus faes particulares ; porque
fó nos faes fe achaô configuraçoens
certas , e conftantes; tudo o mais
he materia indigeíta, e rude; dif-
poíto fó para fer formado , e naô
para formar ; para receber figuras
diferentes, e naô para as fazer , nem
dar. Hum fal puro quando fe crif-
talliza, toma unicamente a figura
que lhe he propria; porém fe ao
mefmo fal fe aggregaô outras par-
tes de hum diferente fal, ou de
algum corpo terreítre oleofo ; me-
tallico, ou vegetal , já entaô naô
provém na criftallizaçaô a figura
propria de hum fal determinado ,
mas outra diverfificada , e differen-
te. O fal domar, v.g. fendo pu-
ro, fe fe criltalliza , fempre toma
a fórma cubica; porém fe aquelle
meímo fal tiver unido a fi outro
genero de fal, ou algum corpo
metal-
De Architetlura Civil. 285
merallico , animal, ou vegetal, já
entaô naô fe criftalliza em fórma
cubica , mas em outra diferente,
fegundo a indole da materia aggre-
gada a elle. Da mefma forte o ni-
tro fe fe criftalliza eftando puro af-
feQta a fórma pyramidal ; mas fe ef-
tiver aflociado a outros corpos fa-
linos ; ou terreftres, já naô torna
aquella fórma, mas outra mui di-
verfa. De quantas combinaçoens
naô faô fuíceptiveis os faes feme-
lhantes, e variaveis diverfamente!
Decrepitar. De todos os faes,
que conhecemos ,. Íó o fal do mar
decrepita; porque deitado fobre o
fogo , entra a eftalar fucceflivamen-
te, eaefta acçaô fe chama decre-
pitar: de forte que todo o fal, que
deitado fobre o fogo decrepita por
aquelle modo , he fal do mar in-
fallivelmente , ou tem a fua mef-
ma
2186 Index do Problema
ma natureza , como he o fal que
chamamos gema. Tambem de al-
gumas plantas fe extrahe hum fal
commum; da mefma forte que de
algumas fe extrahe hum verdadeiro
nitro.
Duétilidade. Só nos metaes
fe acha verdadeira duétilidade , por-
que fó elles fe eftendem ao martel-
lo fem quebrar ; a eita proprieda-
de, que nos metaes fe encontra , fe
chama duétilidade. Porém nem to-
dos os metaes faô duétiveis igual-
mente; alguns foffrem huma fum-
ma attenuaçao , porque faô fum-
mamente duétiveis. O ouro recebe
huma attenuaçaô , ou eftupenda de-
licadeza fem quebrar ; depois fe fe-
gue a prata, e ultimamente o fer-
ro: mas ifto fe entende fó dos me-
taes puros ; porque os que tem
miltura de algum fal, ou mineral,
facil-
De Árchiteilura Civil. 287
facilmente fe quebrad ao primeiro
impulío do martello.O azougue nad
tem duétilidade alguma ; porque
naô he metal, mas hum principio,
ou rudimento de metal.
Eolípilo. He hum inftrumen-
to de cobre, feito em fórma oblon-
ga, tendo fó hum collo algum tan-
to retorcido, e eftreito, de tres, ou
quatro linhas na:abertura, ou bo-
ca delle. Para introduzir-fe neíte
inftrumento a agoa , primeiro fe
poem fobre hum fogo moderado ;
eíte expelle o ar incluido dentro ;
depois pegando-fe o inftrumento
com huma tenaz , (ou por outro
qualquer modo ) expondo-fe a aber-
tura do colio em agoa fria , efta fe
introduz na cavidade à proporçaô
que o inftrumento esfria. Por meio
do Eolipilo vifivelmente fe explicaô,
e demonftrad varios phenómenos
natu-
188 Index do Problema
naturaes , que de outra forte fad
mais difficeis de explicar, e menos
faceis de entender. O que o enten-
dimento alcança por fi mefmo, e
fem algum foccorro exterior, he
mais confulo , e pouco intelligivel;
porém o que alcança auxiliado pe-
los olhos , he claramente percebi-
do , e mais de prefla , fegundo o
metrico proverbio : Segnius irritant
animos dxc.
Efpiculos falinos. Os chimicos
confideraô os faes todos configu-
rados em pontas agudifimas nas
Ífuas extremidades ; a eftas taes pon-
tas agudas chamaô efpiculos. Po-
rém naô he bem conftante, ainda
que com effeito os faes fejaô con-
figurados por aquella fórma; nem
que della refulte o fabor pungen-
te, ou acrimonia propria a cada
hum dos faes. Naô tem havido mi-
crolcos
De drchitectura Civil. 189
crolcopio , por onde fe obfervaffem
aquellas extremidades , ou pontas
agudiflimas que nos faes fe confi-
deraô: o fyítema daquella tal con-
figuraçaô . ainda fe naô acha de-
monitrado ; porém fempre o fegui-
mos, e fuppomos fer aflim para me-
lhor nos explicarmos ; de forte, que
os efpiculos falinos , ainda que ver-
dadeiramente naô exiftaô por aquel-
la fórma, com tudo fempre nos fer-
vem de termo explicativo , como
outros muitos que introduzio a phy-
fica moderna para mais bem fe
enunciar.:
Espíritos inflammaveis. Alim
fe chamaô alguns efpiritos , e lico-
res em que o fogo péga , como em
outra qualquer materia combufti-
vel. A agoa ardente he hum -da-
quelles taes licores ; e da mefma
forte o efpirito. do vinho. “Todos os
Part. II. T lico=
290 Tadex do Problema
licores que fe inflammaô faô oleo-
fos; porque os que faô puramen-
te aquofos ; em lugar de admitti-
rem qualquer inflammaçaô , aex-
tinguem facilmente. O fogo com-
munica-fe de prefla a tudo quanto
he oleo , ou feja liquido, ou em
fubftancia illiquida, e corporal; e
da mefma forte a todas as rezinas,
gomas , ou materias gomofas , e
rezinofas; porque as gomas , e re-
zinas faô partes oleofas vegetaes
em que o fogo tem natural appre-
henfaô. O enxofre he hum oleo mi-
neral, condenfado , ou corporizado
pelo acido vitriolico que contém ;
e por razaô do mefmo acido faô
os vapores fulphureos, nocivos , e
Ífuffocantes , como experimentaõ os
que trabalhaô em minas femelhan-
tes; os quaes padecem muitas ve-
zes os efeitos mortaes de hum va-
por
De Architeétura Civil. 291
por arfenical fulphureo. O petro-
leo he tambem hum oleo fubterraneo
mineral , porém em fórma liquida,
e fem eftar aflociado ao acido vi=
triolico, por iflo naô produz cor=
rofivas fuffocaçoens. É
Todos os oleos de guie
genero , ou feja vegetal, animal,
ou mineral, tem a natureza de en+
xofre; fó com a diferença de fes
rem. líquidos, e naô concretos. O
acido «vitriolico junto a qualquer
oleo , faz hum enxofre verdadeiro;
porém que oleo tem o ar, para que
nelle fe fórme o enxofre de queo
raio fe compoem? No ar naô dei-
xa de haver humainfinidade de va+
pores oleofos , aos quaes juntan>
do-fe;'o acido vitriolico, de'que o
mefmo ar he abundante, faz hum
enxofre aftivifimo , o qual tem em
grao fuperior ás mefmas Pre a
H es
194 Index do Problema
des do enxofre mineral. Daqui vem
que nas partes em que cahe oraio,
eíte deixa fempre hum infupporta-
vel fétido de enxofre. A mefma at-
mofphera contém hum verdadeiro
enxofre, e deíte he de que reful-
taô todos os meteóros inflammados.
E com efleito nenhuma inflamma-
çaô fe fórma fem a prefença actual
de huma materia fulphurea , oleo-
fa, unétuofa , rezinofa , ou bitu-
minofa. O que arde em tudo aquil-
lo que fe queima , he a materia
oleofa que contém ; porque tudo
quanto he puramente aquo(fo fe dif-
fipa em fumo, e o que he terreítre,
ou de natureza terrea, fica reduzi-
do em cinza.
Alguns fazem mençaô de hum
oleo incombuítivel , ao qual attri-
buem effeitos fingulares ; porém naô
fe: que oleo efte pofla fer; e a po-
der
De Architeélura Cívil. 293
der exiltir huma tal materia, tam-
bem exiftiria a agoa fecca , de que
os alchimiítas fallaô ambiguamen-
te. Naô duvido que dealgum modo
fe pofla extrahir do oleo a qualida-
de combuftivel, mas entaô já nad
he oleo ; tirada a infammabilida-
de de hum corpo combuftivel, já
naô he o mefmo corpo , mas outro
mui diverfo. Tambem de qualquer
fal fe póde tirar a qualidade pun-
gente , ou acrimoniofa que em fi
tem naturalmente; porém naóô fica
fendo fal. E da mefma forte quem
tirar de hum corpo Íalino a pro-
priedade que tem de diflolver-fe na
agoa , já naô he fal , mas outro
corpo differente ; porque, deftruida
a qualidade eflencial , ou caracter
proprio, já naô fica a mefma cou-
fa. Daqui provém que quem privar
o ouro da côr efpecifica que tem,
Part. II. Tau e do
294 Index do Problema
e do pezo , e duélilidade que deve
ter no eftado natural, já o que fica
naô he ouro. Todos os corpos fe
diftinguem pelas fuas qualidades
primitivas; e quando algumas def-
tas fe deftroe (ou porarte, ou por
fi mefmas) logo fica deftruida to-
da a natureza de hum tal corpo.
A materia da luz, Ífó nos cor-
pos oleofos, e inflammaveis he vi-
fivel , em todos os outros efta co-
mo fopita, e fem acçaô ; por
HTo em toda a parte da atmofphera,
donde ha vapores oleofos , eltes por
fi memos fe inflammaô muitas ve-
zes , ainda fem haver fogo actual.
Sobre os cemiterios fe tem viíto
humas luzes volantes que a efcu-
ridade da noite faz vifiveis: a igno-
tancia da caufa , de que procedem,
fez que muitos entendeílem que
aquellas luzes erad os efpectros dos
cada-
De ArchiteéturaCivil. 295
cadaveres enterrados ; naô fendo
aliás outra coufa mais do que os va-
pores oleofos exhalados dos mefmos
cadaveres putrefactos, cujos tenuif-
fimos, e mobiliflimos vapores por
fi mefmos fe inflammaõd , moven-
do-fe de huma parte para a outra,
fegundo a direcçaô, ou movimen-
to doar em que fubfiftem. Aquil-
lo mefmo fuccede em alguns luga-
res em que naô ha, nem houverad
cemiterios ; e baíta que a qualidade
da terra feja unctuofa , ou bitumi-
nofa fummamente , para que aquel-
las luzes volateis fe percebaô , e
naô fem fuíto, e medo de quem as
vê fem faber o principio de que re-
Íultaô, Aflim fe tem introduzido
no mundo varios erros, e pavores
populares, fó porque fe ignoraô as
caufas naturaes. A phyfica efpecu-
lativa nunca bafta para diftinguir
Tiv alguns
296 Index do Problema
alguns phenómenos , por mais com-
muns que fejaô , e elia mefma fe
allucina algumas vezes ; porque a
fua jurifdicçaô naô he praticamen-
te demonftrativa, mas argumenta-
tiva. À phyfica chimica he a quem
compete o refolver huns tantos ca-
fos , que fó chimicamente fe fa-
zem demonftraveis. Hum eclipfe do
Sol fazia antigamente horror , e
infundia nos animos hum horrorofo
eípanto; porém depois que a Af-
tronomia começou a vulgarizar-fe,
Já todos vem fem medo efcurecer-
fe o difco total do Sol, e perder
a Lua toda a fua claridade; haven-
do para iflo hum motivo , ou ra-
zao intelleétiva, e naô apparente.
Na mefma phyfica chimica ha mui-
tos calos refervados, de que nem
todos os artiftas fabem delcobrir a
origem. Às licenças naô fe conce-
dem
De Architetura Civil. 297
dem a todos igualmente : os que ef-
tudaô mais, faô os que mais fabem:
aquelle he o preço, porque fe com-
praô as artes, e as Íciencias.
Nos corpos inflammaveis, he
donde refide a materia luminofa ;
efta neceflita hum fogo actual pa-
ra acender-fe , e depois de aceza
fe propága facilmente até que fe
extingue pela extinçad do corpo
combuítivel. Porém fuccede algu-
mas vezes inflammar-fe huma ma-
teria , fem preexiftencia de outra
materia inflammada já. Os meteó-
ros ardentes por fi mefmos fe in-
flammaô , fem dependencia de in-
flammaçaô anterior; o como aílim
fuccede , naô eftá bem entendido
ainda. O movimento rapidiflimo ,
e contaéto immediato entre dous
corpos, dos quaes ambos , ou al-
gum delles feja combuftivel, baíta
para
298 Index do Problema
para produzir o fogo, fem haver
outro fogo antecedente;de (orte,que
fem aquelle movimento nenhum fo-
go fe produz; porque o fogo em
fi meímo parece que naô he outra
coufa mais, do que a materia da
luz excitada , ou movida rapidiffi-
mamente. À materia porém da luz
naô he ardente , nem tem ardor
fenfivel, fe naô quando muitos raios
fe unem em hum ponto; nefte fica
fendo abrazavel a luz ; porém os
raios (difperíos naô abrazao , illu-
minad , e aquecem , mas naô fe
inflammaô ; a eíte eftado chega,
quando trabalha por confumir hum
corpo combuftivel: huma certa re-
nitencia, ou oppofiçaô no mefmo
corpo combuítivel, he o que excita
a luz para augmentar-fe , e tomar
hum grao de ardencia a que cha-
mamos fogo.
A” ma-
De Adrchisetlura Cruil, 299
A” materia lucida todos cha-
maô propriamente etherea ; mas
naô Íei fe todos advertiraô que
aquella mefma materia naô eftá
no mefmo movimento em toda a
parte: daqui deve provir o maior,
ou menor calor ; porque donde he
remiflo o movimento ha luz, mas
naô ha calor. Daqui procede o
phofphoro artificial, e tambem o na-
tural. Alguns peixes na efcuridade
luzem, e alguns paos apodrecidos
tambem tem huma luz tibia ; efte
he o phofphoro natural: outros mui-
tos phenómenos, que vemos, fem
arder tem hum certo luzimento. He
muito de notar que a materia da
luz he globulofa ; porque o feu mo-
vimento rapido gira efphericamen-
te, e naô por outro modo : a fi-
gura efpherica do Sol (que he de
donde a luz provém ) he prova ma-
nifefta;
300 Iadex do Problema
nifefta : nifto confie a differença
grande , ou excepçaô do movimen-
to ; porque fegundo a regra Ma-
thematica , todo o corpo que fe
move, ou he poífto em movimen-
to, tende a defcrever huma linha re-
éta; porém na materia da luz, naô
he aflim; porque efla naturalmen-
te tende a formar raios, ou linhas
circulares; e a luz começa a enfra-
quecer, quando as Íuas partes vaô
deixando aquella direcçaô.
Os corpos, em que a materia
da luz he abundante, todos fe com-
poem de corpuículos ligados , ou
como encadeados entre fi; mas
fempre perfeitamente efphericos ,
ainda que em fumma tenuidade de
materia : na agoa temos hum ex-
emplo conftante ; poréi: ainda mais
obfervavel no Mercurio ; o qual
com effeito fe compoem de boli-
nhas
De Architettura Civil. 301
nhas infinitamente pequenas ; mas
cada huma dellas em perfeita re-
dondeza. Porém fe a luz he glo-
bofa , e efpherica, como vemos
que huma luz aceza fórma hu-
ma figura oblonga que acaba em
ponta? À efta objecçaô naô fei o que
os outros dizem; o que eu digo he
que a materia da luz he compofta
infallivelmente de corpuículos re-
dondos, porém efla mefma mate-
ria he amais fubtil; e menos pe-
zada do que o ar da atmofphera
que a circunda , por iflo tende a
Jubir , e nefta tendencia affefta a
figura oblonga. Por efte mefmo ,
e identico principio, todo o fumo
Ífobe , porque tem menos pezo,
e he mais fubril do que o ar em
que fe acha: pela meíma razaô
as materias oleofas bufcaô a fuper-
ficie do liquidos aquofos , porque
tem
302 Index do Problema
tem menos pezo do que a coluna
do liquido que as fuftenta. Na luz
aceza a fórma piramidal com-
poem-fe de huma infinidade de cor-
puículos redondos; da mefma for-
te que o Mercurio fendo compof-
to de particulas globulofas toma a
figura oblonga ( ou outra qual-
quer) do vafo que o contém. To-
dos os metaes no eftado de fundi-
dos, fe fe deitaô fobre aterra pla-
na, moftraô vifivelmente que todas
as fuas partes faô efphericas , e glo-
bulofas , e fó depois que esfriad,
e endurecem tomaô a figura do lu-
gar em que fe achaô; mas na fum-
ma exiguidade das melmas partes
fempre moftraô a figura efpherica
que tem naturalmente, Daqui fe
infere que a formaçaô dos metaes
provém de hum liquido, e efte oleo-
fo ; porque Íó defte principio re-
fulta
De drchiteitura Civil. 303
fulta hum corpo lucido, e perfeita-
mente e(pherico.
Os corpos oleofos (como fica
dito ) faô os que fe inflammaô ; mas
he neceflario que contenhaõ huma
certa parte de humidade aquofa ;
porque fem efta nenhum corpo he
combuftivel. A mais inflammavel
das rezinas he o alcanfor ; porém
efte em fe inflammando exhala hum
fumo aquofo , abundantillimo , e
nigerrmo : o mefmo enxofre com
fer taó unêluofo » € taô contrario
á humidade toda , contém radical-
mente huma grande porçaô de hu-
midade verdadeira, na qual refide
o (eu acido fulphureo. De forte que
hum corpo oleofo , e privado ab-
folutamente da humidade, já nad
he capaz de fe inflammar : ifto ve-
mos no ouro, e mais na prata; ef-
tes faô os dous unicos metaes, de
que
304 Index do Problema
que a humidade aquofa foi abítra-
hida totalmente; efta feparaçaô , he
arte refervada á natureza; nós naô
fabemos , e talvez nunca fabere-
mos, porque modo fe poíla abítra-
hir, ou feparar inteiramente a hu-
midade aquofa de hum liquido
oleofo.
À agoa do mar he oleola , mas
igualmente aquofa ; por iflo naô fe
póde com ella extinguir o incendio ;
antes aquella agoa o promove mui-
to em certas circunítancias, Se dei-
tarmos Ífobre qualquer fogo o fal
commum , logo veremos accender-
fe o fogo mais, e ficar muito mais
activo; porque o ar elaítico do fal
ferve de afloprar o fogo com vele-
mencia mais intenfa do que hum ver-
dadeiro folle. Além difto o fal do
mar contém em fi hum enxofre pu-
ro » como fe obferva na injecçad
da-
De Árchiteitura Civil. 308
daquelle fal fobre o fogo ardente,
em que logo exhala hum fétido Íul-
phureo infopportavel. Naô fe fe-
gue porém que a agoa do mar naô
poíla apagar o fogo; porque de fa-
&o o apaga fendo deitada em gran-
de quantidade , e repetidamente ;
quando naô he aflim , em lugar de
o apagar , o acende mais , viíto
que a agoa do mar naô he inflam-
mavel por fi melma , ainda que em
fi contenha huma certa parte que
promove a inflammaçaô.
Alguns experimentos ha, com
que fe moftra que póde haver in-
flammaçaô fem a prefença aétual
do fogo. Efta propofiçaô feria util
conhecer-fe bem, para acautelar al-
guns incendios , que ásvezes póde
fucceder por negligencia, ou falta
«daquelle tal conhecimento. E com
efeito a miftura, que provém do
Part. II. V ferro
306 Index do Problema
ferro com outros ingredientes, em
pouco tempo fe inflamma , e faz
arder as materias combuftiveis. O
efpirito puriflimo do vinho , ou ou-
tro qualquer oleo effencial , em
certas conjunturas , e por certo mo-
do faz o meífmo; e da melma for-
te o oleo da canela, e tambem do
cravo. Do Phofphoro , chamado de
Inglaterra » refulta o meímo. Na
regiad fuperior do ar naô ha fo-
go algum de que pofla dizer-fe que
exite em aétual acçaô ; mas com
tudo nella vemos que fe fórma o
fogo aétual mais violento : huma
forte compreflaô de corpos com-
buítiveis bafta muitas vezes para
excitar hum fogo aétivo. Hum mo-
“vimento circularmente rapido tam-
bem caufa o mefmo efeito.
Expanfível. Todos os licores
fao expaníiveis ; porque o calor lhes
faz
De Architeélura Civil. 307
faz occupar maior efpaço, do que
aquelle que occupaô naturalmente,
Para hum corpo fer expaníivel he
neceffario que feja volatil ; porque
os que faô fixos naô podem ter ex=
panfibilidade alguma. O ar he ex-
panfivel; porque tambem fe dila-
ta pelo calor , e occupa mais lu-
gar; o frio o comprime, e o reduz
a eípaço mais pequeno. Parece que
o principio da volatilidade, ou ex
panfibilidade dos corpos liquidos ,
e ainda de muitos folidos, he uni-
camente o ar; e à proporçaô defte
faô mais , ou menos volateis ; e
por confequencia mais, ou menos
expaníiveis.
Fermentar. Fermentaçao. Fer-
mentado. A doutrina da fermenta-
çaô he valta, e contém obferva-
çoens notaveis , das quaes fe po-
dem fazer volumes grandes. Para
Vi o nof-
308 Tudex do Problema
o noílo intento bafta que diga-
mos que a fermentaçaô propria-
mente he aquella acçaô em que a
natureza por hum aéto continuado
trabalha em mudar a indole de hum
liquido fermentavel. O mofto quan-
do ferve he hum exemplo bem fa-
bido. De forte que todos os liqui-
dos , de qualquer vegetal que fejaôd
extrahidos , em fazendo aquella
ebulliçaô , ou effervecencia entre
as fuas partes todas, fermentaô, e
eftaô na acçaô de fermentar. Entaô
fe produzem os efpiritos inflamma-
veis vegetaes, os quaes por arte al-
guma fe podem produzir ; fe naô
por meio da fermentaçaõ ; efta he
a que reduz o mofto em vinho, e
deíta refulta ao mefmo tempo o ef-
pirito inflammavel do meímo vinho.
Naô fó nos liquidos fe dá fermen-
taçad; porque tambem muitos ve-
getaes
De Architelura Civil. 309
getaes farinofos fermentad , como
fuccede ao trigo , ao milho , e a
outras mais fementes , as quaes,
quando faó promovidas por certo
modo, tambem dellas provém hum
licor vinofo , e deíte tambem fe
extrahem efpiritos inflammaveis, e
com iguaes propriedades , que as
que fe achaô nos que fe tiraô do
verdadeiro vinho. E aflim fem fer-
mentaça6 naô ha, nem póde ha-
ver efpirito inflammavel vegetal.
Filtrar. He termo chimico que
vale o mefmo que cogr. Efte modo
de coar naô he por pano , mas por
hum papel a que chamaô empore-
tico ; o qual, pornaô tercola, he
muito mais pacento do que o outro:
por elle fe coaô, ou filtraô todos
os licores que naô faô corrofivos ;
porque em o fendo , roendo toda
a forte de papel, logo o desfazem,
Part. II. Vau e rom-
310 Index do Problema
e rompem toda a Íua contextura ;
e em lugar de ficarem os taes lico-
res mais purificados , ficaô muito
mais coinquinados, e mais turbos,
porque tomaô em fi huma grande
parte, ou fubltancia do papel; e
entaô os meímos licores degeneraô,
e perdem algum tanto a fua for-
ga » ficando menos proprios para
os ufos deftinados ; porque a ma-
teria oleofa, de que fe compoem o
corpo do papel , faz que o licor
corrofivo fique de alguma forte iner-
te, e fem o vigor que tinha ; e if-
to pela regra geral, e fem limita-
çaô, de que todos os corpos oleo-
fos, ou que encerraô no feu inte-
rior alguma unétuofidade , retun-
dem, e enfraquecem tudo quanto
he corrofivo. À filtraçao pelo pa-
pel emporetico ferve infinitas ve-
zes para aclarar , e purificar as
agoas ;
De Arcbiteétura Crol, qr
agoas, € licores ordinarios , das
partículas terreítres que fe encon-
traô nelles commumente. Digo das
particulas terreítres, porque fó ef.
tas (ad as que por aquelle meio fe
feparaô do licor, ficando fobre o
papel por onde o licor paflou. 'To-
dos os corpos porém , que fe achaô
exactamente diflolvidos na agoa,
ou no licor, efles naô fe feparaõ
pelo filtro do liquido que os con-
tém , e com elle paflaô fempre,
por mais que a filtraçaô fe repita
hum milhaô de vezes. O fal v.g.
diflolvido na agoa, ou em qual-
quer licor, com elle pafla fem nun-
ca fe feparar. Ifto naô fó fuccede
a refpeito defte , ou daquelle fal,
mas tambem a reípeito de todos
quantos faes o mnndo tem ; por-
que em eftando diflolvidos perfeita-
mente na quantidade de agoa, ou
Viv de
312 Index do Problema
de licor fufficiente, com elle fe fil-
traô, e vaô paflando inteiramente
fem admittirem feparaçaô alguma.
Naóô fó os faes fe negaõ á filtraçaõ;
mas tambem aquelles corpos todos
que exactamente fe diflolvem nos
licores corrofivos. Supponhamos a
prata diflolvida em agoa forte, ou
no efpirito do nitro; fe efta dilo-
luçaô fe diluir com agoa commua,
para que naô poíla corroer o pa-
pel emporetico , em fe filtrando fe
ha de ver que a prata naô fe fe-
para do liquido diflolvente , mas
com elle pafla totalmente. Iíto mef-
mo Ífuccede a todos os metaes quan-
do eftaô diflolvidos nos menftros
que lhes faô proprios. Daqui fe
fegue que a filtraçaõ fó tem lugar,
e fe pratica para feparar dos liqui-
dos aquelles corpos , que naô po-
dem diflolver-fe nelles.
He
De Architelura Civil. 313
He porém de ponderar que
o papel emporetico , por onde a fil-
traçaô fe faz , em eftando embe-
bido , ou molhado por algum li-
quido oleofo, já por elle naô po-
dem pallar, fe naô outros liquidos
femelhantes; e da meíma forte quan-
do eftá molhado , ou embebido por
algum licor aquolo, já por elle naô
pailaõ os oleofos. V g. o papel, por
onde fe filtrou a agoa , já naô póde
fervir para filtrar o azeite; e aquel-
le, por onde primeiro fe filtrou o
azeite, já naô póde fervir para fil-
trar a agoa ; porque os póros do
papel tomaraô a configuraçao do
primeiro liquido filtrado, e depois
de configurados ficaô-fe negando ,
e como impenetraveis a outro li-
quido qualquer, fe he de differen-
re natureza. Defta mechanica, ou
principio certo, refulta huma gran-:
de,
314 Index do Problema
de, e necellaria parte da economia,
ou fabrica vivente de todos os ant-
maes , fem exceptuar nenhum. E
com effeito a organizaçaó do cor-
po fenfitivo todo [e compoem de
huma immenfidade de filtraçoens,
e eltas taô naturaes, e regulares,
que em ceflando alguma dellas, ou
eftando impedida a filtraçaô dos l-
cores animaes , logo vem a enfer-
midade mortal, de que o animal
acaba. A meíma cutis externa, e
fuperficial, he hum filtro vapo-
rofo , por onde a infenfivel tranfpi-
raçaô fe faz ; a qual fe chega a
fufpender-fe, ou a ceflar inteira-
mente por algum accidente exter-
no, ou interior, o animal naô pó-
de permanecer ; porque os humo-
res que deviaô exhalar-fe, ou dil-
fipar-fe por aquelle modo , retro-
cedendo , ou ficando eftagnados em
varias
De Árchiteétura Civil. 315
varias partes , neítas fe pervertem,
e corrompem , de que reíulta infal.
Jivelmente huma multidaô de pro-
greflos morbofos, e mortaes.
No interior dos animaes fad
immenfas as filtraçoens , das quaes
ha muitas conhecidas , e outras
muitas que ainda fe naô conhecem.
Os vafos nao deixaô filtrar , fe naô
alguns , e determinados liquidos. As
vêas v.g. Íó daô paflagem ao hu-
mor forofo, mas naô ao fangue;
para efte naô faô as vêas permea-
veis ; o fangue fe depura circu-
lando, ena mefma circulaçaô dei-
xa paflar pelo filtro natural das
vêas tudo o que naô he proprio pa-
sa reduzir-fe em fangue, Ifto he.
no eftado natural: mas fe o fangue
fe diffolve , perdendo a fua verda-
deira confiftencia , já entaô póde
paflar por aquelles filtros , ou po-
rofida-
316 Index do Problema
rofidades por onde naô cabia: efte
mal raramente he medicavel; por-
que, em os liquidos perdendo o grao
de elpeflidad, ou delicadeza que
devem ter, ou fe trafcolaô indevi-
damente, ou deixaô de trafcolar-fe
como deviaô. E aflim fe confundem
os humores, ou eftagnad em par-
tes donde he nociva a perfiftencia.
A eftruítura dos animaes requer
que os liquidos fe contenhaô nos
feus lugares proprios , e que delles fe
diftribuaõ fem defordem , nem con-
fufaô , até que fe difipem pelos
filtros , ou conduétos ordinarios ,
para que outros femelhantes lhes
fuccedaô. Delta ordem, e econo-
mia regular depende a vida.
Fixo. Fixo fe diz todo aquel-
le corpo que expofto a hum fogo
violento; naô fe exhala, nem per-
de nada da Ífua fubftancia ; aílim
como
DeAtohiteélra Civil, 317
como a terra pura, o ouro, a pra+
ta, as pedras preciofas, e todas as
mais que refiftem a hum fogo ar-
dente, fem que nenhuma das fuas
partes fe diflipe.
Fulmen Sovis. A cada hum
dos metaes impozerad os antigos o
nome de hum planeta : ao eftanho
chamaraô Jupiter; por ilo a acçaõ,
em que o eltanho arde com eitre-
pito , e repentinamente, chamarad
Fulmen Sfovis , alludindo á fabula
de Jupiter que fulmina o raio, A
operaçaô fe faz fundindo-fe o efta-
nho, e fobre efte fazendo-fe a in-
Jecçaô do nitro: no meímo inftan-
te fe fórma a deflagraçad do mef-
mo nitro,que confumindo o eftanho,
com elle fe diflipa inteiramente á
maneira de hum raio que apparece
de repente , e da mefma forte aca-
ba. De todos os metaes Íó do E
nho
318 Index do Problema
nho refulta hum tal phenómeno:
os outros, exceptuando o ouro , e 4
prata, fim fe perdem pela addiçad
do nitro, mas naô por aquelle mo-
do, nem fulminantemente. Na arte
metallica tem o Fulmen Sovis va-
rios ufos ; e por meio delle fe fa-
zem experimentos admiraveis.
Fufivel. Chamaô-fe fufiveis to-
dos aquelles corpos; que expoítos
á acçaô do fogo fe derretem : e in-
fufiveis aquelles todos que por ne-
ahum modo permittem o derreter-
fe ; fegundo a contextura , e na-
tural compofiçaô de cada hum. A
cera v. g. he de todos os corpos
conhecidos o que mais de prefla
fe derrete ; porque bafta o calor
do Sol intenfo para a derreter. De-
pois da cera feguem-fe as materias
pinguedinofas, ou cebaceas , as
quaes facilmente cedem ao calor
mais
De drcbiteeturaCivil. 319
ais moderado. As gomas tambem
faô corpos que fe fundem , mas naô
em calor taô debil. O gelo por fi
meímo fe derrete fem calor artifi-
cial, e fó por aquelle que em fi
tem qualquer clima temperado; e
fe o clima he fummamente frio na
eftaçaô do Inverno, em quanto o
vento feptentrional fubfite, e em
quanto a temperatura do ar naô
muda , permanece o gelo em mafla
Íolida, e naô chega a derreter-fe
fem outro algum calor. Os faes to=
dos faô fufiveis ; mas naô pelo mef-
mo grao , e igualdade de calor ;
porque o nitro bafta-lhe hum calor
pouco activo; o fal commum naô
fe funde fem calor forte; o vitrio=
lo funde-fe facilmente , e da mef-
ma forte o enxofre: os faes alcha-
linos fixos tambem requerem calor
forte. A cal com nenhum calor fe
funde »
320 Index do Problema
funde , porque he corpo infufivel
totalmente ; e todo o genero de cin-
za, naô admitte fufao alguma , pe-
la mefma razaô que a cal a naô ad-
mitte. Ás terras Ífendo puras tam-
bem fe naô fundem, e fó faô fu-
fiveis pela miftura de alguns faes
alchalinos fixos. A arêa funde-fe em
calor forte, e fucceílivo; e os faes al-
chalinos fixos a fazem fundir mais
brevemente, como fe obferva em
todas as fabricas do vidro. Os me-
taes faô os que propriamente faô
fifiveis ; e efta qualidade he de tal
forte propria do metal , que fem
ella naô póde haver, nem fubfiftir
metal algum ; por io , em qualquer
metal perdendo a qualidade fufivel,
tambem ficou perdendo o fer me-
tal: como Ífuccede ao chumbo , e
ao eftanho , os quaes depois que
a acçaô do fogo lhes diffipa a par-
te
De drchitetura Covil. 321
te, a que chamaô phlogiftica , ficaô
reduzidos em pó , e já nefte eftado
naô fe fundem, fem que fe lhes tor-
ne a introduzir aquella parte phlo-
giftica de donde lhes provém a qua-
lidade fufivel; e fe fe fundem pela
miftura de algum (fal alchalino fixo,
he tomando a Ífubftancia do vidro ,
mas naô a do metal. De todos os
métaes o que exige mais calor pa-
ra fundir-fe he o ferro; depois o
cobre; a efte fe fegue. o ouro, €
logo depois”a prata, e depois o ef-
tanho , e ultimamente o chumbo ;
efte he o que fe funde promptamen-
te em hum grao moderado de calor.
He porém para notar que quando os
metaes faô puros, fundem-fe com
mais difficuldade , e querem hum
fogo mais aétivo ; e quando eftaõ
aflociados huns com os outros, en-
taô fe fundem facilmente. Defte
Part. TI. x princi-
322 Iudex do Problema
principio vem que o ouro puro ne-
celta hum fogo mais aétivo para
fundir-fe, e o que tem liga, mais
de prefla cede á acçaô do fogo; e
fe tem grande porçaô de outro qual-
quer metal, naô refifte muito a
aquella acçaô: na prata Íuccede o
mefmo : e defta regra refulta a com-
pofiçaô , ou material com que os
metaes fe foldad; porque a folda
fempre he mais fufivel, do que o me-
tal foldado.
Hermeticamente. Hum vafo de
vidro de longo collo, fe fe derrete
ao fogo o Ífeuorifício, torcendo-o
para ficar tapado com o mefino vi-
dro derretido, he ao que fe chama
tapar hermeticamente. Dizem que
o inventor defte modo de tapar hum
vidro, fora o famofo Rey Hermes
Trifmegifo ; por io fe chama tam-
bem a aquelle artifício , /g1//um ber-
meti-
DeArchitetturaCrvil. 343
meticum. Duvido que o Rey Her-
mes fofle o ;inventor do fello her-
metico ; porque, me .parece que o
artifício he mais moderno : 'nem fei
fe no tempo de Hermes eftava já fa+
bida a invençaô do vidro; nem fe
havia vidro artificial naquelle tem-
po. He certo porém que naô ha
modo de tapar taô exaíto como
aquelle; porque os vidros tapados
de outra qualquer forte, fempre
daô paflagem a alguns licores for-
tes; em lugar que o.fello herme-
tico refifte a todos os licores, por
mais fortes, e fubtis que fejaô, ..
Hleterogencidade:) Vid. Hómo-
geneidade. |
Homogencidade. O corpo, em
que fe naô defcobrem diverfas pár>
tes componentes, ou que. he com-
pofto de huma fó materia (ao pa-
recer ) fe diz fer homogeneo. O
Xu ouro
324 Index do Problema
ouro, epratav. g. faôchimicamen-
te corpos hombgeneos:; porque nel-
les (fendo puros) fenaô defcobre
parte alguma , nem algum ingre-
diente, que naô feja prata, ou ou-
ro: os mais metaes Íaô corpos he-
terogeneos , porque nelles fe ob-
fervaô partes fulphureas,e terreítres,
de que a natureza os fabricou. Os
animaes todos faô corpos hetero.
geneos, porque faô muitas, e di-
verfillimas as partes de que :fe com-
poem. À terra pura he hum corpo
homogeneo ; porque nella: naô ha
parte alguma que naô feja terra
verdadeira: ifto fó fe entende da ter-
ra exactamente pura. |
Indiffoluvel. Indifloluveis fe
dizem todos aquelles corpos que fe
naô diflolvem, ou derretem. Aflim
como v.g.-o fal he diffoluvel na
agoa, e indifloluvel no azeite: o
enxo-
De Architeéhira Cróil. 325
enxofre he difloluvel no azeite, e
indifloluvel na agoa : a prata dif-
folve-fe na agoa forte, mas naô na
agoa regia ; e nefta diflolve-fe o
ouro, ea prata naô. O azougue fe-
gue a natureza da prata , porque
na agoa forte he difloluvel , e in-
difoluvel na agoa regia. O eftanho
fegue a natureza doouro, porque
fe diflolve na agoa regia , e naô
admitte perfeita difloluçaô nã agoa
forte. O ferro diflolve-fe em quafi
todos os corrofivos; porém mais
promptamente nos que faô mais
brandos ,. e algum tanto refifte aos
que: faô mais fortes; por iflo para
bem fe diflolver na agoa forte, ou
efpirito de nitro, he precifo que ef-
te feja diluído , ou enfraquecido
com agoa commua. O cobre na
agoa forte fe diflolve facilmente,
e na agoa regia com mais difficul-
Part. 1 X ui dade
316 Iudex do Problema
dade he diffoluvel. O chumbo tam-
bem fe diffolve no efpirito do nitro,
e difficiimente na agoa regia. As
gomas , e rezinas diflolvem-fe no
efpirito do vinho, porém o fal naô
admitte o diffolver-fe naquelle ef-
pirito : o fal de tartaro Íó fe dif-
folve na agoa fervendo, e na fria
fica indiffoluvel: as materias oleo-
fas , e unêtuolas diflolvem-fe nos
liquidos alchalinos, e naô nos liqui-
dos puramente aquofos.
Todos os corpos tem hum dif-
folvente proprio, em que fe diffol-
vem promptamente ; e naquelles ,
que lhes faô improprios, ou refif-
tem totalmente a elles, ou Ífó fe
diflolvem muito imperfeitamente :
alguns diflolvem-fe em diflolven-
tes frios, outros fem calor naô fe
diflolvem. De todas asgomas , ou
rezinas, Íó o alcanfor le diflolve
na
De ArchitetturaCivil. 3x7
na agoa forte ; e dos mixtos ani-
maes , e vegetaes , nem todos fe
diflolvem igualmente nos menftruos
corrofivos, e a eftes refiftem alguns
corpos, que naô refiftem , e logo
cedem á agoa pura, No eftomago,
ou ventrículo de todos os animaes,
ha hum diflolvente natural , que
diflolve a materia alimentola , o
qual fendo benigno, e infenfivel,
he forte na fua acçaõ.
A perfeita diffoluçad he aquel-
la, em que o corpo diflolvido fica
invifivel no liquido diflolvente , e
taô intimamente unido a elle, e
com igualdade tal, que em fe fa-
bendo a quantidade do corpo dif-
folvido que contém huma parte , los
go fe fabe a porçaô total de huma
mafla grande, diflolvida em huma
grande quantidade do licor que o
diflolveo. Supponhamos v. g. hum
X iv quin-
328 Tudex do Problema
quintal de prata diflolvida em dous
quintaes de efpirito de nitro: fe do
total defta difloluçaô examinarmos,
e foubermos o quanto contém de
prata huma oitava da mefma dif-
Ífoluçaô, fazendo a conta ás oitas
vas que ha no pezo de dous quin-
taes , logo faberemos certamente
o quanto tem de prata toda a dif-
foluçaô inteira. Da mefma forte,
e pelo mefmo principio , fe exami-
narmos , e Ífoubermos quanto tem
de fal huma parte cúbica de.agoa
do mar , fazendo a conta a quan-
tas femelhantes partes cubicas con»
tém hum grande efpaço do mel-
mo mar, logo faberemos o que
tem “de fal. Ifto fó procede nas dif-
Ífoluçoens perfeitas , como faô as
do fal na agoa do mar, as da prata
no efpirito de nitro , as do Mercu-
rio na agoa forte , e outras muitas
feme-
De drchitebtura Cívil. 329
femelhantes ; porém nas diflolu-
çoens, que naô faô perfeitas, naô
tem lugar aquella regra , e póde
fer fallivel alguma vez.
A razaô phyfica de todas as
diffoluçoens , naô eftá demonftra-
da ainda , e parece que nunca o
ha de eftar. O faber-fe a natural
mecanica porque a agoa forte dif-
folve a prata, e deixa intaéto o ou-
ro; e O porque a agoa regia dif-
folve o ouro, e deixa a prata in-
taéta, e outras femelhantes diflo-
luçoens, he hum dos Problemas
que ainda eítaô por refolver. À con-
figuraçaô dos corpos , a analogia
que entre elles ha , e os liquidos que
os diffolvem, a impulfaô dos liqui-
dos nos interíticios dos corpos fo-
lidos, tudo faô fuppofiçoens , ou
conjecturas improvaveis , e que por
nenhum experimento fe verifica a
reali
330 Index do Problema
realidade dellas. Vemos que huma
maíla de ouro pezadiflima , fóli-
da, e compalta , na agoa regia
fe desfaz, e defapparece do meímo
modo que a maíla de algum fal, na
agoa tambem defapparece , e fe
derrete, tomando na agoa a figu-
ra invifivel que naô tinha, e eftan-
do incorporada nella perpetuamen-
te, fe o calor diflipando a agoa a
naô retira, e a naô torna a mofi
trar na fua verdadeira, e natural
figura : he mais para admirar que;
contendo o diflolvente em fi todo
o corpo diflolvido , nem por iflo
crefce de volume, fendo que algu-
mas vezes recebe em fi outro tan-
to , ou maior pezo que o que ti-
nha; de forte que, crefcendo mui-
to no pezo , naô fe augmenta nada
no volume.
E com effeito hum arratel de
efpi-
De Architettura Civil. 331
efpirito de nitro póde diflolver ou:
tro atratel de prata pura; e da
melma forte hum atratel de agoa
commua póde diflolver dous arra-
tes de fal do mar; mas nem por ifi
fo a agoa commua; nem o efpiri-
to de nitro occupaôd mais efpaço,
antes ficaô no melo efpaço que
occupavaô, fem fazer, nem mof-
trar maior volume. Em nada difto
fe repata, Ífendo aliás de reparar;
mas he porque nada do que ves
mos commumente nos admita , fen-
do que os phenómenos ordinarios,
e communs, faô os que contém ás
vezes muitas circunítancias admi-
raveis. Para alguma coufa fer no-
tavel para nós, he precifo que a ve-
jamos raramente , ou que a naô
vejamos nunca ; tudo o que facil-
mente podemos obfervar, parece-
nos que naô merece a noíla obfer-
vaçaõ.
332 Tudex do Problema
vaçaô. À difficuldade de ver, he
a que excita as noílas attençoens;
a facilidade de preíla nos fatisfaz:
cuidamos que o memo he ver que
comprehender ; e julgamos que hu-
ma coufa vifta, eftá tambem com-
prehendida : mas grofleiramente nos
enganamos, porque das coufas que
vemos fempre, e que a cada paílo
eftamos encontrando , fad muito
poucas as de que podemos dar ra-
zaô , nem dizer pofitivamente o
como faõ , nem o como provém os
feus effeitos.
Dizem graviflimos Authores
que ha hum diflolvente univerfal,
de cuja compofiçaô fazem hum my f-
terio occulto , ou hum arcaniflimo
fegredo ; defcrevendo-o fó debai-
xo de intricadilimos enigmas , e
em metaphoricas parabolas. Porém
he neceílario fé para crer que bum
melmo
DeArchirestiraCivil. 333
mefmo diflolvente pola diffolver o
ouro , a prata , o diamante , as
pedras preciofas , e todos Os cor-
pos vegetaes, e mineraes. Segun-
do os principios conhecidos naô pó-
de haver, nem exiftir hum diflol-
vente tal: os que o buícaô parece
que menos inftruidos naô fabem o
que bufcaô , e naô advertem a im-
plicancia que ha. para que. poífa
achar-fe hum diflolvente verdadei-
ramente univerfal. Efte, fe o ha, de=
ve fer entendido: por outro modo,
e naô materialmente como alguns
artiftas fazem :-vejaô bem o que
dizem os authores em que fe fun-
daõ;' naô.figaô as palavras literal-
mente; e entaô veraô ao que de-
vem chamar diflolvente univerfal;
tomem o que as palavras fignifi-
cad , e nado que Íoad : naô re-
montem tanto os voos: nem for»
mem
334 Index do Problema
mem efperanças vãas: Medio tu-
tiflimus sbis.
Lapidificaçao. Alim fe chama
aquella acçaô por onde a natureza
fabrica a pedra; e por onde a ar-
te, com alguma imitaçaô da mefma
natureza, fórma huma materia du-
ra, e bem compaéta , que parece
pedra de algum modo.
Lapidifico. Alim fe dizem os
liquidos fubterraneos , que tem pro-
priedade certa para reduzir em pe-
dra, ou petrificar. Os natulaliftas,
ou philofophos chimicos, todos fal-
laô de hum Íucco /apidifico, de don-
de dizem proceder todas as pedras
que ha no mundo ; da mefma for-
te que dizem haver na terra hum
fucco metallizante de que procedem
os metaes todos. Porém femelhan-
tes fuccos ninguem os vio, nem
obfervou ainda. Alguns authores
tem
De drchiteéiura Civil. 335
tem difpofiçaô para crerem facil.
mente o que naô viraô , nem ob-
fervarad, fiados fómente na fé gra-
tuita dos que efcreverad antes ; e
tudo fem mais prova , que a de hu-
ma antiguidade veneravel. Conve-
nhamos que ha na terra alguma
materia propria de que as pedras,
e metaes fe formaô ; porém naô de-
vemos aflentar fem duvida que
aquella materia propria feja hum
Ífucco mettallizante , ou Japidifico.
E com effeito fe houvefTe hum fuc-
co tal, alguma vez feria achado,
e vifto; e quem o achaffe, com el-
le formaria huma pedra , ou hum
metal; e Íó afim haveria huma
prova certa de huma exiftencia fe-
melhante ; mas ninguem encontrou
ainda aquelle fucco : e aílim pare-
ce que devemos entender que naô
ha na terra hum determinado li-
quido
336 Index do Problema
quido que tenha aquella proprieda»
de, mas fim que as pedras fe for-
maô aílim como fe formaô os ve-
getaes , e mineraes, fem que nós
fabamos nem o como , nem de
que. O haver nas entranhas da ter-
ra hum fucco lapidifico he o mef.
mo que fuppôr a exiftencia de hum
corpo phyfico, que fó he confide-
rado mentalmente; porque na ver-
dade nunca foi vifto, nem achado.
Além de que, fe ha com effeito hum
Ífucco Japidifico, quem levou, ou
como foi ao cume de altos montes
donde vemos os rochedos ? Dirfe-
ha que aquelle fucco foi, e efté nos
lugares eminentes da mefma forte,
que nos mefmos lugares fe encon-
traô tantas agoas: porém efte ar-
gumento naô conclue ; porque, as
agoas faô corpos obfervaveis , e vil-
tos a cada paílo, e tem origem ma-
nifeíta;
De drchiteiura Civil. 337
nifefta ; e o Íucco Japidifico , nad
fei que foffe vifto , ou achado al-
guma vez. He certo haverem pe-
dras, e por confequencia deve ha-
ver huma materia petrificante, ou
petrificavel; porém que efla talma-
teria feja hum Íucco Japidifico , he
Juftamente o que eu ignoro; por-
que a exiftencia de hum corpo ma-
terial , fó prova a fua exiftencia
phyfica, mas naô prova que exif-
te por efte, ou aquelle modo , ou
fe fórme de hum Íucco determina-
do. Nas pedreiras fe obferva quafi
fempre que os bancos de pedra
todos faô parallelos ao orizonte :
efta circunftancia naõ tem fido bem
examinada ainda, e talvez que def-
te exame dependa unicamente oco-
nhecimento de toda a petrificaçaõ.
Maleavel. Maleabilidade. Vid.
Ductilidade.
Parc, IL, Y Mer-
338 Index do Problema
Mercurio. He ao que chama-
mos azougue : os antigos lhe im-
pozeraô aquelle nome ; porque en-
tenderaôd que naquelle femimetal in-
fluia o planeta de Mercurio. De-
pois que a Phyfica fe inítruio me-
lhor , ficarad todos conhecendo
que nenhum dos planetas influe nos
metaes, e que eftes faô corpos in-
crpazes de influencia alguma : def-
te principio veio a refultar o conhe-
cimento certo de que algumas fi-
guras que antigamente fe diziaô
conffelladas , naô tem virtude algu-
ma; a fuperítiçao da Gentilidade
as introduzio ; a Phyfica inftruida
as abolio.
Microfcopio. Aflim fe chamaôd
os inftrumentos feitos com tal arte,
e com vidros figurados em fórma ,
que por meio delles fe defcobrem
os objeétos ; parecendo eftes muitas
vezes
De Architeétura Civil. 339
vezes maiores do que faô na reali-
dade , e que fendo invifiveis pela
fua fumma tenuidade , fó fe po-
dem ver por hum artifício feme-
lhante. E com effeito por meio do
microícopio fe tem feito oblerva-
çoens notaveis, deícobrindo-fe vi-
fivelmente entidades invifiveis , e
de que era impoflivel que os olhos
deílem fé, fe naô foflem auxilia-
dos por aquelle artifício facil ; e
com tal certeza , que naô pode-
mos duvidar da exiftencia phyfica
de todos os objectos que o microf-
copio nos faz ver. Os licores mais
claros, e tranfparentes fuccede te-
rem quantidade immenfa de ani-
malculos viventes que nos meímos
licores fubfiftem [empre em perpe-
tua agitaçaô ; e he para admirar
que em alguns licores corrofivos ;
e que por efta qualidade pareciad
7 inca-
340 Index do Problema
incapazes de conterem animaes vi-
ventes , nelles fe encontraô infin:-
tos , e taô indivifiveis, que para os
olhos os diftinguirem he precifo
que o microfcopio augmente mais
de mil vezes o tamanho verdadei-
ro de cada hum. No ar mais diá-
phano, e mais puro, naô deixaô
de haver femelhantes habitadores ;
e deítes fe quer dizer que procede
a pefte, quando Íuccede ferem de
maligna natureza; poriflo toda a
vifinhança de agoas corruptas faô
infalubres commumente; porque o
ar, em que circulaô humidades pu-
tredinofas , precifamente ha de pro-
duzir verminofas infecçoens: e de
faito a fequidad total he incapaz
de produzir ente algum; que te-
nha vida ; porque fó a humidade
póde circular, e fem circulaçaõ ne-
nhum genero de animal naíce , nem
fe
De Architeflura Civil. 341
fe cria: a organizaçaô de todos os
viventes depende fempre da humi-
dade ; porque eíta he converfivel em
tudo quanto ha; em lugar que a fe-
quidaõ total tem eftado permanen-
te, e naô fe muda , nem conver-
te em coufa alguma ; e he como
o ultimo termo, a que hum corpo
chega, do qual nunca faz mudan-
ça, fem o concurfo de alguma hu-
midade que fobrevenha. E já que
o microfcopio nos conduzio a fallar
da caufa de que-vem a pefte, tam-
bem diremos , que os que opina-
raô que aquelle mal terrrivel opro-
cedia de bichos invifiveis de que na-
quellas occafioens o ar eftá conta-
minado , todos entenderad , e pror
pozeraô varias provas : para fazer
certa aquella opiniad ; porém.ne-
nhum ( que eu faiba) fe fervio de
huma prova natural, e bem conf.
Part. TI, Yu tante,
342 Index do Problema
tante, com a qual fe verifica, ou
ao menos fe faz muito provavel,
que aquelle grande fyftema , ou
conjectura he verdadeiro, e vem a
fer ; que hum dos remedios mais
promptos , e eflicazes para mode-
rar a pefte , confifte commumente
nos perfumes , ou nos fumos difte-
rentes que fe mandaô exhalar nos
lugares inficionados , por meio dos
quaes o ar fe purifica de algum
modo , e fica livre da infecçaô ma-
ior. Porém ,-porque razaô fe puri=
fica o: ar por aquelle modo , ou co-
mo póde hum fumo paflageiro, e
leve mudar o temperamento noci-
vo da atmofphera, ou de hum ef
paço de ar determinado? À folu-
çaô da duvida confilte na mefma
caufa de que procede a pelte ver-
minofa ; porque quando aquelle
mal provém de animalculos invifi-
veis,
De ÁrchitecturaCivil. 343
veis, efpalhados no ambito defte,
ou daquelle ar, entaô he certo que
o fumo deve fer o remedio prin-
cipal; porque todos fabem que o
fumo bafta para fuffocar inteira-
mente certos animaes ; e eftes quan-
to mais pequenos, e invifiveis faô,
tanto mais eftaô expoftos , e fentem
mortalmente a fuffocaçaô do fumo;
porque a mefma tenuidade das par-
tes por onde a.refpiraçaô fe fórma,
conduz para ferem pervertidas, fi-
cando fem acçaôs e he certo, que
ficando fufpendida , e retardada a
refpiraçaô , morre,o animal infal-
livelmente, e duraô mais, ou me-
nos, fegundo a força que tem pa-
rasrefifir a falta de refpirar. Ifto
mefmo fe obferva em animaes vi-
fiveis, e manifeftos, como fad os
mofquitos v.'g. aos quaes he mortal
todo o genero de fumo ; e da mef-
Yiv ma
344 Index do Problema
ma forte a alguns infectos , aos
quaes o fumo do enxofre derretido
caufa o mefmo dano. Sabido elte
principio, já fe moftra a precizad
que ha, de que em doenças con-
tagiofas , ou peftilenciaes , fe ufe
abundantemente do remedio do fu-
mo, praticado por muitas , e re-
petidas vezes, fem que feja necef.
fario que o fumo provenha de al-
guma planta, ou herva efpecial; por-
ue o fumo nad'extermina os ani-
malculos do ar pela qualidade da
herva de que refulta, mas untcamen-
te por fer fumo. Daqui fe infere
que ha muitas coufas que fe fabem,
de que fe naô faz todo o cafo. que
merecem; porque fe ignora o prin-
cipio verdadeiro de que refultaô os
feus effeitos. Efta digreflaõ foi a fa-
vor do publico ; e o Medico pe-
rito nao ha de deixar de fazer
nella
De Arcbitetiura Civil. 345
nella alguma mais extenfa refle-
xao.
No ar naô tem podido o mi-
crofcopio defcobrir vifivelmente a-
quella feminal , ou verminofa ori-
gem de contagio ; porque he de
crer que ha muitas coufas de taô
exquifita tenuidade , que nem por
meio do microícopio as podemos
ver. À natureza naô fó fe compoem
de entidades immenfas no tamanho
da grandeza , mas tambem na im-
menfidade de huma monftruofa de-
licadeza: em algumas póde o mi-
crofcopio , accrefcentando muitas
mil vezes o tamanho, e a figura,
fazer com que poílaô fer viftas, e
obfervadas ; em outras porém, por
mais que o microfcopio faça agi-
gantar os corpos, eftes nunca ficaô
proporcionados aos noflos olhos
para os podermos ver : a fumma exi-
guida-
346 Index do Problema
guidade naô fe deixa vencer por
algum engenho , ou arte. Todos
fabem que ha efpiritos animaes, de
que refulta a acçaô do movimento;
porém eftes taes efpiritos , quem
he que os chegou a ver, por mais
que fe faba com certeza que tem
a fua refidencia, e exitem corpo-
ralmente nos liquidos dos mefmos
animaes? Os efpiritos fabricadores
da memoria , do entendimento , e
penfamento , do vigor , ou força
mufcular , e de outras muitas, e
innumeraveis acçoens viventes, Íó
fe manifeftaô pelos feus effeitos, e
nunca por fi mefmos: os melhores
microfcopios naô tem podido fazer
efle milagre. O que tem feito he
fazer ver nos orbes celeítes os fa-
tellites de Jupiter, e Saturno mas
naô as entidades corporaes que faô
infinitamente pequenas , por mais
que
De Architettura Civil. 347
que eftejaô chegadas aos noflos
olhos; porque o corpo de todos os
efprritos confifte em huma eftu-
pendiílima , e como milagrofa exi-
guidade.
Nitro. He o mefmo que fali-
tre, afim chamado vulgarmente
Oleo de tartaro por deliquio.
Tartaro val o mefmo que farro;
efte provém fempre de todos os li-
quidos que fermentad; e he huma
concreçaô falina, e oleofa, que fi-
ca encoltada na parte concava do
vafo em que a fermentaçaõ fe fez,
De todos os liquidos, depois que
fermentaraô , provém aquelle farro,
ou em mais, ou em menos abun-
dancia, fegundo a qualidade do li-
quido fermentado : porém quando
fe dizo farro,ou tartaro fimplefmen-
te, entende-fe o do vinho depois de
fermentar o mofto na vafilha : def-
ta;
348 Index do Problema
ta, ou da fua cavidade interior fe
tira o farro chamado tartaro , O
qual fe expoem fobre hum fogo
ardente em que fe queima , exha-
lando hum copiofo, e negro fumo,
que he a parte oleofa que o mefmo
fogo aparta da falina , ficando efta
purificada por aquelle modo , e li-
vre totalmente da parte oleofa com-
buftivel: entaô expofto o tal farro
queimado em hum vafo aberto, a
humidade do ar penetrando o mef-
mo farro, o humedece tanto , que
o faz diflolver-fe todo, ficando li-
quido, como qualquer fal diffolvi-
do naagoa. Ifto he ao que fe cha-
ma oleo de tartaro por deliquio ;
porém do oleo verdadeiro naô tem
nada , porque naô he inflammavel
Já 5 mas chamafe-lhe oleo , porque
he menos liquido do que a agoa,
e tocado com a maô faz fenfaçaô
de
De Architeelura Civil. 349
de hum liquido unêtuolo , naô
contendo alias unétuofidade algu-
ma. Efte memo chamado oleo , fe
depois de filtrado fe expoem fobre
hum fogo moderado para expellir
delle a humidade toda, o que fica
he hum verdadeiro fal, a que fe
chama fal alcalino fixo; o qual pa-
ra confervar-fe fecco, neceílita ef-
tar tapado exactamente em vafo de
vidro, ou bem vidrado ; porque ,
naô fendo afim, torna a humede-
cer, ea deliquar-fe. O fal de todas
as cinzas de vegetaes queimados
contém hum fal da mefma nature-
za, e com todas as melmas quali-
dades, e daô igualmente hum fal
alcalino fixo; porém o mais forte ,
e o mais recommendado no ufo de
varias artes, he o que provém do
farro do vinho , fabricado na fór-
ma mencionada.
Orbi-
350 Tudex do Problema
Orbita. He hum termo aftro-
nomico : fignifica o caminho que
os planetas defcrevem no feu giro.
A orbita do Sol he o Zodiaco , por-
que deíte naô fe aparta , e he o
caminho que fe diz, que o Sol del-
creve no feu giro annual.
Pbhlogiftico. Aflim fe chama
aquella parte que induz duétilidade
nos metaes; porque extrahida del-
les a parte Phlogiftica, já o metal
nem fe funde fobre o fogo , nem
tem ductilidade alguma , porque fi-
ca reduzido em pó. Do ouro , nem
da prata , naô fe póde extrahir a
parte phlogiftica ; porque nem o
fogo mais violento , nem os efpi-
ritos fortes, e corrofivos podem fa-
zer aquella tal feparaçaô. O efta-
nho, e o chumbo, facilmente per-
dem a fua parte phlogiftica, por-
que poftos em fundiçaô continua-
da
De Árchiteétura Civil. 351
da exhalaô hum fumo branco, em
que a phlogiftica parte fe diflipa ;
porém fe nefte eftado fe lhes jun-
ta alguma materia oleofa , unétuo-
fa, oucebacea, tornad a recobrar
aquella parte perdida , e tornaô a
ferem fuziveis , e duétiveis. Efta fin-
gularidade tem fido obfervada pou-
co; talvez que os que vierem fa-
çaô nella mais profunda obferva-
çaô; e deita , ao que eu entendo,
haô vir a refultar utiliflimos effei-
tos, e inventos admiraveis.
Precipitar. He hum termo chi-
mico , que val o meífmo que fa-
zer cahir ao fundo do vafo o corpo
diflolvido em algum liquido dif
folvente. Iíto fe obferva na diflo-
luçaô da prata em efpirito de ni-
tro, ou agoa forte : fe nefta com
effeito fe acha diflolvida a prata,
enfraquecendo-fe com agoa com-
mua
352 Index do Problema
mua a diffoluçaõ, e deitando- fe nel-
la huma certa porçaô de cobre , eí-
te novamente fe diflolve naquelle
liquido , e faz cahir ao fundo do
vafo a prata corporizada já , e li-
vre da difloluçaô em que fe acha-
va: entaô fica diflolvido o cobre
no mefmo diflolvente ; e defte fe
fe quer retirar o cobre diflolvido ,
Junte-fe á difloluçao huma certa
porçaô de ferro, o qual fe diffol-
ve, e faz cahir ao fundo o cobre,
ficando fó diflolvido o ferro; e fe
entaô fe junta á difloluçaô huma
certa porçaô de pedra calaminar ,
efta da mefma forte fe diflolve, e
faz cahir ao fundo o ferro; e fe fe
Junta á mefma difoluçaô huma cer-
ta porçaô de fal alchalino fixo, ef-
te deftruindo o acido nitrofo , faz
cahir ao fundo a pedra calaminar ;
e o que entaô ultimamente fica,
he
De drchiteciura Civil. 353
he hum fal neutro. Aquella acçaô
de fazer cahir ao fundo do valo con-
tinente o corpo diflolvido he ao
que fe chama precipitar.
À razaô,porque hum corpo dife
folvido fe precipita quando vem ou-
tro que fe diflolve, parece que pro-
cede de huma efpecie de fympathia,
ou analogia entre o corpo diflolvi-
do, e o diflolvente; porque o ef.
pirito do nitro , que fympathiza mais
com o cobre do que com a prata,
efta fe precipita por aquelle; por-
que o efpirito de nitro, que tinha
unido , e incorporado intimamente
afia prata, logo a larga para to-
mar o cobre , e a efte tambem lar-
ga para tomar o ferro; e a efte
faz o mefmo para fe unir com a pe-
dra calaminar : efta he a que fica
ultimamente diffolvida, e unida per-
feitamente ao efpirito do nitro; até
Part. II. Z que
354 Index do Problema
que hum fal alchalino fixo, deilru-
indo o acido nitrofo , tira-lhe q
vigor , “e força com que eltava
para diflolver aqueltes corpos to-
dos.
Se no mundo ha fympathias,
aquella he huma dellas ; e taô conf-
tante entre o efpirito do nitro, e
aquelles metaes todos , que feni
que o efprrito fe deítrua , naô per-
de aquella propriedade , ou incli-
naçaô; amando a huns mais do que
a outros ; e deixando huns por
amor dos outros. Na difloluçaô do
ouro na agoa régia fuccede o mef-
mo, porque o ouro fe precipita por
meio do eftanho , fazendo no liqui-
do diflolvente raios purpurinos com
viftofas apparencias ; e o eftanho
diflolvido tambem fe precipita por
meio de hum fal alchalino fixo. E
aílim fe vê que aquelles diflolven-
tes
Dedrchitetura Civil. 35%
tes repellem alguns corpos para in-
corporarem a fi outros. Que outra
coufa mais he a (ympathia fe naô
aquillo mefmo? No Iman he mais
vifivel huma femelhante propenfaô,
e muito mais conftante , porque at-
trahe oferro, enada mais; enaô
fó fe manifefta quando fe dá a pre-
fença immedita de hum , e outro;
mas ainda eftando feparados em
diftancia proporcionada aa vigos
da pedra. Que admiraveis experis
mentos ; e que effeitos utilifimos
tem refultado felizmente daquelle
amor reciproco, econftante! q
Naô podemos pois negar a
exiftencia perpetua de huma efpe-
cie de fympathia entre aquelles cor-
pos , fe he que naô he fympathia
verdadeira, e rigorofa; e fe a ha
entre os licores, e metaes ; e em:
tre eftes, € os mineraes ; como a
Zu naõ
356 Index do Problema
naô ha de haver entre os coraçoens
dos animaes ? eftes fendo fenfiveis
naturalmente, e fendo por fi mef-
mos propenfos, e inclinados , co-
mo póde deixar de haver entre el-
les fympathia ? Todos fabem que
o Mercurio fe incorpora intimamen-
te ao ouro, e fe une como com af-
feito irreprimivel ? em fegundo lu-
gar faz o mefmo à prata, depois
ao eltanho , ao chumbo , ao co-
bre; mas em primeiro lugar ; e
com mais vigor ao ouro, do qual
fe naô fepara, fe o fogo o naô
obriga a feparar. Porém naô fabem
todos a juíta proporçaô em que O
Mercurio póde unir-fe á aquelles
metaes todos : eu a communiquei
na palavra amalgamar.
Alguns explicad as precipita-
çoens, admittindo fyítemas , que
ainda eftaô por demonítrar, e que
faô
DeArchiteltura Civil. 357
faô mais difficeis de entender, do
que a mefma queítad que fe quer
explicar com elles. À razaó da fym-
pathia , ou antypathia , he razaô
reprovada hoje ; talvez que feja
defprezada , fó por fer antiga; por-
que aflim como em algumas cou-
fas a antiguidade tem caracter ve-
neravel , em outras a mefma an-
tiguidade he fundamento defprezi-
vel. A impulfaõ , e repul(aõ dos cor-
pos , com que os Phyficos modernos
pretendem explicar os phenómenos
naturaes , naô daô explicaçaô al-
guma ; porque a duvida fica fem-
pre fubfiftindo , vifto que por aquel-
le modo naô fe diz de que procede
effa mefma impulfaô , e repulfaõ;
e val o meímo naô explicar a cou-
fa, que explicalla de buma forte,
que a explicaçaô necelite fer ex-
plicada. O dar à fympathia o.no-
Part. II. Zn me
358 Index do Probleina
me de impulfaô, he dizer o mefmo
por outra fórma ; e a differença nos
vocabulos naô induz differença
nas fubftancias.
E aílim de que havemos de
dizer que procede a precipitaçaõ
de hum corpo diflolvido em hum
liquido diffolvente? Digamos, fun-
dados em hum principio certo, o
qual he , que todos os diflolven-
tes quantos ha, naô diflolvem
igualmente os corpos difloluveis
nelles; mas a huns diflolvem com
mais facilidade do que a outros
Iíto fe demonftra com a agoa com-
mua , na qual muitos corpos fe
diflolvem, mas nenhum com tan-
ta facilidade como O nitro, ou o
fal commum: e pelo mefmo fun-
damento os diflolventes , a alguns
corpos retém , e guardaô em (fi
com mais innata propriedade , e
perfif-
De Architeciura Civil. 359
perfiftencia do que a outros. Ifto
fe demonftra tambem com a diflo-
luçaô confufa de varios , e differen-
tes faes na agoa commua. Diflol-
vamos v. g. naquella agoa o fal do
mar, onitro, e o fal extrahido de
quaefquer cinzas. Nefta difloluçad
confufa daquelles faes havemos
de achar infallivelmente que en-
trando a evaporar a agoa que os
diflolveo até apparecer a pellicula
falina que vem à fuperficie do dife
folvente , pondo a eíte em lugar
frio, depois de paflarem algumas
horas, o primeiro fal que fe crif-
talliza ; tomando fua propria, e na-
tural figura , he o nitro ; o qual
extrahido do diflolvente, fe a efte
tornamos a evaporar até á forma-
çaô da pellicula falina, e pondo-o
da meíma forte em parte fria, de-
pois de paflarem algumas horas,
Z iv vere-
360 Index do Problema
veremos criftallizado o fal do mar;
até que ultimamente fica no diílol-
vente o fal das cinzas incriftalliza-
vel, e fó feparavel por meio da
evaporaçaô total da agoa, que ti=
nha diflolvido aquelles faes.
Por aquelle modo fe demonf-
tra evidentemente que a agoa com-
mua (que aliãs he como hum dif-
folvente univerfal) nad diflolve os
faes com a melma, e igual facili-
dade; porque huns mais de prefla
fe diflolvem nella, e em maior por-
çad; e outros em porçaô menor ,
e com mais vagar : tambem fe vê,
que a agoa commua naô larga de
fi confufamente aquelles faes con-
fufos, mas fim gradualmente; por-
que o primeiro que larga , e fe crif-
talliza, he o nitro; depois logo fe
fegue o faldo mar; e ultimamente
fica com tenacidade unido à agoa o
fal
De drchiseeinra Cívil, 361
fal das cinzas, da qual fe naô fepa-
ra fem que violentamente o fogo
o faça feparar. E aflim fica mani-
fefto que a agoa commua, o fal
para que propende mais, e a que
mais fe une he o das cinzas vege-
taes; depois defteo fal, que retém
mais, he o do mar; e depois def-
te, o com que menos fe entranha,
e incorpora , he o fal nitro. Pofto
pois; e demonftrado efte principio,
vamos ao que fe fegue.
No exemplo de que fazemos
mençaô aílima , vimos que , eftan-
do a prata diffolvida na agoa forte,
fe fe junta à difloluçaô o cobre,
eíte faz precipitar a prata ; fican-
do diffolvido o cobre ; efte preci-
ta-fe pelo ferro; e eíte tambem pe-
la pedra calaminar fe precipita; e
á pedra calaminar fuccede o mef.
mo pela juncçaô de hum (fal de
no
362 Index do Problema
lino fixo. Se perguntarmos de que
vem, oude que procedem aquellas
regulares precipitaçoens ; diremos
(fundados no principio pofto affi-
ma) quea agoa forte diflolve com
mais facilidade o cobre do que a
prata, por iflo o acido nitrofo
(que he em que refide a força dif-
folvente) delampara a prata, pa-
ra diflolver o cobre ; e neíta ac-
çaô a prata livre já daquelle aci-
do , a que eftava unida, cahe, ou
precipita-fe ao fundo do vafo que a
contém; e da melma forte aquel-
le acido, que diflolve com mais fa-
cilidade o ferro do que o cobre, na
acçaô de diflolver o ferro, larga o
cobre para fe unir, e diflolver o fer-
ro; e por hum igual principio,
aquelle acido , que mais facilmente
diflolve a pedra calaminar do que
o ferro , deixa a eíte para diflol-
ver,
De Architeilura Civil. 363
ver, e fe unir á pedra calaminar ;
eao mefmo tempo, para a diflol-
ver, larga o ferro que entaô fe pre-
cipita. Ultimamente fe fe ajunta a
aquelle diflolvente qualquer fal al-
chalino fixo, efte deftruindo o aci+
do, fa-lo incapaz de diflolver ou=
tro corpo algum, porque a todos
expelle, e precipita para fó elle fi-
car unido ao acido , com o qual
copoem hum novo genero de fala
que chamaô neutro , porque nem he
acido, nem alchalino, mas compofto
de hum , e outro , por iflo alguns
fallando daquelles dous faes unidos
difleraôd: Erstis duo in carne una , fi-
gurando em hum a qualidade maf-
culina , e em outro a feminina,
Se fe perguntar ainda porque
razaô o acido nitrofo diffolve com
mais facilidade huns corpos do que
outros , diremos que dos primei
ros
364 Index do Problema
ros principios naô fe faz queftad,
nem fe pergunta a caufa; porque
fe afim fofle , entrar-fe-hia em hum
progreflo em infinito , inquirindo
fempre qual he a caufa da caufa.
Naô fe admite o queltionar-fe a
razaô v.g porque a terra he com-
paíta, e folida; nem a agoa por-
que he fluida; nem o ar, porque
he diáphano; nem o porque o fo-
go tem calor. Podemos difputar fo-
bre a natureza das coufas elemen-
tadas; e naô fobre a natureza oria
ginal dos elementos: bafta que dif-
corramos Ífobre os effeitos fecunda-
rios; porque o conhecer os effeitos
primarios , ou caufas primordiaes ,
naô he para nós. E aflim quando
dizemos que hum corpo diflolvido
em hum licor fe precipita, porque
o licor diffolve outro com mais fa-
cilidade , demonitrando efte prin-
cipio ;
De Architeelwra Civil. 365
cipio, temos fatisfeito. À humana
indagaçaô tem limites certos, dos
quaes fe naô póde paflar humana-
mente.
Sal commum. He o mefmo que
fal do mar.
Sal gema. Efte he o nome que
em Latim , e em todas as lingoas
Europeas,fe dá a hum genero de fal,
ue he da mefma natureza que o
fal commum , e que ferve para os
ufos todos a que ferve aquelle fal,
A figura do criftal brilhante lhe
fez dar a denominaçaô de gema ,
ou pedra preciofa ; porque com ef-
feito reprefenta huma pedra cubi-
ca, eluítrofa. Defte fal querem di-
zer que procede o fal do mar; por-
que hum , e outro tem a meíma
qualidade , e com elles fe fazem
igualmente os meímos experimen-
tos; Íó com a diferença , e
a
366 Index do Problema
fal gema he mais puro do que o ou-
tro, enas fuas operaçoens moftra
fer mais forte, Se defte procede o
fal do mar, he queítaô naô decidi-
da ainda; porém o fer hum, e ou-
tro da melma natureza em tudo,
faz conjecturat provavelmente que
do fal gema refulta o fal commum.
Mas como havemos de entender,
e perfuadirnos que as minas de fal
gema que ha na terra fejaô baftan-
tes para dar ás agoas do mar todo
o fal que ellas contém ? Parece;
que fe toda a terra fe convertefle em
fal gema, nem aílim poderia fazer
o mar falgado; porque fendo o ef-
paço do mar muitas vezes maior do
que o ambito da terra, fica fendo
incrivel que o fal da terra diffolvi-
do naqueilas agoas as fizeflem taô
falgadas. Alguns quizerad que o
mar foffe-falgada defde a fua crea-
çaó:
De drchireeturaCivil. 367
gaô: efta opiniaô parece bem fun-
dada , ainda: que feja improvavel
por fi mefma. Os que differaô que
a operaçaôd do Sol fobre as meímas
agoas he de donde lhes procedeo,
o fal, conjeéturaraõ fem fundamen-
to racionavel ; porque naô fe via
ainda que os raios do Sol fizeffem
femelhante producçad em outras
agoas nem ainda naquellas que fe
naô movem , cuja circunftancia , ou
falta de movimento deveria contri-
buir eficazmente para a formaçaô
do fal,fe ella em fi fofle poflivel;por-
que todo o corpo, que fe naô mor
ve, conferva mais aptidaô para
receber impreíloens eftranhas. As
palavras do fagrado Texto: Spiri-
tus Domini ferebarur fuper aquas »
parece que fe podem applicar ao
fal: efte na verdade he hum corpo
confervativo , e fempre foi fingu-
lariza-
368 Index do Problema
larizado, ou efpecializado entre os
outros corpos todos ; e o mefmo
Salvador do mundo fallando delle ,
diffe aos feus Apoftolos: Vos eftis
Jal terre. E com effeito o fal com-
mum he o que conferva , e faz as
agoas do mar incorruptiveis, ain-
da mais do que o movimento del-
las; por iflo póde chamar-fe ao fal
Espirito do mar, porque a confer-
vaçaô de todos quantos corpos ha
depende da materia efpirituofa que
elle tem , fem a qual tendem na-
turalmente para huma infallivel cor-
rupçaô. Lito fe comprova com infi-
nitos experimentos ; e hum delles
he o vinho, do qual fe fe lhe tira
o efpirito inflammavel , logo dege-
nera, e fe corrompe; e quando fe
lhe introduz maior porçaô daquel-
le meímo efpirito, fica o vinho in-
corruptivel de algum modo ; por-
que
De drchitectura Civil. 369
que fe o efpirito fó por fi naô ad-
mitte corrupçaô , e-he totalmente
incapaz della, antes ferve para pre-
fervar de corrupçaõ , todos quan-
tos corpos ha, e que faô corruptis
veis de ft mefmos. Com tudo eu naô
Julgo a queftaô , nem refolvo fir-
mente fe o fal do mar provém do
fal gema diflolvido nelle, ou fe as
fuas agoas foraô falgadas deíde a
fua creaçaô ; porque he melhor
fique duvidofa , e irrefoluta , do que
aflentir em hum fyftema igualmen-
te duvidofo : na Phyfica , a prova
conjeétural tem pouca , ou nenhu-
ma authoridade ; porque em tudo
o que he improvavel , ou em que
naô ha nem podem haver provas
evidentes, devemos refpeitar mais
a indecifaô, do que a foluçaô; e
efta quando eftá deftituida de evi-
dencia , naô fó he defprezavel, mas
Part. II. Aa tam-
370 Index do Problema
tambem influe delprezo na mate-
ria decidida : a efcuridade total
tem mais valor, do que huma cla-
ridade fombria, e mal fegura, Ito
deve proceder aflim em todas as
queítoens da Phyfica; porque nel-
tas naô ha obrigaçaõ » nem ne-
cellidade de julgar ; naquillo po-
rém, em que he precifo o decidir,
Rad contentar-nos com as pro-
vas que feachaõ, fem exigir maior
clareza do que aquella que fe acha,
e naô toda a que póde achar-fe :
daqui naíce muitas vezes huma in-
Juftiça neceflaria.
Sal neutro. Alim fe chama o
fal, que nem he acido , nem al-
calico ; mas he formado de hum,
e outro; por io fe chama neutro.
Se faciarmos o efpirito do nitro
com o'eo detartaro por deliquio;
depois de feita a faturaçaô, reful-
ta
De drchitectira Civil. 371
ta hum fal, que nem he acido,
nem alcalino , mas compoíto de
hum, eoutro. Na juncçaô daquel-
les dous liquidos contrarios, o aci-
do do nitro , penetrando logo o al-
calico do tartaro, o deftroe; e da
meíma forte o alcalico tartarofo pe-
netrando o acido nitrofo tambem
lhe tira, ou desfaz a corrofaôd , mu-
dando-lhe inteiramente a indole.
No corpo dos animaes Íuccede
aquillo meímo; porque o que a ar-
te fabrica aprefladamente , a natu-
reza lentamente faz , e com mais
feliz fucceílo quando a arte a foc-
corre, e patrocina.
Sal nitrofo. He o mefmo que
falitre.
Sublimaçao. Alim fe denomi=
na toda aquella operaçaô, em que
por meio do calor, hum corpo fu-
blimavel fe levanta ao alto do vafo
Aa nt fubli-
372 Index do Problema
fublimatorio , e aquillo mefmo que
chamamos diftillaçao nos corpos
liquidos , chamamos fublimaçaõ a
reípeito dos corpos feccos ; os li-
quidos fe diftillao, os feccos fe fu-
blimaô eftes como naô faô taô ex-
panfiveis como aqueles, naô paf-
faô ao valo chamado recipiente, e
fó ficaô juntos, ou pegados na ca-
vidade fuperior, e interna do valo
fublimatorio. Por efte modo fe fa-
bríca o fublimado mercurial, e da
mefma forte fe fabrica afim a flor
do enxofre, o fal volatil armonia-
co, e outras muitas compofiçoens.
Porém nem todos os corpos feccos
faô fublimaveis , porque fó o faô
aquelles que faô volateis: os que
faô fixos nunca por fi mefmos fe
fublimaô, por mais que o fogo feja
activo , e continuado ; e quando
com efeito fe fublimaõô , he pela
intima
Dedrcbitetlura Covil, 373
intima juncçaô de outro corpo vo-
latil por fi mefmo. Nenhum me-
tal ( exceptuando o azougue ,
que he fó femimetal) fe fublima;
porém a conjuncçaô de hum corpo
volatl faz que os metaes facil-
mente fe fublimem. O fal armonia-
co faz fublimar os metaes todos,
unindo-fe eftreitamente a cada hum,
e levando-os comigo ; por io à
aquelle excellente fal chamaô os
chimicos Áquila alba. O azougue,
naô fó fe fublima eftando Íó, más
tambem promptamente fe diftilla
como qualquer liquido vegetal.
Tartaro Vid. Oleo de tartaro.
Vidro circulatorio. Todos os
vidros, a que fe tapa o orificio, ou
feja hermeticamente , ou por ou-
tro modo algum , fe chamaô Circa-
latorios. Nelles Circulaô com ef-
feito os licores volateis, aos quaes
Part. II. Aa mi fe
374 Index do Problema
fe quer conciliar mais eficacia, ou
mais vigor; porque o calor do fo-
go fazendo os fubir infinitas vezes
ao alto do valo, de donde defcem
para a bafe concava , aflim fe pu-
rificaôd, e adquirem mais virtude,
e propriedades differentes daquellas
que tinhaô antes. Da czrculaçao con-
tinuada muito tempo ; e com pa-
ciencia refultaô effeitos fingulares ,
e muitas vezes inefperados ; o ar-
tifta apenas póde perceber a razaô
phyfica, porque fem additamento
de materia, hum licor fimples, ou
compofto ; produz mudanças ad-
miraveis , fem intervir na opera-
çaô mais circunítancia alguma do
que a circulaçaô conftante, e repe-
tida. Os licores que fe circulaô faô
volateis, porque fó no que he vo-
latil tem lugar a circulação; vitto
que o licor deve Íubir ao alto do
valo
De Árchitettura Civil. 375
vafo circulatorio, reduzido em va-
por ; donde tornando a tomar a
ua fórma liquida defce ao fundo,
e daqui torna a Íubir, e a delcer
infinitas vezes. Ifto he ao que Íe
chama Circular.
Hum dos fins, para que os
licores fe fazem circular , he para
os fazer menos volateis ; porque
aquella acçaô continnada lhes ti
ra a propenfaô de fe exaltarem , ou
fubirem; e nefte eftado neceffitad
mais calor para poderem circular ;
até que com effeito difficultofamen-
te fobem, perfiftindo immoveis na
parte inferior do vidro circulato-
rio: entaô fe fe adminiftra hum ca-
lor mais forte do que aquelle que
o licor póde fopportar, fubitamen-
te arrebenta o vidro ; e fe he no
tempo, em que o artifta o obferva,
os fragmentos do mefmo vidro o
Aa iv ferem,
276 Index do Problema
ferem, e muitas vezes o deixad fem
poder obfervar mais nada ; por iÍ-
fo dizia o Meftre: Cave oculis , au-
ribus , maribus. E na verdade he
perigofa a adminiftraçao de hum
calor forte; porque naô Ífó fe cor-
te o rifco de que o vidro repenti-
namente defpedaçado offenda os
olhos do artíta obfervador , mas
tambem de que o vapor quente do
licor que fe circula fuffoque ao mef-
mo artiífta em hum inftante ; e quan-
do o licor he corrofivo , o vapor
delle defordena infallivelmente a
fabrica vital da refpiraçaô , e efta
depois de defordenada , e corroida,
nem Efculapio poderia dar reme-
dio.
O oleo do vitriolo , que he
volatil em hum vidro aberto , fe
efte fe fecha, para que circule o
oleo dentro, moíftra, e tem refif-
tencia
De drcbitetura Civil. 377
tencia para Íubir; porque o feo pe-
zo efpecifico , e maior que o de
todos os mais licores, o faz refif-
tir a hum calor commum ; e fe ef-
te fe augmenta para fazer circular
o oleo, o fogo intenfo , dando a
aquelle oleo huma forçada volati-
lidade, entaô o vapor ardente rom-
pendo o clauftro do vidro circula-
torio, em hum inftante o defpeda-
ça; e enchendo hum grande efpa-
ço do ar vifinho de hum halito cor-
rodente , e cauítico, faz ulcerar to-
das as membranas por onde a inf-
piraçaô , e refpiraçaô fe fórma. O
Mercurio que tambem coftuma cir-
cular-fe para o reduzir em hum pó
medicinal , exige igual cautela;
porque o feu vapor naô deixa de
fer nocivo, ainda que o mal que pro-
cede delle, he menos prompto, e
procede lentamente; mas por iílo
meímo
378 Index do Problema
meímo he fummamente perigofo ;
porque nunca fe attribue ao vapor
mercurial o dano protrahido , e que
quando fe manifeíta já naô lembra
o vapor de que veio a refultar; en-
taô naô fe conhece a enfermidade,
e injuftamente fe bufca outro mo-
tivo, fendo a caula do mal mui dif
ferente , do que aquella de que
fe entende proceder.
A razaô da volatilidade dos li-
cores, que circulaô, ainda naó ef-
tá bem conhecida ; as conjecturas
que temos nefte ponto faô pouco
ponderaveis; porque as provas em
que fe fundaô fatisfazem pouco.
Ha porém alguns experimentos,
em que fe naô tem feito o reparo
neceflario ; nem fer fe os meímos
experimentos faô vulgares , ou fe
faô fó meos ; porque naô vi que
ninguem os obfervafle , nem fizeí-
fe,
De Architectura Civil. 3:79
fe, ou os efcreveíle. O chumbo,
e o eftanho fabem todos, que em
eftando fundidos em qualquer vi=
dro aberto , e em hum grao de ca-
lor determinado, logo entraôd a ex-
halar hum fumo branco ; porém he
menos obfervada a circunftancia de
que o mefmo eftanho , ou chumbo
que eítando fundidos em vafo deí-
coberto , exhalaô aquelle vapor
denfo ; e branco; fe fe poem em
vidro circulatorio; em que o orifi-
cio fe tapa exactamente, já entaô
nenhum vapor exhala , nem Íobe
ao alto do valo que o contém ; e
de tal forte, que refiftem ao fogo
mais activo , fem que o vidro fe
defpedace , ou arrebente. O mef-
mo fuccede ao Bifmuth que he hu-
ma elpecie de eltanho artificial, e
quebradiço. O enxofre fendo hum
mineral muito volatil, e inflamma-
vel,
330 Index do Problema
vel , eftando derretido em vidro
aberto, fe o poem no vidro circu=
latorio, nem fe exhala, nem fe in-
flamma, nem quebra o vidro que
o encerra, por mais que feja forte
o fogo que o derrete, e por mais
que a operaçaô fe continue. À cau-
fa defte phenómeno indagaraô ou-
tros; e eu por hora bafta que pro-
ponha o experimento , e defte co-
nheceráô os operarios de varias at-
tes, a importancia de que he o ef-
tarem tapados, ou defcobertos os
vidros, ou os vafos de que fe fer-
vem, fegundo as intençoens dos
que dirigem alguma operaçaô.
Naô he menos admiravel o fe-
guinte experimento. Ponha-fe em
hum vidro circulatorio qualquer
porçaô de agoa commua; com tan-
to que naô occupe mais do que a
terceira parte, pouco mais, ou me-
nos ;
De Architetura Civil. 381
nos, do efpaço efpherico do vidro;
efte fe tape hermeticamente , e de-
pois fe ponha ao calor moderado
de huma luz, a cujo artifício cha-
maô os Latinos : [gais lampadis ;
e os Francezes tambem lhe cha-
maô : Feu de lampe. Verfe-ha logo
nos primeiros dias da operaçaô,
entrar a agoa a circular, fubindo
ao collo do vidro, e defcendo pa-
ra a parte concava em figura de
lagrimas criftallinas, fazendo hum
apparato viltofo de globulos deca-
dentes. Dura aquella Ícena alguns
dias fucceílivos , confórme a por-
çaô de agoa empregada nella: de-
pois fó fe diftinguem algumas pin-
gas da mefma agoa , porém já me-
nos volateis : em fe augmentando
a mefma qualidade de calor, torna
a manifeftar-fe a circulação abun-
dantemente , até que de todo fe
fufpen-
382 Index do Problema
fufpende, e a agoa fica como im-
mobil na parte inferior da efphera,
Netfte eftado fe o calor fe augmen-
ta mais, arrebenta o vidro , redu=
zido em particulas infinitas : e quan-
to mais o vidro he groflo , tanto
mais he violenta a explofaô da agoa
que continha.
Algum incauto artifta fe vif-
fe a agoa immobil no fundo do vi-
dro circulatorio , e fem fubir ao al-
to delle, naô obftante o calor ad-
miniftrado , logo havia de enten-
der que a agoa por meio da circu-
laçaô eftava fixa, porém enganar-
fe-hia, como muitos fe enganaraô
em outros experimentos femelhan-
tes. À razaô phyfica, porque aquel-
la agoa fica immobil , provém de
caufa fufficiente, e naô de fixaçaô;
e vem a fer; que oar que a agoa
tinha em fi, fahindo della por meio
do
De Arcbitellura Civil, 383
do calor, occupou o efpaço inte-
rior do valo circulatorio, de cuja
occupaçaô veio a refultar que a
agoa naô podeíle fubir , porque
já naô tinha efpaço livre, por
eltar todo cheio com o ar que o
occupava ; da melma forte que
hum cilindro cheio de ar com-
prelo naô póde admittir outro
corpo algum , em quanto a com-
preflaô lubfifte; porque he faéto
ciemonitrado vifivelmente , que pa-
ra hum corpo entrar em algum. ef-
paço determinado , ha de fer ex-
pellindo o ar que contiver o corpo
que houver de occupar aquelle ef-
paço. E aflim o phenómeno que á
primeira vifta admira , em fe fa-
bendo o principio de que refulta ,
perde a notabilidade toda , e naô
admira mais.
Outro experimento bem fim-
ples »
384 Index do Problema
ples, e naô advertido ainda, e
que encontra hum dos principios
certos em que a Phyfica fe funda
muitas vezes, he hum com que fe
póde demonftrar que a regra da
dilataçaô, ou expanfibilidade do
ar, naô fe verifica lempre, e tem ca-
fo em que fe limita : o experimen.
to he efte. Tome-fe hum vidro cir-
culatorio, e feito por aquellla fór-
ma a que os artiftas Francezes cha-
maô Matraz ; deíte fe tape o ori-
ficio hermeticamente fem que den-
tro tenha licor , nem materia al-
guma. Se oar, que elte vafo con-
tém dentro , he expanfivel, e di.
latavel pelo calor, em fe pondo o
valo fobre hum calor forte, o ar
que tiver dentro entrando a dila-
tar-fe , ea occupar maior efpaço,
precifamente ha de o valo reben-
tar. Ito he o que devia fucceder,
fegun-
De.drchitehuira Civil. 384
feguhdo a regra da dilataçaô ; ce
expanfibilidade do ar. Porém naô
fuccede aflim ; porque, ainda que o
calor feja adminiftrado muito for-
te , nem por iflo o valo fe deípe-
daça , antes fica fempre illefo, e
fem mudança. A razaô, porque
aflim fuccede, depende de mais lar-
ga difcuílao : eu indiquei o fa£to,
outros difcorreráô Ífobreva canfa
delle. .;
- Naô fó provém Penis
fingulares «das circulaçoens artifi-
ciaes , mas parece que o mundo
todo he huma circulaçad perpetua,
e natural. No corpo dos animaes
faô infinitas as circulaçoens ; por-
que naô fó he o fangue o que cir-
cula , mas todos os mais humores
circulaô de algum modo , ainda
que naô tanto fenfivelmente , nem
com tanta regularidade, O repoulo
Part. II Bb total
386 Index do Problema
total de qualquer liquido induz a
corrupçaô , ou mais , ou menos
prompta ; porque o liquido que
naô f2 move perde os:feus efpiri-
tos moventes , e progreflivamente
degenera em humor inerte , con-
creto , e muitas vezes purulento,
Na meíma fubftancia interna, e fo-
lida dos oflos, fe dá huma verda-
deira , e regular circulaçaô , por
meio da qual a unétuofidade pro-
pria difcorre pela cavidade oflofa,
e vat communicando aos mefmos
oílos huma efpecie de alimento ef-
pirituofo , de que depende a dure-
za, e confiftencia delles; e quan-
do lhes falta , ou fe acha perturba-
da aquella nutriçaô ; logo fe fegue
a debilidade, ou fragilidade aquele
les folidos principaes.
E com efeito fe por meio do
fogo privarmos totalmente hum of«
“ “Jo
De drcbiteturaCivil. 387
fo da unétuofidade , que tem co-
mo ligadas, e juntas as Íuas partes,
o oflo fica brevemente reduzido em
pó. Da meíma forte fica fraétivel
á maneira de hum corpo cafeofo ;
todo , e qualquer oflo na machina
Papiniana (aflim chamada do nome
do feu Author) naõ obitante o nad
ter o oflo naquelia machina hum fo-
go immediato, mas feparado del-
le, porque a fua acçaô he dirigi-
da contra o bronzeide que a mef-
ma machina fe fórma. Até nas plan-
tas fe dá circulaçaõ ; porque em
cada huma dellas, por mais minima
que feja , circula o liquido vegetal;
e tanto, que nas partes em que ef-
tá retardada » ou embaraçada a cir-
culaçaô , logo as mefmas partes
feccaô , ficando fem vigor » € CO-
mo mortas. Porque. razaô no'fim
do Outono commumente as folhas
Bbi de
388 Index do Problema
de quafi todas as arvores fe feccaô,
ficando ellas como'em pafmo , ou
lethargo? A caufa he, porque en-
taô.o frio entorpece o liquido ve-
getante, e faz que fique como dor-
mente, e fem acçaô; porém aílim
que a Atmofphera entra a recobrar
algum calor, os efpiritos vegetaes
fe animaô , e começaô novamen-
te a circular. Algumas plantas, ou
arvores refiftem ao rigor do Inver-
no ; porque fendo rezinofas , e
oleofas, efta-circunítancia as defen-
de mais, e faz com que na efta-
çaô do frio fe confervem frondo(as,
mas naó frutuofas.
E finalmente o mundo he hum
valo circulatório; e elle mefmo cir-
cula incellantemente. Os planetas
giraô circulando; e o Firmamento,
que fe move , infunde hum movi-
mento perpetuo a todos os orbes
celef-
De Architebtura Civil. 389
celeftes.: A vida eftá na agitaçaô
dos corpos , e a morte no defcan-
ço. He hum corpo morto todo
aquelle, em cuja fabrica interior naô
ha trabalho ; efte naô o fente, nem
ainda quem o tem : a circulaçaõ' do
fangue , e dos humores animaes ;
fó fe percebem quando elles fe naô
movem ; porque entaô a dor, que fe
fegue logo , fenfivelmente nos ad-
verte de.que o fangue naô circu-
la, ou circula mal.
“= Vitriolo. He ao que chama-
mos commumente caparro(fa ; a qual
naô he mais do que huma diflolu-
çaô fubterranea do ferro, ou co-
bre, feita no acido Íulphureo :
aquella natural compofiçaô , ou dif-
foluçaô , a arte a faz perfeitamen-
te, emais brevemente a natureza
a faz na terra; porém mais de pref-
fa a arte, He hum corpo; de que re-
fultad
390 Index do Problêma
fultaô effeitos admiraveis ; e bafta
que mereceíle que o illuftre Ca-
valleiro de Bethune trabalhaffe
nelle fincoenta annos Íucçellivos:
naô fei fe publicou as fuas obfer-
vaçoens ; eítas continhaô phenó-
menos rarifimos fobre aquelle mi-
neral.
Volatil. Volatil fe diz daquel-
le corpo, que expofto ao fogo fe
exhala ou inteiramente , ou par-
cialmente , fegundo o grao de vo-
latilidade , que he propria a cada
hum ; porque os corpos naô faô
volateis igualmente ; e huns para
ferem volatilizados neceflitad maior
calor; e outros menor ; e alguns
ha que fe volatilizaô pelo ca-
lor remiffo de huma atmofphera
temperada ; e outros ha, que ain-
da na eftaçaô fria fe diipaõ , ef-
tando em vaíos deícobertos. O no-
bre
De Arcbiteélura Civil. 391
4
bre Roberto Boile tratou efta
materia admiravelmente; e o que
elle naô defcobrio , ninguem tem
deícoberto ainda,
FIM.